Maratona Setembrina | Supremacia

SUPREMACIA
Força feminina

De origem desconhecida, a chuva cósmica chegou à Terra inesperadamente, causando danos nos sistemas de comunicações e Internet.  O mundo todo sofreu desconforto, mas as consequências foram bem mais profundas do que interferências em comunicações importantes e atividades estratégicas, além de quedas nas transmissões de novelas da TV, interrupção nos bate-papos, impedimento de envio de fotos de glúteos avantajados e filmes de pegadinhas.

Antes que fosse globalmente detectada a transformação radical pela qual a humanidade passava, pequenos episódios em todos os cantos do mundo anteciparam suas repercussões fundamentais. Ana Maria, revoltada com os sopapos que levava do marido dia sim, dia não, decidiu revidar com um tapa. Só não esperava que seu golpe jogasse Joaquim do outro lado da sala. Em uma esquina escura, Belmira, cercada por um tipo que anunciou o assalto e insinuou algo mais, conseguiu jogar violentamente o oponente ao chão com um simples empurrão, o deixando desacordado. Na escola, a menina chamada de feia e magra, perseguida por garotos que não tinham mais o que fazer, decidiu a situação com um soco no estômago do maior, que ficou a se contorcer no chão, quase sem respirar. Os outros, correram. Uma amante, no momento máximo de excitação, quebrou as costelas do companheiro com uma chave de pernas. Acontecimentos semelhantes foram noticiados em progressão geométrica por todos os cantos da Terra.

Segundo pesquisas realizadas por cientistas ao redor do planeta, a onda de energia radioativa havia alterado drasticamente a fisiologia dos seres que carregavam cromossomos XX – as fêmeas da espécie humana – conferindo-lhes uma capacidade orgânica extraordinária, desenvolvimento de força e amplitude de movimentos muito maiores que os dos machos mais fortes atleticamente. Além de gerar maior impulsividade. Passado um ano, verificou-se que as meninas nascidas após o episódio, apresentavam as mesmas características. Ou seja, os novos parâmetros fisiológicos vieram para ficar.

No entanto, com o passar do tempo, constatou-se que, em profundidade, nada se modificou. Homens e mulheres mantiveram as conformações externas originais. A nova capacidade física feminina alterou as relações de poder, mas apenas trocaram-se os sinais e os gêneros dos envolvidos. Continuaram a ser cometidos os mesmos erros, os mesmos abusos, as mesmas distrações de caráter, por novos agentes. Ficou comprovado, enfim, que nunca houve diferença fundamental entre os sexos. Os comportamentos supostamente desviantes eram intrinsecamente humanos.

 

maratone-se

 

Homo sapiens pus

Só...
Capacitada para voar…

Em torno da mesa de um bar exclusivo, alguns homens estão reunidos. Copos de whisky 12 anos nas mãos, falam de futebol, política e mulheres. Comentam sobre como estas últimas estão colocando as manguinhas de fora, cada vez afirmativas e atentas aos “supostos” direitos que dizem ter.

Um deles cita a filha, que prefere estudar, se formar e conseguir um trabalho. Casar e ter filhos, nada. Revelou que um excelente “partido” já o havia consultado sobre a possibilidade pedi-la em casamento. Seria um golpe de mestre, já que reuniria duas das famílias mais influentes do ramo imobiliário. Para seu desgosto, ela se recusou veementemente – “Fossem outros tempos”…

Outro, revelou que despediu a secretária pela tal achar que o caso que mantinham lhe dava certas vantagens. “Ela ameaçou contar tudo à Dirce, acredita? Falei na lata: Vá! Não será a primeira”… – Riram da insolência da coitada – “Essas tipinhas nunca aprendem!”…

Pegando bonde na situação, um terceiro enumera as mulheres que comeu. Todas interessadas na grana que conseguiu com muito custo, suor e negociatas. “Vocês acham que eu deixaria a minha mulher, depois de tudo que ela me ajudou, cuidando da minha casa e dos meus filhos?”. Completou – “Sou um cara leal!”… E riram…

Um quarto, relatou que estava em uma luta insana com uma das sócias para obter uma conta de publicidade. “Meu, a bicha é inteligente e bonita! Mas o dono da empresa disse que dará a conta a mim. Não gosta que mulher se sobressaia tanto no trabalho, mesmo sendo gata. Aliás, essas são as mais perigosas! Conseguem tudo o que querem com a xana”. Todos concordaram, entre risos nervosos.

Dentre todos, apenas um não mostrava os dentes implantados. Baixou o copo no descanso e proclamou, com um leve sorriso: Vocês são misóginos!” – Sob protestos dos outros, quase em uníssono, refutaram – “Como assim? Amamos as mulheres! Olha que coisas mais lindas!” – E apontaram para o outro lado do salão onde estavam, quase em fileira, moças com pernas à mostra, curtos vestidos. Após a alegre discussão de quem ficaria com quem, o último pede a palavra.

“Sei que vocês amam as mulheres, mas no que têm de mais superficial. Era menino e meu pai abandonou a nossa família. Temi que a minha mãe não aguentasse. Em várias ocasiões, chegou a dizer, chorando, que mataria a mim e a meus irmãos e que depois se mataria. Puta drama! Evidentemente, não cometeu tal insanidade. Na Periferia, onde vivi, muitas mulheres conseguiam e conseguem criar os filhos sem a ajuda dos homens, mantendo a família unida. Quantos empresários conseguem fazer a firma aberta com tão poucos recursos? Quando fui estudar no turno da manhã (minha mãe fazia questão), havia poucos meninos, apenas um terço. Assim, como no vespertino. A grande maioria estudava no noturno, porque trabalhava durante o dia. Logo, previ que as mulheres, ao se tornarem mais capacitadas, comandariam os postos mais importantes no futuro. Isso, faz 40 anos. Já era para elas terem chegado lá. Graças a homens como eu, mais lúcidos, que conhecem o poder que elas têm, incluindo o de gerar a vida, isso não prosperou! Nem de pau elas precisam para fecundá-las! Tenham consciência que se não nos cuidarmos, o nosso mundo deixará de existir. Seremos seus simples lambe-sapatos-salto 10!”…

Após uma pequena pausa, um dos presentes, conclama: “Bem, enquanto isso não acontece, vamos brindar ao poder dos machos!”. Sob o aplauso de todos, voltaram os olhares para as beldades que estavam ali somente para servi-los…

Super Humano

Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande


O Homo Sapiens, de presumíveis trezentos mil de anos, seria resultado do desenvolvimento de outros humanoides ao longo de um milhão de anos, para alguns. Para outros, foi criado pronto, única possibilidade que explicaria a complexidade de seu “desenho inteligente” e as relações de forças imponderáveis entre o mundo físico e o imaterial. Cheguei a acreditar certa época que somos resultado de experiências extraterrestres alienígenas.  O Homem Sábio (de si) é um ser que passeia entre a claridade e a escuridão. Tanto pode ser criador de sistemas filosóficos que o elevam para além de suas limitações materiais em busca do autodomínio e libertação dos liames do mundo visível, para se chegar além, como Buda ou Jesus – supra-humanos –, quanto pode funcionar apenas para satisfazer seus instintos mais básicos, em que prepondera as emoções fáceis e os sentimentos simples. O que não impede que utilize de muita inteligência (prática), voltada para alcançar e manter poder sobre outros, como Hitler ou Stalin – esses, humanos demais. Entre uns e outros, nos colocamos, em nossa maioria.

Assim como parte dos seres humanos prejudica outros seres vivos simplesmente porque pode, outra parte prefere estabelecer laços de conexão em “frequências” mais altas por todos os níveis da existência. Eu suponho que ainda não nos matamos todos uns aos outros, apesar de parecer que estejamos por um fio, porque acredito que a energia positiva gerada é maior do que a negativa. Uma impressão inteiramente pessoal é que o poder de atos e pensamentos elevados sejam mais intensos do que os mais baixos, apesar de percebermos a atração que casos escabrosos têm sobre a população como um todo. A tristeza promovida por notas infelizes parece ganhar mais destaque que a alegria por boas novas. O ódio se anuncia mais candente do que o amor edificante. A paixão, volátil, é mais celebrada do que o afeto profundo. Rompantes sexuais são decantados como ideais para romances em contraponto à união madura. O pau duro e a buceta quente vencem a cabeça fria. Celebrado desde as castas cultas, em versos lascivos, passando pelas populações iletradas que expelem a cultura da precariedade como padrão, vemos a dominação do baixo ventre de maneira sequencial. No entanto, esse discurso também poderá ser encarado, de maneira inversa, como repressor, impeditivo da expressão do corpo livre da dominação de regras sociais, ainda que eu a considere uma outra forma de prisão.

Diante da relatividade dos posicionamentos, da falência da Filosofia como método abrangente, a aparência é de que todos estão certamente errados. A causa talvez seja encontrada na deseducação promovida a longo prazo pelos agentes governamentais e as cíclicas guerras de desinformação político-partidárias. Grupos agem para tentar assumir o poder sobre o cofre público, sob fiança de nossas escolhas. Como cortina de fumaça, grêmios promovem batalhas de cores, escolhidas para apartarem tendências, religiões, países, ideologias, pessoas – tática usual para aglutinar riqueza – medida de todas as coisas. A sensação é que guerreamos batalhas perdidas.

Como a se desvencilhar dos antigos saberes, os jovens tecnológicos criam virtualmente um mundo novo, apenas na aparência. Muitos vivem apenas a repetir os mesmos erros do mundo real, confirmados através de guerrilhas simuladas, uma realidade que já existe. Não sairemos dessas armadilhas armadas diligentemente por décadas a fio por agentes do Sistema. Gostaria de colocar um “talvez” (tão caro a mim), mas o pouco que o Xadrez me proporcionou como conhecimento estratégico e senso de antecipação, aliado ao meu olhar cada vez mais descrente da atual fase da aventura humana, me leva a crer que não viverei para ver alguma mudança significativa no futuro próximo.

Tomando a liberdade de me apropriar de uma nomenclatura parente utilizada por Nietzche (não é o caso de matá-lo), se eu fosse estabelecer, pelo meu critério de humanidade médio, um super-humano na atual escala talvez escolhesse Darth Vader. Afinal, o que muitos tentaram, ao promoverem maldades isoladas e coletivas, menores e maiores, o supremo representante do Lado Sombrio da Força superou a todos ao aniquilar civilizações inteiras, ainda que tivesse poderes especiais para salvá-las.