Eu não acredito em alma gêmea. Ou melhor, não acredito que a nossa vida deva se fundamentar na busca de alguém com a qual venhamos a se identificar a tal ponto que nos dê prazer apenas por ser igual a nós. Considero que isso seja uma espécie de masturbação. Eu acredito no crescimento mútuo das pessoas pelo embate de ideias, pela diversidade de sentimentos, pela diferença de posturas, pelo confronto de mundos. Eu acredito tanto nisso que me permito ser o outro, vez ou outra. Cada vez mais… Chamaria isso de compaixão – quando nos colocamos completamente na situação que o outro ser está vivendo. Essa viagem para outro é perigosa, conquanto não tenhamos certeza total de quem sejamos (se é que a temos alguma vez). Enfim, essa transitoriedade deve ser buscada com cuidado para que não nos percamos no caminho.
Em uma brincadeira interna da Scenarium Plural, chamam de “Eu Lírico” o empreendimento de ser outros. Eu, meio que cainho de paraquedas, sugeri que seria igualmente um “Eu Rico”. Graças a essa a personalidade lírica, podemos cometer pecados, dentro da escrita, buscar experiências, fazer quase uma peregrinação extracorpórea para construir histórias nas quais viajamos. Assim é quando escrevo. É comum eu me colocar no lugar de alguém que permite se apaixonar na caça de outra pessoa com a qual se identifique.
Passo por altos e baixos em minha própria auto avaliação, mas creio que tenha um ponto fulcral, uma linha mestra que me conduz que me permita dizer: “esse sou eu”. E esse ser não consentiria ferir quem quer que fosse ao buscar aventuras para, um dia, se comprazer em se encontrar, ele mesmo, em outra pessoa. No entanto, aceito igualmente a possibilidade de que o indivíduo acredite que isso seja possível e tente empreender esse encontro. Eu me vigio em minha prisão ética, mas não quero deitar normas para o amor. Liberdade para os amores!
Ricardo se sentou, pediu duas cervejas ao garçom e, sem muitos rodeios, disse a Carlos, mirando diretamente nos olhos do amigo:
– A sua namorada é uma garota de programa!
Carlos, sustentando o olhar, após alguns instantes, respondeu:
– Você quer dizer – uma “senhora” garota de programa, não é mesmo?
Ricardo, agora surpreso, retorquiu:
– Você já sabia?
– Quando a conheci, ela foi franca comigo, me contou que aquele era um trabalho como outro qualquer e aceitei o fato normalmente.
– Cara, que surpresa! Não sei mais o que dizer!
– Não diga nada. Alguém mais, da nossa turma, sabe disso?
– Não, que eu saiba… Eu o conheço há tanto tempo e não esperava que você fosse capaz de tal desprendimento… Parabéns!
Na verdade, Ricardo não queria demonstrar a sua decepção diante da postura de Carlos. Ele julgava que o querido amigo não soubesse da atividade de Patrícia. Desde que aquela namorada aparecera na vida de Ricardo, se sentia meio que jogado de escanteio. Ficou ressabiado com o fato dela parecer tão perfeita, com a sua postura de “lady, seu corpo de sereia, seu perfil de modelo”, como já dissera várias vezes. Uma mistura de inveja e ciúme assomara de tal forma que buscou saber tudo sobre a “rival”. Começou a segui-la sempre que possível e essa perseguição terminava sempre no momento em que ela adentrava à porta do hospital onde dizia que prestava plantão médico. Certo dia, porém, Ricardo decidiu esperar até que a residente saísse. Qual não foi o seu assombro quando, meia hora depois que a viu entrar, testemunhou Patrícia sair do prédio? Tomado de certa comoção, a seguiu até que a viu entrar em uma das mais badaladas casas de prostituição de São Paulo, bem perto do hospital. Quase radiante, gritou dentro do carro: “Eu sabia!”…
***
No momento da revelação, Carlos se sentiu como que apunhalado pelas costas, tanto por Patrícia, como por Ricardo, que evidentemente havia demonstrado contentamento de lhe dar aquela notícia. Não pediu provas ao amigo. Intimamente, intuía alguma coisa. No entanto, formalmente, não sabia de nada. Já havia a deixado algumas vezes no hospital onde disse que prestava residência, mas estranhava o fato dela estar escalada para fazer plantão quase toda a noite. Ao mesmo tempo, se sentia tão abençoado por ter visto surgir àquela deusa em sua existência. Patrícia não era apenas linda, mas igualmente bem-humorada, carinhosa e elegante, física e mentalmente. Por isso, mesmo depois de começar a suspeitar sobre as peculiaridades da situação, não pretendeu ir fundo em suas dúvidas. Quando se perguntava como se dera um encontro tão especial entre o dois, de si para si, jogava fora todas as aparentes contradições para viver a felicidade de estar com ela. Quando respondeu ao Ricardo daquela forma, não quis dar o braço a torcer ao amigo que sempre insinuava que uma moça como aquela não poderia existir assim, sem nenhum defeito. Depois da conversa entre ambos, logo que pode, se despediu de Ricardo e ligou para a Patrícia, marcando um encontro para logo mais à tarde. Segundo ela, à noite, faria plantão.
***
– Por que você não me disse que era garota de programa?
Patrícia abriu os seus grandes olhos verdes, ainda mais, e sentiu as pernas bambearem. Finalmente, Carlos descobrira o seu segredo. Sempre temera que isso se desse, mais cedo ou mais tarde. Nunca pretendeu enganá-lo, mas tudo acontecera de maneira tão urgente e imprevista – o encontro, a paixão, o romance – que não conseguiu revelar ao namorado o que fazia para ganhar a vida. Com Carlos, vira surgir o amor de uma forma inesperada. Ele não era um rapaz que se destacasse entre outros, fisicamente. Porém, o seu sorriso e sua postura desprendida, chamara a sua atenção aos poucos, em encontros fortuitos, aqui e ali, na padaria ou no supermercado do bairro em que ambos residiam. Foi dela a iniciativa de passarem da troca de olhares para a troca de palavras. Carlos demonstrou ser inteligente e bem-humorado. Rapidamente, percebera naquele cara, alguém que queria para si, como companheiro. Concomitantemente, não desgostava da vida que levava, das amigas que colecionara naquela profissão, de saber dos poderosos homens que a adoravam. E agora, isso!… Genuinamente emocionada, deixou escapar uma grossa lágrima sobre a pele delicada e não conseguiu dizer absolutamente mais nada.
***
Carlos estacionou o carro junto ao meio fio junto à discreta entrada do edifício. Os seguranças sorriram quando viram que se tratava do carro do marido de Patrícia. Os dois eram muito bem quistos naquela casa. A moça era uma funcionária exemplar e o rapaz, muito simpático. Patrícia beijou amorosamente o seu parceiro e recomendou que ele colocasse as crianças para dormir assim que chegasse em casa. Ele disse que teria uma reunião importante no dia seguinte e que iria dormir logo que possível e que sairia bem cedo. Talvez, antes que ela chegasse. Voltando para a casa, Carlos se deu conta do quanto se sentia venturoso por ter uma família perfeita – uma linda mulher e um casal de crianças saudáveis. Agradeceu a si mesmo pelo fato de ter passado por cima de preconceitos e sentimentos menores para dar a si a chance de ser feliz com a pessoa que amava. Carlos se lembrava constantemente do momento em que tomou a resolução de ficar com Patrícia, se ela assim desejasse. Com a alegre aceitação da namorada, tudo ficou mais fácil. Ela havia revelado que não poderia deixar o seu trabalho imediatamente e ele especulou sobre essa situação francamente perguntando sobre ganhos e condições de trabalho. Lembrou-se de como ficara verdadeiramente impressionado com o que auferia. Era praticamente o salário de um alto executivo. Percebera, ainda, que ela gostava do que fazia, e que aquilo não interferia no amor que sentia por ele, genuíno e vigoroso. Por acordo, decidiram que ela continuasse naquela ocupação até o momento que achasse conveniente. Lembrou-se da oposição de amigos e familiares com aquela relação, pois Ricardo divulgou a novidade para quem interessar quisesse. Carlos acreditou que quem gostasse verdadeiramente dele, o compreenderia. Com o afastamento de alguns dos velhos amigos, se juntou a novos, ligados ao mundo de Patrícia, muito mais divertidos. Após o casamento, com a ajuda financeira dela, montara uma pequena empresa de informática, que logo crescera com o talento que demonstrou para os negócios. Muito ajudou o conhecimento pela esposa de certas pessoas muito influentes. Com o tempo e a chegada dos gêmeos, os seus pais voltaram ao convívio do casal. Eles, semelhantemente, se apaixonaram por ela. A mãe de Carlos dizia sempre que Patrícia tinha uma classe natural e a considerava superior às moças que se relacionaram anteriormente com o filho. Esse fato confortou um pouco a ausência dos seus pais, que não aceitavam a profissão da filha. Mas aos poucos, com a vinda dos netos, a situação parecia se caminhar para um bom termo. Sim, ele era um homem afortunado! Noite alta, o carro que o conduzia de volta ao lar parecia flutuar acima do asfalto da cidade suja…
*Constante de uma das edições da Revista Plural, publicada trimestralmente pela Scenarium Plural – Livros Artesanais. A edição de Agosto intitula-se Mask, com textos sobre os atuais tempos pandêmicos e artigos especiais sobre o grafiteiro Banksy.
FIM é meu objeto de análise instilado pelo tema proposto pela Lunna para esta postagem: “Leu… está lido!”.
De início, FIM nasceu para morrer, aliás como creio tudo que perpassa por nossa existência, nasça. Sem fim, não há razão para existir. Essa ideia de infinitude serve para o Universo… ou não. A não ser que tenhamos total ciência de nossos aprendizados pelos seguidos renascimentos, individualmente somos limitados pela morte. Em existindo renascimentos. Em se considerar que renasçamos sempre seres humanos e não flores de jardim, de vez em quando. Pensando bem, deve ser maravilhoso ser flor.
A proposta diria respeito a um livro já lido que não pretendamos não ler novamente, nunca mais. Tanto quanto os personagens do belo livro de Fernanda Torres, estou chegando a um patamar ̶ idade e constituição física ̶ que a velhice está mais próxima de fazer mais uma vítima, do que perto da força juvenil. Ainda que me sinta bem o suficiente para lembrar o deus Ciro, tenho impulsos de Sílvio, a sobriedade do Neto, a perplexidade do Álvaro e a inveja do Ribeiro ̶ personagens que contam a história de um Rio de Janeiro humano, superficial e profundo.
Fernanda Torres ̶ filha da imensa Fernanda Montenegro e do grande Fernando Torres ̶ começa pelo fim de cada um deles para narrar a versão em primeira pessoa, como vozes solos de um coral, do concerto que ocorreu em determinada época sob o sol macabro do Rio, de areias carregadas de histórias em forma de gente. A viagem passeia pelos anos 60, passa pelos estertores do Século XX e finda no início do XXI, quando o último membro da gangue, Álvaro, começa a narrar seus passos finais, relembrando amigos e peripécias daquele grupo que variava de status profissionais, dentro de uma mesma bolha comportamental, reverberando viva felicidade a permear o vazio existencial.
Mas todos têm as suas chances de participar. De Álvaro a Ciro, Sílvio, Ribeiro, Neto conduzem o cortejo fúnebre de forma esplêndida, com a participação de personagens e contrapartes ̶ as mulheres que fizeram parte de suas vidas. Mais cedo ou mais tarde, todas percebiam que não se envolviam apenas com um homem, mas com todo os cinco. Ciro, o mais icônico e amado do grupo é o primeiro (no tempo) e último a morrer (no livro). Qual homem, já moribundo, consegue ser o homem na vida de uma mulher? Luz de farol para os outros membros, influenciou as suas vidas quando vivo e, talvez, ainda mais, morto. Quando a sua luz se apagou, perdeu-se o lado belo da fealdade em se viver o idílio carioca. Ainda que autônomas, eram como se fossem cenas laterais e complementares ̶ comentários da ação principal. Com efeito, o livro da Fernanda é vivaz o suficiente para ser dramatizado, talvez influência de seu universo de atuação primordial.
Quando fui chamado para a postagem da Scenarium, quis ler um livro inédito. Seria estranho ter que relembrar um que já tivesse lido e ter que objetivar porque não o leria nunca mais. Teria que folheá-lo, eventualmente relê-lo, voltar a fazer o que que disse que não faria. Preferi um que nem sei como apareceu em minhas mãos. Compro livros na esperança de enveredar por suas páginas e que, muitas vezes, ficam boiando nas prateleiras da biblioteca sem serem tocados. Enquanto outros são relidos como se fossem páginas da Bíblia em dias de culto. FIM, no entanto, é um desses livros que merecem releitura. Que venham outros. Com a unção do Padre Graça, pergunto: “O próximo?”. No mínimo, Fernanda Torres ser lida, além de assistida em peças de teatro, vista series de TV e admirada no cinema.
Em abril do ano passado, Lunna Guedes, mentora e editora da Scenarium Plural – Livros Artesanais, incumbiu alguns de seus escritores a criarem “mosaicos”. Consistia em montar (escrever) cinco textos (tesselas) individuais que deveriam montar painéis ou histórias completas que comporiam uma publicação coletiva chamada Mosaicum, que efetivamente acabou por ser lançada em junho de 2019.
O tema proposto deveria girar em torno da seguinte premissa: tenda cigana – leitura das mãos. Lunna a formulou após a leitura de “A Cartomante”, de Machado de Assis. O mosaico criado por mim veio a se chamar “Freud E Madame Lília”, dividido em quadros e títulos como Inconsciente e Desejo, por exemplo. Versava sobre o improvável e tórrido romance entre o criador da psicanálise e uma vidente cigana (de olhos verdes como os da bela Ella Rumpf) na Viena do final do século XIX. Como pareceu a seus pares contemporâneos, quando surgiu com sua teoria, coloquei Freud envolvido com conceitos que beiravam a magia ou bruxaria. As duas personagens, frente a frente, como a completar parte da equação ainda pouca explorada da visão biopsicossocial do ser humano, acabaram por levar suas experiências pessoais à máxima integração, incluindo a energética-química-sexual.
Se alguém acha que o enredo que produzi é muito parecido ao da série lançada no Brasil em 23 de março deste ano – Freud – pela Netflix, saiba que não terá sido o único. Quando citei o fato para minhas filhas, Romy e Lívia, muito ligadas às questões de mídia atual por contingências profissionais, mostrei o texto (que publicarei abaixo neste espaço). Tirante as viagens alucinógenas da série, elas começaram especular sobre um possível plágio. Além das características físicas da vidente, algumas das personagens, por efetivamente terem feito parte da vida de Freud, são replicados, como o Dr. Breuer, seu amigo e Martha, sua esposa. Eu contrapus que cria que as ideias estão no ar. Funcionamos como antenas a captar e emitir vibrações. Dadas as características da escrita machadiana, de viés psicológico por quais enveredava, mesmo nas incursões anteriores aos livros mais conhecidos – como “Quincas Borba” – imaginei colocar o tema do inconsciente em contraponto ao ocultismo.
No entanto, no mundo globalizado em que vivemos, as ideias circulam muito mais rapidamente através de incontáveis meios de divulgação. As treze edições produzidas e publicadas em junho de 2019 podem ter dado volta ao mundo tanto quanto um tweet inconsequente. Ou não. Da qualquer maneira, é muito estranho me sentir plagiador de uma história que publiquei antes da obra plagiada. Ao final de tudo, pelo menos, ganhei pontos com as minhas crias por perceberem que “minhas” ideias têm potencial de serem roteirizadas pela Netflix.
FREUD E MADAME LÍLIA*
(inconsciente)
Sigmund ficou intrigado quando soube por um conhecido que uma cigana havia predito o que ocorreu com um amigo em comum, que faleceu. Interessado em conhecer como se dava esse estado de sonho consciente que revelava fatos futuros e não os passados-enterrados no inconsciente, se dirigiu ao acampamento da comunidade zingara, fora da cidade. Passou por entre crepitantes fogueiras frontais às diversas tendas e foi encaminhado à de Madame Lília.
Encontrou uma fila onde estavam outras dez pessoas bem vestidas… usando echarpes que cobriam os rostos naquele verão vienense especialmente quente. Sentindo-se tão desconfortável quanto um dos pacientes que descobria desejar o pai ou a mãe, esperou por três horas até ser chamado adentrar ao ambiente estranhamente maior do que parecia por fora. No fundo, sentada à mesa, uma mulher de grandes olhos verdes, tão brilhantes quanto a luz abaixo de seu rosto, envolta numa aura nublada-olorosa.
(desejo)
Sigmund, inesperadamente ansioso, apesar de não demonstrar fisionomicamente, não saberia dizer o que mais o impressionou ao passar pela abertura – a atmosfera onírica, a luz que vertia da bola de cristal ou a própria Madame Lília. Intimamente, desejou vê-la de corpo inteiro. Assim que se aproximou, ela se ergueu como se levitasse, emoldurada por longos cabelos negros que desciam abaixo do véu colorido preso por uma tiara prateada. Ainda que estivesse acostumado a lidar com muitas pessoas, se sentiu intimidado.
– Senhor Freud? – Madame Lília estendeu a mão em um movimento ondulado como uma serpente prestes a dar o bote. Após tirar as luvas, Sigmund, ao apanhar a mão de dedos diáfanos e macios da cigana, sentiu um frêmito inesperado. Percebeu que sua experiência fora da sala controlada por referências pessoais do consultório o levaria para mais longe do que supôs…
– Como desejou, Sigmund Freud… Sei que desejava muito me encontrar…
(hipnose)
Sigmund olhou diretamente para a boca de intenso vermelho que o chamou por nome e sobrenome. Hipnotizado-nocauteado pelo sorriso sedutor daquela entidade, ouviu dela:
– Chegue mais perto – convidou, indicando a cadeira em frente à mesa iluminada.
– Alguém me anunciou? Não me lembro de ter dito à senhora o meu nome…
– Por favor, me chame de Lília… Eu o esperava há algum tempo…
Tentando não parecer desconcertado, Sigmund logo a inquiriu sobre o amigo morto:
– Soube que previu o que aconteceria com o meu colega, Ernst von Fleischl-Marxow…
– Qualquer um mais atento saberia o que estava por vir se ele continuasse a abusar daquela substância…
– Com efeito, Ernest ultrapassou os limites…
– São novos caminhos… Acidentes de percurso.
– A Senhora o conhecia?…
– Quando visitei o Futuro, percebi o quanto seria importante no caminho desbravador que você trilhará. Seu trabalho libertará pessoas…
– Enxerga isso na sua bola de cristal?
– Sonhei… Sonho confirmado quando o toquei…
(O Judeu E A Galega)
“Segismundo Schlomo Freud” – dizia baixinho para si, tentando recuperar o controle daquela situação tão desiquilibrada quanto via acontecer nos manicômios que frequentara.
– Meu interesse é buscar cura para meus pacientes, Madame Lília!
– Falo em libertar a mente… – A voz de Madame Lília era profunda como o mar e harmoniosa, como o canto do rouxinol. Seu olhar parecia uma clareira verde no meio da escuridão. Prosseguiu:
– Sei que sabe do que digo. Prossiga com seu trabalho. A palavra é o caminho… O Verbo é o princípio e o fim. Seu povo viveu e morreu pela palavra. Ela nos forma e nos liberta… Meu dito, meu feito…
Sigmund já ouvira de seu pai aquele dito galego…
– Meu amigo Breuer tem conseguido resultados interessantes à base de diálogos. Estou desenvolvendo um método referenciado.
Respirou profundamente e disse:
– Não consigo explicar você, Lília… Quero encontrá-la à luz do dia…
(sonho)
Viena, 1890 – Sigmund e Lília – se encontravam de dia em cafés e restaurantes discretos. As noites terminavam em quartos de hotéis afastados. Nunca antes tal consciência que corpos pudessem vibrar tanto quanto os seus, quando unidos. Além do sexo ultra real, conversavam sobre o sentido das lembranças e a improvável percepção do futuro – benção maldita – segundo Lília. Ela revelou que haveria grandes guerras. Que a evolução material seria incrível, mas que se tornaria uma prisão. As pessoas prefeririam a realidade virtual à real – desejo de sonharem acordadas. Versaram sobre estados mentais, a importância do inconsciente, psiquismo – termos que ela sabia expressar e valorizar. Os dois sabiam que um dia acordariam. Para Sigmund, o despertador foi Martha, dizendo-se abandonada com os dois filhos pequenos. Quando, de coração partido, decidiu terminar tudo e dizer adeus, não encontrou mais o acampamento dos ciganos… Confuso, perguntava-se se Lília não teria sido um sonho…
Na visão física, há várias causas de baixa de acuidade visual: as ametropias (miopia, hipermetropia ou astigmatismo) estão entre as mais frequentes e que podem ser corrigidas com a utilização de óculos, lentes de contato ou cirurgia. Entre outras das causas mais comuns estão a catarata, as doenças da retina, como a degeneração da mácula e do nervo, como o glaucoma. A acuidade visual depende de fatores ópticos e neurais: da nitidez que a imagem chega na retina, da saúde das células retinianas e da capacidade de interpretação do cérebro. A acuidade visual (AV) é medida colocando a pessoa a ser testada a uma distância de 6 metros (20 pés) para ler optotipos – letras, números, símbolos ou figuras – de tamanhos cada vez menores. A acuidade visual normal é chamada de visão 20/20. Acima de 20/200, a pessoa é considerada, virtualmente, cega.
No entanto, o pior cego é aquele que não quer enxergar. A percepção é prejudicada por vários fatores, como o uso de lentes que, em vez de melhorar, prejudicam sua acuidade visual. Essas lentes, como as que conhecemos no uso comum dos óculos, mesmo que invisíveis, se antepõem ao olhar. Aquilo que se apresenta de uma maneira para um, surge diferente para outro. Enxergar, nesse caso, passa por ver, perceber, identificar, descortinar e, eventualmente, prever – dada a condição particular de conseguir unir todas as características que determinam algo – objetos, situações ou ideias através de interpretações díspares. Aqueles que obtém os mesmos padrões de percepção, costumam se reunir em grupos que defendem seus paradigmas com unhas, dentes e tacapes. Os humanos, então, remontam ao comportamento de seus ancestrais e ao antigo hábito de se perfilarem em tribos entocadas em posições imutáveis.
Ajudou-me muito em perceber o quanto a minha miopia ultrapassou o limite físico e se instalou no mental ao ter feito um exercício em que tentei prever os acontecimentos de 2018 – ano de eleição do personagem que comandará nossas discussões durante anos a fio adiante. Está registrado em “Previsões Para Vinte-Dezoito” em uma das edições da Revista Plural, da Scenarium. O que surgia como uma possibilidade subestimada, irrompeu feito uma certeza inaudita. O entendimento que julgava ser o mais evidente, por ser razoável, travestiu-se em ficção de filme B de horror ou uma realidade alternativa do multiverso. Quedamos ameaçados por personagens que um bom ficcionista não ousaria roteirizar, de tão canhestros que são. No entanto, todos já existiam antes. Apenas ganharam a luz do dia, feito um personagem da minha infância – O Monstro Da Lagoa Negra.
Sou daqueles que, apesar de usar óculos materiais, sempre tentou aprimorar o olhar para além das convicções. Para alguns de meu trato pessoal, é considerada irritante a minha postura de “advogado do diabo”, ao contra-argumentar qualquer tema sob o olhar oposto. Tenho “amigos” de todas as percepções ideológicas. Para os mais extremados, se não estou com eles, estou contra eles. No Facebook, tenho evitado postar textos mais extensos porque me cansei de ter que explicar o inexplicável para aqueles que não buscam o reto, mas o caminho em linha reta de suas próprias convicções. Tenho preferido publicar meus textos no WordPress. Entra quem quiser ler. Vez ou outra, solto frases de efeito (curto), a considerar o fato que as mídias são “livros” que guardam todas as suas páginas na eternidade da nuvem.
Portanto, nesta rede, o que ajudará ou prejudicará a defesa de meus argumentos será o Tempo. O quanto penetrei na escuridão para conseguir identificar o que se esconde por trás do véu imposto pelos contraditores da realidade. Guardado pela perenidade, os meus ditos e contraditos determinarão o quanto enxerguei e o quanto obliterei da sociedade brasileira, ainda que muita da minha visão tem a pretensão de ser poética. E, como já disse Borges, “os poetas, como os cegos, podem ver no escuro”. Quem escreve poesia sabe que ao se libertar dos laços que nos prendem ao imediato e ao casual, conseguimos alcançar a causa – a origem de tudo o que nos move. E a causa mais visível da vida como a conhecemos é o Sol. Através da luz que emite, podemos vislumbrar o plano que vivemos. O movimento circular da Terra nos dá oportunidade, em suas zonas médias, que desfrutemos de sua energia criativa.
Por isso, presto minha homenagem ao Sol – a melhor oportunidade de nos reconhecermos menores – em busca de nos tornarmos maiores. Além da capacidade de clarear nosso campo visual, os monstros do pântano – como o citado acima – normalmente têm fotofobia. Para 2020, visão 20/20. E que, ainda que enxerguemos as sujidades dos tempos vindouros, que busquemos a felicidade, quadro a quadro, dia a dia.