Na época de seu lançamento, no rádio antigo do carro antigo, ouvia uma partida de futebol quando, em uma das chamadas publicitárias, ouvi o anúncio d’”A Outra”, outra cerveja com nome sugestivo, a escancarar a vida “Devassa” e “Proibida” dos brasileiros. Nomeações do gênero feminino voltado para o mercado dos consumidores de cerveja, ainda dominado em sua maior parte por homens.
Em determinado momento de nossa atual conjuntura, os publicitários perceberam que poderiam associar, sem remorsos, nomes adjetivados carregados da malícia digna da “Comédia da Vida Privada”, de Nelson Rodrigues. Não quero me estender quanto às denominações dadas pelos criadores, junto aos propagandistas, da longa lista de estranhas-engraçadas-reveladoras marcas de seus produtos. Vou me ater brevemente às cervejas que nomeei acima, que brincam com o lado oculto, porém óbvio da sociedade brasileira.
Quando podemos estar com uma devassa, sentir o gosto de uma coisa proibida, aparecer em público acompanhado da outra, senão na mesa de um bar? Eu, pessoalmente, não tenho o hábito de beber, sequer gosto de cerveja. Culpa do meu tio que, aos meus 5 ou 6 anos, me ofereceu chope em uma festa familiar. Não estava preparado para aquele amargor que atrai a tantos. Assim como é atraente passear pelo lado B, nem sempre amargo (apesar de velado) das relações humanas.
Estou a esperar o tempo em que daremos um passo à frente e algo parecido aconteça para a fatia de mercado que mais cresce nos últimos tempos – dirigido à mulher – seja igualmente agraciada com nomes insinuantes. Que venham o “Bem Dotado”, “O Amante” e o “Black Lover”…
Somos o País do tudo ou nada. Ou quase nada de tudo, se esse “tudo” for o melhor possível. Por outro lado, apresentamos o pior de tudo, muitas vezes.
Se escolhemos nossos dirigentes, votamos nos mais inaptos. Se temos uma empresa entre as maiores do mundo, será uma que arranca sua riqueza da forma mais mortal e predatória. Se temos um dos maiores movimentos de emancipação GLBTQ do planeta, ao mesmo tempo somos os que mais matamos os seus participantes. Se temos uma das maiores populações afrodescendentes fora da África, apresentamos as mais persistentes ações discriminatórias da Terra por uma sociedade hipócrita ao se proclamar igualitária.
Se for para matar um homem preto, que despejemos Oitenta tiros sobre ele. Oito, não bastam – a média de projéteis lançados por cada um dos dez atiradores que confundiram o alvo-negro-no-carro-branco com um assaltante. Condenado por engano – se for para nos enganarmos que seja por muito – por um juízo de valor eivado de preconceitos, incompetência e poder de fogo, um pai de família foi fuzilado em plena luz do dia, diante de testemunhas, por armas que atiram projéteis 7,62 à velocidade de oitocentos metros por segundo, a uma curta distância. Fico a imaginar se houve tempo de Evaldo pensar na segurança da família – filho e esposa – antes de ser assassinado…
Quando tudo aconteceu, na segunda-feira, estava trabalhando muito, em ambiente fechado. Soube no dia seguinte, depois de ter dormido quatro horas por dia desde sexta. Acordei com a repercussão da notícia propagada pelo rádio despertador de cabeceira. Como muitas vezes acontece, pareceu que estava sonhando. Não era possível, mesmo para o “País do 8 Ou 80” que fosse real. A “notícia boa”, diante de tamanha gravidade foi que dos cinco ocupantes, apenas o músico fora atingido. Isso significa que a munição descarregada sobre ele não foi a esmo. Os ferimentos no sogro foi um efeito colateral.
Em uma sociedade organizada, as funções de cada instituição são delimitadas de maneira que uma não invada a outra. Membros das Forças Armadas não deveriam exercer a função de Polícia. “O Exército tem como missão preservar e garantir a defesa da Pátria, zelar pelo cumprimento pleno da Constituição e pela manutenção da Lei e da Ordem. Em tempos de Paz, uma das principais funções do Exército é defender as fronteiras brasileiras, garantindo a Soberania nacional.”. Foi o caso de segunda-feira?
Houve ordem de prisão contra os militares envolvidos na ação. Só não ficou esclarecido quem foi o mandante do crime. Um soldado cumpre ordens. Faz parte do espírito da corporação militar obedecer a cadeia de comando, assim como existe uma natural sequência na cadeia alimentar. Vitórias e derrotas se sucedem dessa maneira. Assim como a sobrevivência das espécies. O triste é que os brasileiros pareçam sobreviver caminhando sobre os corpos ensanguentados dos mais vulneráveis…
Indicada a direção do banheiro, estanco o passo diante de duas portas, frente a frente. De um lado, a letra M; de outro, a letra F. Por exclusão, supus que M quisesse dizer masculino, enquanto F, feminino. Caso quisesse descer à designação fisiológica genérica – macho e fêmea – de onde deriva a nomenclatura, seria admoestado por meu censor interno. Por algum motivo, apesar de sermos animais, a questão de gênero ganhou tantas conotações que fica impossível sermos bem vistos apenas porque usamos o termo correto. Mesmo porque, a conformação física vem a estipular quais e quais dispositivos devam estar presentes em ou outro banheiro, apesar de alguns itens de uso comum. Contudo, tenho a impressão que no banheiro os machos continuam sendo machos, enquanto as fêmeas ultrapassam à sua simples condição de gênero e são também mulheres, tendo o espelho como instrumento auxiliar de introspecção (ou expansão).
Se as letras estampadas nas portas fossem H e M – Homem e Mulher – identificaria construções mentais que designam não somente os gêneros sexuais básicos, mas também os papéis relativos a um e outro. Esse é um tema premente, bastante discutido por alguns que pensam a sociedade, na busca da reavaliação desses papéis incorporando mutações sociais na apreciação dos valores dos gêneros e derivantes. Bem mais malvistas por mim são as famosas figurinhas em que a porta do banheiro feminino mostra um corpo com triângulo na altura da cintura (a designar uma saia) e o masculino, reto, a fazer supor calças. Eu nunca gostei desses símbolos. Além de serem ultrapassados, não têm charme. São simplistas e eu me passa a sensação de emasculação, no caso do homem e de determinismo, no caso da mulher. Escuros, não sabemos se estão de frente ou de costas. Seriam mais interessantes os víssemos de lado, com eventuais contornos a brincar com suas formas. Há variações iconográficas interessantes, bem humoradas, restringidas a ambientes particulares, sem alcance do grande público, que talvez causassem confusão na identificação.
Além de “XY” e “XY” – representando os cromossomos sexuais masculinos e femininos – Ele e Ela são pronomes comumente utilizados para diferenciar banheiros para os usuários de ambos os sexos. Para respeitar as opções daqueles em que “ambos” os sexos possam estar juntos na mesma pessoa, surgiram em vários lugares os chamados banheiros unissex. Em 2008, o centro acadêmico da Universidade de Manchester – uma das maiores universidades da Grã-Bretanha – mudou as placas dos banheiros femininos para apenas “banheiros” e dos banheiros masculinos para “banheiros com mictório”, atendendo a pedidos de estudantes transexuais. Como era de se esperar, houve entrechoques entre os grupos defensores e contrários. Por aqui, a depender dos movimentos conservadores, a ganhar por hora cada vez mais espaço em nossa sociedade, as designações simbólicas tenderão a se tornar cada vez mais padronizadas, sem eleger variações sobre o tema da identidade sexual.
A simbologia aparente é que aparelhos urbanos de uso público para a realização de nossas necessidades fisiológicas excretam substâncias bem mais complexas que os resíduos fabricados por nossos corpos. Envolvem algo mais do que fazemos no privado e nas privadas. Temos dificuldade em lhe dar com nossos excrementos tanto físicos quanto mentais. Compreender a dinâmica de uma sociedade em desenvolvimento, incorporando preocupações e tendências que devam atender demandas justas de quem quer se colocar no mundo de maneira mais confortável é um sinal fundamental a demonstrar que estamos aprendendo a ser gente, para além de simples animais que defecam preconceitos.
O sistema de coleta e tratamento de esgoto é, simbolicamente, distintivo do grau de desenvolvimento de uma sociedade. As grandes civilizações do passado demonstraram seu progresso civilizatório justamente na construção de intricados sistemas de saneamento básico. Dado o subdesenvolvimento do Brasil nesse campo, não é de se admirar que não consigamos lhe dar igualmente com nossas indigências sociais malcheirosas.
Junto aos nossos desejos de sermos bruxas, dentro de nós atua um inquisidor, um matador de diferentes, um aniquilador de sonhos. Ao lado da puta que somos (quem não vende o seu corpo e mente em troca de dinheiro?), existe aquele que atira a primeira pedra. Ser contraditório, mentiroso e hipócrita é condição básica para sobrevivermos nesta sociedade e, no entanto, não nos falta fôlego para vociferarmos contra o Sistema.
Estar aqui a denunciar nossa pequenez, não deixa de ser uma tentativa de não parecer um minúsculo ser. Não me excluo de todo esse processo em que morremos de vontade de matarmos do que não gostamos, como se não suportássemos o contrário. Somos caçadores de bruxas. Ainda que filhos de bruxas. Queremos quebrar os nossos espelhos. Reproduzimos os nossos produtores – podridões – amores malparidos.
Momento de devaneio, sonho com um mundo que aceite o irmão. Que aceite o mal, o identifique e o reverta. Que sejamos bruxas. Façamos nossa porção – uma poção mágica que contamine a escuridão de verdadeira claridade. Peito aberto, mamas e sexos à mostra, barriga prenha de filhos livres da maldição de sermos tão humanamente menores. Quero ser, além de ser, Ser.
Pintura em ajulejo, realizada em 1913, por José Francisco de Oliveira, diplomado na Escola Comercial e Industrial de Brotero – Coimbra – Portugal (Centro Cultural Português, Santos/SP)
O honrado homem chegou ao lugar em que tudo precisava de sua intervenção piedosa. De início, como era um mundo novo, seu espírito desbravador encontrou o espaço ideal para sua atuação. Fundou vilas e porto, construiu igrejas, forte e hospital. Introduziu a agricultura e desenvolveu a economia. Tornou-se um fidalgo rico, por conta de seu espírito empreendedor e destemido. Respeitado por seu povo, era um dos homens favoritos do Rei, que lhe delegou todas as possíveis honrarias.
O honrado e piedoso homem, para realizar todas as obras que o distinguiu como um dos principais de seu tempo, não hesitou em invadir e ocupar terras que não eram suas de origem, matar seus donos primordiais, derrubar a vegetação natural, esteio do povo antigo, dizimar animais e seu habitat, explorar as riquezas que para os autôctones não tinham nenhuma valia. Para completar seu projeto de poder, pretendeu escravizá-los. Enfrentou uma revolta – a Confederação dos Tamoios. Seu nome: Braz Cubas.
Para os colonizadores portugueses, era mais do que natural que assim fosse. Matar os contrários às suas vontades, por sede de riqueza e imposição de uma fé excêntrica, assumir comando sobre espaços – terra, mar e céu mapeado – era uma ação valorosa, que engrandecia o nome da Pátria a milhares de quilômetros de distância. A suprema vilania, que serve como marca definitiva de posse se dá quando limitou fronteiras e as nomeou com sons e signos alienígenas. Assim como capturar as mulheres nativas e usá-las como reprodutoras de mão de obra filial e fiel aos novos donos das sesmarias, tornando-a cooperadora involuntária da destruição de seus ascendentes genéticos.
Dessa maneira, a antiga faixa de terra ocupada pelos habitantes originais, os Tamoios – Tupinambás, Goitacás, Guaianás e Aimorés – transformou-se, muitas luas depois, em grupamentos humanos com costumes estranhos e pendor para a belicosidade. O termo “Tamoio” vem de “ta’mõi“, que em língua tupi significa “avós”, indicando que eles formavam o grupo tupi que há mais tempo se havia instalado no litoral brasileiro. Nunca supuseram que povos mais antigos ainda viessem de lonjuras inalcançáveis para trazerem a morte por armas que queimavam e doenças que seus pajés não conseguiam curar.
Quem afinal se põe em posição de piedoso está em condições de determinar quem vive e quem morre. O prestigioso Braz Cubas, era apenas mais um exemplar daquele povo que dominou o país que se formou com a chegada de mais e mais gente. Muitos mais de seus iguais reproduziram a mesma jornada de dominação e morte dos nativos, finalmente domados.
Seus pares erigiram monumentos para o grande súdito português. Com o tempo, instituições ganharam seu nome, incluindo algumas de ensino, aqui mesmo na antiga terra tupiniquim, a do povo dizimado. Somos filhos desse sistema de colonização. Não há como escapar de nossa História. Devemos enfrentar nossa origem espúria e suas contradições. Conjurar nossa sanha conquistadora-destruidora. Creio que somente dessa forma poderemos superá-la. Vivemos como se não tivéssemos passado e nem presente. Apenas um futuro enganoso e enganado.
Sempre haverá aqueles que virão com projetos de grandeza sem avaliarem as consequências, por piores que sejam. Como quando se constroem pontes para travessia de uns tantos sobre os cadáveres de tantos mais. O objetivo termina por sair mais caro, tanto do ponto de vista material como moral, no melhor sentido, baseado em valores básicos de convivência, como respeito à diversidade, com tolerância, solidariedade, compreensão e comunhão de objetivos éticos.
Enquanto não nos conscientizarmos de nossa História, tenderemos a reproduzir ad eternum os mesmos erros de percurso. Estamos insatisfeitos com o nosso presente, mas buscamos soluções fundadas na força destruidora que formou nossa sociedade. A fama de povo gentil não passa de uma formulação sem validade, como se não fôssemos agressivos. Somos um dos países com mais mortes por número de habitantes, percentualmente.
Vivemos uma guerra civil. Se não mudarmos sua direção, jamais alcançaremos a maturidade civilizatória, ainda que a ideia em torno de civilização tenha uma “má fama”. No entanto, se não partimos daqui para uma concepção mais aprimorada de convivência, a tendência de perdermos a noção de brasilidade que “conquistamos” a ferro e fogo até aqui, ainda que precária, se imporá definitivamente, para a nosso desgosto e prejuízo permanente para as próximas gerações…