Interpretação

INTERPRETAÇÃO
Coração de luz…

Todos nós interpretamos – estabelecemos signos, deciframos significados, nos desentendemos por significantes. Todos nós interpretamos papéis – vivemos, acontecemos e fazemos acontecer. Os meios pelos quais realizamos essa intermediação se dá pelos sentidos em vários níveis de sensibilidade, gerando sensações, emoções e sentimentos. Nossas atuações ocorrem neste palco, a Terra, em diferentes cenários – oceanos, continentes, países e nações. As nações são compostas por etnias, religiões, ideologias, gêneros, divididas por classes econômicas – vestimentas usadas por cada pessoa que as carregam – nós, os atores.

Atuamos baixo a organizações sociais – famílias, amigos, grupos de trabalho – que se interpenetram e se interpretam. Muitas vezes de forma pacífica e produtiva, outras de maneira violenta e desintegradora. Desenvolvemos, ao longo dos séculos, formas complexas de comunicação que deveriam facilitar a convivência em conjunto. Porém, parece que, como quaisquer ferramentas, são utilizadas para destilarem o ódio e ajudarem a implantar sistemas de castas blindadas – vertical, horizontal, perpendicular e circularmente.

Acresce-se que a falta de uma boa interpretação de texto, auxiliada por preconceitos que distorcem sons e embaralham imagens, acabando por tornar tudo uma questão de versão. Transformamo-nos em uma espécie de torcedores de times de futebol em política e em outros assuntos fundamentais que regem nossa vida. Essa distorção, nos faz prisioneiros de manipuladores-diretores, que se beneficiam desses embates. Estabelecer dinâmicas que sejam equilibradas torna-se quase impossível, se não estivermos preparados para comandar nossas próprias visões.

Ressalve-se que o nivelamento de ideias pela média também não é uma boa saída. Muitas vezes, criam-se unanimidades “burras”. Nelson Rodrigues sintetizou exemplarmente essa característica – uma ideia, ao se tornar hegemônica, passa a ser aceita sem muitos questionamentos, deixando-se de pensar sobre ela, gerando um efeito-manada. Para mim, as diferenças e as minorias, assim como os animais em extinção, devem ser preservadas – como exemplo histórico (ainda que negativo) ou como repositório da riqueza humana. Nada é tão simples. Tudo apresenta um custo. Para os pensamentos inusitados, tolerância. Para os que ameaçam a vida, eterna vigilância.

Nesse momento, entram em jogo interpretações dos diversos grupos que se digladiam para implementarem soluções que julgam ser eficientes e permanentes. A linguagem da violência é um poderoso argumento em situações se apresentam no limite entre o bem e o mal. Aliás, na minha interpretação, essa é uma alegação falaciosa. Não existe um tempo sequer onde o bem e o mal não se faça presente na vida de qualquer ser humano, particular e coletivamente. Aliás, os critérios que determinam o “bem” e o “mal” são igualmente “interpretativos”. Soluções finais surgem de tempos e tempos para eliminar essa característica humana que existe desde que Caim matou Abel – seu lado obscuro. “Deus” chegou a enviar um dilúvio para combater o mal que se propagou por sua criação. Parece que não foi tão bem-sucedido.

Em busca das origens que ameaçam as pessoas em sua segurança física, as causas mentais se sobrepõem. É comum muitos as chamarem de espirituais. As Crenças – transformadas em instituições físicas – organizadas secularmente, apesar de propagarem o “Espírito” como cerne de suas pregações, são usadas como sustentação de teses que referendam posições de antagonismo à liberdade de ser. Dessa forma, busca-se formatar comportamentos desviantes como responsáveis pelo “mal”. Não aceitam o contrário, o contestatório. Como conviver com tantas diferenças não é fácil, incitam a intolerância e tentam matar, no nascedouro, ideias diferentes do que julgam reto. O olhar de ódio é o seu pressuposto. A violência, a sua manifestação.

A História, tão desprezada no Brasil, a tal ponto que preferimos gastar mais dinheiro na lavagem de carros oficiais do que na manutenção de nossos museus, nos revela caminhos que já trilhamos antes, como seres viventes neste mundo. Muitos de nós, testemunhamos diretamente muitos desses acontecimentos – manchas em nosso tecido social. Sabemos no que desembocará se persistirmos em percorrê-lo – o abismo. Pergunta-se: aos oponentes do poder estabelecido, segundo um antigo general-governante, deverá ser aplicada a máxima de “prender e arrebentar”? Atulharemos todas as prisões de “desviantes” dos preceitos reguladores estabelecidos? Torturaremos os renitentes?

No entanto, se em vez do olhar prepotente e eivado da raiva congênita humana, adotarmos outra arma? Essa arma não é material, mas transforma a matéria em vida. Não é violenta, mas aplaca com eficiência o violento. É uma arma pessoal e coletiva. Pode ser usada por todos, indistintamente: homens, mulheres e outros perfis de gêneros. Crianças, jovens e velhos podem empunhá-la, usá-la de todas as maneiras. Em vez de seguirmos a herança de Caim, nos revolucionaremos pelo amor. Quem se imbui de olhar amoroso apresenta uma postura mais tolerante e mais compreensiva. O que proponho, já foi tema desde versículos da Bíblia (compêndio de três igrejas hegemônicas) a livros de “profanos”. É um olhar ingênuo, no melhor dos sentidos. É de curiosidade, no mais amplo alcance que possa ter. É um olhar pasmo*, a ponto de ver materializado um coração de luz a bater na parede do banheiro – sol poente na janela d’alma…

*O Meu Olhar

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar…
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar…

Alberto Caieiro – Heterônimo de Fernando Pessoa

BEDA | O Segundo Assassinato de Marielle

ARMA
Vamos nos amar ou nos armar?

Eu já escolhi em quem votar. E, principalmente, escolhi em quem não votar – um, entre todos. Ou seja, qualquer que seja o/a seu/sua oponente, caso chegue ao segundo turno, voltarei contra Jair Bolsonaro. Esse senhor talvez seja a pessoa mais despreparada para chegar ao cargo mais importante da Nação já visto. O que é incrível, visto o péssimo rol de candidatos que se apresenta para esta eleição e outras que já tivemos.

Não sabe nada sobre Economia. Não sabe nada sobre Educação. Não sabe nada sobre Saúde. Não sabe nada sobre relações humanas. Não sabe nada sobre governar. Talvez saiba algo sobre mandar, acostumado que está a ser obedecido por tropas sob seu comando: “Atirem, matem, recarreguem, atirem!”. Fala como um atirador. Acertas vários alvos. Balas perdidas, faz vítimas a torto e a direito. Seus apoiadores urram de satisfação se atinge um “malfeitor”, apesar dos vários corpos de inocentes jogados lado a lado.

Prometeu equipar com poderosas armas de fogo os combatentes de crianças de 8 anos de idade com fuzis nas mãos. “Nossas” crianças contra as “deles”. Nada de criar uma sociedade igualitária pela educação de qualidade, estimular a inclusão de brasileiros ao mercado de trabalho, diminuir a desigualdade. Não. Vamos matar todos que estão do “outro lado”. Talvez seja a guerra tão sonhada por generais ociosos que creem na revolução pela violência – equalizar pela eliminação, o diferente.

É homofóbico, saúda a família tradicional e o casamento entre heterossexuais como instituição – já fez isso três vezes. Nada contra. Parece gostar de mulher, mas não da mulher – misógino. Racista, avalia pessoas por arroba. Disse ter Deus no coração e professa o ódio como base de atuação. Ódio que atingirá a todos que não seguirem a cartilha do “marchar, continência, obediência cega, botas limpas, visual limpo e insuspeito”. Nada de educação sexual para as novas gerações de crianças que, com cinco anos de idade, já “aprendem” a fazer sexo em vídeos explícitos em seus celulares, no recesso de seus lares.

A sociedade brasileira, depois de anos de desenganos, está doente. Quer um remédio amargo, “nova” fórmula, mas tão antiga quanto a história da humanidade. O século passado passou, contudo, corre nas veias de velhos preconceituosos e jovens que desejam uma velha ordem, com cara de novidade. Os criminosos de dentro e fora do governo estão exultantes com a possibilidade de que tudo piore. Quem não sabe o que já aconteceu neste País, quer apostar no quanto pior, melhor. Ver o circo pegar fogo é o desejo de todo palhaço assassino.

Em outubro, Marielle poderá ser executada novamente, em público, à luz do dia, em uma emboscada que está sendo armada por todos nós, brasileiros. A mulher que representa as minorias (em direitos atendidos), será fuzilada mais uma vez. Eu, que não professo posicionamentos da esquerda partidária, reverencio a história dessa mulher. Sua memória de luta será aviltada, de novo. Nessa oportunidade, os autores do crime estarão armados de títulos de eleitor.

Participam do BEDA: Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari

BEDA | Lucy In The Sky With Diamonds

Foi anunciado há alguns anos. Ocorrida há aproximadamente três milhões e duzentos mil anos, foi supostamente encontrada a “causa mortis” de Lucy. Diante de tantas mortes de todos os dias, causadas por homens-bombas, de suicidas que decidem levar mulher e filhos juntos, pelo trânsito criminoso, balas perdidas e por crimes, em suas múltiplas facetas, cometidos por uma sociedade “organizada” – essa morte me comoveu especialmente. Ou melhor dizendo, a suposta causa de sua morte me emocionou: Lucy teria morrido ao cair de uma árvore…

Lucy, um exemplar de Australopthecus aferensis, teve o fóssil de seu esqueleto descoberto, em 1974. Ele mostraria a passagem do chipanzé para um hominídeo mais desenvolvido, que já caminhava ereto. Lucy recebeu esse nome pela influência da música “Lucy In The Sky With Diamonds”, dos The Beatles, que à época tocava no acampamento dos arqueólogos. Informação transversa, de alguma forma, passa pelos Beatles a evolução de nossa expressão como seres sociais…

Lucy teria caído porque já era um ser que frequentaria mais o chão do que as árvores e talvez não conseguisse ser tão desenvolta quanto os seus antecessores. Por essa explicação ser óbvia, muitos especialistas duvidam da versão. Eu já a suponho mais plausível por ser exatamente corriqueira, ao mesmo tempo em que decisiva, por vários motivos, entre os quais por Lucy ser uma fêmea.

Há vários anos, li que uma das diferenças morfológicas básicas entre machos e fêmeas de nossa espécie – a quantidade de pelos – menor nelas do que neles, se daria porque as fêmeas, mais ousadas, frequentaram as águas para pescar, durante milhares de anos antes dos homens – uma atividade eminentemente de colheita, então. Pode ser que sim, pode ser que não, como todos os estudos sobre a nossa evolução como espécie, mas minha intuição com relação às mulheres, me faz acreditar que tenha tudo a ver.

Apesar da História oficial não apresentar a mulher como protagonista (porque eminentemente escrita por homens), a minha observação pessoal demonstra cabalmente que passa pela mulher a chave mestra de nossa evolução como “gente”. As fraturas que causaram a morte de Lucy demonstrariam que ela, ao cair, tentou cair de pé e se projetar para frente… Foi uma queda muito à frente de seu tempo…

Participam do BEDA: Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari

BEDA | Pensar

Celular
Au! Au!

Eu gosto de pensar. Aliás, penso demais. Inquieto, a cada novo fato, exploro todas as suas possíveis repercussões. Curioso, busco conhecer todas as perspectivas de um acontecimento. Libriano, pareço mudar de opinião apenas porque os pratos da Balança pesam as circunstâncias. Prefiro chamar de justiça. Não são poucas as vezes que faço o advogado do Diabo – coisa irritante…

No entanto, essa característica com cara de indecisão, muitos consideram um sério defeito. Por isso, muitas vezes, tento me libertar das amarras do pensamento. Dizem que deveria ser mais solto e que agir por impulso não me faria mal. Quando agi dessa maneira, foi sempre por amor. Na criação das minhas filhas, por exemplo, em vez de seguir cartilhas, preferi deixar o coração falar. Por vezes, com dureza. Não parece que tenha feito um trabalho ruim.

