O Outono é a estação ideal para quem quer ver entardeceres deslumbrantes. A inclinação e o posicionamento do Sol no horizonte evidencia formatos inusitados de grandes e pequenas nuvens banhadas de luz dourada. Aqui na Periferia da ZN, ainda de horizontes não ocupados por edifícios residenciais, são os morros que terminam por delinear a paisagem. Por enquanto…
A Paulista entre as nuvens… Ao inaugurar os tempos outonais, as tardes caem como folhas das árvores que desmaiam suas verduras para revigorar suas energias. No entanto, a avenida no alto da cidade nunca perde o seu vigor – tardes, noites e manhãs…
Foto resgatada de um velho celular, sem muita resolução, de 2007. Amanhecer visto da Ponte da Freguesia do Ó sobre o Rio Tietê, quando voltava para a casa, depois de um evento. Passados quinze anos, entre altos e baixos – dias seguidos sem parar e os recessos causados pela Pandemia – este Outono é definidor para saber como caminharemos para novas Primaveras. Sei que teremos cada vez menos pela frente…
David Bowie surgiu como tema da mudança da minha foto de perfil porque acho que a sua atuação como figura icônica ajuda a entender como observo essa questão da imagem. Quando garoto, gostava de deixar o cabelo crescer e “ele” decidir a maneira que se desenvolveria. Uma determinada ocasião, fascinado pelo movimento Black Power e a música Black, endureci o meu cabelo com o uso de sabão de coco e passei a usar garfo para penteá-lo. Tempos depois, coloquei brincos, um cada orelha (para desespero de meu pai que achou que pelo uso de um pequeno artefato eu fosse Gay). Mais tarde, tingi o cabelo de amarelo. Por um período, fui chamado de Xuxa no futebol, de Pepeu Gomes por Wilson Simonal num trabalho e, com o ganho de músculos na academia, até de He-Man na rua. Hoje, (bem) mais velho e calvo, é a barba que uso para mudar “la facciata”. Por agora, a retirei. A única mensagem que desejo passar é o de não ser definido pela imagem momentânea. Todos nós somos mais do que estamos fisicamente, apesar da maior parte das impressões que passamos socialmente se darem pela aparência.
Conheci David Bowie através de videoclipes esparsos em programas pioneiros da TV2 Cultura, antes do surgimento da MTV. As músicas não eram tão “fáceis” quanto as mais tocadas, mas me chamavam a atenção. Inicialmente, pelas letras que assimilava aqui e ali nas poucas palavras que pescava em inglês. Porém, o visual Glam foi decisivo para que me me atraísse ao se mostrar ao público para além dos limites de gêneros. Vivia (como vivo) na Periferia e a linguagem estética do Camaleão do Rock me alcançou fortemente. Eu tinha uma feição androginóide, a ponto de causar estranhamento a quem não me conhecesse. A minha postura não era intencional, mas também não fazia questão de desfazer dúvidas que surgissem. O que eu percebi é que era atraente para várias meninas, se bem que nenhum relacionamento foi além da amizade, apesar de me enamorar secretamente por uma ou outra. Cada vez mais tímido, as garotas eram ideais apenas como inspiração de contos e versos de amor. Triste, não?
Na época, entre 13 e 14 anos, eu era um sujeito que estava entre a natural mutação física da adolescência e uma profunda transformação na concepção de mundo. Enquanto jogar futebol se tornava uma paixão cada vez maior, apesar da progressiva miopia, escrever concorria para se tornar uma dependência. A minha percepção se ampliava em múltiplas conexões para outras expressões – artes plásticas, cinema, teatro, dança, música… – e o futebol ocupava esse espaço das artes, além de vôlei, basquete e outros esportes. Chegava a faltar nas aulas para assistir Copas do Mundo e Olimpíadas. Na minha avaliação, uma partida de futebol era como se fosse a apresentação de uma ópera. Não conhecia ainda as histórias futebolísticas de Nelson Rodrigues que conseguiu aliar de forma magistral a arte cinética da bola a de crônicas eternizadas pela escrita.
