Ao redor da minha casa, na Periferia da Zona Norte, estou cercado de igrejas evangélicas. Na minha rua se encontram pelo menos quatro em 450 metros de comprimento. Uma delas, mais antiga, me lembro de estar envolvida em um rumoroso caso de um pastor que abusava de menores. Ficou fechada por alguns anos. Voltou a abrir com outro nome e outro pastor responsável. Os nomes das fachadas variam em torno de temas que remetem à promessas de nova vida, redenção e salvamento. A premissa é básica. Somos pecadores e que se quisermos alcançar o Paraíso, devemos nos arrepender a partir de diretivas colocadas como regras que devem ser seguidas de maneira rígida. Todos nós sabemos que quanto maior a pressão em torno do autocontrole pessoal, maior a chance de falha. Assim, vive-se em débito que deve ser proclamado em orações e cânticos de tal maneira que no meio da barafunda, ninguém é ouvido. Mas creem que certamente Deus os ouve.
A igreja que ilustra a foto acima pertence à rua paralela abaixo. Num trecho de uns 150 metros tem-se uma sequência de uma congregação intercalada a um bar. Clientes diferentes, enquanto uns querem esquecer os pecados, outros querem se ser perdoados. A Porta Da Salvação estava com a porta de aço fechada. Tem horários específicos para funcionar, assim como ocorre numa casa de eventos. Eu me lembro de uma dito antigo em que nos é perguntado “por que o cachorro entra na igreja?”. A resposta era muito simples: “porque a porta estava aberta”. Era um tempo em que as igrejas neopentecostais não tinham a força que apresentam hoje. A Igreja Católica comandava o caminho rumo à salvação, associada durante muito tempo ao poder político vigente, ditando o percurso a ser tomado pelos fiéis.
As igrejas neopentecostais atuam utilizando o poder econômico através do dízimo e doações quase compulsórias. Muitas tem se envolvido na Política atuando através de pastores que se aliam a representantes políticos que performam como fiéis ao Deus bíblico dos primeiros cinco livros do Antigo Testamento e ainda assim se proclamam “cristãos”. Muito porque a mensagem cristã apresenta um viés socialista, o que vai contra as convicções de quem conduz os rebanhos, normalmente filiado ao Capitalismo como base de sustentação. As contradições não são respondidas e, ao contrário, abre uma fenda que não contribui para o equilíbrio da Fé.
De tempos em tempos, durante toda a minha vida, mudava o visual, buscando brincar com a imagem um tanto andrógina que apresentava. Isso confundia quem me conhecia, mas não ajudaria em nada se dissesse que homenageava a David Bowie. Para contrariedade de meu pai e dúvida da minha mãe quanto a minha sexualidade, colocava brinco, pintava o cabelo, depois o tosava a zero, deixava crescer até o ombro e, por aí, caminhava.
Diferente de hoje em que a calva avança e só tenho a barba para mudar. Quando abracei o vegetarianismo, ao 17 anos, emagreci bastante e, com o surgimento da AIDS, não foram poucas vezes que alguém achava que eu fosse aidético. Por essa época, numa entrevista para emprego, apesar de ser bem qualificado para tal, fui dispensado sem explicação. A minha imagem não colaborava — magro e careca. Quando adotei os cabelos compridos (e desgrenhados), algumas vezes fui parado pela Polícia para apresentar a identidade. Ser branco e articulado me ajudou a não sofrer como alguns amigos pretos, que nem podiam dar um pio. Mas viver na Periferia nos equalizava. Sempre havia alguma favela próxima a qual poderia pertencer, o que me qualificaria como suspeito.
Quase aos 30, casei, tive filhas, vivi altos e baixos. Montei uma pequena empresa, quase morri duas vezes. Assim, estou chegando quase à sexta década de vida sobrevivendo a uma Pandemia e a outras doenças graças à má gestão da Saúde Pública. Mamãe fazia questão de manter as nossas carteirinhas de vacinação em dia. Graças ao Ensino Público cheguei à Universidade, que desenvolveu a minha capacidade de discernimento entre a boa e má Política — a arte da convivência. Eu me orgulho de ser um cidadão que respeita as Leis, sabendo que podem ser melhoradas para atender às demandas da população. Sei que morrerei antes que veja este País mais justo. Assim como cria que aconteceria aos meus 20 anos. Eu estava enganado, então. Pode ser que esteja enganado outra vez, de modo diverso. Oxalá!
nos anais memoriais de minha mãe meus pais se casaram em bela cerimônia ela de branco virginal ele de preto solene ateu na igreja talvez quisesse outras cores formato alternativo sua raiva crescia pelos grilhões que o prendia anéis trocados juras convencionais primeira noite o marido diz vou logo lhe passar o pinto depois sairei em nome da luta política o revolucionário se ausenta um dois dias volta tarde no terceiro ela pergunta porque demorou ele responde com um tapa no rosto de pele macia homem de esquerda vanguarda macho sem contestação de pesada mão buscava uma parideira faz filhos casou por causa da macumba da esposa dizia mulher não se confia a deixou na periferia com filhos casa simples longe da família três crianças vivas oito abortados vida dura desesperançada época difícil regime militar fugia da polícia o senhor meu pai o índio paraguaio preso sem definido paradeiro pequenos íamos aos quartéis lembro do japonês falava com mamãe mentia não sabia pai torturado esmagado como homem liberto do cárcere morreu para aquela vida comunista ajudado por madrasta kardecista família quatrocentona nasceu pela segunda vez pela mão da capitalista mamãe morreu tantas vezes renasceu muitas dezenas nunca a vi esmorecer vivia a se desmerecer trabalhou em bares vendedora de galinhas comprar meus livros coleções enciclopédias limpar casas não se impedia soube tanto tempo depois choro choro de remorso porque nada me tornei ela a amar sua culpa eu incriminado por ser amado aos 70 pediu separação legal o marido ausente se diz apunhalado pelas costas nada quis deixar à ex aos filhos seus pediu a deus deu procuração ao diabo roubou um milhão o advogado restou uns caraminguás sobrou um cara minguado tentou surrupiar a própria família morreu mais uma vez por última no pau-de-arara lei civil no choque elétrico dos torturadores sua descendência sobrevivente quando nos deixou fisicamente nunca chorei espero chorar antes de eu mesmo fenecer então terei perdoado e me perdoarei.
Ontem, eu passei pelo Centrão e o meu olhar encontrava a chocante disparidade entre aquele conheci e o que presenciamos hoje — degradado — apesar de haver várias construções sendo restauradas, além de novos empreendimentos na Avenida Rio Branco. O velho cruzamento da Ipiranga com a São João, nem chega perto da outrora movimentação que inspirou Caetano a compor Sampa. Alguma coisa aconteceu no meu coração: a melancolia de ver essa icônica parte da cidade com grandes construções esvaziadas e pessoas jogadas pelas calçadas em condições precárias de subsistência. Ainda mais com a política de limpeza visual das barracas onde ficavam durante o dia, já que durante a noite o vazio toma conta do asfalto e corações.
Por trás desses tapumes, mato e restos de entulhos de parte do que foi o antigo prédio que foi habitação de despossuídos depois de ter sido Sede da Polícia Federal em São Paulo por 33 anos. O EdifícioWilton Paes de Almeida, localizado na Rua Antônio Godoy, foi desocupado em 2003. Gradativamente, através de movimentos de sem-tetos, sem condições adequadas, o prédio foi transformado em uma grande armadilha. Desabou, depois de um incêndio, em 1º de Maio de 2018. A Igreja Evangélica Luterana de São Paulo — de 1908 —, a edificação ao lado, atualmente reconstruído, também sofreu, bem como um edifício próximo, além de dois do outro lado da rua. Representou, de forma contundente, o quanto a política de ocupação da cidade é disparatada em relação à realidade. Nessa região, o potencial de moradia de qualidade é enorme, próxima de muitos serviços bem estruturados. Falta um programa que envolve vontade política para ser implementado.
Só em outra realidade bem interiorana que não São Paulo, a parte traseira de uma igreja é um local mais calmo. Principalmente se essa igreja for a Catedral da Sé, em frente da qual a cidade tem o seu Marco Zero. Bem próximo dali, os Jesuítas Manoel da Nóbrega e José de Anchieta construíram uma casa que deveria se tornar o colégio onde pretendiam catequizar os gentios dos Campos de Piratininga comandados pelo Cacique Tibiriçá. Ocorreu em 1554.
Em primeiro plano, esse tronco da centenária Figueira-Brava já há muito tempo dava sombra e descanso para os viajantes que transportavam cargas e mercadorias. Lá, podiam encontrar água para se refrescarem, assim como matar a sede dos animais — cavalos e burrros-de-carga. Mais adiante, podemos ver o Obelisco de Piques, de 1814, o mais antigo monumento de São Paulo, localizada no conjunto que chamamos de Ladeira da Memória, que desce em direção à Praça da Bandeira. É considerado um símbolo e referência do processo de urbanização da cidade.
Subindo a Avenida da Consolação, em direção a uma parte mais alta do relevo no qual se assenta a Avenida Paulista, encontramos a necrópole conhecida como Cemitério da Consolação, fundado em 1858. O então Cemitério Municipal foi criado com o objetivo de garantir a salubridade e evitar epidemias. Era uma tentativa de alterar o hábito de sepultar os corpos dos mortos em torno das igrejas. A aristocracia formada pelos cafeicultores transformou o local em um templo de ostentação da burguesia paulista. A arte tumular que lá se encontra é exemplar em termos artísticos, pois vários escultores de renome foram contratados para executarem trabalhos rebuscados. Há outros mais simples em temáticas, assim como há vários nos que poderíamos passar o dia todo para dissecarmos suas referências.
Em vários pontos de São Paulo encontramos enormes e velhas chaminés que eu adorava desenhar quando garoto, expelindo a “feia fumaça que sobe, apagando as estrelas”. Representam a antiga vocação industrial da cidade que, atualmente, é predominantemente ocupada por empresas prestadoras de serviço e comércio. Muitas de suas espaçosas instalações são transformadas em centros de compras ou eventos, quando não vem abaixo para o ocupação de condomínios residenciais. A transformação constante de “campos e espaços” é a característica principal deste ser vivo devorador de memórias e referências pessoais. É como se nos avisasse desde cedo: “não se apegue!”.
E chegamos ao “X” da questão: para onde vamos como cidade? Mal nos acostumamos com um “centro econômico”, surge um outro em um rincão distante do município que se expande para cima e para os lados. Estabelece critérios tão aleatórios quanto injustificáveis, a não ser na mente de engenheiros do caos que creem e incentivam esse processo como parte intrínseca da voragem que devemos continuar a viver — sem freio e sem fim — para o bem do invisível e poderoso Sr. Mercado. Ao mesmo tempo, há movimentos humanistas que tentam transformar este recanto de dor e frieza em campo de criação de novas estruturas. A vocação cultural é algo inegável. Para quem quer e tem tempo, as possibilidades de desenvolvimento nesse campo, encontrará programações sem custo. Esse dinamismo pode ser a saída para o imbróglio que é vivermos numa cidade cortada por rios mortos e ar poluído, buscando conscientemente saídas simples e eficazes para nos tornarmos cidadãos de uma cidade melhor.
Neste texto pessoal, uma carta, mas que encarei como profissão de fé, baseado nas leituras que efetivei ao longo de anos, eu respondi ao meu pai – Odulio Ortega – acerca de uma postura parcial quanto à visão da História. Encalacrado em uma visão antiga da qual não conseguia se desviar, ele me acusou de dar voz aos seus adversários políticos, enquanto eu tentava colocar a minha posição quanto ao desenvolvimento dos fatos que então demonstravam, segundo eu pensava, o caminho errado que a Esquerda tomava à época, em 2012*. Havia percebido que o sentido adotado por ela resultaria no enfraquecimento das possibilidades de entendimento entre um ideário e outro, podendo causar, como veio a acontecer, na divisão do País. Sempre soube que sem cotejar visões antagônicas para o exercício político, não haveria futuro para a nossa precária Democracia, de alguma forma atacada de um lado e de outro na tentativa de impor como único. O meu afastamento crítico ainda assim não impediu que seis anos depois pudesse antever o mal causado pelo viés à Extrema Direita que veio afligir o Brasil nos últimos quatro anos. Apesar de no primeiro parágrafo eu ter citado a miscelânea messiânica que ele empregava ao se posicionar, eu igualmente escolhi estabelecer uma postura mais ligada à religiosidade, muito frequente em minhas manifestações pessoais.
“Permita-me inicialmente analisar a maneira como o senhor mistura sistemas de governo com ideários econômicos e religiões com crenças, considerando, inclusive, o estabelecimento de critérios absolutamente pessoais de percepção da realidade como fatos históricos estabelecidos em letras impressas de jornal, derrubando exaustivos estudos de historiadores, antropólogos, arqueólogos e estudiosos sociais que decretaram que os chamados autóctones aqui encontrados, na verdade massacraram os antigos moradores da terra, que por sua vez, chegaram do norte em ondas migratórias que atravessaram o estreito de Bering, que fica entre a Ásia e o Alaska, provavelmente por uma ponte de gelo criada na última era glacial.
O que isto quer dizer? Que nenhuma etnia pertence originalmente ao lugar em que vive, considerando retrospectivamente o tempo de uma forma mais extensa, contado não em dezenas ou centenas, mas em milhares de anos, olhado de uma maneira mais abrangente, como estabelece, aliás, a visão espírita, em que a vida se desdobra em papéis vivenciados em ciclos de “nascimento” e “morte”. Sempre é bom lembrar que nem mesmo Alan Kardec propôs algo original, já que a milhares de anos, o Hinduísmo contempla a existência em diversos planos. Assimilação.
A espécie humana é originária da África, fato determinado por pesquisas feitas com base no DNA mitocondrial, e de lá, avançou continente afora até a Ásia e a Europa, onde fatores ambientais moldaram exteriormente a sua estrutura física, adaptando-se aos requisitos necessários à sobrevivência ao meio. Além disso, considera-se que, como o Homo sapiens, o Homem de Neardenthal chegou a alcançar algum sucesso nesse intento, mas a nossa espécie acabou por suplantar a esta última como a mais apta e inteligente para prosseguir a jornada, a incorporando em eventuais cruzamentos ou até aniquilando-a. Adaptação.
O aumento da inteligência humana, propiciada pela capacidade plástica de nosso cérebro, supõe-se ter sido estimulada por consumo de proteína animal. Para isso, o homem passou a caçar os outros seres viventes que o cercavam, chegando a extinguir algumas espécies contemporâneas de então, como o Mastodonte. Consequentemente, se hoje em dia podemos escolher entre ser onívoro ou abster-se de não participar ativamente da cadeia alimentar, preferindo o Vegetarianismo, como eu optei em determinada época da minha vida, terá sido simplesmente porque construímos uma capacidade ímpar de julgarmos e escolhermos o melhor para nós, graças a um nosso antepassado ousar enfrentar e matar outros animais para comê-los. Assim, ampliamos a nossa quantidade de ligações neurais, possibilitando-nos o domínio sobre a Terra e de tudo que caminha sobre ela. Superação.
Civilizações se ergueram e se desmoronaram, da África à Europa, da Ásia ao Oriente Médio e até na América Pré-Colombiana, com Maias, Incas e Astecas, estas cruelmente especializadas em sacrifícios humanos oferecidos aos deuses. Quando os portugueses e espanhóis invadiram esta terra, aproveitaram-se das várias animosidades existentes entre as diversas tribos aqui estabelecidas, dominaram o território, mesmo sem a presença massiva de homens. Se a sociedade naturalista dos indígenas era assim tão evoluída, porque sucumbiu tão facilmente ao oferecimento de bugigangas e destilados? Se fosse moralmente assim tão capacitada, porque se ofereceu tão ingenuamente à imolação religiosa levada adiante por catequizadores supostamente bem intencionados e não o contrário? Ainda assim, os que sobreviveram á escravidão e às novas doenças, acabaram por adentrar pelo sertão ou acabaram por miscigenar-se aos invasores, formando um povo diferente, que viria a adotar pelos dois ou três séculos seguintes o Tupi-Guarani como língua usualmente empregada no dia a dia. Acomodação.
Por essa perspectiva, eu creio que devemos aceitar que nós, seres humanos, sempre evoluímos entre os escombros de construções precárias e de corpos dados á sanha do conquistador de ocasião. Nossa aptidão deverá o de sempre buscar a luz no caminho, tentando fazer uma verdadeira revolução pessoal que nos fortaleça a ponto de resistirmos eticamente aos assaltos perpetrados pelo egoísmo e então chegarmos ao equilíbrio entre Corpo e Espírito. Revelação.
A chamada ‘Modernidade‘ – nome dado a um processo atual, portanto, é circunstancial. Foi moderno o homem sair da África rumo às outras terras para sobreviver; foi moderno o Homo sapiens sobrepujar ao Homem de Neardenthal, por sua adaptabilidade ao meio; foi moderno o surgimento de civilizações que dominaram a outras, bem como foi moderno as suas quedas; foi moderno o homem cruzar os oceanos e chegar às praias ensolaradas onde os seus habitantes não previram que ali estavam os seus algozes; sempre foi moderno o homem escravizar a outros homens; sempre foi moderno o homem explorar a força de trabalho de outros homens, em seu próprio benefício. Mas o que pode realmente ser chamado de suprema modernidade, acima de todas as coisas, em todos os tempos, e faz com que o homem transcenda a sua humanidade é o ato de perdoar a outro homem, apesar do suposto mal imposto a ele por seu próximo, e ainda assim amá-lo, apesar disso.