Eu não sei o que acontece, mas não são poucas as vezes que eu sinto uma tremenda vontade de abocanhar esta cidade de asfalto e pedra!
Degluti-la quase toda e a vomitar inteira, renovada e rediviva.
Quando a vejo tão aparentemente desabitada, como nesta manhã de domingo, ainda sei que por trás de suas paredes, portas e janelas, o drama da vida se apresenta implacável e comovente…
Amores acordaram abraçados…
Traições foram postas à luz…
Amizades passaram a noite insones apenas no bate-papo livre e sem rumo…
O desejo de ser feliz pode ter encontrado guarida nos peitos e as paixões nos corpos. ..
Ou, tristemente, podem ter se perdido entre os desvãos dos prédios e das ruas sem saída da Metrópole insana que desperta…
*Manhã de um domingo de agosto de 2016.
Participam do B.E.D.A.: Lunna Guedes Adriana Aneli Cláudia Leonardi Mariana Gouveia Roseli Pedroso Darlene Regina
Recortes são o que não faltam em minha cidade. E cicatrizes. E cada enquadramento resultante das colagens desses recortes têm por trás histórias de pessoas que quase sempre estão representadas por construções, linhas retas mal desenhadas e fios que nos conectam ou nos embaraçam. A minha cidade é a perfeita amálgama de carne, sangue e cimento, com perfume de gasolina.
Do sul ao norte Impera a nebulosidade Da nebulosa cidade De toda a sorte O clima quente Se busca a água Daqui até o Pico do Jaraguá Que longe, parece indiferente…
“Ocupação do Ouvidor” — na Rua do Ouvidor — um ouvidor que não tem ouvidos de ouvir. Trata-se de um velho edifício na região central de São Paulo, junto à Praça da Bandeira. Aparentemente, a maior parte de seus moradores são jovens artistas. Ou eram, há 5 anos antes.
Uma viagem no tempo. Poucos minutos depois de sair da Avenida Paulista, passamos pela Avenida Tiradentes em direção ao final da cidade junto ao Rio Tietê. Pelo menos, era dessa forma que via o habitante de São Paulo no início do Século XX. O Mosteiro da Luz, onde fica o Museu de Arte Sacra, é a única edificação colonial do Século XVIII da cidade a preservar os seus elementos materiais e estrutura originais.
Imagem de uma das vias ferroviárias que cruzam a cidade. A visão se dá a partir de um dos viadutos que liga o Centro à Zona Leste, neste caso, em sentido contrário para a Zona Oeste. Trilhos de trem de alguma forma são icônicos de um tempo em que era a opção mais moderna e inclusiva que tínhamos, depois substituída por ônibus que lutavam por espaço nas ruas já apinhadas de automóveis particulares. Com o advento do Metrô, o transporte por trilhos voltou a ser estimulado, mas não suficientemente, normalmente envolvido em dificuldades que vão de questões burocráticas, geológicas, dificuldade nas desapropriações e corrupção nas licitações.
A região central de São Paulo guarda alguns tesouros visuais com histórias surpreendentes. Com a paulatina instalação de calçadões, ficou mais fácil apreciarmos as linhas arquitetônicas de prédios que atualmente servem a pontos comerciais e escritórios. Até meados do século passado eram usados também para moradia, estando perto das principais atrações da cidade como museus, teatros, incluindo o Municipal, cinemas, restaurantes, salões de dança e de jogos — de boliche a carteados — etc,
Tive a oportunidade nas várias ocasiões em que frequentava edifícios na região central, de poder apreciar o lado B de construções que apresentam facetas diferentes de seus frontispícios. Aqui, podemos observar a concentração das partes traseiras que mostram como as pessoas se organizam da maneira que é possível, normalmente adaptando soluções, literalmente, caseiras. É onde a vida acontece, realmente.
Trabalho em eventos. Sou locador e operador de equipamentos de som e luz para bandas e, eventualmente, sou tocador de música mecânica. Não confundir com DJ, que considero uma atividade que envolve o estudo de processos interativos entre as músicas, a transição bem feita entre os andamentos e os temas, além da produção de “tracks”, quando o profissional conhece melhor o trabalho pelo lado da sua construção. Semelhantemente àquele que trabalha na composição de quadros sonoros, trabalho sobre a canção invisível que ouvimos quando uma paisagem se apresenta diante de nossos olhos. Eu me expresso no coletivo, mas percebo que não sou acompanhado por tantos assim. Poucos são os que presenciam harmonia no caos ou fortes rumores de vida na calma visão de um panorama natural. Trabalhei neste final de semana em dois lugares diferentes por dois dias seguidos. O primeiro local, foi em uma sala no 16º andar de um prédio na região da Avenida Paulista, símbolo da expressão do que é esta cidade. Há menos fotos dessa primeira sessão em relação à segunda, porque creio que se tornaria uma “batida” repetitiva e sem nuances, já que estava cercado por todos os lados pelo mesmo diapasão. O segundo, foi na região da Represa Guarapiranga, na extrema Zona Sul, que não parece, mais ainda é São Paulo — seu perfil campestre. Uma de suas faces, de muitas. Pelo caminho e já no lugar, qualquer detalhe me chamava mais atenção do que o apelo urbano me causava. Em cima desses dois temas, espero que apreciem a música visual que estou a tocar.
Região da Avenida Paulista
Pela janela, cercado de cimento e vidro. Ouço conversas de janelas para janelas.
Abóboda no teto do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista
Região da Avenida Paulista
Vista da torre de uma igreja, em meio aos prédios. E, ao longe, à direita, o antigo Banespão, no Centro Velho ou Centrão.
Região do Parque Ecológico da Represa da Guarapiranga
Ainda manhã, na transição entre o escuro da noite e a claridade do dia que se anunciava, estava a caminho do lugar onde trabalharia mais tarde.
Região do Parque Ecológico da Represa da Guarapiranga
Estrada, árvores e cerquinha branca…
Região do Parque Ecológico da Represa da Guarapiranga
Já clareando o dia, a neblina deu a nota neste tema.
Região do Parque Ecológico da Represa da Guarapiranga
A luz do dia a “nascer” e o sol a parecer brincar de esconde-esconde com o observador…
Região do Parque Ecológico da Represa da Guarapiranga
Finalmente, o astro-rei se elevou esplendoroso dentre o arvoredo. No entanto, isso é tudo ilusão. Na verdade, o Sol é apenas uma pequena estrela na Via Láctea e é a Terra que se desloca pelo espaço, enquanto gira sobre si mesma. Porém, a canção que ouvimos é bela e queremos ser envolvidos por seu andamento.