Os clipes musicais nos Anos 70 começaram a se tornar cada vez mais elaborados para além das apresentações de artistas ao público até se transformarem em pequenas obras multi-estéticas. As de Bowie ao vivo eram energéticas, expressivas, com roupagem inventiva e, ele mesmo, se mostrava como uma persona teatral-kabuki-bufão-psicodélica-assexuada imponente. Ziggy Stardust / Starman presentes diante de todos, para quem quisesse ver e ouvir.
Quando o mundo começava a se acostumar com a estranheza performática, o inglês buscava novas facetas e personas, linguagens renovadas e repertórios com experimentações sonoras, com diferentes apresentações visuais. Eu, em constante mudança estética-comportamental, me identifiquei com o artista inquieto até na heterocromia, como a que tenho, mas não tão distinta quanto a dele.
Quando assisti “O Homem Que Caiu Na Terra”, a personagem extraterrena se adequou como ninguém ao humano que parecia um ser acima dos parâmetros pequenos com os quais as pessoas de senso comum costumam ordenar como normal. O meu sentimento de inadequação ao mundo encontrou em David Bowie uma versão expressiva. Mudar de visual é somente uma pequena homenagem que presto a ele. De fato, ao longo da minha vida, “vesti” várias identidades – fui cabeludo, gordo, magro demais, raspei a cabeça, deixei a barba crescer, a retirei, perdi o cabelo – e, por um tempo, fui o senhor que colocava a camisa para dentro da calça. Fiz um curso de Educação Física no limite dos 50 anos. Voltei a andar despojadamente como na faze Punk, mas não tão radicalmente quanto na época do movimento no final da década de 70, ao qual Bowie antecipou com Diamond Dogs, álbum de 1974.
Antes de Aceitar a minha identidade de escritor mais recentemente, há menos de dez anos, passei por dois episódios significativos. Sempre fui mais cheinho e quando emagreci dramaticamente na fase vegetariana de 10 anos, desenvolvi um processo de distorção de imagem. Não me via tão magro, mas quando a balança indicou 57Kg, comecei a mudar a minha dieta. Quando tive a crise hiperglicêmica, por mais ou menos um ano não me reconhecia ao espelho. Cheguei a evitá-lo por um bom tempo e me surpreendi com o sujeito que estava do outro lado quando me via.
Como escritor, crio histórias e posso ser quem eu quiser ou transferir para outras personagens ações que não cometeria, além de outras que gostaria de cometer. Aos 60 anos de existência pós-uterina, sinto-me em constante inquietação e com projetos pessoais que passam por caminhos místicos e materiais. Um tanto deslocado, eu me sinto como se fosse um ET que caiu na Terra e o que me resta é aprender a viver entre os seres humanos até o último dos dias com saudade do meu planeta destruído e do meu amor perdido…
Não deveria ser necessário um dia especial para comemorar a existência da mulher. Por ser um homem que as ama, eu as valorizo todos os dias. Alguma mulher poderia perguntar que tipo de mulher eu amaria. Com toda a razão, aliás. Há homens que “preferem” amar mulheres que se atenham a se apresentarem como objetos sexuais ou que se restrinjam a tarefas específicas, normalmente ligadas a funções de menor alcance social, ainda que fundamentais.
Eles não admitem contestação ou qualquer sinal de maior capacidade mental e, muito menos, física – espaço em que tenta mostrar maior predomínio – como se merecesse distinção por ser o caçador dos primeiros grupamentos humanos. De fato, quando encontra uma possível companheira que alia atrativos físicos a identificação aos papéis designados pelo Patriarcado, sacramenta a união.
Eu sou fascinado pelas mulheres em toda a complexidade e atributos. Torço por aquelas que ainda não descobriram o poder que carregam. Admiro àquelas que buscam alcançar a plenitude propalada pelo movimento feminista. Mesmo as que originalmente tenham nascido no gênero masculino e se sentem femininas. Acredito que possam encontrar as suas identidades como mulheres, para além de efeitos hormonais.
Ainda garoto, buscava respeitar as meninas e as irmãs. As minas e as manas – as próximas e as distantes – eram, acima de tudo, motivo de admiração e fascínio. Com a minha irmã parental, tinha altercações motivadas por nossas personalidades impositivas. Típicas entre irmãos que competem entre si por atenção ou espaço. Mas nunca deixei de reconhecer a sua força e importância. Atualmente, temos uma relação estável em que o convívio é mais harmonioso, dentro do que seja possível entre um libriano e uma capricorniana.
