Síndrome Do Ancinho*

Vivemos, no Brasil, o que chamo de “Síndrome do Ancinho“. E o que viria a ser isso, exatamente? Bem, começo explicando que em casa, eu e a Tânia, queríamos aprimorar o nosso jardim e para isso pensamos em comprar um ancinho, o que nos ajudaria a preparar melhor a terra e recolher o que não gostaríamos que estivesse misturado a ela.

Quando fomos comprá-lo, encontramos dois tipos desse instrumento de jardinagem na loja de ferragens. Um, em maior quantidade, era feito de plástico. E outro, de metal, só tinha um exemplar restante. Levamos esse, por considerá-lo mais robusto e de maior utilidade para o que pretendíamos fazer. O vendedor nos disse que aquele era antigo, o último da sua linha, porque era preterido em relação ao de plástico, que tinha maior saída. Perguntei a razão e ele me disse, expressamente: “Os patrões preferem comprar os de plástico porque os de metal podem ser quebrados pelos empregados”. Ou seja, pela variedade de componentes, podem ser “desmontados” por quem queira boicotar o próprio trabalho.

Pensei comigo mesmo. Os de plástico não seriam mais frágeis? Sim, mas muito mais barato (1/3 do preço), podem ser substituídos sem grande prejuízo. Além disso, ao ser realizada muitas vezes a fraude poderia ser mais facilmente detectada.

Então, vivemos assim — usamos material de segunda, terceira, quarta, quinta qualidade porque, se fossem melhores, certamente seriam avariados por deseducação (que é a falta ou perda de educação), negligência ou mau uso proposital. Esse é o nosso mal — nós, os brasileiros, nos sabotamos — e, por assim dizer, decretamos a nossa sorte: olhar para sempre a bunda de outros povos que caminham à frente, crendo em um belo futuro (filho de nosso presente e de nosso passado) que nunca se cumprirá.

*Texto de 2013

Estátua Viva

Saio de dentro da terra à luz destes últimos dias de verão, tendo a Igreja e o Mosteiro de São Bento à frente. Caminho pelo Viaduto Santa Efigênia em direção à igreja do mesmo nome que, durante o tempo do erguimento das paredes da Catedral da Sé, se tornou o principal centro católico da cidade. Durante o trajeto, de um lado e de outro, admiro a selvageria motriz do Vale do Anhangabaú, enquanto ambulantes, músicos e outros artistas da sobrevivência brincam de esconde-esconde com a chuva e o sol sobre o piso erguido no ar.

Nas primeiras lojas da rua encontro o que necessito e retorno. Entre os itens eletrônicos, me encanto e compro um guarda-chuva-arco-íris. Porém, logo que saio da loja, o sol está à pino. O que dura dois minutos, se tanto, e meu adereço colorido se mostra útil. Na minha passagem de volta, avisto uma estátua viva quase ao mesmo tempo que volta a chover. Como a observo fixamente, ela deve imaginar que faria alguma contribuição e aguenta os pesados pingos. Passo direto. A chuva aumenta. Arrependido, olho para trás e vejo a estátua se cobrir com uma capa plástica, enquanto estou protegido por meu arco-íris particular.

Passo rapidamente pela 25 de Março, compro o que desejo e faço uma incursão pelas ruas em torno da região da Sé. Busco o passado presente em pedra – formas em paredes, portas e janelas, gente e estátuas “reais”. Um contrassenso em si, já que estar vivo em carne e osso é algo tão real quanto estar vivo na eternidade em bronze, como José de Anchieta, na Praça da Sé. Muitos transeuntes caminham alheios a um dos fundadores de São Paulo. Em contraponto, um contingente grande de pessoas permanece imóvel, sentadas ou em pé, como se fossem comentários ao monumento onde se faz alusão ao seu trabalho de evangelizador. “Apóstolo do Brasil”, o jesuíta fez, de consciência limpa, o que considerava correto – catequizar os gentios da terra. Ainda assim, teria feito a coisa certa ao tentar incutir sua fé baseada na culpa e no arrependimento do pecado original em pessoas livres desses grilhões?

Caminho entre ruas de passos antigos enquanto novos seres repassam velhas angústias. Ainda assim, vejo a cidade sorrir na boca de jovens esperançosos de sonhos imediatos que não se cumprirão. Na parte final de minha caminhada, passo pelo Largo de São Francisco, onde décadas antes cortejei a vida franciscana com o uso do hábito. Mesmo sem ele, ainda tento me orientar pela palavra do Homem de Assis. Atravesso o Viaduto do Chá em direção à Praça Ramos, do belo Teatro Municipal – mais uma travessia sobre o vale do canalizado “anhanga-ba-y” – rio dos malefícios do diabo. Os naturais da terra acreditavam que as águas do Anhangabaú provocavam doenças físicas e espirituais…

Em frente ao antigo Mappim, cachorros de moradores de rua apresentam aquela confiança de quem se sente amado, apesar do estilo de vida precário de seus cuidadores, espalhados pelo Calçadão. Encontro Lobo, um “cão coletivo”, grande, enfeitado com “chokers” e adereços no pescoço livre de amarras, doce como um cordeiro. Paro e olho em seus olhos. Deve ter identificado minha empatia. Vem em minha direção e se oferece às minhas carícias, que faço sem medo.

Afortunadamente, reencontro a estátua que se recolocou em frente da passagem subterrânea desativada ao lado do Shopping Light. Posso finalmente contribuir com a sua arte estática. Em sinal de gratidão, a estátua move o braço e indica uma caixinha com pedras sintéticas a seus pés. Apanho uma delas – sinal de gratidão. A vida se revela uma metáfora em fantasia em concreto e plástico – marca a carne viva de nossos corpos que envelhecem passo a passo na cidade que consumimos em movimento – enquanto ela nos consome engessados em nós mesmos…

BEDA | Plasticidade Ou Praticidade?

Sacolas
Sacolas, plásticas e práticas

Motivo de pequenas brigas em casa, tenho mania de guardas sacos plásticos. Na verdade, a intenção é o de utilizá-los para diversos fins. Desde de repositórios de lixos ou outros objetos, até na versão sacola, quando saio.

Obviamente, apesar de nobre função, uma sacola plástica não é um artefato glamoroso. Ao contrário. Mas é tão prática. A depender da espessura e tamanho, é resistente, adaptável e eficiente nesse mister.

Com as sacolas plásticas, porto livros, carregador de celular, blusa, lanchinhos e garrafa d’água. Ao fazer compras, sinto brilhar os meus olhos quando ganho de brinde uma nova sacola.

Percebi há algum tempo que essa mania é compartilhada por muitos… homens de meia idade (seja lá o que esse termo signifique). É comum vê-los carregar seus objetos por aí, caminhantes que adotam a praticidade como divisa de vida, acima do pressuposto status plastificado que uma bolsa de couro ou outro material exerce sobre os humanos citadinos.

Estes últimos itens não os deixo de usar, principalmente quando carrego objetos mais delicados, como o laptop, mas sempre que posso, assumo a minha particular mania de ser um homem prático em vez de plástico.

Participam:  Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari