BEDA / Olhos Menores

Olhos Menores

Apaixonado pelas mulheres, o corpo feminino, muito mais interessante em volumes, formas e detalhes que o masculino, sempre me causaram intensa impressão. Muito tímido, apenas furtivamente os observava mais de perto, já que não conseguia me aproximar de uma moça o suficiente para explorar o que mais me atraia em sua fisionomia – os olhos.

Devido a isso, buscava na segurança das revistas que tinha acesso às imagens de mulheres em poses que supostamente deveriam ser atrativas. Não deixava de percorrer as linhas sinuosas de pés, pernas, ancas e seios… até chegar aos olhos. Se as modelos ou atrizes estivessem vestidas, a intenção (descobri cedo) era estimular a descoberta do que guardava ou adivinhar ilusões do que poderiam ser. E os olhos, normalmente expostos, conseguiam expressar mais do que muitos pretendiam. Isso, quando a maquiagem excessiva não estragava a minha excursão… ou seria incursão?

Nos anos 80, assim como nos 50, as sobrancelhas mais grossas se tornaram a moldura perfeita que, aliada à ebulição dos meus 20 anos, me trouxeram descobertas inestimáveis. Sei que, ao posar, a intenção do olhar seria vender um produto, um sonho, uma ilusão, embalado pela emoção que se tentava passar. Porém, a maestria com que algumas mulheres realizavam essa missão me conduziam à lugares jamais antes visitados… Antes ou depois… Mais velho, talvez tenha vindo a perder aos poucos a capacidade de me perder nos olhos de uma mulher através da imagem.

Outro dia, em um dos Cafés que frequento eventualmente, reencontrei uns olhos do passado. Uma atriz famosa que continuava com o aspecto socialmente aceitável de bela mulher parou à minha frente ao ver o seu caminho obstruído por mim. Eu a reconheci e, inadvertidamente, procurei os seus olhos e os surpreendi menores do que me lembrava por fotos, filmes ou novelas. Pode ser que nunca tenham sido tão imensos, mas os grandes olhos cor de céu pareciam apequenados por processos estéticos que rejuvenesciam a sua face, mas que diminuíam a beleza intangível do oceano que me fez navegar quando moço… Duas visões – passado e presente – imagens em movimento e fixas, quando a vida era mais vibrante porque o meu olhar era virgem…

Pretérito Perfeito

Juvenescimento
Aos 21…

Eu estou me sentindo com 20 anos. estou passando por uma fase de transição que está me renovando as forças. nesta foto, devo estar com um pouco mais que isso, mas poderia passar por um garoto de 16. de certa maneira, eu era tão ingênuo-imberbe-deslocado que efetivamente era um adolescente, mentalmente. nos tempos que era obrigatório apresentar carteira de identidade para assistir a filmes proibidos – como os considerados os de conotação “subversiva” ou sexual – fui obrigado a fazê-lo até os 24 anos. E depois? depois, veio a abertura política e, enquanto eu perdia a virgindade d’alma, continuamos, como coletividade, a nos enganar com promessas de um país que será sempre (e apenas) “do futuro”…

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BEDA / Dos Perigos De Viver

Cajueiro
Cajueiro

Em canção dos Anos 70, que conheci na voz do imenso Wilson Simonal, ouvia: “Papai, mamãe não quer que eu suba no cajueiro. Ela falou se subir eu caio da galha do cajueiro…” (Galha do Cajueiro). Subir em árvores era um perigo, com certeza, mas nenhum garoto deixava de abraçar troncos e agarrar galhos para se posicionarem mais alto e melhor para pegar uma fruta. Fazia parte da formação do repertório de movimentos que a liberdade daqueles dias permitia. Tempos de caminhos desobstruídos e campos abertos.

Jogar bola na rua ou em campos de várzea era programa obrigatório, não no sentido de obrigação, mas de prazer. Antes ou depois da escola (e no intervalo das aulas), os meninos buscavam o perigo de ralar o joelho, lanhar a canela, bater a cabeça. Nossos impetuosos corações nos pediam que agíssemos como se não houvesse amanhã. No máximo, acalentávamos o sonho de nos tornarmos jogadores de futebol.

Ao crescermos, acrescentamos obrigações nem tão prazerosas. Porém, na mesma canção, há a seguinte passagem: “Me tira, mamãe, me tira, me tira deste castigo. Eu subo naquela galha. Não corro nenhum perigo. Eu quero tirar caju. Eu vendo e ganho dinheiro. Me deixa, mamãe, subir, deixa subir na galha do cajueiro!”. O garoto tem consciência que o dinheiro é a maneira pela qual intermediávamos o desejo pelo objeto e a satisfação do desejo.

Não passava pela cabeça que haveria outro modo em conseguir o que se queria, por maior que fosse a privação pela qual passássemos. Em algum momento, em nosso percurso como País, nos desviamos de nossos propósitos de como obter algum bem. Se pudéssemos adentrar na mente de algum garoto desassistido, certamente a facilidade da vida criminosa será muito mais atraente do que trabalhar pesado para conseguir realizar o sonho imediato de conseguir o tênis da moda ou o celular “da hora”.

Ontem, um rapaz de 20 anos foi morto por estar desatento aos perigos de viver nos dias de hoje. Usava fones de ouvido, escutava as músicas de sua preferência, se divertia após deixar a jornada de trabalho. Era noite, estava no ponto de ônibus. Iria para a casa. Não chegou. Dois rapazes, provavelmente da mesma faixa social, montados em uma moto, o mataram para obter o que conseguiu com seu esforço.

Menino, suba no cajueiro! Viva o perigo de viver livremente! Venda caju! Consiga com o seu trabalho e abnegação os recursos para crescer, namorar, casar, constituir família – viver! Que o presente do País não o impeça de sonhar…

https://m.youtube.com/watch?time_continue=35&v=lJOVBAjRvt4

BEDA / Quase Sem Querer

Quase Sem Querer

Eu estava a caminho do meu trabalho, quando ouvi “Quase Sem Querer”, do Legião Urbana. Talvez passe das duas centenas a quantidade de vezes que a ouvi. Cheguei a cantar essa música para um afeto antigo em pleno ônibus na volta da faculdade pelos anos 80. Gostava da letra, apreciava a canção e a sinceridade do Renato Russo ao entoá-la.

No entanto, por uma dessas circunstâncias estranhas, no momento que a ouvi outro dia, o texto dela me fulminou com um raio. Muito do que era dito ali se encaixava perfeitamente em minha vida como se colocasse as últimas peças de um enorme quebra-cabeças. Quase me envergonhei por ver ressurgir o arroubo juvenil de trinta anos antes.

O meu gosto musical mudou bastante e muitas vezes, por critérios de suposta evolução cultural, abrimos mão de apreciar coisas do passado para parecermos mais elitizados ou para não parecer que temos um “presente congelado”. Talvez seja triste que algo feito há décadas repercuta em mim de forma tão veemente, talvez seja saudável.

Em resumo, apenas sei que declaro a minha cíclica humanidade, pois “tenho andado distraído, impaciente e indeciso e ainda estou confuso, só que agora é diferente: estou tão tranquilo e tão contente… Quantas chances desperdicei quando o que eu mais queria era provar pra todo o mundo que eu não precisava provar nada prá ninguém? Me fiz em mil pedaços prá você juntar e queria sempre achar explicação para o que eu sentia. Como um anjo caído, fiz questão de esquecer que mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira. Mas não sou mais tão criança a ponto de saber tudo… Já não me preocupo se eu não sei porque, às vezes o que eu vejo, quase ninguém vê e eu sei que você sabe, quase sem querer, que eu vejo o mesmo que você… Tão correto e tão bonito. O infinito é realmente um dos deuses mais lindos. Sei que às vezes uso palavras repetidas, mas quais são as palavras que nunca são ditas? Me disseram que você estava chorando e foi então que percebi como lhe quero tanto… Já não me preocupo se eu não sei porque, às vezes o que eu vejo quase ninguém vê e eu sei que você sabe quase sem querer que eu quero o mesmo que você…”.

BEDA / Amor, Amar, Amores

AMOR

Tenho a tendência de esquematizar todas as experiências que vivo. Experiências como ensaios, experiências como experimentos, experiências como tentativas. Que normalmente induzem a erros. E erros cimentam o meu caminho. São erros repletos de boas intenções. Portanto, irei direto para o Inferno. Sendo ensaios, me pergunto para quê ensaio, afinal. Apresentarei, ao final de tudo, um grande espetáculo, sem erros? Para quê, se durante os ensaios, acabo por ferir tanta gente, que finalmente me levarão ao ostracismo? Terei ainda muito tempo para ensaiar? E esse espetáculo, quando estreará? Se estrear…

A questão do Tempo é primordial, mas especulo que a Eternidade seja um conceito fora do tempo. Teorizo, ainda, que seja um sentimento de plenitude absoluta, em que sendo alcançando dentro do Tempo, contudo se separa dele, permanecendo no repositório das coisas infinitas – ad eternum. O Amor, por exemplo, poderia ser depositado na caixinha do Infinito? Pareço abarcar o Infinito e o Eterno no mesmo ramalhete, como flores nascidas no mesmo campo. Mas o que é infinito pode não ser eterno ou o que é eterno pode não ser necessariamente, infinito. Porque quando amamos profundamente, esse é um sentimento que será lançado na torrente da Eternidade. Porém, quando direcionamos o amor a algo ou alguém que deixamos de querer, esse amor deixa de ter a qualidade da infinitude. E, ainda, um amor que vivemos intensamente, apesar de ter esfriado com a vivência, pode conter momentos depositados nesse repositório.

Ouço pessoas dizerem o quanto é extraordinário falar sobre aquele amor como se fosse uma história vivida por outros personagens que não fossem elas. Acho muito interessante presenciar pessoas que continuam juntas apenas pela simples lembrança de quando se amaram profundamente. Quando se tem frutos desse amor – filhos – os pais chegam a amá-los mais do que a si mesmos, ainda que sejam a personificação dos ex-companheiros, os quais muitas vezes não somente deixam de amar, como a odiar – o que vem a ser um sentimento-flor pútrido nascido no mesmo campo do perfumoso Amor, tendo como símbolo um anel de metal que ainda une o casal.

Filhos seriam, naturalmente, amáveis para os pais assim como deveria ser também os pais pelos filhos. Contudo, desde os primórdios dos relatos bíblicos, percebemos que essa é uma relação tempestuosa. Considero que também aprendemos a amar aos nossos filhos, bem como o contrário também ocorre. Conquanto, quando o sentimento amoroso se dá em profundidade, ele é Amor – une-se à Eternidade – quando esse sentimento se condiciona às condições externas de tempo e lugar, ele é apenas amor… E amores vêm e vão…

Podemos nos perder em reproduções baratas de algo grandioso que vivemos um dia ou que se ouviu falar alhures. A saudade que fica de um relacionamento intenso poderá ser vista, na distância, como presença na ausência, na falta de uma definição melhor. Quando conseguimos superar a falta que alguém nos faz, podemos alcançar, com o fluxo do tempo, um sentimento de constante comparência do ser ausente, tornando-o, estranhamente, presente.

É dessa forma que sinto a presença, por exemplo, de minha mãe. Não só a sinto espraiar as suas ramificações genéticas sobre o meu corpo, como “converso” com ela o tempo todo. São diálogos mentais, com uma sensação consciente de existência espiritual. Ajudou-me bastante o fato de sonhar com a Dona Madalena, com os seus belos cabelos brancos e sorriso largo. Ao lhe perguntar como estava, me respondeu: “Estou em paz…”. Bastou-me para acordar a partir desse dia com um sentimento de perene saudade sorridente.