Depois de meses, voltei a me locomover por ônibus. Readquiri a condição de voyer da vida externa para além dos muros da cidadela periférica onde vivo. Em caminhadas na minha região, ao olhar mais de perto expressões da discrepância entre riqueza e pobreza, passei a valorizar muito mais a facetas variantes desta última por suas soluções arquitetônicas criativas. Em vez de feiura, juro que cheguei a ver beleza.
Sei que, se pudessem, os moradores de residências mais simples e improvisadas, prefeririam viver em uma casa padrão, sem se socorrerem de gambiarras claudicantes. A minha admiração pela força vital que demonstram, no entanto, não deixa de se manifestar. Fico a imaginar o quanto não faríamos como Povo, se nos fosse disponibilizadas as condições básicas para que progredíssemos na caminhada para a plena cidadania.
Porém, sei que não é desejo da Dona Zelite que assim seja. O projeto desde sempre foi o de cercear o desenvolvimento de nossas capacidades, subjugar o populacho que ousa buscar ascender. É como se houvesse a crença de que a riqueza sendo “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Ou porque não se suporte a ideia de igualdade entre as gentes, pura e simplesmente.
Sem querer me alongar nessa eterna discussão, o que observei é que a Periferia se expandiu. Imagens de catadores de recicláveis e lixo, tendas de lona ou mini barracos em praças, vendedores ambulantes de panos e doces nos semáforos se multiplicaram.
Um senhor com um carrinho de supermercado, recolhia o que podia nas lixeiras feito gôndolas. Acho que buscava o que comer. Contrastava com os tênis largos em seus pés e a calça puída, o paletó antigo que vestia, surpreendentemente conservado e limpo. Talvez guardasse em seus bolsos os últimos resquícios de esperança. O seu andar era firme e digno. Eu me senti tão pobre…
No ano de 2022, a cidade de Nova Iorque conta 40 milhões de habitantes. Para alimentar as inúmeras pessoas pobres e desempregadas, existem tabletes verdes chamados de Soylent Green, produzidos inicialmente através da industrialização de algas. Somente os ricos tem acesso a comidas raras, como carnes, frutas e legumes.
Quando um rico empresário das indústrias Soylent Corporation é assassinado em seu luxuoso apartamento, o detetive policial Robert Thorn começa a investigar. Ele de imediato suspeita do guarda-costas do empresário, que alega ter saído na hora do crime. Após interrogá-lo, Thorn vai ao apartamento do empresário e encontra indícios suspeitos, como uma colher com restos do caríssimo morango. Enquanto Thorn persegue o guarda-costas, seu idoso parceiro, Sol, começa a investigar os registros e papéis do empresário morto. Acaba por descobrir uma verdade estarrecedora sobre o tal tablete verde…” (Adaptado do Wikipédia).
Garotos, eu e meu irmão assistíamos em nossa TV preto e branco a filmes de todos os tipos. Os de ficção científica eram os nossos favoritos. Pessoalmente, comecei a gostar também de assistir a filmes europeus, musicais e noirs americanos. No Mundo De 2020, eu e o Humberto vimos juntos. Foi ele que chamou a minha atenção sobre o tema similar, quando o Capitão desdenhou do Covid-19, além de realçar que 90% dos abatidos pela doença seriam cidadãos acima de 60 anos, quase como a dizer que constituíam uma população “descartável”.
O personagem de Edward G. Robinson, emblematicamente em seu último papel antes de morrer, deseja se despedir dignamente da vida e adere a um programa de incentivo a eutanásia de maneira confortável e indolor enquanto revive em imagens cenas do belo mundo natural que existia antes de se tornar quase inabitável por conta do estilo de vida humano autodestrutivo que o levou ao caos.
Fica difícil cotejar o assunto do filme com a questão de os velhos serem considerados, em conjunto, um peso morto, normalmente usuários de programas assistenciais ou aposentadorias “dispendiosas” sem dar spoiler . Não o farei. O que o Capitão vocalizou, de alguma maneira, faz parte do pensamento de muitos que o elegeram. Ainda que muitos sejam igualmente velhos, que segundo discriminou, são pessoas de 60 anos ou mais. Como o dito cujo tem 65, talvez fosse ocaso dele mesmo pensar em se despedir dignamente da função que exerce por falta de condições em conduzir a administração do País.
Na pesquisa que fiz para rememorar os dados do filme sem parecer distante da mensagem que passa, acabei por encontrar várias informações interessantes. A realidade que mostra, de certa maneira, é o padrão da vida real de boa parte da população mundial – poluição, saneamento básico precário (“acostumada a nadar no esgoto”), escassez alimentar, precariedade de moradia, violência e superpopulação. Enquanto uma outra pequena parcela usufrui de uma estrutura impensável para quem está acostumado a se equilibrar entre a vida e a morte cotidianamente.
