Estátua Viva

Saio de dentro da terra à luz destes últimos dias de verão, tendo a Igreja e o Mosteiro de São Bento à frente. Caminho pelo Viaduto Santa Efigênia em direção à igreja do mesmo nome que, durante o tempo do erguimento das paredes da Catedral da Sé, se tornou o principal centro católico da cidade. Durante o trajeto, de um lado e de outro, admiro a selvageria motriz do Vale do Anhangabaú, enquanto ambulantes, músicos e outros artistas da sobrevivência brincam de esconde-esconde com a chuva e o sol sobre o piso erguido no ar.

Nas primeiras lojas da rua encontro o que necessito e retorno. Entre os itens eletrônicos, me encanto e compro um guarda-chuva-arco-íris. Porém, logo que saio da loja, o sol está à pino. O que dura dois minutos, se tanto, e meu adereço colorido se mostra útil. Na minha passagem de volta, avisto uma estátua viva quase ao mesmo tempo que volta a chover. Como a observo fixamente, ela deve imaginar que faria alguma contribuição e aguenta os pesados pingos. Passo direto. A chuva aumenta. Arrependido, olho para trás e vejo a estátua se cobrir com uma capa plástica, enquanto estou protegido por meu arco-íris particular.

Passo rapidamente pela 25 de Março, compro o que desejo e faço uma incursão pelas ruas em torno da região da Sé. Busco o passado presente em pedra – formas em paredes, portas e janelas, gente e estátuas “reais”. Um contrassenso em si, já que estar vivo em carne e osso é algo tão real quanto estar vivo na eternidade em bronze, como José de Anchieta, na Praça da Sé. Muitos transeuntes caminham alheios a um dos fundadores de São Paulo. Em contraponto, um contingente grande de pessoas permanece imóvel, sentadas ou em pé, como se fossem comentários ao monumento onde se faz alusão ao seu trabalho de evangelizador. “Apóstolo do Brasil”, o jesuíta fez, de consciência limpa, o que considerava correto – catequizar os gentios da terra. Ainda assim, teria feito a coisa certa ao tentar incutir sua fé baseada na culpa e no arrependimento do pecado original em pessoas livres desses grilhões?

Caminho entre ruas de passos antigos enquanto novos seres repassam velhas angústias. Ainda assim, vejo a cidade sorrir na boca de jovens esperançosos de sonhos imediatos que não se cumprirão. Na parte final de minha caminhada, passo pelo Largo de São Francisco, onde décadas antes cortejei a vida franciscana com o uso do hábito. Mesmo sem ele, ainda tento me orientar pela palavra do Homem de Assis. Atravesso o Viaduto do Chá em direção à Praça Ramos, do belo Teatro Municipal – mais uma travessia sobre o vale do canalizado “anhanga-ba-y” – rio dos malefícios do diabo. Os naturais da terra acreditavam que as águas do Anhangabaú provocavam doenças físicas e espirituais…

Em frente ao antigo Mappim, cachorros de moradores de rua apresentam aquela confiança de quem se sente amado, apesar do estilo de vida precário de seus cuidadores, espalhados pelo Calçadão. Encontro Lobo, um “cão coletivo”, grande, enfeitado com “chokers” e adereços no pescoço livre de amarras, doce como um cordeiro. Paro e olho em seus olhos. Deve ter identificado minha empatia. Vem em minha direção e se oferece às minhas carícias, que faço sem medo.

Afortunadamente, reencontro a estátua que se recolocou em frente da passagem subterrânea desativada ao lado do Shopping Light. Posso finalmente contribuir com a sua arte estática. Em sinal de gratidão, a estátua move o braço e indica uma caixinha com pedras sintéticas a seus pés. Apanho uma delas – sinal de gratidão. A vida se revela uma metáfora em fantasia em concreto e plástico – marca a carne viva de nossos corpos que envelhecem passo a passo na cidade que consumimos em movimento – enquanto ela nos consome engessados em nós mesmos…

Post Coletivo de Janeiro / Meu Livro Proibido Favorito

lua de papel
Luna visita a praia…

Quando foi sugerido o tema para a postagem coletiva no blogue – livro proibido – achei uma tremenda coincidência, pois estava preparando um texto para ser publicado na terça-feira, versando sobre um livro lido em segredo na adolescência. Nesse caso, vetado pela Ditadura. No dia 22, colocarei “O Livro” no ar, mas hoje tratarei de outro que eu mesmo me proibi de ler: “Lua de Papel”, de Lunna Guedes.

Eu queria manter distância do romance de minha editora-mentora por algum temor estranho. Apesar de lê-la em “Catarina…”, nas revistas trimestrais da Scenarium e em edições especiais do selo, ter contato com uma história tramada por ela com começo, meio e (mais ou menos) fim, era como me deparar com a minha incapacidade para tal empreitada. Convocado para a leitura de um trecho de “Lua de Papel II”, em seu lançamento, dei vexame e chorei quando o fiz. Isso me ajudou a querer manter distância. Este ano, ao contrário, estipulei o objetivo de ler Lunna em livro. Talvez, obtivesse mais respostas ou melhores perguntas a seu respeito. Em vão, tenho tentado apreender a escritora-ente-personagem pessoalmente.

Imaginei ter escolhido o lugar perfeito para isso – um espaço composto por areia, sol e mar – cenário que a Lunna já me disse não frequentar. Antes fosse uma praia deserta, mas Ocian Beach fervilhava de turistas com corpos, abertos à visitação pública de seus pudores, de todas as formas e cores possíveis, incluindo cinquenta tons de branco. E comportamentos indomáveis, que passavam longe da educação básica de convivência. Guerrilhas eram travadas em várias trincheiras compostas de guarda-sóis e cadeiras de praia – cada uma com equipamentos portáteis de som – a reproduzirem a batalha nas muralhas de Jericó, com horripilantes demonstrações sonoras de nossa decadência cultural.

Naquele ambiente humanamente inóspito, enquanto super-heróis trafegavam de um lado para o outro a vender guloseimas, decidi fazer a minha fortaleza, crendo na capacidade de me ausentar quando “caía” em um livro. Antes de “Lua de Papel”, teria em mãos as páginas de um amigo e colega de trabalho – Alex Ribeiro do Prado. Procrastinação necessária, já que havia prometido uma devolutiva a respeito de sua incrível história. Além do que, seria uma espécie de adaptação às condições de “minha sala de leitura”.

Intercalava a leitura de “Modigliani…” com mergulhos no mar de águas quentes e ariscas daqueles dias. Placas de “Perigo” advertiam sobre a possibilidade de afogamento. Salva-vidas na areia e na água, fiscalizavam os banhistas. Sou daqueles que compreendem a linguagem das águas do mar e suas variações de humor. Consigo me entregar e me adaptar aos seus movimentos de fluxo e refluxo. Ondeio com as ondas. Mergulho e flutuo, me deixo levar, com habilidade para pegar jacarés a me carregarem por dezenas de metros.

Todos brincavam. Homens, mulheres e crianças trocavam de corpos e consciências no jogo que a Natureza propunha diante de seu poder recriador. Pais passeavam com seus filhos no raso, incentivando passinhos até um pouco mais adiante, mostrando para os pequenos que podiam confiar em suas forças. Chegava a me lembrar que a complicada relação que tinha com meu pai apresentava uma trégua quando íamos para ali. Talvez o mar tivesse nele o mesmo efeito que em mim – sensação de naturalidade. O que me fazia recordar igualmente de meu outro projeto para o ano – escrever nossa história, agora que fisicamente ele partiu, há quase um ano. No entanto, antes disso, deveria chegar até a Lua…

Felizmente, no quarto dia, um domingo, a praia esvaziou o suficiente para que eu não precisasse batalhar para ficar atento à leitura da “Lua…”. Além do que, a obra se impôs desde o início. Logo, as personagens começaram a ganhar vida e a preencher meus olhos com a paisagem de Teodoro, cidade onde se desenrolava inicialmente a trama de Alexandra, Maria, Delegado, o Padre, Duca e seu mar particular… O menino de periferia se identificou com as angústias de uma escritora que poderia ser eu.

Lunna, além de presente em suas linhas, se apresentou via mensagem quase ao mesmo tempo que eu acabava de ler a primeira parte. Confessei minha emoção ao terminá-la, ao que ela contrapôs que hoje faria diferente e melhor. Aliás, como qualquer escritor deseja ao reler seu trabalho. Objetei que a graça da escrita igualmente residia naquela suposta “precariedade” da obra. A sensação de pertencimento me remeteu às palavras de Tatiana Kielberman ao apresentar “Lua…”: “… há aquelas histórias que, ao primeiro contato, sabemos como nossas.”

A chegada de Raissa e seus cabelos coloridos causaram tanto efeito em Alexandra bem como em todos a sua volta, incluindo a mim, que já participava do enredo. A cada sessão, fazia uma viagem no tempo e passeava pelo início dos Anos 2000 (época que imaginei ou escolhi), carregando como se fossem minhas as vivências de cada uma daquelas pessoas. Isabella, Carol, Mariana começaram a projetar suas sombras existenciais baixo ao sol deste janeiro de início de 2019. Por fim, Rodrigo e Ernest – tipos antípodas e complementares – se apresentaram para instaurar contrapontos surpreendentes na história de Alexandra e Raissa, que ouso dizer se tratarem da mesma pessoa. Mais um pouco, chegava a ver as personagens a caminharem pelas areias de Ocian Beach.

Como aconteceu após conhecer a antiga professora de Alexandra e sua “prima”, solteironas atéias que viviam juntas em Teodoro. Em um dos meus encontros com as ondas, observei duas senhoras que se afastaram um tanto para mais longe. Ao se sentirem seguras, sorriram, se abraçaram e se beijaram ao sabor do movimento das águas. Fiquei enternecido e imediatamente convencido que “Lua de Papel”, o livro que havia me proibido de ler até então, poderia representar a inauguração de um tempo de grandes possibilidades e materialização de sonhos – ou escolhi que assim fosse.

Participam deste post coletivo:

Ale Helga | Ana Claudia | Fernanda Akemi Gustavo Barberá
Maria Vitória | Mariana Gouveia | Lunna Guedes | Roseli Pedroso

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Projeto Fotográfico 6 On 6 / Dezembro Em Preto & Branco

Dezembro… luz do sol… calor… mês de festas… Preto no branco, quase não há o que comemorar, a não ser termos sobrevividos a um ano tão doloroso quanto um ferimento à faca. Em tempos em que cada termo ou imagem passa pelo escrutínio ideológico, essa metáfora, por mais inocente que pareça, indicaria pendores aleivosos. Pelo sim, pelo não, não precisa ser faca, então. Vamos dizer que tenha sido tão doloroso quanto o espancamento de um ser inocente com barra de ferro apenas para não tê-lo por perto. Este ano se encerra com dúvidas e incredulidade muito maiores do que quando começou. Fiz previsões para este ano da graça de Vinte Dezoito. Foram publicadas em uma das Revistas da Scenarium Plural – Livros Artesanais. Eu as reproduzirei aqui, até o seu final. Errei muito. Não queria acertar o que acertei.

Por hora, resta aludir às imagens em P&B – tema desta edição do “Projeto Fotográfico 6 On 6” – que consiste em postar seis imagens comentadas publicadas no sexto dia de cada mês, por autores convidados por Lunna Guedes. As fotos em preto e branco são, para mim, estranhamente mais atraentes que as coloridas. Talvez, uma influência direta do fato de ter assistido meus programas favoritos em TVs P&B até meados de 1982, quando minha mãe juntou o dinheiro que tinha e que não tinha para comprar uma TV Colorida para assistirmos a Copa da Espanha.

6 On 6 - P&B

Ao passar pelo Museu da Diversidade, instalado na Estação República do Metrô de São Paulo, encontrei essas palavras em um dos vários quadros com dizeres espalhados pela parede externa do pequeno e expressivo espaço de resistência da liberdade de ser. Traduz de forma exemplar como somos manipulados para viver por padrões que engessam nossa expressão humana. E como nossos sentidos – físicos e infra-ultra-físicos – se entregam à estereótipos confortáveis e padronizados para interpretar o mundo que nos rodeia.

6 On ¨- P&B (Devaneio)

A luz do sol inclinada na hora do crepúsculo, banha o vale e sua casas. Entre elas, a minha, que se sente calorosamente atravessada. Como o personagem de “Beleza Americana”, que assiste o passeio de um saco plástico ao sabor do vento, eu me perco em devaneios para formar imagens que se diluem em linhas costuradas pela imaginação. O registro fotográfico apenas arranha na superfície a viagem para o tudo ou nada do que vislumbro…

6 On 6 - P&B (Escuridão)

A imagem acima é um atestado do que coloquei acima, sobre preferir tons mais sombreados em contraste com a brancura dos corpos. Neste caso, de cravos vermelhos. O que eventualmente tenha se perdido em cor, ganhou em consistência – peso seria uma boa palavra – quase como se as delicadas pétalas fossem revestidas de ferro.

6 On 6 - P&B (Chuva Na Marginal)

Normalmente, voltamos de madrugada – eu, meu irmão e nosso auxiliar – dos eventos em trabalhamos na produção com nosso equipamento de som e luz – esta, idealmente colorida. Dia desses, quando choveu tanto em São Paulo que vários trechos da Marginal foram alagadas com as águas do Tietê, passamos transversalmente, a salvo por pontes do Corredor Norte-Sul. Registrei esta ilustração noturna que logo se configurou, como caçador de imagens, em uma das minhas favoritas desde sempre.

6 On 6 - PB (Portal)

Este portão de uma residência aparentemente abandonada é quase um portal do tempo. Não posso ver construções como essa sem reconstruí-las como à época de seus esplendores funcionais. Esta, acima, se localiza no início da Francisco Matarazzo e não duvido que tenha feito parte do patrimônio do próprio Comendador, como quase tudo no vale que a avenida que carrega seu nome, percorre. Esse portal dá entrada a uma pequena vila bastante descaracterizada, com linhas mais retas-modernas-pobres do que as belas-esféricas-sinuosas do passado. As primeiras, preferi cortar da foto.

6 On 6 - P&B (Idades)

De início, não via vinculação entre as duas imagens que estão expostas lado a lado. No entanto, a primeira, originalmente em P&B, representa um auto-retrato sem tanto apuro técnico, pois desenhava bem espaçadamente naquela época, ao contrário de anos antes, quando cheguei a me imaginar desenhista e até, pintor. Nada impede que possa me tornar um, algum tempo adiante. A segunda, devido à falta de luz, sombreou naturalmente. Contribuí com um pouco mais de escuridão. No desenho, o queixo é menos largo e o nariz menor do que se tornaram. O rosto, mais preenchido em suas linhas. O olhar, é de espanto. Espanto que carrego até hoje, talvez com os olhos espremidos de quem pensa demais. Além do que relacionei em comum, nos dois registros, uso óculos. Ao contrário do que diz a música, eu nasci de óculos, ainda que tenha começado a usá-los apenas a partir dos 12 anos…

Participam desse projeto:
Ana Claudia Anália BossClaudia LeonardiFernanda AkemiLuana de SousaLunna Guedes Mari de CastroMariana Gouveia Maria Vitória  Isabelle Brum   

Projeto Fotográfico 6 On 6 | Trick Or Treat? | Gostosuras Ou Travessuras?

Dia das Bruxas - 8
Jack da Lanterna

O mês de Outubro, o décimo do ano, o primeiro plenamente primaveril no Hemisfério Sul, aquele onde brotou esta flor que vos escreve, é o meu favorito: pela sonoridade – o número oito-infinito –, por ter nascido nele, por achar, quando garoto, que o Dia das Crianças tinha sido criado para mim. Em seu último dia, Outubro desemboca na fantasia do Halloween ou Dia das Bruxas. Tradição antiga da Irlanda que cresceu muito nos últimos cem anos nos Estados Unidos, acabou por se espraiar por outras culturas, através do poder de disseminação midiática norte-americana. Emblematicamente, pelo poder da Bruxa-Mor da Scenarium, veio pousar no sexto dia do mês, um antes das eleições majoritárias no Brasil, que traz para a cena muita gente que promete gostosuras, mas certamente cometerá travessuras.

Dia das Bruxas - 2
Moi, dans “arabesque par terre”…

Há quatro anos, ao voltar da academia, com a proximidade das eleições, decidi assistir às propagandas políticas daquele ano. Essas peças de marketing ainda eram decisivas, o que não está acontecendo nesta edição, em que a Internet foi muito bem utilizada por um candidato que representa, quase à perfeição, o espírito mais tenebroso de nossa sociedade, coisa de bruxo macabro. Ao refletir sobre aquele momento político específico e sobre o destino de nosso país, concluí que iríamos dançar. Todos. Por brincadeira, disse que decidira aprender balé clássico e, que se fosse para dançar, que fosse com estilo e arte. Eu me coloquei em posição de “arabesque par terre” e sem medo de parecer ridículo, divulguei a foto acima. Sabemos que, com o resultado daquela eleição dançamos, pelos quatro anos seguintes, a dança da sobrevivência – coreografia frenética, em noite escura. Pelo jeito, acho que teremos que aprender novos passos para o ano que entra e os outros que virão…

Dia das Bruxas - 3
Céu de fogo

Os céus de Outono são os mais bonitos. No entanto, por vezes a Primavera se deixa inspirar pela estação que se foi e produz cenários como esse – firmamentos em que tanto podemos nos deslumbrar pela beleza quanto nos assustarmos com a possibilidade de fogo no céu. O Halloween brinca com nossos medos. As bruxas, se não existem, as criamos. E podemos torná-las aterradoras. Elas passeiam com suas vassouras por nosso céu da boca e são cuspidas na atmosfera, sem controle. Todas as bruxas que conheço, são lindas d’alma. Porém, é comum não conseguir mostrá-las. E a impressão é que o mal se espalha…

Dia das Bruxas - 4
Dia transformado em noite…

Outubro é um mês de viradas do tempo. O dia ensolarado toma uma poção mágica e se transmuta em turbulento e estrondoso. Se faz quase noite em pleno dia, como no registro acima, realizado às 15 horas. Prenúncio de tempestade climática, quase a refletir o meu interior desassossegado. Fico a conjecturar se devo domá-la ou deixá-la se expressar. Durantes anos, engoli raios e trovões. Não precisava ser bruxo para saber que adoeceria. Há onze anos, no final de um Outubro como este, quase deixei este plano. Sobrevivi, para viver muitas outras viradas do tempo.

Dia das Bruxas - 7
Concreto e luz…

Há uma cidade onde bruxas e bruxos se batem e debatem como peixes em lago raso. Espaço de concreto e luz artificial. Profecias são cantadas em prosa, verso e versões. O credo da mentira é divulgado aos quatro ventos e amealha muitos seguidores, porque é nojento e atraente. Tudo que pareça um tanto mais harmonioso é um tanto perigoso. Não há porque se viver tão iludido pela verdade, se o falso é nosso espelho. No final de Outubro, haverá em praças públicas danças em torno de fogueiras. Não duvido que os livros de História sejam transformados em combustível para o fogo…

Dia das Bruxas - 5
Lua aluada…

A noite é o período em que bruxas e bruxos se mostram mais inteiros e se demonstram mais poderosos. A luz reflexa da Lua ajuda na magia de se apresentarem mais humanos. Transfigurados em amantes, uivam feitos lobos e lobas no cio. Buscam redenção para o mal que não conseguem deixar de viver. O que aprenderam quando crianças ensinam aos novos bruxinhos, desde cedo – a chantagem que lhes garantem a herança: gostosuras ou travessuras?

Participantes deste projeto:

Ana Claudia | Claudia Leonardi | Fernanda Akemi | Luana de Sousa |
Mari de Castro | Maria Vitória| Mariana Gouveia | Lunna Guedes

Maratona Setembrina | Como Posso Ajudar?

