21 / 10 / 2025 / Eu E Os Catioros

Eu sempre tive cães sob a minha guarda. Tarzan, Gita, Fofinha, Cloé, João foram alguns dos mais antigos e tantos e tantos outros. A minha mãe era cachorreira. Não podia ver um cãozinho perdido ou solto na vida que trazia para casa, mesmo quando não tínhamos tantos recursos. Dona Madalena pegava nos açougues carnes que seriam jogadas fora para que eu cortasse em pedaços e, misturadas a arroz com casca, então desprezado, fazer a comida da turma. O cheiro não era nada bom na grande panela e cortar bucho não era nada fácil. Mas como já era apaixonado por essas criaturas, não deixava de me esforçar para fazer a comida das crianças.

Como já realcei em outros textos, quem adota essas “pessoas”, sabe que terá um tempo menor de convivência devido a duração em anos menor delas. Então, é comum a tristeza nos abater vez ou outra diante das suas partidas. Mas vale a pena termos contato com esses seres especiais, verdadeiros educadores sentimentais. Com eles, aprendemos, mesmo nos pequenos gestos, olhares e comportamentos que podemos ser melhores do que somos. Como a homenagear a minha mãe, uma única vez resgatei um deles — o Alexandre. Já escrevi sobre ele. É o que aparece na primeira foto. Incialmente arredio, hoje me recebe de manhã ou quando volto pra casa com a alegria de quem é sabedor de que é amado. Com eles, me sinto uma pessoa melhor.

20 / 07 / 2025 / O Testemunho

O que quer que aconteça por trás do morro,
há o testemunho do Sol… 
Nossos olhos são interditados pela barreira física
de ver o que existe para além dela.
Clareada por sua luz,
o Sol é testemunha permanente
a cada segundo, mas ainda parcialmente,
já que a Terra gira em seu entorno,
como se estivesse a fugir de sua clarividência,
mas não de sua presença pela qual é atraída
eternamente,
desde a Criação.
Gaia é um ser de consciência.
Sofre, pensa em se revoltar, revida
com seus mecanismos de defesa…
Porém, sabe que morrerá, um dia, penosamente,
antes de seu tempo próprio
por alguns dos seres que a compunha.
Destruição.
O Sol por testemunha…


03/01/2025 / Seres Sencientes

Ainda cansado das atividades de final de ano, acordei cedo, fora do horário que gostaria, porque o Nego Véio, já resgatado cego e com problemas de locomoção, começou a latir sem parar. Com o tempo, comecei a interpretar os latidos de nossos companheiros à depender de entonação, modo de emissão (mais agudo ou grave) e frequência. É comum ele se deslocar pelo quintal em busca de algum espaço onde poderá evacuar ou fazer xixi. Em algumas ocasiões, as pernas traseiras, já sem tanta força, ficam travadas em alguma posição que o impossibilita de se levantar. Falei em voz alta de mim para mim que não havia cuidado do meu pai como que eu cuidava dele.

Eu o encaminhei até o local onde dormia — um pequeno banheiro do lado de fora — e após beber água na vasilha que dispomos na entrada, ele se ajeitou como sempre faz, puxando os panos com as patas dianteiras até entender que estão do jeito que quer. É um ritual seguido dele parar e descer lentamente o corpo velho até encontrar a base onde ficará quieto durante algum tempo.

Talvez, alguém venha a perguntar o significa a imagem das árvores depois do título. Respondo: o prefeito reeleito desta cidade colocou em resposta às alegações contra os seus projetos de remanejamento de pessoas de suas moradias e da extração de árvores cinquentenárias de uma via da cidade dizendo que haverá reposição dessas árvores em outros locais como compensação ambiental. Assim como as pessoas que moram em “favelas” — na verdade, casas simples de uma vila antiga — para um lugar “melhor”.

Onde será que árvores irão aportar para compensar a destruição de todo um ecossistema que inclui os habitantes das árvores arrancadas, além da eliminação do sistema de comunicação que há entre as árvores de um local onde as suas raízes se comunicam como um sistema nervoso central? Quantas “histórias” essas árvores presenciaram e agora se perderão na bruma do tempo à golpe de machadadas e serras elétricas? Esses seres antigos — tanto em idade de surgimento na Terra, como de tempo cronológico — não podem sequer protestar tamanha falta de sensibilidade por essa remoção.

E as pessoas? Que lugar melhor é esse em que os laços da antiga convivência se desvanecerão como por um encanto de um mago do mal? Será perto de onde estão? Manterão o contato de amizade reforçado em conversas de amigos sentados em cadeiras na porta de casa? Seus filhos continuarão a encontrar seus antigos vizinhos ou lhes será negada a oportunidade de crescerem nessa rede de afeto?

Essa história mal contada de melhorar a mobilidade de endinheirados da região passa por interesses outros ligados ao sistema em que beneficia poucos em detrimento de muitos. Está na lei da constituição do poder. Não deveríamos nos surpreender se no fim de todo esse processo, o dinheiro público se torne encampado por setores privados, em prejuízo da coletividade. Como serão… e assim caminhará a humanidade até a I.A. (então mais inteligentes que nós) perceber que ela só atrapalha a existência deste planeta e seremos transplantados para fora daqui…

Foto por Min An em Pexels.com

A Camisola

o descaso distancia as pessoas como se vivessem
em mundos diferentes
não quero que esse descaso me abrace
a ponto de viver longe de mim
quantas vezes não me surpreendo em me rever
diferente do que imagino ser?
se eu perdoo qualquer um ao se sentir impróprio
não devo me perdoar?
o que sinto é uma tremenda compaixão pela fraqueza
ou isso será capacidade de ser fiel à mim mesma?
para isso acontecer fiz um caminho penoso mas muito simples
não mentir para mim foi o primeiro passo
mas não deixo de desejar estar com outro
nele visto a fantasia como se nascesse com ela
a minha pele a lavo e a perfumo
estendo a camisola de seda que vestirei
leve como o ar que respiro
no quarto escuro
é quando vejo melhor abraço a minha fantasia
passearei com ela pela madrugada afora
a de hoje é de estar com dois
sei que farão o que me dará prazer
luminescentes vibram ao meu toque

separo três taças de vinho
levanto a camisola
e os deixo tocar as minhas reentrâncias
brinco com a possibilidade de me evitarem
de meu braço se distanciar a minha mão não tocar
o sino que me acordará para o gozo
quero fluir em rios de aventuras
meus brinquedos são melhores que homens
preocupados em serem dominadores
em troca de carinhos
eu era estuprada e fingia orgasmo
quase sempre

quase sempre
respondia com beijos desencarnados
salivados em seus paus desidratados
logo queria que fossem embora
que me deixassem só mais só
do que quando me encontravam
desisti de me entregar a estranhos seres
morfologicamente machos
instintivamente monstros
preferi me tornar só minha…

Foto por alirezamani wedding team em Pexels.com

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Caixa De Fotos

Retirei da minha Caixa De Fotos, registros com os companheiros da espécie Canis, tão especiais que não sabemos se seríamos como somos se não fizessem parte de nossa história. O que sei é que somos melhores por eles e com eles.

2024

Bethânia é daquelas que quando está dentro, quer sair. E quando está fora, quer entrar. Atenta a tudo ao seu redor, orelhas levantadas para captar sons para nós inaudíveis; olhos em direção ao objeto de interesse, ela gosta de latir para o mundo, por puro gosto e direito de expressão.

2023

Lolla Maria é tão pequena quanto possessiva, ela inteira. Sobrevivente de percalços que apenas supomos, antes de seu encontro com a Família Ortega, quando a sua mãe tem que se ausentar, já procura quem estiver em casa para se aproximar e alcançar recompensas.

2022

Bambino, meu neto, vivia entre mulheres que não perdiam a oportunidade de acarinhá-lo a todo momento. Quando estava comigo, não queria outra coisa senão cafunés e passa mãos.

2013

Esse amor chama-se também Penélope. Enquanto esteve fisicamente presente, só despertou os melhores sentimentos em todos os seres que a rodearam. Como uma estrela, em torno de si agregava amigos-planetas. Não sei quando deixou de estar entre nós, porque nunca percebemos que nos deixou.

2012

Essa é Dominique. Ela entendia o que eu falava e tinha como principal talento responder com os olhos. Expressivos e belos, quando chegou a nós, estava sem metade dos pelos, pintava de verde, para a diversão de brutos. É outro ser especial que fez nossa existência mais rica.