A chegada do Covid-19 parece tema de filme distópico, atingindo a todos de forma espraiada-generalizada. Porém nos Estados Unidos ela mostra a sua faceta mais grave ao avançar sobre as populações mais pobres, mormente constituídas por hispânicos e afrodescendentes. Muitos não têm planos particulares e não podem ser atendidos como ocorre no sistema de saúde brasileiro – representado pelo SUS – apesar da precariedade por causa dos escassos recursos muitas vezes desviados ou mal utilizados.
O Mundo De 2020 chegou, em muitos dos aspectos mostrados na produção de 1973, no mundo de 2020. Quando garoto, me assustei com as possibilidades tenebrosas que demonstrariam a tendência autofágica do homem moderno. Desde cedo, percebi o quanto caminhamos, por causa do sistema hegemônico que adotamos no planeta, para um estado irreversível de pobreza material de grande parte da população e de pobreza espiritual da parte que abocanha a maior porção dos recursos da Terra. Porque uns não abririam mão do poder que detêm, enquanto despossuídos almejam alcançar o mesmo poder, “decrescer” é um objetivo inalcançável nesta geração. Tenho por mim que se não desacelerarmos conscientemente, certamente seremos forçados a parar…
Lançada em 1947, a linda canção do grande Dorival Caymmi nasceu de uma frase dita por seu filho Dori, então, novinho, quando viu o pai sair pela porta: “Estou de mal!”. O dito ficou martelando na cabeça do compositor e, ao final do dia, a canção estava pronta. Do mote inicial, construiu o sucesso reeditado por Gilberto Gil em 1979 que, inclusive, nomeou como Marina Morena a uma de suas filhas.
Apesar da beleza da melodia, a composição carrega algumas contradições em relação à visão do “politicamente correto” que frequenta nossos dias. Ainda que tenha objeção a normas que preconizam comportamentos uniformes, não posso deixar de observar preconceitos arraigados, sob aspectos aparentemente inocentes da nossa formação como Sociedade, revelados por sua letra. Ao lado da marcante e suingada interpretação de Gil, a imagem mental de um homem inconformado se impõe apenas porque a “sua” Marina pintou o rosto. Prossegue anunciando “eu já perdoei muita coisa, você não arranjava outra igual / Marina, morena, eu tô de mal…”.
Estamos falando de uma música composta há setenta anos antes, época em que a mulher era cobrada por qualquer comportamento diferente do que fosse considerado ideal – obediência e discrição. A interpretação de Caymmi dada à canção é mais contrita, demonstrando mágoa por Marina ter se pintado. Por trás do elogio – “você já é bonita com que Deus lhe deu…” – resiste implicitamente a contrariedade por ela querer chamar atenção ao se pintar. Eventualmente, deveria passar pela cabeça do homem que ele não seria suficiente para ela. Se Marina viesse a responder que se pintava para se sentir um pouco diferente ou mesmo mais bonita para ela mesma, isso não caberia em seu pensamento.
Caymmi, um dos maiores compositores da música brasileira, gostava de artes plásticas, foi pintor quando mais novo e teve contato com diversos intelectuais, artistas e escritores de meados do Século XX, como Jorge Amado. Inteligente e talentoso, ainda assim não escapou às determinismos sociais do período, em que a atuação da mulher se restringia a se casar e ser “dona de casa” como objetivo ideal. Quando canta “você sabe que quando me zango, Marina, não sei perdoar”, é mostrado um personagem irredutível em aceitar tamanha falta.
Setenta anos depois, outra Marina se coloca a frente de uma situação em que ousa ultrapassar os pressupostos estabelecidos ainda hoje em nossa sociedade. É candidata à presidência do País. Apesar de apoiá-la, antes não revelaria o meu voto nela. Mas como já declarei que não votaria em um em especial, entre todos, o que veio a gerar alguma repercussão, a favor e contra, incluindo alguns que privam do meu contato (normal, mesmo porque sou a favor da convivência de ideias contrárias) preferi ser taxativo. Colaborou, também o surgimento de uma foto que achei graciosa pelo enunciado, mas que suscitou minha reflexão: “Enquanto vocês ficam aí brigando entre Lula e Bolsonaro, a Marina está formando seu exército de clones” – via Instagram.
Por trás da imagem, há tanta coisa envolvida, que decidi detalhá-la. Nela, vemos Marina Silva (sobrenome-ícone-brasileiro), fazendo o “V” da vitória, em meio a um grupo de mulheres parecidas com ela, em pelo menos uma condição – a origem étnica – a mesma da maioria dos brasileiros: miscigenada, além do pequeno porte físico, a postura contida e o sorriso encabulado. Ela está entre homens e mulheres que fazem parte do grupo que representa, formado por pessoas que, como ela, nasceram em condições precárias de subsistência. O símbolo da vitória se justificaria por diversas razões, mas sobretudo porque ela chega a uma posição de protagonismo em uma eleição majoritária, mais uma vez.
Superada todas as vicissitudes pelas quais passou, como sabemos, não vejo quase nenhuma pessoa tão gabaritada quanto Marina, morena, para chegar à chefia do Executivo. Esta será a terceira vez que comparecerei à urna para referendá-la. Seu projeto me chamou a atenção desde o início pela defesa do meio ambiente e do saneamento básico como requisitos fundamentais para a melhoria das condições mínimas de saúde e bem-estar da população. Parece pouco ou simples. Se é, porque não realizam? Valorizar a Educação de base, incluindo a construção de creches, se é uma tarefa pequena, porque não é implementada? Além disso, seu programa de governo discorre com propriedade sobre as grandes e complexas questões que dizem respeito à administração do País. Para quem se interessar, acesse seu plano de governo: https://ep00.epimg.net/descargables/2018/08/15/fccc6c2f2fbf5bab0e94cc013a27e399.pdf
Ao mesmo tempo, avançou em questões que causava reservas junto a determinados setores “bem pensantes”, que a viam como messiânica, em uma tentativa de desconstrução feitas por antigos aliados. Retirada essa pecha um tanto preconceituosa, com cara de progressista, acho que aprendemos a lição quanto a não voltarmos a seguir tipos que se anunciam como “Salvadores da Pátria”. Nesse quesito, ela demonstrou buscar a colaboração de todos os setores da sociedade brasileira, como líder democrática que é.
Ao final, espero sinceramente que o “exército de clones” da Marina possa vencer, na sua figura, seus oponentes mais gritantes – o preconceito, a misoginia, a visão míope e a desconfiança quanto a capacidade dos brasileiros de superarem seus limites (visto por eles mesmos), apesar da pobreza material e mental reinante – imposta desde sempre pelo sistema cartorial patrocinado por aqueles que sempre viveram às expensas desta Nação.
Ao passar pela calçada que ladeia o piscinão, tive uma espécie de déjà-vu ao encontrar objetos antigos jogados junto ao gradil. Parecidos com esses, já os encontrei no gramado lateral à Avenida Inajar de Souza. Como já havia encontrado vários na minha adolescência, quando eu e meu pai catávamos lixo nos bairros mais nobres de São Paulo, com a nossa Gertrudes, uma Kombi. Era um lixo especial – livros, brinquedos, metais, papel, papelão de excelente qualidade – e discos. Como os que encontrei hoje. Movido por um impulso do antigo catador de recicláveis, reuni e recolhi os mais de vinte Long-Plays, datando do final dos Anos 60 até o início dos Anos 90, justamente à época que os CDs – Compatic Discs – começaram a imperar.
Esses exemplares são como jóias do tempo. É inacreditável que tenham se desfeito delas sem ao menos considerar doá-las ou até vendê-las para alguém interessado. Várias capas estavam umedecidas ou um pouco mofadas, mas os discos estavam preservados, necessitando apenas de uma limpeza mais atenta. Não podia deixar de homenagear o esforço humano na realização de obras de uma época em que praticamente não havia pirataria e a vendagem de discos correspondia à real dimensão do sucesso de um artista. Não teriam sobrevivido tanto tempo, se fossem CDs, mídias que, apesar de mais recentes, provaram-se menos duradouras que os antigos vinis.
Havia produções de soul, samba, jovem guarda, disco, folk, populares coletâneas de novelas e rock. Ou seja, um acervo de gosto bem eclético, reunido provavelmente ao longo de anos. E, então, descartado. Suponho que por uma pessoa que não considerasse tão importante preservá-lo, apesar de uma possível conexão emocional. A minha intuição é que não tenha sido o antigo proprietário, talvez já morto, mas alguém próximo, porém desvinculado sentimentalmente desses porta-emoções-passadas.
Uma característica de nossa pobreza é associar à grande produção de lixo o status de riqueza. Considerado descartável, acaba por se tornar um desperdício de excelente fonte de recursos. O advento da coleta seletiva poderia responder a isso, mas em quase nenhum lugar do País encontramos vontade política para implementá-la. Outro sinal de nosso atraso é tratar um produto cultural com desprezo, principalmente por vivenciarmos a cultura da descartabilidade. Enquanto isso, ainda que atualmente a produção musical seja mais virtual do que física, a sensação é que cada dia mais o lixo está a invadir nossos ouvidos e nosso espaço mental…