Aviso Aos Passageiros

todos os dias
milhares de pessoas
sobem e descem na vida
em grandes cidades
usam elevadores para se deslocarem
para cima e para baixo
na vida nos andares
sem andarem
parados pensativos
presos
mas sempre há o perigo de as cabines
não estarem no andar
em que (deveriam) parar
é raro que aconteça
as pessoas confiam
e sequer olham
para baixo
dentro do elevador opressão
nos olhamos mas não nos vemos
observam os circundantes
avaliam cada história
não se conhecem pelos espelhos
eu tinha certo receio de embarcar
em elevadores
me sentia oprimido
desvendado em minhas faltas
quando cheio evitava olhar as pessoas
as atravessava com a minha visão
como se não existissem
quanto mais gente mais só
eu me sentia
nunca viveria em sã consciência
num prédio de apartamentos
com pessoas pisando
por sobre a minha cabeça
o que eu acho mais claro e até estimulante
é de que somos todos passageiros…

Columbas livias de Sant’Anna

Columbas

Sant’Anna fervilhava em plena hora do almoço com o vai-e-vem dos passantes e passageiros – somos todos passantes e passageiros. As pombas, já satisfeitas com a abundante alimentação proporcionada por aqueles outros seres que jogam restos de comidas nas calçadas e áreas de uso comum do terminal do Metrô, estavam reunidas em uma alegre confabulação em um ponto determinado do jardim. Ou simulacro de jardim, já que se apresentava pelado de grama devido às pisadas de homens e mulheres que dividem a praça com elas vivendo igualmente do lixo humano.

Chamou-me a atenção o comportamento daquele grupo específico de Columbas livias, já que se assentavam como galinhas poedeiras, calmas e descontraídas, em substituição á postura normalmente atenta e desconfiada. Realmente, pareciam prosear sobre o dia, as aventuras, os achados alimentares ou sobre a chuva que sabiam que cairia mais à tarde. Não creio que os homens ocupassem tanto o tempo da pauta. Talvez apenas não entendessem tanta faina daqueles estranhos seres que, presos ao chão, se deslocavam incessantemente em busca de seu próprio sustento.

As pombas desconheciam que o que aqueles bípedes sem plumas secretamente mais desejavam era o que de mais simples realizavam e que, naquele momento, desdenhavam: voar como elas…