Tirante o pensamento, nada viaja mais rápido no Universo observável do que a luz. Para nós, na Terra, a luminosidade do Sol nos atinge quase tão imediatamente quanto é produzida. As estrelas mais distantes são imagens do passado que admiramos durante anos mesmo depois de muitas terem se extinguido ou absorvidas por algum buraco negro. Tanto quanto o que vivemos tem como referências imagens que não mais são o que são, mas o resultado de experiências passadas de corpo presente…
Posições…
Tudo o que nomeamos, discriminamos, classificamos, justificamos, estabelecemos como tal o que é, seja lá o que for. Passar por cima do que está estipulado como líquido e certo, atravessar o significado das estruturas fixadas pelas palavras não é fácil. O Sol, a Lua, o dia, a tarde, a Terra, a manhã, as horas, os minutos, o Tempo, os segundos, o sexo, o homem, a noite, a mulher… É o Sol que se põe? É a Terra que se move? Quem come quem?…
Eu não pertenço apenas a um canto. Ainda que minha casa seja um recanto onde gosto de estar. Com certeza, é o meu favorito. De cá, viajo para tantos lugares, sem sair do lugar. Dessa maneira, o meu canto é o mundo todo e além… para dentro e para fora. O meu canto é circular.
Dorô
Dorô já passou, mas nunca passará, enquanto quem conviveu com ela viver. Reservo sempre um canto do meu pensamento para esse ser que surgiu misteriosamente em nossas vidas, filha de outra querida, a Lua, sua única gestação. Um mistério, já que nunca a vimos ultrapassar o portão de nossa casa. Eu trouxe a Dorô de volta de seu canto eterno para representar todas as outras criaturas de quatro patas que fazem do meu canto um lugar melhor para se viver.
Nosso jardim…
Continuando na mesma toada, trago apenas um dos exemplares dos vários tipos de plantas que temos em nosso canto — a babosa ou aloe vera. Estas estão envasadas, como muitas. Outras, se espalham no chão, por outros cantos. Cuidar do jardim foi um prazer redescoberto de quando era mais moço. Franciscano e com mais espaço, eu deixava que as plantas expressassem livremente a seus gostos ou dos pássaros, que são responsáveis por parte do processo reprodutor desses seres especiais.
Edifício itália
O meu canto fica ao centro, também. A região central de Sampa é um lugar que não me canso de visitar. Sempre que posso, observo as construções e juro que consigo ver a História circulando por cada via. Pareço “relembrar” épocas que não vivi. Tento conhecer os contos de cada canto da vida da cidade feita por mulheres e homens de todas as origens. Outras histórias, eu recrio. O meu coração fica no Centrão.
Banda Almanak
Depois de vários meses, voltei a fazer um evento. Respeito o poder da Pandemia. Não a nego. Mas depois de vários adiamentos, os noivos decidiram fazer o encontro onde festejariam seu enlace. Fomos pagos antes do surgimento da Covid-19 e apenas estávamos cumprindo o compromisso profissional acertado. Tanto o local quanto nós mesmos, equipe técnica e banda, seguimos todos os protocolos de segurança (possíveis). O meu canto também é onde estiver fazendo o que eu amo — meu trabalho. Com cantos.
São Bento do Sapucaí– SP
Na década dos vinte anos, eu flertei com a possibilidade de entrar para Igreja Católica, apesar de não ser católico, ainda que meu pensamento fosse e ainda é intensamente influenciado pelo cristianismo. Haja vista as notícias que pululam por aí, muitos membros da Igreja também não são sequer cristãos. Ao me deparar com essa pequena igreja, me lembrei que o meu objetivo era, como frei, trabalhar para a comunidade e talvez não fosse de todo mal que me fixasse no interior do País, onde já pensei em fazer o meu canto, se não fosse terrivelmente paulistano. Percebam que neste curto parágrafo amealhei diversas contradições. Como no canto do Caetano: sou o avesso do avesso do avesso.
Vila Nova Cachoeirinha
Entre as várias possibilidades de se estar, uma é permanente — a Periferia onde vivo. Completou cinquenta anos em 2019, viver aqui, na Vila Nova Cachoeirinha — ZN. Nasci no Centro, migramos, a família e eu, para a Zona Leste (Penha) e viemos para cá viver em uma casa bem simples, sem muitas das condições básicas, como esgoto, por exemplo. Para a minha mãe, foi um sofrimento, mas para mim, ainda que tenha passado por situações difíceis, sinto que fui feliz. Um dos meus cantos favoritos da casa é a varanda, ponto acima de todos, onde ainda posso vislumbrar o pôr do Sol, ao qual dedico vários dos meus cantos em homenagem ao seu calor e brilho.
Em 2020, entre o equinócio do Outono, que se deu em 20 de Março, e o equinócio da Primavera, que se dará em 22 de setembro, o Brasil viveu e vive a experiência da Pandemia da Covid-19, causada pelo novocoronavírus. A previsão macabra é que no próximo equinócio alcancemos a marca de 140 mil mortos pela gripezinha, como um dia nomeou o pandêmico J.M.B., atual presidente da República Federativa do Brasil. Enquanto isso, os dias passam como se fossem iguais, mas irregulares, como se fora um sonho perplexo-randômico-estático a cada dia que amanhece, entardece e anoitece.
Sol de verão nos últimos dias de Inverno. Alijei seus efeitos luminares na fímbria do mar-preto-do-morro. E eis que se vê a mostra um crepuscular Sol da meia-noite deslocado de seu tempo. Absoluta bola avermelhada de fogo cristalizada.
Júpiter e Saturno se apresentaram em conjunção visual com a Lua nos últimos dias de Agosto. Astros distantes entre si, brincaram unidos no firmamento. Ausente um equipamento que pudesse captar a majestade do momento, registrei o brilho lunar emprestado do Sol entre folhas de bananeira e goiabeira, como se fosse uma fruta de luz.
Dias secos. Minhas plantas clamam silenciosamente por água. Eu, que tenho ouvido vozes inaudíveis para muitos, as compreendo e as banho com o líquido vital. O rejubilar das folhas se me assemelham a aplausos. Com a espada d’água, as reverencio.
No equinócio do Outono, eu estava no litoral sul de São Paulo. Foi decretado o fechamento das faixas de areia, o comércio, o funcionamento de pousadas e hotéis e foi impedido o translado entre as cidades. Fiquei preso junto à imensidão do mar. Após retornar a Sampa, voltei outras vezes para a Baixada. Por algum motivo singular, a visão da Serra do Mar — a Muralha — vinha a ganhar um significado inaudito.
Despudoradamente, os sapatinhos-de-judia se abrem também à noite. Ao sair para o quintal, uma delas me encara como cara de quem não sabe o quanto é atraente. Ou apenas dissimula a sua inocência para oferecer beleza íntegra, a narcísica flor.
Forçado a deixar de trabalhar fora de casa, passei a ser uma “dona-de-casa” modelo. Ou pretendi. Sei que o termo usado entre aspas carrega o peso de uma função que no patriarcado significou o máximo que uma mulher poderia alcançar como status social. Tirante as “donas-de casa” que tinham empregadas domésticas. Neste período pandêmico, as tarefas caseiras que fazia para ajudar, tornou-se minha função primordial. O que sempre acreditei, se confirmou: a louça se reproduz incessantemente.