“Filho, nem sempre as coisas são o que parecem ser… É a Terra que está a dar uma volta sobre si mesma, enquanto viaja no espaço em torno do Sol, em torno do qual giram outros tantos planetas como o nosso. E o Sol é apenas mais uma estrelinha entre milhões de outras na Via Láctea, uma galáxia. E a nossa galáxia é apenas mais uma entre milhões de outras, neste canto do Universo, que também parece estar se expandindo… Sendo assim, somos muito pequenininhos…”.
O dia começa quando ela desperta.
O sol irradia luz para clarear o seu caminho.
Decide seus passos à revelia dos obstáculos.
As portas se abrem quando ela se aproxima.
Os espelhos disputam o seu reflexo quando ela passa.
A festa acontece quando ela aparece.
O DJ toca as suas músicas preferidas.
Na dança, ela comanda a coreografia.
Mares e brisas de mil anos contam segredos
quando pede que seu amor se entregue.
Quando nasceu, aceitou nascer todos os dias
em partos dolorosos,
pelo poder de viver mínimas alegrias,
poucos momentos de paz e prazer,
riso, paixão e nexo.
Por isso, vive…
Por que tudo é assim?
Esse é um enigma que não desvendei.
A resposta, não sei.
Não saberia, ainda que fosse o rei.
Ainda que percebesse o contexto.
Escritor, queria escrever outro texto
que pudesse mudar o destino,
arquitetar outro roteiro.
Queria que ela vivesse à larga,
bebesse o vinho tinto da melhor safra,
a caipirinha da mais apurada cachaça.
Ainda que não fosse alguém que ela amasse,
que eu não fosse feito de carne, mas de doce cassis.
Que meu corpo não tivesse ossos, mas giz.
Que eu estivesse em outro país
ou que não a tocasse por um triz,
que não apreciasse seu perfume pelo nariz
ou que ela viesse de outra raiz,
queria ver alterada a diretriz.
Que pudesse escolher entre ser o condenado ou o juiz,
cumprir a dura pena ou decidir que ela fosse, apenas, feliz…
Já que não tenho como a proteger
da necessária passagem do tempo e do sofrer,
me resta somente lhe perguntar:
de que maneira eu melhor posso lhe amar?
Ontem, eu a encontrei à tarde
Seguia o seu caminho, sem alarde
Tinha a ilusão de prendê-la à rede
Recolhê-la como água para saciar a sede
De embalar o meu sonho clareado
Por sua luz reflexa do sol dourado
Pois hoje todos a buscaram azul
De leste a oeste, de norte a sul
Todos queriam capturá-la em fotos
Prendê-la em nossa eternidade de rotos
Pois sendo ela mais antiga e permanente
A queremos tomá-la da vida a semente
Plena, instaura a esperança como sentimento
Dirige o olhar voltado para o firmamento
Que seja assim a nossa melhor procura
Pela Lua, pelo além, por nossa bela loucura.