Pergunta

Vez ou outra, aperto sem querer alguma tecla no celular que acessa o Google, com a questão: “Oi! Como posso ajudar?”… Não foram poucas as vezes que pensei em perguntar como faria para parar o mundo e descer desta nave que viaja a velocidade orbital média de 107. 200/h em torno do Sol. De fato, em vez de simplesmente causar uma hecatombe mundial, bastaria deixar-se ir… Uma tentação que ressurge de tempos em tempos, apesar da consciência pessoal de que somos mais e melhor do que nos apresentamos como seres humanos.

A sensação é que não há saída objetiva para a situação encalacrada em que nos metemos. Erramos como coletividade, muitas vezes buscando o acerto. Ouço em minha cabeça o dito repetido por minha mãe: “O Inferno, de boas intenções, está cheio!”. Porém, não devemos deixar de perceber que mal-intencionados trabalham ativamente a favor da continuação deste quadrante confuso em que nos perdemos, por onde trafegam com habilidade e facilidade.

Eu acredito que seja Espírito encarnado e não apenas uma carne com alma. Portanto, atuo no mundo material e não devo deixar de participar do concerto regido por minhas ações – causa e efeito. Acredito que, conjuntamente, devemos construir nossa realidade física. Acredito que o Amor seja o filtro mais eficiente para nos conectarmos com o repositório energético original de nossa existência. O Amor abre portas, agrega, ajuda e reconforta.

No entanto, a tendência é de que se responda com Ódio a situações difíceis. Dos dois lados, os “separatistas” – oportunistas que buscam nos fragilizar como cidadãos – apostam todas as fichas na desunião para se assenhorarem do poder delegado por nós, através das eleições. Sabem que há divergências de opiniões e as realçam, em vez de buscarem objetivos em comum. Bem aparelhados, se apropriam de um discurso fácil e padronizado, que não dá margem à debates – comandos de ordem-unida. Dado “novo”, em termos de força, as redes sociais ganharam expressão inaudita nessa tarefa.

O que existe de concreto é que, mais do que nunca, as pessoas deixaram suas convicções internas eclodirem, como pústulas. Abriram suas caixas de Pandora particulares e libertaram para o mundo preconceitos e posturas que não contemplam solidariedade, compreensão ou tolerância. A convivência de diferentes opiniões tornou-se quase impossível diante de posturas inflexíveis, em que além da falta de compreensão de texto, entra em cena a pura imposição de valores pessoais de uns sobre os outros.

O fantasma da Ditadura nunca se fez tão perigosamente presente cotejada como solução desde a redemocratização do País. Os militares – igualmente cidadãos brasileiros, mas que são impedidos de atuarem politicamente pela Constituição – tem em seus quadros saudosos do tempo em que imperavam. Naquela época, patrocinaram e deixaram que prosperassem a tortura e o assassinato, com o ativo envolvimento de civis na estrutura montada para a repressão.

Está a se enganar quem crê não houve corrupção nesse período. A carta branca obtida através do Golpe de 64 levou à corporação o bichinho da prevaricação corporativa típica do arcabouço estatal arcaico desenvolvido ao longo da História brasileira. A bem da verdade, sob o manto insuspeito da divisa “Ordem e Progresso”, grupos que sempre se refastelaram de benesses associadas ao poder, continuaram atuando com total proteção daqueles que deveriam promover a segurança e o bem-estar da maioria da Nação.

Como quem noticiasse qualquer irregularidade poderia vir a sofrer represálias como prisão, tortura, desaparecimento, “suicídio” ou morte, as vozes se calaram ou foram caladas. Daí a errônea perspectiva de que não ocorresse as “tenebrosas transações” enquanto estávamos distraídos em sobreviver. Assim, estamos a nos postarmos diante da urna com a dúvida cruel entre votar em quem acreditamos ser a melhor alternativa para nós ou contra quem representa retrocesso e insegurança, ainda que anuncie combatê-la como mote de governo.

Enquanto isso, observo a noite estrelada, tendo a Lua como rainha soberana. Algumas luzes já estão mortas a milhões de anos, alheias aos nossos prosaicos problemas. Porém, ainda podemos a vê-las. Registros legíveis de um passado. Assim como certos fantasmas que apenas esperam a oportunidade para ressurgirem da escuridão dos porões ondem vivem…

maratone-se