Décio*

DÉCIO

Quando vejo qualquer imagem, ouço qualquer palavra, experimento qualquer sabor, cheiro qualquer olor ou aprisiono em minhas mãos qualquer objeto, desenho na parede da minha imaginação a linha reta que desvirtua a realidade, aperfeiçoando-a. Traço o meu caminho colocando cada pedra devidamente plana em direção ao abismo. Homenageio o poeta que não sou e não serei, erijo a porta que não ultrapassarei. Existo e hesito em reconhecê-lo.

No entanto, a expressão do que sinto insiste em se fazer presente, mesmo que seja o sol da manhã emparedado. Esta é a minha singela homenagem a Décio Pignatari, que ajudou a despertar em mim, com a sua obra, o gosto pela brincadeira de escrever.

* Dos tempos que não acreditava ser escritor.

… 7, 8!

7, 8!
Giovanni Boldini, Dançarina Espanhola no Moulin Rouge

Éramos dois perdidos numa cidade suja.
Nossos caminhos se encontraram – bailarina-cerebrina e espectador-expectador…
Meus olhos a perseguirem seus passos nas esquinas-palcos.
Eu, um solitário, cercado de pessoas e afazeres,
fui beijado por ela em dia de Carnaval diante da porta do trabalho.
Ela brandiu o seu leque, fantasiada de espanhola;
eu, um espanhol fantasiado de ninguém, o roubei…
Apaixonado, atrapalhado, alucinado, amargurado, assustado,
me recusava a olhá-la nos olhos fugidios-furta-cores –
sabia que neles me perderia para sempre…
Ela me amou como sempre me conhecesse;
eu, como se nunca devesse tê-la encontrado – pecado em forma de mulher –
cristão-penitente me a me sentir condenado…

Este-eu-pobre-ridículo-homem-tempo-seco,
enquanto ela era tempestade – raios e trovões em dia claro de sol –
visão oscilante feito miragem de oásis no deserto;
nunca soube ou quis amá-la como deveria
e ela gostaria.
Preferi fugir para um lugar onde sentia frio e dor,
mais confortável do que é amar – ser enganado por meus sentidos – nunca ter certeza de onde estava ou se caminhava ou se flutuava
ou se estava a cair indefinidamente numa fossa abissal…
Consegui sobreviver à vida por ela ofertada.
Preferi passear comigo mesmo em confortável-estável-imutável-roda-gigante
num eterno domingo no parque da morte…
Nos deixamos por mensagens-rompantes-soluços-choros de criança,
sem adeus ou carta de despedida…

BEDA / Pescador

PESCADOR

Estou junto ao mar, na praia, em veraneio. Estou retirado do resto da família, a terminar o projeto do meu livro de crônicas¹ que deverá ser lançado pela Scenarium, em março². Cheguei cedo, antes do aumento do movimento prometido para este sábado de sol. À beira d’água, pescadores amadores ainda posicionam as suas varas antes da maior afluência de banhistas.

Pouco a pouco, a areia vem a ser ocupada por coloridos guarda-sóis e brancas tendas, erguidas por turistas de tez coloridas, constituídas por vários tons de branco (como o branco-escritório, por exemplo) e outras colorações.

À minha frente, um alegre grupo de senhoras jovens há mais tempo fazem uma inaudita algazarra. Parecem meninas a sacanear umas às outras o tempo todo. “Olha o salva-vidas! Que lindo! Vem me salvar meu bem! Quero respiração boca a boca!” – Todas riem…

Um pouco mais à direita, duas pequenas gêmeas, de presumíveis três anos de idade, reagem quase ao mesmo tempo e do mesmo modo aos mesmos estímulos. Ao ouvirem as músicas que vem do palco onde se apresentam instrutores de dança, fazem a coreografia em simetria. Gritam em uníssono ao verem os super-heróis: “Olha o Batman! O Homem-de-Ferro! O Homem-Aranha!” – Não sei se perceberam que não são os originais, muito diferentes em tamanhos e formas físicas daqueles. Também devem achar perfeitamente natural que estejam a vender algodão-doce. À passagem de um Batman mais parrudo, as senhoras festeiras pedem para tirar fotos com o “defensor da justiça”. Ele não vende o seu produto, mas ganha cachê por isso.

Vejo passar mais vendedores ambulantes, a pé e com carrinhos; catadores de latas de alumínios e outros a percorrerem as mesmas trilhas desenhadas por pequenos tridentes – marcas das patinhas das centenas de pombas que recolhem restos alimentares. Eu já desconfiava, mas fiz um teste. Joguei perto de mim um pequeno pedaço de maçã, justamente a parte central, que contém as sementes. O pedacinho de fruta foi ignorada solenemente por todas as pombas que se aproximaram do petisco. Tanto quanto os humanos, elas parecem preferir junk food.

Vez ou outra, passam acima da linha d’água aviões com propagandas em longas faixas. Não deixei de me perguntar se esse era o sonho do garoto que um dia queria ser aviador a se cumprir – realizar viagens de trajetos tão curtos quanto repetitivos, em uma rotina de voar em rumo certo.

A intervalos regulares, vou para a água, ao encontro às ondas, íntimo do mar, a brincar com aquele elemento. Às vezes, deito de bruços no raso, a esperar as ondas chegarem, como fazia quando tinha a idade de várias outras crianças que fazem o mesmo que eu, ao meu redor. Chego a perder a noção do tempo…

Na volta do meu penúltimo mergulho, antes do momento que escrevo esta crônica, não encontrei o meu guarda-sol e minha cadeira sob ele. Fui até a tenda-móvel do Paulo, onde tenho comprado as águas de coco e sucos que tomo eventualmente. O Arles me indicou um ponto à frente dele, para onde deslocaram o meu acampamento. Um grupo bem grande quis aportar junto a uns amigos e, dada a intimidade adquirida durante a semana que estou por aqui, trocaram a minha posição de lugar. Acostumado com situações estranhas causadas pela miopia e pelo alheamento em diversas situações, brinquei com o pessoal que quase não estranhei que não estava onde deveria estar. Estou acostumado a me sentir deslocado.

Por sorte, antes do meu translado, pude capturar mais um peixe. Quando me estirei na cadeira, com os óculos escuros no rosto, pude acalmar os meus sentidos e, excepcionalmente senti diminuir o volume da massa sonora que me açoitava por todos os lados. Atrás de mim, já havia visto um casal de namorados, quase a encostar os pés na minha sombra. Conversavam em um tom baixo, mas os meus ouvidos puderam ouvir o que diziam. Eles eram amantes (vim a saber), casados com outras pessoas. Eles me entregaram uma história quase pronta – Os Outros. Escrevi uma variação que não entrega ninguém. Ou, por outra, pode vir a entregar muitos amantes…
¹https-scenariumlivrosartesanais-wordpress-com-2017-03-10-realidade
²Escrita em Janeiro de 2017

BEDA / Ratos Errados

RATOS ERRADOS

Estamos caçando os ratos errados. Fabricamos ratoeiras para ferirmos de morte mamíferos inteligentes e sociáveis. São considerados danosos porque vivem em ambientes inóspitos. Sobrevivem, carregados de doenças, dos quais são vetores. Seus espaços de atuação são os bueiros de ruas, esgotos de rios, túneis no chão, buracos de paredes de moradias pobres, vãos de casebres, residências malconservadas de outros mamíferos sociáveis – nossas cidades. Supostamente mais evoluídos, igualmente adaptados às más condições de vida, os seres que as habitam levam a desvantagem de raciocinarem. Comparam-se entre si. Sabem que há mamíferos que não precisam roer restos para sobreviverem. Estes são, aliás, fornecedores de restos para muitos dos demais.

Os ratos errados se sentem mais seguros à noite, quando o sol se põe e a luz quente deixa de banhar os corpos dos mamíferos errantes, muito mais ativos durante o dia. Os diaristas, buscam trocar a energia de vida que tem por víveres e meios e modos que os identificam como iguais-desiguais de peles multicoloridas, protegidas dos olhares uns dos outros por coberturas multifacetadas. Artifícios que os distinguem. Enganam em vez de esclarecer. São muito mais ladinos que os ratos errados, porque agem com má intenção quando querem sobrepujar os outros mamíferos com os quais competem. O sistema que os une, trabalha para que se desunam. Cria contradições para que se percam em explicá-las. Esforço extra e inconcluso.

Encimando os degraus de todos os mamíferos – os errados e os errantes – existem os que se consideram especiais. Interferem em todas estâncias. São os patrocinadores dos degraus e da degradação. Se quisessem, poderiam limpar os ambientes, salvarem os rios, evitarem os desperdícios, melhorarem a convivência, aprimorarem o conhecimento, sanearem as mentes. Ganhariam todos os ratos. O desejo dos ratões é que tudo continue com está, como se fosse vontade divina. Alardeiam que há ratos santos e diabólicos ratos, porque não comungam dos mesmos guinchos e chiados, sem deixarem a descoberto que são agentes da discordância, onde fazem imperar seus dentes afiados.

