BEDA / Amor Próprio

Ouvi uma canção em que o refrão o cantor expressa: “Eu gosto mais de você do que de mim”. Às vezes, eu entro nessa seara de analisar frases soltas, situações que se desenvolvem diante de mim como se tentasse entender como funcionam as relações humanas. Eu fiquei afastado voluntariamente das pessoas durante alguns anos. Favoreceu esse comportamento por causa de circunstâncias em que passei temporadas sozinho em casa na adolescência porque a minha mãe estava cuidando da madrasta do meu pai e após o seu falecimento, meus irmãos foram morar com ela na casa distante 2Km de onde vivia. Durante esse período mergulhei fundo nas filosofias orientais e desenvolvi alguns sintomas que se assemelharam à síndrome do pânico. A minha timidez ficou mais profunda e foi com muito esforço que consegui sair desse processo penoso isolacionista.

Nessa época, fui desenvolvendo uma autocrítica em que só via defeitos em minha personalidade. Afora um sentimento de inadequação que me impediria de que eu viesse um dia a ter algum relacionamento amoroso. Cheguei a flertar com a vida monástica, ainda que não fosse católico. Mas era cristão e franciscano, desejei ser frei. Acabei por começar a acalentar a ideia de me jogar na vida através do encontro com uma mulher. Com ela, formei uma família e fico feliz por amá-la como algo que apesar de ter nascido de mim, é bem melhor do que eu poderia desejar. Mas o meu amor próprio ainda enfrenta percalços se bem que defenda os meus defeitos com bravura de quem precisa deles para se reconhecer. Nesse caso, minha autoestima considero um tanto precária e percebo que gosto mais das minhas meninas do que eu de mim.

Mas sei que se eu não me dedicar à minha melhora como pessoa, não conseguirei ser amoroso comigo mesmo o suficiente para que o meu amor pelos outros seja valorizado. Amar é uma dádiva tanto para quem ama como para quem recebe esse amor. E deve ser cultivado para que floresça tanta interna com externamente, não importando as variações quanto a questão de gêneros.

Foto por Katerina Holmes em Pexels.com

02 / 09 / 2025 / Dia Nacional Da Kombi

Durante muitos anos usamos Kombis como meio de transporte dos nossos equipamentos de som e luz. Meu irmão e eu nos afeiçoamos a elas, apesar de sua difícil dirigibilidade. Esta, na imagem acima, é a Tigresa, mas já tivemos a Gertrudes, a Bailarina, a Tímida… nomes gerados por algum detalhe ou outro como a placa, o “jeito” ou o “comportamento” da Kombi. Sim, porque de certa maneira, elas tinham “personalidades” diferentes. Parece algo meio fantasioso, mas apenas quem teve uma Kombi, sabe do que estou falando. Enfim, esse modelo de veículo participou da vida do brasileiro de tal maneira que quem conviveu com ela, ficou marcado por sua existência e convivência atribulada, mas sempre saudosa. Identificada com a capacidade de sobreviver ao tempo com resistência e denodo, a data de hoje se refere ao primeiro dia de sua fabricação em 1957, na Fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo-SP.

Seis Anos De Bethânia

Em 17 de Maio de 2016, escrevi: “Pois, é!… Aconteceu de novo… A Tânia e a Romy se compadeceram de uma doidinha de saudade perdida na região… Uma pediu, a outra a resgatou… Agora, Bethânia parou de chorar, sentada em meu colo… A academia adiada, enquanto descansa de seu sofrimento a nova fêmea da família, pelo menos por um tempo…”.

Hoje, a Bethânia cresceu, mas nem tanto. Gosta de agir como se fosse uma gata e, apesar de suas perninhas curtas, salta a mais de um metro de altura, subindo em muretas, telhados, pias e, eventualmente, em mesas. Destruiu praticamente sozinha um conjunto de sofás e vez ou outra acusa travesseiros e almofadas de atacá-la, os rasgando. Sofre bastante com o frio, odeia roupinhas e prefere ficar debaixo das cobertas nas camas que a aceitar. Quando a Romy foi resgatá-la perguntou para uma senhora que estava próxima se era dela. A resposta que ouviu foi: “ninguém quer isso daí, não!”.

Nós quisemos “isso daí”, bicho ciumento que ganhou um capítulo no meu primeiro livro pela Scenarium Livros ArtesanaisREALidade – por essa característica. Teimosa, late sem parar normalmente quando a Lívia está em reunião no Home Office. Complexa,  é difícil explicar a personalidade forte dessa “pessoa”…

BEDA / Diálogo Com Um Sujeito Desconhecido

Houve um tempo, no início de minha jornada como escritor, que escrever era apenas uma maneira de dialogar comigo mesmo. Os meus textos, não os mostrava a ninguém. Exceto ao meu irmão menor, logo no início, que versava sobre o fantástico. E quando era convocado pelos professores a fazer redações sobre assuntos que nem passavam perto da minha vida cotidiana – as férias escolares com viagens feitas; os filmes assistidos no cinema; peças de teatro vistos; parques de diversões frequentados. Nada disso pertencia à minha realidade. Ou melhor, era algo raro, mas que acontecia em momentos que não coincidiam com as férias. Eram fugas do cotidiano normal realizadas em finais de semana. Na maior parte do tempo realizava incursões para dentro de mim. Por lá-aqui conversava com um sujeito desconhecido que poderia ser eu mesmo ou parecido comigo. Que se distanciava dos temas que relatariam excursões externas. Desconfortável, nem sei se cheguei a inventar histórias que nunca ocorreram. É possível, a minha imaginação sempre foi fértil e as notas que tirava eram boas.

Não deixei de ir à praia de vez em quando. De me deslocar para cidades próximas ou um pouco mais distantes onde moravam parentes, já que a minha mãe era ciosa de manter contato com a grande família dos irmãos de oito filhos dos Nuñez Y Nuñez. Mas o “melhor” da viagem era o próprio translado, geralmente por trens desconfortáveis, lotados ou ônibus que normalmente me enjoavam. Os vômitos faziam parte da rotina. Chegado aos destinos, eu me separava dos grupos, mal conversava com os primos, preferia ir jogar bola ou fazer incursões pelo mato. Não que não gostasse das pessoas. Eu sempre me senti muito bem em estar com todos, muito porque respeitavam a minha postura tímida. No máximo, brincavam com essa característica que me emprestava um certo charme. No fundo, sentia pavor em me envolver afetivamente com parentes que pouco veria. Uma bobagem de alguém com sérios problemas de adaptação às regras de relacionamento. Nunca fui bom nisso.

Os diálogos com o sujeito desconhecido fizeram com que aos poucos aprendesse a reconhecê-lo como autônomo de minha personalidade ou, por outra, como um apêndice da pessoalidade original de meu ego. Parece confuso, porque é.  Ainda que seja falso, me acostumei com a dinâmica que me impulsiona a elaborar textos que hoje busca identificação externa. Não produzo textos apenas para a minha satisfação pessoal – que é muito importante –, mas para criar situações que sejam assimiladas por outras pessoas tenham identificação. As sagas das vidas “criadas” por mim as baseio em minha vivência íntima, referências externas captadas ao sabor dos ventos virtuais e situações que as próprias personagens desenvolvem entre si. O que parece ser estranho, mas acontece frequentemente.

A travessia entre o autor ensimesmado e este outro que quer se comunicar com quem o lê não é fácil. Ser lido é ainda algo de incontrolável mensuração. Não quer dizer que ainda que os olhos que percorram as frases, sentenças, parágrafos que escrevo signifique que o texto tenha sido lido da maneira que gostaria. Muito por incapacidade pessoal em se fazer “ouvir” e ser entendido, as minhas criações talvez não repercutam no leitor de forma nenhuma. Ou, por outro lado, não é incomum que o que escrevemos mostre algo além do que propusemos mostrar. É a magia da arte, ainda que involuntária. Arranjar espaço na minha agenda para realizar a simples tarefa de escrever tem sido o principal empecilho, ao qual luto para superar. As madrugadas que o digam, pelas quais transito entre a satisfação e a dependência dolorosa em escrever…

