Projeto 6 On 6 – Retratos

REALIDADES
Realidades interconectadas…

A imagem acima foi registrada por ocasião do lançamento de meu livro de crônicas – pela Scenarium Plural – Livros Artesanais – REALidade. De cara limpa, sorridente, junto àquelas pessoas que caminham comigo por tantos anos. Seres que foram se unindo ao longo do meu percurso. Na soma de tudo, resultam como se existissem desde sempre. É muito estranho-mágico quando ocorre o processo de não nos reconhecermos mais antes do momento que passamos a sofrer a influência de outros aos quais recebemos de peito franco e desejo indômito de abrir espaço para abrigar grandes amores em nosso coração.


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Escritor e criaturas…

Não apenas pessoas da minha espécie interferem na minha realidade. Convivo de perto com alguns entes que definitivamente me indicam outro modo de ser. O sofá acima não pertence só a mim. As moças que me ladeiam disputam entre si, a chance de ficarem junto ao homem. Antes que venha me envaidecer por tal deferência, sinto me invadir a sensação de subordinação a esse “amor” que suponho ser incondicional. Até para viajarmos ou determinar projetos pessoais, colocamos em pauta o bem-estar desses amigos que nos acompanham pela existência. Sono figli del cuore…


In Hollywood...
In “Hollywwod”…

Não apenas pelas mãos do escritor transfiguro a realidade. Como prestador de serviço na área artística, mormente, musical, ensejo a oportunidade de criar maneiras de simular cenas visuais, pela iluminação e auditivas, pela sonorização. Neste último caso, por sorte, quase sempre trabalho com profissionais de qualidade. Porém, não é incomum termos a “obrigação” de atenuar as possíveis incorreções em interpretações musicais por cantores e instrumentistas menos aquinhoados de experiência e/ou talento. Quanto melhor o equipamento e mais eficiente a operação técnica, maior a chance de conseguirmos maquiar eventuais derrapadas. Porém, nem sempre isso é possível. Nada (para quem assiste) que uma terceira dose, não resolva…


Eu e Nelson...
A vida como ela é…

Encontrei uma maneira de ombrear com Nelson Rodrigues. Apenas em imagem. Quando conheci a sua obra, muito novo, ainda com travas morais baseadas na edificação de uma tessitura social que não dava margens para rompimentos, não gostei do olhar excessivamente erotizado que empregava. As tramas, me pareciam simples, ainda que perturbadoras. Só mais tarde, pude perceber que a suposta simplicidade se devia a serem familiares. Coisas que vi-não-via todos os dias. A vida como ela é… A literatura do mestre cresceu em mim durante os anos seguintes, a ponto de quase não escapar de similaridades, esmaecidas em qualidade, em minha escrita.


Outonal
Perfil, o outro…

Essa foto é a do perfil do Facebook. Mostra como estou atualmente. A não ser em raras ocasiões, por questões temáticas, a atualizo frequentemente. Tento acompanhar a decrepitude constante de minha face. Contudo, sempre tento encontrar maneiras de atenuar rugas de expressão, o nariz torto, a orelha um tanto grande, a queda inexorável dos cabelos… Os óculos, objeto-desculpa pela miopia, tenta impedir que outros olhares atravessem o meu olhar enviesado, as bolsas como reflexo do tempo e pouco sono. A barba, adotei mais recentemente. Faz com que não me pareça tanto com o meu pai, se bem que o surpreenda vez ou outra em meus reflexos espelhados…


Futuro

Eu, no futuro…

Essa é a criança que serei. Crescerei a sorrir. Terei amor de pai e mãe, unidos pelo amor. Minha mãe será tratada com a deferência de quem se dedica à visão que teve quando moça. Que terá honrado o seu sorriso quando adentrou à igreja com o longo vestido branco. A mulher verá seu homem voltar para casa todas as noites, depois da jornada de trabalho. O menino do futuro vivenciará os ensinamentos sem rancor do pai dedicado. Perceberá que ele o ama, assim como a seus irmãos. Acompanhará o desenvolvimento das crianças sem o laivo de frustração por não conseguir levar adiante os grandes projetos de dominação das consciências, apenas porque acredita que carrega a chama da verdade. O menino que serei, não fui. Escritores também têm direito de sonharem finais felizes, mas não conseguem escapar às suas naturezas destruidoras…

Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural

Também participam deste projeto:

Lunna Guedes| Maria Vitoria |Mariana Gouveia

A Luz

A LUZ


Em determinada época da minha existência, estava convicto em viver apenas de luz. Ela seria o meu alimento e o meio pelo qual caminharia. Seria um asceta. Estava convicto disso. Convicção é uma graça só concedida aos ignorantes, aos profetas, às crianças, aos inocentes ou aos loucos. Eu ainda apresento algumas convicções. Sem elas, sucumbiria ao relativismo imposto pelo Manual da Isenções de Posicionamentos Pessoais. Preciso manter meus preceitos, ainda que à revelia das modas e das opiniões coletivas consagradas como fatos da vida (até a próxima tendência alterá-los). Sem certezas, me perderia na escuridão, apesar de gostar dela para contrapor à claridade solitária. Porque, ao final de tudo, estamos sós.

Por caminhos que o reconhecemos apenas após percorrê-los, ainda que as indicações sejam claras, acabei por trabalhar fisicamente com a luz. Eu e meu irmão somos sócios em uma pequena empresa de prestação de serviços em sonorização e iluminação para eventos. Por alguns anos, ao ser solicitada a minha profissão no preenchimento de algum documento, assinalava sem estar muito convicto: Iluminador.

Consigo viver de luz, portanto. E som. Participo de festejos, de congraçamentos, de diversão. Sou do circo, não do pão. Mas me alimento dos momentos que se revelam luminosos, principalmente após a terceira dose dos participantes. Os meus possíveis personagens se apresentam. O escritor presta homenagens transversas. Faço uso da palavra que me salva. E me condena. Meu vício e alimento.

Pela palavra, me revelo, me identifico, me abismo. A cada queda, uma revelação. A cada texto, glória e decepção. Disso, se diferenciam dos filhos. Apesar de parecer uma gestação. Em 2017, publiquei um livro – REALidade, pelo selo Scenarium Plural – Livros Artesanais. Eu me senti feliz pela oportunidade de trazer a minha expressão para o velho formato. A palavra cristalizada em letras impressas tem um fascínio estranho. Quase como se fosse a construção de um portal (a)temporal baseado em Física Quântica. A sensação parece ser a mesma. Viajo sempre.

Na passagem de 2017 para 2018, trabalhei na minha função. Realizamos um belo evento. Recebemos como retorno a plena satisfação do público. Após todos se retirarem, restou a nós, responsáveis pelos equipamentos que dão suporte à apresentação dos artistas do canto e da dança, desmontar o “Circo”. Ao final, para “descerrar a cortina”, apaguei as luzes do salão. Foi então que percebi alguns dos copos com as velinhas ainda acesas sobre as mesas. Bruxuleantes, as luzinhas invadiram o meu olhar de sonhador. Me sentindo abençoado, parti dali estranhamente iluminado e iniciei um novo calendário.