Que sejam culpados os ratos errados, que os matemos. As ratazanas nos iludirão com uma guerra que não existiria se cumprissem a missão que lhes foi confiada pelos ratos menores. Roedores da esperança, lhe aprazem passear seus compridos rabos entre palácios e limpos saguões, encastelados em confortáveis ninhos, construídos sobre os escombros da decência.

Projeto Fotográfico 6 On 6 / O Inverno De Cada Um

Até outro dia, vivíamos um dos invernos mais quentes e secos dos últimos tempos. Praticamente, um veranico de meio de ano. Apregoam que é culpa do El Niño. Para mostrar como a Natureza se manifesta em uma escala bem maior do que as marcações diminutas de nossos dias, o que acontece no Pacífico reflete nas costas do Atlântico – um continente inteiro pelo meio. No entanto, para cada um de nós, existe um inverno diferente. Para quem gosta do frio, hoje está sendo um dia ideal, assim como para os lojistas, que estão a se livrar do estoque abarrotado de peças deste “inverão” de 2019.

Inverno (3)

Apesar da quentura que envolve a cidade, as sombras das manhãs invernais não se enganam. Oblíqua, a luz do sol, sombreia os corpos dos edifícios da cidade que amanhece. Para quem acha que a sombra esconde algo talvez não se dê conta que é a própria sombra que está a se mostrar como protagonista.

Inverno (2)

Ainda sobre a luz invasora que antes se mostrava soberana – os obstáculos se tornavam adornos ao seu toque. Os perfis banhados, lambidos, vestidos e desnudos pelo sol ganhavam outra identidade. A vida acontecia tanto sob seu brilho como à sua sombra. Contraste digno de pintores renascentistas – “chiaroscuro” de Caravaggio – imposto mesmo aos olhos dos incautos-incultos.

Inverno (4)

As nuvens nos dias claros do início do Inverno, antes do cinza total que se apresenta agora, desenhavam quadros que têm um quê de tempos idos e são bem-vindos aos novos olhares. Creio, mesmo, que enquanto puder ver, tudo se apresentará a mim como símbolo da novidade de existir.

Inverno

Outro dia, em uma dessas manhãs frias, um jovem casal passou por mim em passos céleres. O rapaz carregava o filho no colo, enquanto a companheira ao seu lado, bolsa e mochila. Iam de mãos dadas, algo tão incomum nos dias que passam, que chamou minha atenção. Em determinado momento, o moço trocou o filho de braço. Soltaram as mãos por instantes, até as unirem novamente. Dobraram a esquina e logo chegaram à porta colorida da casa onde entregaram a criança, a beijaram e a viram entrar confiante entre abraços das “tias” da creche. De novo de mãos unidas, encetaram o caminho em direção ao ponto de ônibus. Essas cenas aqueceram meu coração…

Inverno (1)

Inverno de eclipse solar total. No entanto, aqui, em Sampa, às 17h39 do dia 2 de Julho – quando o fenômeno natural atingiria seu auge – o meu olhar em direção ao horizonte não viu o astro-rei encoberto pela Lua. Encontrei a tarde a declinar como sempre, nublada e tenuemente clara. E ela me encontrou meditativo e levemente obscuro. Certas manifestações ocorrem e não ocorrem: questão de ângulo e lugar.

Inverno (5)

Finalmente, o Inverno chegou ao seu tempo. Aqui em Sampa, por onde passa a Linha do Trópico de Capricórnio e abaixo, nos Estados sulistas, costumamos sentir as estações mais ou menos delineadas em seus parâmetros “ideais”, somente que de modo bem mais suave que as terras do Hemisfério Norte costumam apresentar – Primaveras floridas, Verões “callientes”, Outonos desfolhantes, Invernos nevados. A chegada da frente fria à cidade, trouxeram chuvas torrenciais, o maior índice pluvial para um único dia desde 1976, quando eu tinha de 14 para 15 anos de idade. Tentei lembrar se a mesma situação foi marcante, mas tantas águas passaram por mim desde então que não consegui me deter sobre qualquer fato relevante em qualquer das estações daquele ano. Estou muito ocupando com o hoje-agora-instante, pesado o suficiente para dar alguma importância a fatos passados, ainda que influencie meu Presente. Temperaturas de -4ºC no Rio Grande do Sul, geadas e eventualmente nevascas intermitentes atraem pessoas que se sentem transportadas para fora do Brasil tropical. Enquanto pessoas, entidades e campanhas do agasalho tentam minimizar os efeitos do frio naquelas que sofrem a condição de viverem no Brasil real. É o Inverno de cada um – dores, amores perdidos, corações conquistados e partidos – frio e calor. Antes assim, que o que é morno não me move…