BEDA | 82% Jogam

Jogos
Distração ou vício?

Trem do Metrô lotado. Pescoços que, se girarem para esquerda ou para direita, desembocariam em bocas vizinhas. Metido meio de lado entre corpos, fico de frente para a tela do monitor da TV Minuto. Até que surge a manchete: “82% dos brasileiros jogam no celular”. Seria um enunciado que indicaria certa generalização, mas mesmo desbastados os números parciais, é um dado que surpreende.

A minha irmã joga muito. Conheço um ou outro que também passa parte do seu tempo a ir e vir no sentido de lugar nenhum, mas para avaliar melhor esse índice, levantei alguns dados. 92% dos lares ou 138 milhões de pessoas, têm celular. Dessas, 116 milhões, estão conectadas à Internet – um pouco mais de 50% da totalidade dos brasileiros, estimados em 210 milhões de habitantes. Assim, os proclamados “82% dos brasileiros que jogam no celular (com Internet) constituem cerca de 95 milhões de usuários.

Restam outras questões. Os jogadores jogam um jogo ou outro, de vez em quando? Ou jogam o tempo todo? São viciados, à ponto de deixarem de fazer qualquer coisa para continuarem a jogar? Quaisquer que venham a ser as respostas, pela inferência que faço, atingiremos uma proporção muito grande, ainda que não haja exatidão nos números. Eu devo ser um daqueles (poucos) que não jogam nenhum jogo em celular. Desde o começo, os utilizei como instrumentos de comunicação e veiculação de conteúdo para as redes sociais. Talvez, nesse quesito, tenha me excedido um pouco. Um outro jogo…

Confesso que houve um período, durante o primeiro ano do Segundo Grau, que cheguei a pular os muros do CEPAV* para jogar Fliperama e Pebolim com meus colegas de classe, mas durou apenas aquele ano passado entre meus pares da sala exclusivamente masculina, separada da outra, de meninas. Experiência mal sucedida, que tornaram as duas classes um pesadelo para os professores. Atualmente, os jogos estão ao alcance de nossas mãos.

Dessa forma, um artigo de comunicação acaba por estabelecer a incomunicabilidade como item primordial de sua utilização. Afinal, jogar contra a máquina desenvolve a capacidade de… isolar as pessoas. Há jogos que podem ser jogados por dois jogadores no celular. Mas eles estarão distantes, apesar de conectados. A avalanche de tecnologia se mostra ineficiente para estabelecermos uma sociedade igualitária e comunicativa, nos alienando – de ideias, propósitos e ações efetivas. Nunca a solidão foi tão escancarada.

É bem possível que, nas próximas eleições, a tendência do brasileiro em jogar esteja exacerbada. Cansados dos políticos profissionais, os eleitores-jogadores apertarão botões na busca de conquistar pontos para vencer, a se importarem com propostas “de vencedores”. Aliás, esta eleição está a parecer certo jogo de cartas – Truco. Os candidatos gritam muito a cada jogada, sem nenhum propósito a não ser acabrunhar o adversário. Na pesquisa que realizei, um dos enunciados proclama uma defasagem de números – contra os 92% dos lares com celulares, somente 66% apresentam saneamento básico. Essa inversão de valores reais é mais uma amostra do resultado de nossa jogatina política, já há muito tempo, em que todos nós perdemos.

*Colégio Estadual Padre Antônio Vieira, em Santana – São Paulo.

Participam do BEDA:  Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari

 

BEDA | Caríssima

Caríssima
Cara Lua…

Em e-mail enviado a mim, no enunciado, sou chamado de “Caríssima” pela mensageira. Ainda que eventualmente tenha sido involuntário, gostei! Acho que cheguei em um ponto da vida que prescindo de ser chamado por pronomes ou vocativos masculinos apenas porque carrego um pênis. Sou mais do que isso.

Sendo pai de três meninas, 30 anos de casamento e sabendo do eu quero e gosto, não necessito ter avalizado por alguém da minha condição de gênero e preferência sexual. Por outro lado, aquilo me fez lembrar o quanto me senti irritado pelo aparecimento de neologismos para designar gêneros variantes ou diferenças opcionais de preferências sexuais, naturais ou refletidas. Não porque não as defenda, mas por pura questão de semântica. Nesse aspecto sou tradicionalista, ainda que Semiologia vá se encarregar de resolver essa questão.

É bem verdade que se não me importo de ser chamado por “ele” ou “ela”, talvez não devesse me importar por ser nomeado de outra maneira. Porém, mesmo para derrubarmos barreiras de todas as ordens, devemos partir de uma base. Anunciar que a letra “e” para o uso de gêneros indefinidos (na origem), de alguma maneira preconiza, igualmente, preconceito com outras condições. O politicamente correto acaba sendo uma prisão.

Nos dias de hoje, ficamos cheios de dedos para conversar com qualquer um. Na dúvida se ofendemos ou não alguém simplesmente porque a denominamos de uma forma prosaica baseada na aparência, tentamos adivinhar-prever-intuir com “quem” falamos. Não deveria ser problema para quem sabe o que sente ou o que é, se erramos sua titulação. Nessa situação, se um gênero alternativo quer brincar com a sua roupa, deve estar preparado para ser chamado por ele, ela, eles ou elas – os dois últimos, no caso dos que se sentem mais do que um…

Quando bem novo, pele lisa, rosto feminino, cabelo cumprido, gostava de parecer andrógino. David Bowie era meu ídolo. Ney Matogrosso, com Secos & Molhados, surgiam com ímpeto e, mesmo sendo bastante atraído por mulheres, decidi me abster de sexo. Era moderno? Não! Somente, a penas duras, fiz o que quis para experimentar – ou não experimentar – modos e comportamentos que pressupunham papéis diferentes dos que a Sociedade me impunha por ter nascido do gênero masculino, branco (com ascendência indígena) e pobre. Deveria me ater às essas condições?

Tanto quanto não fazia questão de casar porque a minha companheira estava grávida, sabendo que a aliança já estava sendo carregada em seu ventre, igualmente casar não indicaria uma relação permanente se não quisesse continuá-la. Contratos sociais dão segurança para quem os carrega, mas não são definitivos para indicar condições permanentes. Sejamos chamados de uma forma ou de outra, devemos viver acima das injunções feitas por outros e navegarmos acima da linha d’água que os afogam.

Participam:  Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari

BEDA | Meus Anos 50

Anos 50
Rumo ao sétimo ano da quinta década…

Vivo meus anos 50. Mais um pouco, inaugurarei a sétima edição anual da década. Este decênio foi totalmente diferente do que idealizei. E completaria: graças a Deus! Ao final dos meus Anos 40, tive um episódio de saúde que modificou minha interação com a vida. Cinquenta anos em cinco – emblemática frase de Juscelino Kubistchek – apenas emprestava números ao desejo de fazer crescer o país dos Anos 50, cuja a inauguração de Brasília, no início dos 60, foi um marco. Nestes meus Anos 50 particular, esperarei ter crescido, ao final de tudo, cem anos em dez – a crise hiperglicêmica foi a minha marca inicial, em 2007.

Definir datas como pontos cardinais, com números redondos parece ser uma tentativa para justificar situações que teriam começo e fim, sem causas anteriores e repercussões posteriores – uma espécie de “Big Bang” histórico, assim como anuncia a frase: “nunca antes, neste País…”. O Brasil parece ser uma nação de ciclos, sempre a se repetir, rota sem saída para o mar, com o apoio luxuoso de nossa falta de memória. Tento manter a lembrança daquilo que me levou a enfrentar determinadas situações. Sem isso, não há como saber como cheguei onde estou. Adotei a imprudência de me arrepender apenas do que não fiz. No mais, apesar da tentação de deixar tudo ao “acaso”, se é que ele existe, sei do rumo que tomei. E das consequências que ele gerou.

O contexto em que vivo os meus Anos 50 tem sido incrível. É como se tivesse aberto os meus olhos apenas agora, nos meados do meu século de vida. Eu me deixei levar pela aventura de amar – dizem que o mocinho morre no final. Eu retomei os estudos, entre compromissos profissionais e pessoais. Lancei o meu primeiro livro e estou prestes a lançar o segundo, dia 25, antes que este Agosto se encerre*. Nunca me senti tão pleno, talvez viva o ápice que todos visitam, antes do fim.

Ainda aguardando as surpresas que me reservam esta era, já vislumbro as possibilidades dos Anos 60. A década histórica do século passado, na qual nasci, foi uma das mais importantes dos 1900. De alguma forma, aglutinou todos as potencialidades que vivemos depois. Marcou mudanças estruturais que ainda repercutem nos dias atuais. Guerras (frias e quentes), luta pelos direitos civis, emancipação da mulher, revoluções político-ideológicas e comportamentais, viagem à Lua e a propaganda da ideia do “País do Futuro”, entre tantos fatos possíveis.

Saúdo a todos e a todas que estão chegando aos seus próprios Anos 50. Saberão que a vida ganha frescor, com o início de novos e estimulantes formatos e término de antigos e infrutíferos projetos. Muitas vezes, com pesar, porém com convidativos e bem-vindos significados! Feliz nova década!

*O livro de contos curtos “RUA 2”, editado pela Scenarium Plural – Livros Artesanais (https://scenariumplural.wordpress.com/), será lançado dia 25 de Agosto de 2018, sábado, na Starbucks Brasil – R. Des. Eliseu Guilherme, 200 – Paraíso, São Paulo, a partir das 18h às 20h. Convido a todos!

Participam:  Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari

BEDA | Fechado


Fechado
Vítima imóvel…

O dia cinza, frio e chuvoso, já me parecia triste o suficiente – às questões pessoais, somei o clima instável. Especialmente sensível, meu olhar denunciava amargor em cada rosto. Em cada pessoa, pressentia uma história desgostosa. Evidentemente, nem tudo deveria ser tão ruim. No entanto, não vislumbrei sorrisos, nem mesmo nos jovens que saíam da escola adiante, na rua que caminhava.

Em uma das esquinas, encontrei um restaurante fechado em plena hora do almoço. Provavelmente, mais uma vitima da crise. Não era o primeiro estabelecimento que via nessa condição. Por trás de cada janela fechada, a cada cortina baixada, a cada porta trancada – uma história de luta perdida e sonho acabado. Depois de tudo, o fim…

Viver não é fácil. Ganhar o pão de cada dia, implica em matar um leão por dia, caso contrário, ele o devora. Apenas talento para os negócios não basta. Há de se vencer a falta de planejamento dos administradores públicos – incompetência, descaso ou corrupção – que desce até a base. Lá, encontramos os achacadores – fiscais fisgadores de peixes grandes e pequenos – impostos, taxas e dificuldades para abrir e/ou fechar empresas.

A legislação é seguida, os documentos são regularizados, os empregados são registrados, os regulamentos são atendidos. Os fiscais sempre encontrarão uma brecha para solicitarem uma conversa fora das anotações oficiais, com consequentes notas-ações.

Além disso, a crise não ajuda em nada. Engendrada em gabinetes a milhares de quilômetros, planos econômicos estruturados para alimentar a máquina pública, atender a apaniguados, contemplar apoiadores, segurar a aliança de cúmplices. Dizem que é tudo dentro da lei. Lei feita por eles, para eles, contra todos nós…

A imagem do restaurante morto, ajudou a piorar o meu dia. Saber que trabalhadores perderam funções e sustentos, me derrubou. Mas confesso que ver a pequena rampa para cadeirantes, quase dispensável e, agora ineficiente, quebrou meu coração de vez…

Participam:  Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari

BEDA |VIRAL

Symian_virus
Symian Virus (Wikipedia)

Viralizou! – é o que se diz sobre alguma notícia, foto, vídeo ou texto (mais raramente) que ganhou expressiva repercussão midiática, com consequente discussão nas rodas sociais. Muitas vezes, inadvertidamente, episódios de aparente simplicidade reverberam como se fossem verdadeiros acontecimentos. Outras, o são, realmente. Em algum momento, algumas pessoas buscam os holofotes com traquinagens e trucagens para criarem fatos-factoides.

De maneira mais ampla, o surgimento do midiático “viralizar” esconde vários significados, alguns obscuros, em relação ao nosso comportamento como humanos-civilizados-conectados. Como se fossemos agentes transmissores de enfermidades causadas por vírus letais, carregamos para o próximo temas virais, para a alegria dos produtores de conteúdos doentios.

As redes sociais são utilizadas para a propagação de diversos vírus – entre outros, de artísticos a sociais, de criminosos a políticos – estes últimos, atualmente, quase sinônimos. Sejam quais sejam as razões pelas quais alguns fatos e algumas pessoas ganham repercussão, fica difícil justificar, a não ser com bastante esforço analítico, a razão da assunção de tipos francamente repulsivos catapultados à condição de figuras importantes. Como a revelar o quanto estamos doentes, a reprodução de ideias que pregam o retrocesso político e social parece ser a doença da vez.

Encontrando campo fértil em nossa condição de baixa imunidade mental, infiltram-se através da corrente sanguínea social, doenças que levam ao óbito o bom senso e a inteligência. Em diversas ocasiões, percebe-se a mecânica que levou Hitler a ascender ao poder de forma tão avassaladora.

O que aconteceu nos Estados Unidos e poderá acontecer aqui (se bem que eu me recuse a acreditar), faz parte de um fenômeno inaudito, resultado de séculos de desiquilíbrio social, desigualdade econômica e projetos claros urdidos nos últimos 50 anos de solapamento da Educação Pública, a mais viável para dar oportunidade de crescimento a nação e, consequentemente, ao País.

Esse mal viral, criado em laboratório como remédio de sustentação de um sistema precário, mas funcional para quem se beneficia dele, vai acabar por matar o hospedeiro, o que é uma estratégia até menos inteligente do que formas de vida supostamente menos evoluídas, como os vírus reais…

https://cientistasdescobriramque.com/2017/03/21/os-virus-sao-capazes-de-conversarem-entre-si/

Participam:  Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari