Projeto Fotográfico 6 On 6 / Geometrias / Aparências

De início, Geometria é a parte da matemática que estuda rigorosamente o espaço e as formas (figuras e corpos) que nele podem estar. Porém, as suas variadas expressões nos induzem que usar o termo Geometrias não seja contraditório, mas complementar – analítica, plana, descritiva, cotada, elementar, euclidiana, não-euclidiana, espacial ou a de n dimensões. De maneira generalizante, a maioria das pessoas pouco dá importância às questões geométricas, apesar de seus corpos viverem num determinado espaço geometricamente quantificado.

Essa desconexão não as impede de continuar respirando, mas dá bem a dimensão da ignorância que graça entre nós no sentido de entendermos como pouco estamos ligados à beleza matemática da Vida. Todos nós praticamos ações intermediadas pelos elementos geométricos. Apesar de não possuir definição, dão base para eles a reta, o ponto, o plano e o espaço. São noções primitivas de funcionalidade. Dado tantos fatores que estabelecem a nossa vivência em continentes e mares, florestas e montanhas, a vibração vital é modulada através dos corpos incongruentes dos seres vivos geometricamente espalhados pela superfície da Terra – figura arredondada, apesar de opiniões ao contrário –, um dos muitos planetas presentes no Espaço infinito, entre estrelas, galáxias e buracos negros.

Dentre as questões matemáticas mais impressionantes que conheço estão a dos números fractais. São conhecidos como fractais as formas geométricas que se repetem infinitamente em diferentes tamanhos. Ou seja, ao observar-se um fractal em diferentes escalas, é possível perceber o mesmo padrão, ainda que tenha tamanhos diferentes. Esses padrões matemáticos infinitos são apelidados de “impressão digital de Deus”. Os fractais estão ligados a áreas da Física e da Matemática, chamadas Sistemas DinâmicosTeoria do Caos, porque suas equações são usadas para descrever fenômenos que, apesar de parecerem aleatórios, obedecem a certas regras – como o fluxo dos rios, o formato de uma montanha ou a formação dos galhos de uma árvore.

São Paulo contém tantas formas geométricas que poderia representar o exemplo típico de confusão visual que mais assusta do que acolhe. Para quem a ama, é atraente e desafiadora. Nesta imagem, colhida em dia de chuva, pela manhã, o caminho em linha reta sempre poderá ser obstruído por uma bela visão… ou por hordas de seres humanos deitados embaixo de alguma marquise, cobertos por panos puídos.

“Longe das cercas embandeiradas que separam quintais, no cume calmo do meu olho que vê, assenta a sombra sonora de um disco voador…”. Eu me mudei para esta região em 1969. No alto dos morros, apenas o verde imperava onde atualmente se observa construções de tijolos aparentes em sua maior parte. São como quadrados e retângulos alinhados em áreas em declive. Engenhos da arte da sobrevivência. Essa região pertencia a uma antiga fazenda loteada em terrenos de 250m², em média. Isso, na parte “plana” do vale, onde podemos ver as casas desta rua, na várzea do Rio Guaraú que em tempos idos inundava a região.

Essa é a Gertrudes, nossa Kombi (em registro de 2013) que, nos anos iniciais do Século XXI, serviu para transportar a nós e aos equipamentos da pequena empresa de locação de equipamentos de som que meu irmão e eu temos para as mais diversas localizações, dentro do Estado e para além da fronteira. Em Portugal, as Kombis são chamadas de Pães de Forma. Basicamente, é um veículo em forma retangular, nada anatômico do ponto de vista do conforto, mas tão funcional que a chamamos de “coração de mãe”, pois tudo cabe nela, se bem posicionado. Um enigma em termos matemáticos… como se fosse um universo paralelo.

O círculo de fogo “lá em cima” gera a energia que nos aquece. Sem o Sol, nenhuma forma de vida neste planeta existiria. A Terra está na distância exata para que não desfaçamos em pó ou nos enregelemos a ponto de sermos estilhaçados feito pedações de vidro. No céu, as nuvens navegam ao sabor do vento, se formam e se desformam ao “gosto” da pressão atmosférica. Carregam partículas que podem se precipitar em forma de gotas d’água. Tudo é forma, aparência, ainda que gasosa ou aquosa.

O Homem não inventou a roda. Apenas descobriu como utilizá-la para se locomover mais rapidamente e para carregar maiores pesos com o auxílio de animais como bois e cavalos, revolucionando a Civilização. Segundo Platão, a roda já existia no Mundo das Ideias, também chamada de Teoria das Formas. Mais cedo ou mais tarde, seria natural que se materializasse. A forma circular é utilizada para vários fins, desde arquitetônicos até mecânicos, além de comparecer como elemento essencial em vários esportes na forma da bola. Neste registro feito em movimento desde as Marginais do Rio Tietê, sugere mais uma pintura do que uma foto de uma roda gigante. Uma das maiores do Brasil, está localizada no Parque Villa Lobos, sendo uma atração turística recente na capital paulista.

Participam:


Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Suzana Martins / Lunna Guedes

BEDA / Aleatoriedades Temporais

O Facebook não sei quanto mais tempo durará. Quando surgiu o Orkut nem cheguei a usar todas as suas possibilidades e não participava de grupos. O Facebook passou por cima dele rapidamente como um trator e logo se tornou hegemônico. Poder que se estendeu para outras formas de apresentação, como o Instagram. Hoje, fazem parte de um conjunto de aplicativos que compõem a Meta — em referência ao Metaverso — uma espécie de universo virtual paralelo. Enquanto vivia a sua primeira fase, eu utilizei o Facebook como repositório de textos, imagens e assuntos tão aleatórios quanto crepúsculos ou observações sobre temas cotidianos. Eis alguns exemplos.

Metalinguagem (2021)

Em tempos de falsa concretude, das palavras cada vez mais estioladas, das imagens empobrecidas, dos pleonasmos cada vez mais reais, dos passos maldados, do ladrão de verbos e verbas, pede-se encarecidamente — não pisem na metalinguagem!

Asas… (2020)

A cada dia que perguntamos algo ao céu,
ele responde de forma diferente.
Mas o sentido é o mesmo — a vida
é movimento e transformação…

Moema (2020)

Ao ver o sol se pôr em Moema, atravessei o meu olhar através dos prédios, casas baixas, árvores, colinas, vales e rios para cada vez mais fundo no Tempo. Moema tem origem no Tupi “moeemo”, calcado no gerúndio, que quer dizer “adoçando”. Transformado para o feminino, significa “aquela que está adoçando”. O nome foi criado pelo Frei de Santa Rita Durão, para um personagem do seu famoso poema “Caramuru”, que conta a história do náufrago português Diogo Álvares Correia, no tempo em que viveu entre os índios Tupinambás. Por alguns instantes, voltei a eles. Inocente do destino do meu povo que morrerá-morre-morreu. Outra possível versão sobre o significado de Moema é “mentira”… 

Bethânia (2017)

Bethânia… É comum me sentir como ela… Sempre tentando me adaptar aos humanos…

Mooca (2011)

São Paulo convive com características de cidade pequena, em várias de seus caminhos, mesmo os mais movimentados. Na Rua dos Trilhos, que fica no Bairro da Mooca, podemos presenciá-las à esquerda, em casinhas que resistem com a mesma fachada desde que foram construídas, nas primeiras décadas do século passado. À direita, resquícios de uma das últimas linhas de troleibus da cidade.

Sarah (2015)

Este é o túmulo de Sarah. E quem foi Sarah, que faleceu aos três anos e meio de idade, em 1999? Não sei, mas ao passar mais uma vez junto ao Cemitério da Saudade, aqui em Caieiras, onde estou trabalhando, não deixei de me emocionar ao ver a sua foto, através do muro baixo, onde o seu corpo descansa. Em uma placa sobre a lápide, ao lado dela, pode-se ler: “Sarah, você é o sol que brilhará eternamente”. Estou de TPM — Temporada de Piedoso Melindre — momentos em que tenho vontade de chorar por qualquer coisa, desde o latido de um filhote de cachorro até a imagem de uma Maria-Sem-Vergonha se abrindo. Caminhei algumas quadras com a expressão pesarosa de quem perdera alguém muito próximo, em um dia em que o Sol se fez ausente, como a anunciar a chegada do Outono. Logo, tive que me refazer, não sem antes deixar cair uma ou duas lágrimas por aquela criança que mal ultrapassou a primeira infância como tantas no Brasil

Participam: Alê Helga / Mariana Gouveia / Lunna Guedes / Roseli Pedroso / Cláudia Leonardi Suzana Martins / Dose de Poesia / Lucas Armelim / Danielle SV

BEDA / Projeto Fotográfico 6 On 6 / Arquitetura Paulistana

Ontem, eu passei pelo Centrão e o meu olhar encontrava a chocante disparidade entre aquele conheci e o que presenciamos hoje — degradado — apesar de haver várias construções sendo restauradas, além de novos empreendimentos na Avenida Rio Branco. O velho cruzamento da Ipiranga com a São João, nem chega perto da outrora movimentação que inspirou Caetano a compor Sampa. Alguma coisa aconteceu no meu coração: a melancolia de ver essa icônica parte da cidade com grandes construções esvaziadas e pessoas jogadas pelas calçadas em condições precárias de subsistência. Ainda mais com a política de limpeza visual das barracas onde ficavam durante o dia, já que durante a noite o vazio toma conta do asfalto e corações.

Por trás desses tapumes, mato e restos de entulhos de parte do que foi o antigo prédio que foi habitação de despossuídos depois de ter sido Sede da Polícia Federal em São Paulo por 33 anos. O Edifício Wilton Paes de Almeida, localizado na Rua Antônio Godoy, foi desocupado em 2003. Gradativamente, através de movimentos de sem-tetos, sem condições adequadas, o prédio foi transformado em uma grande armadilha. Desabou, depois de um incêndio, em 1º de Maio de 2018. A Igreja Evangélica Luterana de São Paulo — de 1908 —, a edificação ao lado, atualmente reconstruído, também sofreu, bem como um edifício próximo, além de dois do outro lado da rua. Representou, de forma contundente, o quanto a política de ocupação da cidade é disparatada em relação à realidade. Nessa região, o potencial de moradia de qualidade é enorme, próxima de muitos serviços bem estruturados. Falta um programa que envolve vontade política para ser implementado.

Só em outra realidade bem interiorana que não São Paulo, a parte traseira de uma igreja é um local mais calmo. Principalmente se essa igreja for a Catedral da Sé, em frente da qual a cidade tem o seu Marco Zero. Bem próximo dali, os Jesuítas Manoel da Nóbrega e José de Anchieta construíram uma casa que deveria se tornar o colégio onde pretendiam catequizar os gentios dos Campos de Piratininga comandados pelo Cacique Tibiriçá. Ocorreu em 1554.

Em primeiro plano, esse tronco da centenária Figueira-Brava já há muito tempo dava sombra e descanso para os viajantes que transportavam cargas e mercadorias. Lá, podiam encontrar água para se refrescarem, assim como matar a sede dos animais — cavalos e burrros-de-carga. Mais adiante, podemos ver o Obelisco de Piques, de 1814, o mais antigo monumento de São Paulo, localizada no conjunto que chamamos de Ladeira da Memória, que desce em direção à Praça da Bandeira. É considerado um símbolo e referência do processo de urbanização da cidade.

Subindo a Avenida da Consolação, em direção a uma parte mais alta do relevo no qual se assenta a Avenida Paulista, encontramos a necrópole conhecida como Cemitério da Consolação, fundado em 1858. O então Cemitério Municipal foi criado com o objetivo de garantir a salubridade e evitar epidemias. Era uma tentativa de alterar o hábito de sepultar os corpos dos mortos em torno das igrejas. A aristocracia formada pelos cafeicultores transformou o local em um templo de ostentação da burguesia paulista. A arte tumular que lá se encontra é exemplar em termos artísticos, pois vários escultores de renome foram contratados para executarem trabalhos rebuscados. Há outros mais simples em temáticas, assim como há vários nos que poderíamos passar o dia todo para dissecarmos suas referências.

Em vários pontos de São Paulo encontramos enormes e velhas chaminés que eu adorava desenhar quando garoto, expelindo a “feia fumaça que sobe, apagando as estrelas”. Representam a antiga vocação industrial da cidade que, atualmente, é predominantemente ocupada por empresas prestadoras de serviço e comércio. Muitas de suas espaçosas instalações são transformadas em centros de compras ou eventos, quando não vem abaixo para o ocupação de condomínios residenciais. A transformação constante de “campos e espaços” é a característica principal deste ser vivo devorador de memórias e referências pessoais. É como se nos avisasse desde cedo: “não se apegue!”.

E chegamos ao “X” da questão: para onde vamos como cidade? Mal nos acostumamos com um “centro econômico”, surge um outro em um rincão distante do município que se expande para cima e para os lados. Estabelece critérios tão aleatórios quanto injustificáveis, a não ser na mente de engenheiros do caos que creem e incentivam esse processo como parte intrínseca da voragem que devemos continuar a viver — sem freio e sem fim — para o bem do invisível e poderoso Sr. Mercado. Ao mesmo tempo, há movimentos humanistas que tentam transformar este recanto de dor e frieza em campo de criação de novas estruturas. A vocação cultural é algo inegável. Para quem quer e tem tempo, as possibilidades de desenvolvimento nesse campo, encontrará programações sem custo. Esse dinamismo pode ser a saída para o imbróglio que é vivermos numa cidade cortada por rios mortos e ar poluído, buscando conscientemente saídas simples e eficazes para nos tornarmos cidadãos de uma cidade melhor.

Participam: Alê Helga / Mariana Gouveia / Lucas Armelim / Lunna Guedes / Roseli Pedroso / Cláudia Leonardi / Suzana Martins / Dose de Poesia / Danielle SV

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25 De Janeiros Passados Presentes

Sobre Os Jesuítas (2019)

Este painel se encontra à esquerda do saguão de entrada da Casa de Portugal, na Avenida Liberdade. Mostra o jesuíta português Manoel da Nóbrega entre os gentios da terra, em postura de força impositiva, apesar de apresentar, humildemente, os pés descalços. Se visitarmos um estabelecimento oficial espanhol em São Paulo, lá encontraremos a figura do espanhol José de Anchieta, a catequizar os nativos dos Campos de Piratininga. Oficialmente, os dois jesuítas, pertencentes à Companhia de Jesus, foram os responsáveis pela fundação desta cidade que hoje completa 465 anos de nascimento, dada a inauguração da choupana que serviria de escola e moradia. Por uma confluência de fatores, São PauloSampa, para os íntimos — tornou-se o que é. Qualquer definição que se dê a ela, em pouco tempo deixa de ter sentido, pois a metamorfose permanente é seu único traço definitivo e definidor. Em São Paulo nasci, vivo e espero morrer, a saber que já fui muitos e serei outros tantos até o fim — quando dispersarei meus átomos por esta terra que me formou.

463 Anos (2017)

Nesta imagem, homenageio a minha cidade. Eu a produzi às 6h da manhã do horário de verão, ao passar pela Ponte da Freguesia do Ó. Quis captar a Lua, em sua fase crescente. Quase não conseguimos percebê-la. As luzes das Marginais roubaram a cena, separadas pela escuridão do leito do Rio Tietê. De forma indireta, é uma maneira de reunir símbolos importantes desta metrópole — um rio morto pela poluição, vias de locomoção que estão normalmente congestionadas, luzes que nos confundem em vez de revelar, a beleza dos astros, esmaecida pela fumaça. Contudo, não viveria em outro lugar…

Feliz aniversário, São Paulo! Pena que o nosso coreto esteja bagunçado… (2014)
Foto feita em movimento sobre a Ponte Pompéia — paisagem hoje alterada — de 2012

Como um paulistano típico pode homenagear a sua cidade? Talvez trabalhando, como estou fazendo hoje. Nesta imagem, feita dois meses antes, podemos ver o casarão da família e duas das chaminés que compuseram o complexo das Indústrias Reunidas Matarazzo, na Barra Funda, na avenida que leva o nome do seu patrono — Francisco Matarazzo — símbolo da riqueza que levou São Paulo a ser, para o bem e para o mal, esta cidade que amamos e odiamos, como ocorre em toda relação de paixão.

Projeto Fotográfico 6 On 6 On 6

Para este dia, a Lunna programou colocarmos uma foto para cada dos últimos seis meses deste 2022 que se encerrará em 25 dias. Foi interessante rever imagens que a minha memória foi aos poucos jogando para escanteio. Especulo que minha postura em não me apegar a situações passadas e focar no Presente talvez ajude nesse processo. O benefício dessa condição é me surpreender com situações que ganham novo olhar. Para balizar as escolhas feitas, me propus colocar quadros que são recorrentes, como luares e crepúsculos, fotos com familiares, meus passeios por Sampa e com os meus companheiros de quatro patas.

O mês de Julho ainda guarda a temperança do Outono, mas o Inverno costuma ampliar a descida dos termômetros, ainda que nosso clima esteja em transição devido a todas as circunstâncias que influenciam as variações de calor. Alguns entardeceres são pródigos em luminosidade feérica e cores. Ao mesmo tempo, como ocorre nesta imagem, as luzes da cidade ajudam a criar um clima de passageira beleza inesperada.

Apesar de Agosto ser o mês ideal para fotografar crepúsculos, devido à obliquidade solar, preferi retratar uma manhã em que eu circulei pela região central de São Paulo. Este edifício sempre me impressionou por sua beleza e imponência. Como fundo, um azul celeste. Chama-se Edifícios Viadutos, com função residencial. Construído entre 1950 e 1956, seu estilo mescla Art Nouveau, Art Decó e Holywoodiano. Tombado pelo CONPRESP, foi restaurado em 2014. Tem como arquiteto e engenheiro, Artacho Jurado, responsável por várias belas obras da cidade, que eu conseguia identificar assim que as via. Esta também é uma oportunidade para falar desse homem incrível. Filho dos imigrantes espanhóis Ramón Artacho e Dolores Jurado, começou a trabalhar na década de 30 e sua produção se aprofundou nas décadas de 40 e 50. Apesar de não ser arquiteto, Artacho Jurado idealizava os prédios e pedia para algum arquiteto assinar as plantas. Artacho não frequentou escolas porque seu pai, anarquista, se recusava a deixar seu filho jurar a bandeira, cerimônia obrigatória nas escolas da época.

Setembro, quando entra, deveria ser para boas novas. No entanto, em ano eleitoral, aumentou de forma descomunal a pressão sócia-econômica-política-psicológica-mental-estrutural por conta das campanhas eleitorais. Envolvia pautas totalmente fora de contexto (aparentemente), mas para metade da população eram pertinentes à administração pública. A defesa da tradicional família brasileira ganhou ares rodrigueanos, mesmo porque como todos sabemos, a disfuncionalidade da famiglia palaciana une todos os ingredientes de um drama daqueles que envolve transgressões de todos os naipes. Eu estava com problemas na minha conta, que sofrera um golpe. Tudo foi resolvido depois, mas na descida pela Angélica, derivei pela direita e entrei pelo Cemitério da Consolação e caminhei por monumentos aos mortos por duas horas. Revivi…

Outubro é o mês em que nasci, mas também foi o mês em que o destino do País estava em jogo, como num pêndulo, indo da direita para a esquerda, com tremores ao centro. Como numa catarse coletiva extremada, mergulhamos num vórtice de abjuração da Realidade tanto para o Bem quanto para o Mal. Ao final de tudo, no penúltimo dia do mês, marcamos a virada com alegria na perspectiva de melhores tempos. Mas não me iludo…

Quando conhecemos uma pessoa desde que nasceu e a vemos cumprir algumas das etapas dos percursos a que todos estipulamos como “naturais” – nascer, crescer, estudar, namorar, casar, procriar, envelhecer, morrer… Colocado dessa maneira, até parece fátuo e sem sentido. Essas não são marcações discricionárias. São pontos como facas marcadas no peito. A não ser que o amor componha o cenário. Foi o que pude perceber no casamento do meu sobrinho, o talentoso Roney, com a linda e preparada Rubia. Os dois já estavam juntos há alguns anos. A cerimônia apenas sacramentou uma situação em mostraram que o compromisso que estipularam para si era sincero. Novembro findou no cumprimento desse ritual da vida.

Dezembro mal começou. As imagens dos últimos 31 dias de 2022 não são tantas que mereça uma seleção longa. Escolhi um luar entre tantos, expresso em uma paisagem exuberante cores iluminadas no entorno noturno num local de trabalho – uma das minhas expressões – em que tento manter uma postura mais solta. Afinal, não é por ser trabalho, que tenha que ser pesado. A Lua concorda…

Participam: Lunna Guedes / Roseli Pedroso / Suzana Martins / Mariana Gouveia