Projeto Fotográfico 6 On 6 – Passos | Cenários

Esta cidade que se come, nesta manhã, reaparece em suas linhas retas-irregulares, em cinza-cimento, imersa em cinza-nebulosidade. Linda, de tão feia. Porque quem a ama, bonita lhe parece – distorção que todo amor gera, abrigado por suas praças sem cuidado.

Cena (2)
Retas-irregulares, em cinza…

Quando vejo São Paulo aparentemente desabitada, como nesta manhã-madrugada, sei que por trás de suas portas, paredes e janelas, o drama da vida se apresenta implacável e comovente… Amores acordaram abraçados… Traições foram postas à luz… Amizades passaram a noite insones apenas no bate-papo livre e sem rumo… O desejo de ser feliz pode ter encontrado guarida nos peitos e paixões nos corpos… Ou, tristemente, podem ter se perdido entre os desvãos dos prédios e das ruas sem saída da metrópole insana que desperta…

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Fome de aço…

Tenho fome de asfalto, granito e aço. Eu não sei o que acontece, mas não são poucas as vezes que eu sinto uma tremenda vontade de abocanhar esta cidade. Degluti-la quase inteira, absorvê-la e vomitá-la, renovada e rediviva. Traduzida.

Cenas (2)
Traduções…

Por caminhos antigos, não percebo os escombros. Mas histórias passadas, que um dia foram protegidas por tetos, quartos e salas – lares e comércios – negócios de viver. Espaços contidos de expressão. Lembro as roupas, os comportamentos, adivinho os pensamentos – déjà-vu, atavismo ou alucinação.

Cenários
Escombros…

Progressivamente, o sol se ergue por entre as colunas e lacunas. Durante o dia, pessoas de todas gerações e procedências se cruzarão por suas calçadas, dobrarão suas esquinas. Serão carregadas feito vírus por trens subterrâneos e vias elevadas, por ônibus e automóveis. Cumprem a magna determinação e enlevado desejo do monstro – querer ser maior e pior.

Cenas (3)
Leituras…

Seus personagens ressurgem anônimos e marcantes. Tento lê-los… A moça deselegante e amarfanhada, dona da lojinha de frutas, que arranja as prateleiras. O jovem forte e bonito, negro, que reabre o salão afro de cabelereiros e carrega uma camiseta em que se lê: “I ran like a slave. I walk like a king”. Na padaria, enquanto toma café, o operário com capacete de segurança, lê um livro técnico de engenharia. No trem, uma moça, entretida com um livro religioso, permanece em pé, apesar dos inúmeros bancos vazios.

Cena (1)
Anônimos…

São Paulo é meu carma.

Participam deste projeto: Cilene Mansini | Maria Vitoria | Mari de Castro | Lunna Guedes | Mariana Gouveia

BEDA | Lixo

 

LIXO
Jóias descartadas…

Ao passar pela calçada que ladeia o piscinão, tive uma espécie de déjà-vu ao encontrar objetos antigos jogados junto ao gradil. Parecidos com esses, já os encontrei no gramado lateral à Avenida Inajar de Souza. Como já havia encontrado vários na minha adolescência, quando eu e meu pai catávamos lixo nos bairros mais nobres de São Paulo, com a nossa Gertrudes, uma Kombi. Era um lixo especial – livros, brinquedos, metais, papel, papelão de excelente qualidade – e discos. Como os que encontrei hoje. Movido por um impulso do antigo catador de recicláveis, reuni e recolhi os mais de vinte Long-Plays, datando do final dos Anos 60 até o início dos Anos 90, justamente à época que os CDs – Compatic Discs – começaram a imperar.

Esses exemplares são como jóias do tempo. É inacreditável que tenham se desfeito delas sem ao menos considerar doá-las ou até vendê-las para alguém interessado. Várias capas estavam umedecidas ou um pouco mofadas, mas os discos estavam preservados, necessitando apenas de uma limpeza mais atenta. Não podia deixar de homenagear o esforço humano na realização de obras de uma época em que praticamente não havia pirataria e a vendagem de discos correspondia à real dimensão do sucesso de um artista. Não teriam sobrevivido tanto tempo, se fossem CDs, mídias que, apesar de mais recentes, provaram-se menos duradouras que os antigos vinis.

Havia produções de soul, samba, jovem guarda, disco, folk, populares coletâneas de novelas e rock. Ou seja, um acervo de gosto bem eclético, reunido provavelmente ao longo de anos. E, então, descartado. Suponho que por uma pessoa que não considerasse tão importante preservá-lo, apesar de uma possível conexão emocional. A minha intuição é que não tenha sido o antigo proprietário, talvez já morto, mas alguém próximo, porém desvinculado sentimentalmente desses porta-emoções-passadas.

Uma característica de nossa pobreza é associar à grande produção de lixo o status de riqueza. Considerado descartável, acaba por se tornar um desperdício de excelente fonte de recursos. O advento da coleta seletiva poderia responder a isso, mas em quase nenhum lugar do País encontramos vontade política para implementá-la. Outro sinal de nosso atraso é tratar um produto cultural com desprezo, principalmente por vivenciarmos a cultura da descartabilidade. Enquanto isso, ainda que atualmente a produção musical seja mais virtual do que física, a sensação é que cada dia mais o lixo está a invadir nossos ouvidos e nosso espaço mental…

Participam do BEDA:  Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari

BEDA | Você Me Fez Chorar

Rádio
Ondas sonoras

… “Você me fez sofrer, você me fez chorar…” – Teria eu levantado bem mais cedo, quando despertei às sete horas da manhã, e poderia ter aberto as minhas janelas, ter sentido o gostoso ar frio matutino deste Agosto e ter ouvido os pássaros retardatários, que ainda não teriam saído de seus galhos hospedeiros para passear, enquanto ainda teria visto as árvores do meu quintal receberem a visita dos vizinhos alados da redondeza. No entanto, voltei a dormir, ainda cansado do trabalho do dia anterior, e acordei com a música urbana, produzida pelos humanos, três horas depois.

Os meus vizinhos, em dois ou três pontos, reproduziam as canções de seus gostos. Que eles acreditem que todos ao seu redor também apreciem o que ouvem, é algo que não consigo entender… “Você me fez sofrer, você me fez chorar…”. Mas, sou daqueles que tentam encontrar sempre um propósito em tudo, além de ter a horrível tendência em construir enredos para análises sociológicas em cada movimento dos seres da minha espécie biológica.

Ainda garoto, pensava em me tornar um asceta, me refugiar em alguma montanha ou vale esquecido e fugir das pessoas, pois convictamente, me sentia um E.T. Atualmente, vivo em um vale, cercado de morros, na periferia de São Paulo, e sei que sou um ser gregário, que estou no mundo e que apenas na convivência entre nós, humanos, poderemos encontrar o meio termo onde resida a paz. É claro que tudo isso em tese, porque há ocasiões que perco facilmente a estribeira.

Enfim, estar equilibrado é um exercício permanente! Na guerra de sonoridades, o tema preferido girava em torno de amores mal realizados… “Você me faz sofrer, você me faz chorar…”. Em uma época passada, o Brasil viveu uma fase de letras riquíssimas, mormente espraiadas em sambas-canções de melodias inesquecíveis (“Meu Mundo Caiu”, de Maysa, é uma delas, por exemplo) e até poderíamos dançar ao ouvi-la, acompanhando o seu compasso lento, de rostos e corpos colados, vivenciando a tristeza de uma maneira libertadora. Hoje, se isso acontece, será sempre através de músicas com andamento acelerado, em que as pessoas dançam alegremente com um sorriso no rosto, volteando em piruetas e saracoteios.

Igualmente, no samba, que inaugurou desde os seus primórdios essa tendência, muitas vezes ouvimos versos destilarem o sofrimento em passos em que os pés respondem com energia e alegria à revolta que sentimos pelo amor que nos feriu. Eu me lembro que, quando menino, virgem de corpo e alma, adorava sofrer os amores que não havia ainda vivido. Lupicínio e Elis me faziam companhia. Hoje em dia, as referências são outras… “Você me fará sofrer, você me fará chorar…”.

Participam do BEDA:  Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari

 

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Quem Sou Eu…

8
Família Ortega

Eu sou eu e muito mais. Sou elas  — companheira e filhas. Quando penso na minha vida sem a família (mais próxima), por mais imaginação que tenha, não consigo conjecturar. Talvez, não queira. Por elas, me salvei de mim. Agora que são não mais “minhas”, mas delas mesmas, me proponho seguir sem minhas filhas como desculpa para não me enfrentar. Escrever me ajuda. Sei que amam ao pai e ao marido, apesar de meus defeitos. Alguns, cultivo com cuidado de quem sabe que precisa deles para se identificar. Quando for perfeito, morrerei. Ou melhor, finalmente morto, me tornarei perfeito.


13
Turma da Scenarium Plural

Sou escritor. Sou da SCENARIUM PLURAL. Encontrei a minha turma. Mas são escritores. São bichos arredios. Mundos á parte. Universos feitos de letras, linhas, sinais, palavras…  — textos. Só os encontro oportunamente. Congregamos em igrejas profanas. Geralmente regadas à café. A Pastora-Editora Lunna nos reúne, nos une e nos decompõem em unidades propulsoras de histórias. Lume na noite escura, pelo caminho podemos ver os reflexos do brilho lunar em nossas criações. Agradeço e oro orações coordenadas e subordinadas adjetivas, adverbiais e substantivas. Torno-me substancial…


12 São Paulo: Paulista, Tiradentes, Matarazzo, Largo do Japonês e Marquês de São Vicente

Eu sou (de) minha cidade. Mas São Paulo não se permite pertencer a ninguém. Quem a quer, descobre que nunca a terá. É rebelde aos afagos de qualquer um. É pedra e movimento. Esfinge, sua lógica é de devorar seus filhos-amantes e regurgitá-los como se fossem resultado de uma ressaca homérica. Vive em delírio, louca cidade, que amamos. Múltipla e de personalidade cambiante, essa é sua condição permanente. Provinciana e metropolitana, viajamos por estados em cada rua. Abriga ilhas de calor. É fria, de regelar. Quente, de queimar. No topo do planalto, é mar aberto para quem tiver coragem de navegá-la. E nela, morrer afogado.


14
Horizontes…

Sou também os horizontes intangíveis, como se fossem imagens de alienação. Tentativa vã de pertencer a outro estado de espírito. Retratos em imagens fixas, para não deixar escapar a substância etérea de sua impermanência. Estamos exterminando os horizontes. São “espécies” em extinção. A não ser que nos afastemos demais, não os encontramos sem que haja uma intervenção humana a sujar a paisagem com as marcas de seus dedos. Lua, sol e estrelas  — interditamos a sua visão. Um dia, cessarão de existir. Plantas, animais, espíritos da Natureza  — mataremos sem piedade com nossa ganância. E, então, juntos morreremos. Melhor dizendo, se sobrevivermos, seremos como casca sem alma…


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Trabalhar com entretenimento – função e prazer

Eu sou o meu trabalho. Não o aceitava antes tanto quanto agora. Não gostava dos horários irregulares, das noites (manhãs) mal dormidas, dos jejuns forçados pelo tempo escasso ou falta de planejamento de contratantes e de nós mesmos. Adoeci por não conseguir controlar todas as demandas que obrigava. Até que decidi entender que, para sobreviver a ele, teria que começar a apreciá-lo como parte de minha vida, não apenas como necessidade para ganhar o meu sustento. Trabalhar não é um sonho com o qual separamos consciência e vivência. Faz parte da existência e deve ser apreciado como tal. E, afinal, trabalhar com o que se gosta é um barato.


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Todas as idades…

Eu sou eu e muito mais ou ninguém. Já fui o garotinho a correr feliz pela praça, fui o menino tímido que se imaginava David Bowman (Keir Dullea), de Space Odissey; fui o cabeludo que não se importava com a aparência; o brincalhão, no Carnaval; o escritor intrigado com a passagem do tempo e sou o velho que pega o trem azul com o sol na cabeça. Sou todos e, em resumo, nenhum deles. Tanto quanto os replicantes de Blade Runner, tento confirmar minha existência pela captura de momentos cristalizados. Sempre me surpreendo por não os lembrar como fatos, mas como sonhos de alguém. Minha memória é divagante. Apenas não me esqueço de quem não sou…

P.S.: Ah, se tivesse que haver uma definição definitiva de quem sou, respondo  — sou Mar. Se pudessem me ouvir, ouviriam dentro de mim o quebrar das ondas a reverberar. Se pudessem me vasculhar, sentiriam os fluxos e os refluxos da água salina a passear por minhas artérias e veias. Se pudessem me navegar, perceberiam o quanto pareço um na superfície e outro em minhas profundezas. Se morresse no mar, seria doce…

https://www.youtube.com/watch?v=dpmG5fd63cg

 Participam deste projeto:

Maria Vitoria |Mariana Gouveia | Mari de Castro |Lunna Guedes  | Cilene Mansini

 

Esteira do Tempo

Esteira do Tempo
Esteira rolante da Linha Amarelado Metrô de São Paulo*

Aconteceu pela primeira vez há alguns meses, numa sexta-feira. Enquanto caminhava, como todos os dias, pela esteira rolante em direção à Linha Amarela, pareceu que se ausentou por alguns segundos. Quando voltou a si, via a mesma pessoa que vira antes do apagão a se deslocar no sentido inverso. Teve uma visão, de um outro lugar. Talvez conhecido, não lembrava de onde. Um platô, um grande vale abaixo, com construções que se apequenavam á distância, ao fundo. Do outro lado, uma grande várzea que se espraiava a perder de vista.

Apesar de instantânea, foi muita intensa a sensação de deslocamento. Sugeria não apenas outro lugar, mas outro tempo. Cheiro de mato e flores, sons naturais – vento, água, canto de pássaros e coaxar de sapos. Passou o final de semana a esperar que voltasse a repetir a experiência na segunda-feira. Era um desejo novo, a substituir a rotina desgastante e que encarava com a impaciência de caminhos obstruídos.

Na segunda, de manhã, ao passar pela esteira, se frustrou por não se deslocar para “lá…”. Um tanto decepcionado, chegou ao edifício onde trabalhava, na Paulista. Lembrou-se quando, menino, presenciou uma rápida chuva de meteoritos – episódio que nunca mais se repetiu – um sentimento de conexão com o Universo.

Ao final do expediente, ao percorrer o mesmo trajeto, voltou a viajar. Uma sensação mais duradoura. A mesma visão, com maior número de detalhes. Percebeu a região da Paulista, sem construções, totalmente desabitada, pássaros a voar em bandos. No fundo do vale, na atual região do Centro, se deparou com a São Paulo nascente, reflexos do sol nos sinos das cúpulas das igrejas. Ao voltar, sentiu-se tão bem…

A cada deslocamento, conseguia chegar cada vez mais perto do aglomerado de casas e ruas. Evitava conversar com as pessoas que encontrava para não intervir naquela realidade. Cria que não o vissem, até que uma delas o saudou. Pesquisou sobre as vestimentas e a arquitetura, a cada retorno. Meados do Século XIX. Uma cidade tipicamente interiorana. Sensação cada vez forte de pertencimento, como um filho no ventre de sua mãe.

Era dramática a diferença entre o conjunto de ruas estreitas que percorria – horizontes abertos contra a imensidão das sucessivas avenidas – pelas quais se deslocava-preso à ônibus ou carros. O relacionamento entre as gentes parecia fluir de maneira natural, apesar das diferenças sociais. O ar, limpo, carregava um cheiro de esperança e mudança.

Tomou a decisão de mudar de tempo, definitivamente. Tudo sugeria que o deslocamento se dava por desejo pessoal. Porém, São Paulo não quis. Tanto quanto como quando começou, deixou de ter as visões-viagens-presenças. Desaparecido do outro lado, especulou que tenham imaginado que o estranho visitante tenha rumado à outras paragens. Restou-lhe a dor de perder uma cidade inteira nas esteiras rolantes da Linha Amarela.

*Foto in: http://viatrolebus.com.br/2013/10/ligacao-entre-estacoes-paulista-e-consolacao-ganhara-novo-tunel/