Participam: Danielle SV / Suzana Martins / Lucas Armelin / Mariana Gouveia / Roseli Peixoto / Lunna Guedes / Alê Helga / Dose de Poesia / Claudia Leonardi

Kombis Ou Pães De Forma

“Eu e a outra em minha vida — a velha Matilde que nos trouxe até o alto da Aldeia da Serra, em evento da Ortega Luz & Som“: foi a legenda que coloquei para identificar esta imagem, de 2013. Kombis tem tido uma participação importante durante toda a minha vida. Produzida de 1950 até 2013, muitas delas continuam circulando por aí. Meu irmão e eu temos duas, utilizadas em nossas atividades profissionais — a feia Tímida e a linda Tigresa.

Quem conhece esta última não deixa de admirar a sua elegância felina. Sim, essas carrocerias parecem todas iguais, mas a depender do ano de fabricação, conservação e “personalidade”, são diferentes. As denominações em outros países se diferenciam igualmente. São conhecidas como Hippie Bus, Hippie Van, Volkswagen Bus, Volkswagen Campmobile, Volkswagen Microbus, Volkswagen Samba, Volkswagen Transporter, Volkswagen Westfalia e Volkswagen Pão de Forma, em Portugal, o meu preferido. Justamente porque a Kombi está diretamente ligada ao meu ganha-pão.

Quando garoto, foi a Gertrudes (a qual em empurrei muito) que papai dirigia que carregava os recicláveis que coletávamos nas ruas. O Sr. Ortega preferia se deslocar para os bairros mais sofisticados porque o lixo era bem melhor em variedade e quantidade. Foi lá que angariei uma parte de minha biblioteca, além de vinis, revistas raras, álbuns de figurinhas e brinquedos. Mas eram os livros que me faziam “perder tempo” quando separava o que seria vendido ou não. O prejuízo não foi pouco. Aprendi a valorizar aqueles objetos com capas duras (ou nem tanto), títulos e páginas como se fossem seres vivos. Mesmo rasurados, os preservava da aniquilação.

Na Ortega Luz & Som, depois de anos utilizando a locação de transporte alheio — normalmente caminhões — para o deslocamento de nosso equipamento, compramos a nossa primeira Kombi — Bailarina. Peruas (outro nome pela qual é conhecida no Brasil) tem a tendência de apresentarem folga na direção. Quem não consegue “pegar a manha” em sua condução, pode até bater. E a Bailarina fazia jus ao nome. Inquieta, apenas o Humberto conseguia manobrá-la. Matilde, a da foto, chegou depois de cinco anos e ficou conosco outros cinco.

Com a chegada da Tigresa, após breve convivência das duas, ficamos apenas com a última. Porém, como fomos multados por ser de passageiros, imprópria para transporte de equipamentos, adquirimos a Tímida, que como o nome indica, além de fechada (furgão), demorou a engrenar em nosso relacionamento mecânico-pessoal. Porque, da mesma forma que nos devolve em eficiência e praticidade, também pode dar dor de cabeça quando enguiça. Ao mesmo tempo, suas peças são facilmente encontradas (a depender da idade) e não são complicadas de serem consertadas.

Para mim, a personalidade da Kombi é feminina — robusta, confiável, corajosa e, quando preciso, impetuosa. Mesmo quando está mecanicamente no limite, sempre entrega o serviço. Apenas uma vez, chegou e saiu do local do evento em cima de um guincho. A exceção que confirmou a regra. Tudo isso, vivencio e continuo a vivenciar sendo passageiro. Não dirijo. Creio que não tenha a habilidade para tal, como a maioria das pessoas pareça acreditar ter. Do alto de uma Kombi, vejo as barbaridades que os motoristas, na condução de suas extensões existências em forma de motor e cheiro de combustível, cometem. Por enquanto, conseguimos chegar e voltar a bordo de nosso veículo preferido. E não vejo (ou não quero ver) o prazo final para que esse relacionamento venha a terminar.