Depois de me abster da vida social até quase os vinte e cinco anos, para além do estudantil e profissional, comecei a pensar que pudesse enfim me envolver romanticamente com a contraparte da espécie. Foi um processo penoso, já que não é nada confortável estar diante de pessoa uma autônoma, de vivência díspar, vontade e desejos divergentes e, ainda assim encontrar mais similaridades do que incongruências, para seguir no caminho da construção de uma família.
E assim, no encontro com a Tânia, surgiu o meu grupo mais íntimo, formado por nós dois e as três meninas. Antes, apenas filhas, essas minas são também manas, já que adultas, passamos a conversar de igual para igual sobre os assuntos mais prementes da Sociedade – da eleição do Ignominioso Miliciano à Guerra da Ucrânia, dos refugiados da cotidiana guerra invisível em nosso próprio País à afirmação libertária da mulher diante do Patriarcado.
A base da qual eu venho é de uma relação abusiva de minha mãe por meu pai. Ausente muitas vezes, quando voltava para casa, a saudade e o respeito terminavam gradativamente feridos, sendo substituídos pelo medo. Eu o tenho como um exemplo a não ser seguido. Todo o desprezo que tentou incutir em mim pelas mulheres (assim, no coletivo, para despersonalizá-las), foi barrado pela energia descomunal de minha mãe, Dona Madalena, que nos criou praticamente só, realizando todos os tipos de trabalhos para nos manter saudáveis e aptos, pelo estudo, a nos tornarmos cidadãos plenos. Nela, encontrei o resumo de tudo o que uma mulher consegue realizar, apesar da pobreza material, habitantes da Periferia paulistana. Nós nos tornamos – seus três filhos – pessoas de bem.
A FamíliaOrtega, do pai ausente, no Natal de 2002, de mesa farta como gostava, Dona Madalena e seus três filhos: Humberto, eu e Marisol.
A primogênita, Romy. De personalidade esfuziante, apesar de todas as tribulações que vive pela saúde instável, resta dizer que é de Leão, ou seja, o Sol nasce quando ela chega.Trabalha numa área de atuação semelhante à minha. Por mais que eu objetasse, nunca interferi nos projetos das minhas filhas, principalmente se as fizessem felizes.
A moça da foto, Ingrid, nasceu sob os eflúvios de Aquário. Dizia, quando era criança, que seria advogada. Hoje, a mulher pequena no tamanho, desenvolveum grandioso projeto de auxílio à pessoas desprovidas de recursos para se defenderem da injustiça institucional por raça ou classe social.
Lívia, a mais nova, administradora, de personalidade forte e aguerrida como as outras, a escorpiana de mão cheia, ainda está tentando encontrar o equilíbrio que os números pretendem representar. Com o tempo, perceberá que a vida sempre apresentará saldos positivos, apesar do quadro das entradas e saídas apresentarem déficits financeiros.
Tenho certeza que é pelo amor que a sagitariana Tânia tem espalhado pelo mundo ao cuidar, como Enfermeira, daqueles que sofrem, curando ou minimamente aliviando suas dores, que terá o seu nome reconhecido. Pelo amor dos nossos amigos cachorros que receberam abrigo, alimento e carinho em sua casa. Alguns que depois foram para outros lares e os que estão conosco, dos quais receberá lambidas eternas em seu coração. Pelas plantas que produzem flores, frutos, visitantes alados e perfume. Pelo amor que devotou a quem está próximo, tão próximos que já não sabem viver sem ela em suas vidas.
O “The Voice Brasil” poderia ser traduzido por algo como “A Voz do Brasil“. No entanto, já temos uma “Voz do Brasil“, que é o programa imposto desde a Era Vargas para a radiodifusão em todas as emissoras do País. O programa pretende fazer a divulgação do “trabalho intenso” de nossos preclaros representantes, que consiste, basicamente, em dizer amém aos desígnios do Executivo.
Desde os tempos de Flávio Cavalcante, Bolinha, Sílvio Santos e Chacrinha, gosto de programas de calouros. Trabalho preponderantemente com música e com músicos e admiro o trabalho de cantores. Cantar (bem), além de talento (que é a chama inicial), requer disciplina e estudo. Homenageio quem põe a cara para bater diante de poucos ou de milhões de espectadores. Por isso, sempre que posso, como hoje, procuro ver os meus amigos profissionais atuando para o grande público. Há quatro dias, foi Dia do Músico e sequer tive tempo de homenageá-los.
Mas, nem tudo é perfeito. Logo que começou o programa de ontem a noite, perdi a possibilidade de ouvir convenientemente a primeira e a segunda atração, porque um carro se posicionou em minha rua jorrando, em volume estrondoso, a voz do morro — “funksproibidões“. Para os fãs de James Brown, como eu, a palavra “funk” não cabe na definição dessa expressão da “cultura popular”, mas se apropriaram dela.
Sei que essas aberrações berradas estão, tanto quanto as organizações das drogas que as patrocinam, tomando conta das periferias das grandes cidades e, portanto, não vejo porque não denominá-las como exemplos da verdadeira voz do Brasil, tão perniciosa quanto a outra, oficial e oficiosa.
Eu sou aquele que, queimado do sol de praia, sem pelos no corpo, virgem de corpo e alma, expõe a olhos nus sua ascendência indígena, com muito orgulho. Devia estar bêbado. Estava, de fato! Um dos poucos porres que tomei na vida.
Comigo na foto, em sentido horário, segundo a descrição da Tati: Yaimi, dois amiguinhos da Denisete, Soninha, Nadja, outro amigo da Denisete, Maria Inês, eu, Bahiano, Sérgio Taira. A maioria desses personagens se perderam em significado pessoal em minha memória randômica. Com certeza, comparecem em sonhos em que convivo com supostos desconhecidos.
Quem me enviou a foto, Tatiana Zimmermann, irmã da Tamara, era minha colega de classe. Sua família me recebeu muito bem e o garoto da Periferia começou a se sentir mais solto em um meio que não estava acostumado.
Sei quantificar e lembro de todas as ocasiões em que bebi e perdi controle mecânico sobre o meu corpo… Declaração estranha para quem alega ter lembranças esparsas sobre várias passagens da vida. Fiquei de porre exatamente três vezes. Em todas as ocasiões — pelo mesmo motivo — queria me libertar dos grilhões de minha timidez em relação às mulheres.
Na primeira vez, aos 15, uma linda moça queria ficar comigo. Estando sóbrio, eu só conseguia olhá-la sem conseguir articular uma sentença compreensível sequer. Bem, é dessa maneira que me lembro. Comecei a beber um garrafão de Sangue de Boi e só terminei quando o sequei. A consequência foi que mal conseguia andar. As últimas imagens que guardo é da moça falando comigo até eu adormecer na rede debaixo do abacateiro. Quando fui até a minha cama, senti o mundo girar em velocidade cada vez maior e apagar.
Na segunda e terceira vez ocorreram em festinhas na casa da Tati e Tamara. Uma outra bela moça, queria ficar comigo. Perguntei porque, já que a havia visto beijando outro rapaz. Respondeu que “não eram os seus braços, não era a sua boca”. Gostei do que disse (ou apenas estivesse desejoso), mas continuava preso. Comecei a fazer todas as misturas que se tem direito — vinhos, destilados e batidas. Iniciado o efeito desejado, cheguei a dançar agarradinho, a acompanhei por corredores em busca de um lugar para ficarmos mais à vontade e, sem sucesso, as últimas lembranças que tenho foram a de cair sobre ela. Carregado para o quarto, senti a minha camisa sendo retirada e ouvir uma última frase: “Nossa, parece o Tarzã!”.
Na terceira vez, sei que bebi muito — provavelmente o da ocasião dessa foto — e acordar (pleonasmo corretíssimo) “soltando os bofes para fora!” Passei dois anos sem poder sentir cheiro de álcool sem ficar enjoado e de estômago revirado. O que ajudou bastante a me afastar da bebida, além da ojeriza inicial à bebedeiras e bêbados que desenvolvi devido aos episódios de porre de frequentadores vivenciados no bar de minha mãe, onde trabalhei na adolescência.
Quanto ao “virgem” do título, apenas anos depois desse episódio deixei de sê-lo. Acabei casando com a moça que cometeu a proeza de me retirar do caminho do celibato.