Essa forma de vivenciar a minha experiência como ser, apesar de bem-intencionada, não é fácil e nem inteiramente livre de enganos… e nem verdadeira. Talvez, ao contrário. É bem provável que eu seja um engodo… para mim mesmo. É uma luta para descobrir a minha alma, quase totalmente “protegida” pelo escudo do pensamento. Meditação seria a melhor alternativa. Parar a roda dos pensamentos para descortinar o meu “eu” interior. Mas o meu corpo se recusa a deixar…

Ao mesmo tempo, seres pensantes que somos, nos auxiliamos de subterfúgios para não pensar muito. Usamos de ideias, opiniões e preferências pré-formatadas para lidar com as várias solicitações cotidianas. Decisões são tomadas por impulso ou emprestadas de segundos e terceiros. Ideologias são usadas como lentes, a distorcer a visão dos acontecimentos. Previamente estipulados o “sim” e o “não”, acaba por se tornar complicado argumentarmos com algumas pessoas. Eu gosto do debate. Gosto de acolher as opiniões alheias, ainda que mantenha certas convicções para determinar uma postura minimamente coerente.

Contudo, alguns abusam de nossa busca pela facilidade do equilíbrio mental diante de tantos requerimentos. Propagandeiam: use isso ou aquilo para que não precise pensar. Tomem o caminho mais fácil para chegarem onde querem. Ajam sem pensarem para atingirem os seus objetivos. Sigam os “formadores de opinião”.

Sou fã de Fotografia. Ao passar em frente a um anúncio de celular no Metrô, é alardeado que o aparelho apresenta uma “câmera inteligente que pensa por você”. Obviamente, para evitar que o fotógrafo amador “pense” sobre luz, posicionamento, ângulo e outros detalhes, ela padroniza a obtenção da imagem desejada. Eu me senti disfuncional – não seria justamente “errar” o que nos dá o prazer de aprender ao buscarmos uma imagem que venhamos a apreciar? Decidiram chamá-lo de “Zenfone”, o associando o estado mental “zen” ao automatismo e não à autoconsciência. Além disso, é utilizada a imagem de um cão para angariar simpatia ao projeto. Ou seria, subliminarmente, uma maneira de dizer: “obedeçam como a um cão adestrado”?…

Participam do BEDA:  Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari

BEDA | Terroristas No Brasil

Sopa de Letras
Sopa de letrinhas mutantes…

O Terrorismo tem feito vítimas em todos os cantos. Os atentados se sucedem e tem crescido em frequência. A todo momento são noticiados ataques aos pilares de nosso edifício social. Um a um, vemos ser derrubadas consciências, vontades, virtudes, sabedorias, vivências, convivências, sentidos e sentimentos.

Bombas em série destroem nossa capacidade de compreensão da realidade. O que víamos como ocasional, tornou-se padrão – o mau-caratismo, a vilania, o egoísmo, a podridão nas relações humanas. A falsidade graça como moeda de troca e o Real é bem pago por péssimos serviços prestados contra todos nós.

As instituições parecem plantas atacadas por piolhos, vermes, insetos e outras pragas. Pesticidas matam o hospedeiro e preservam os parasitas. Os nossos radicais não abrem mão de suas benesses, reivindicadas como direitos naturais de bem-nascidos. Em contraposição, o terror, o horror, o torpor, o dissabor, o desamor, se derramam em cascatas reverberantes, destroçando futuros no nascedouro.

Vivemos tempos de barbárie coletiva, de cabeças decepadas em nome da preservação de privilégios, enquanto lâminas afiadas perfuram o nosso intestino, fazendo vazar excrementos na circulação sanguínea da sociedade. Vozes dissonantes transformam-se em utópicas canções de adeus a um mundo inalcançável.

A cada notícia de um caminhão que atropela inocentes em ruas bem pavimentadas da bela Europa, outros tantos, multiplicados por dez são vitimados por nossa hipocrisia que esfacela nossa juventude por atropelos legais, porém ilegítimos. O combate ao crime parece dividido entre os que podem e os que não podem cometê-los. O Poder designa quem a Polícia deve vigiar – é o embate entre os grandes algozes e os bandidos rasteiros.

Comandados aceitam alegremente, de olhos vendados, os mandamentos dos chefes, que dizem representar a luta do Bem contra o Mal. Suicidas não se importam em explodir em mil pedaços o que resta, para a excitante satisfação de prepotentes de egos duros. Os cínicos agem como hienas, a retalhar a carne dos mortos.

Quando finalmente despertarmos de nossa letargia, veremos um País aniquilado em suas forças, conduzido pela politicagem e malversação de nossas maiores riquezas – os bons brasileiros – jogados à margem da estrada, entre escombros de suas identidades.

Participam do BEDA:  Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari