Pelos profundos olhos azuis de Boy George,
vi passar minha juventude,
rasa,
sem viver de amores praticados
com garfo e faca…
Apenas imaginava cenas de sexo sem meio e nem fim,
somente início…
Me masturbar tornou-se um vício,
randômico e contínuo,
sem saciedade…
Quando conheci o sexo real – concretude,
cheiros, fluidos, sons – nada pareceu ser verídico.
Não que isso fosse ruim – sonhava acordado –
corpos vaporizados,
desfeitos pelo prazer…
A diferença sólida
é que as sensações perduram,
ganham direção e sentido – o bom vício
de ter alguém a quem amar –
me tornou dependente de viver…
Em canção dos Anos 70, que conheci na voz do imenso Wilson Simonal, ouvia: “Papai, mamãe não quer que eu suba no cajueiro. Ela falou se subir eu caio da galha do cajueiro…” (Galha do Cajueiro). Subir em árvores era um perigo, com certeza, mas nenhum garoto deixava de abraçar troncos e agarrar galhos para se posicionarem mais alto e melhor para pegar uma fruta. Fazia parte da formação do repertório de movimentos que a liberdade daqueles dias permitia. Tempos de caminhos desobstruídos e campos abertos.
Jogar bola na rua ou em campos de várzea era programa obrigatório, não no sentido de obrigação, mas de prazer. Antes ou depois da escola (e no intervalo das aulas), os meninos buscavam o perigo de ralar o joelho, lanhar a canela, bater a cabeça. Nossos impetuosos corações nos pediam que agíssemos como se não houvesse amanhã. No máximo, acalentávamos o sonho de nos tornarmos jogadores de futebol.
Ao crescermos, acrescentamos obrigações nem tão prazerosas. Porém, na mesma canção, há a seguinte passagem: “Me tira, mamãe, me tira, me tira deste castigo. Eu subo naquela galha. Não corro nenhum perigo. Eu quero tirar caju. Eu vendo e ganho dinheiro. Me deixa, mamãe, subir, deixa subir na galha do cajueiro!”. O garoto tem consciência que o dinheiro é a maneira pela qual intermediávamos o desejo pelo objeto e a satisfação do desejo.
Não passava pela cabeça que haveria outro modo em conseguir o que se queria, por maior que fosse a privação pela qual passássemos. Em algum momento, em nosso percurso como País, nos desviamos de nossos propósitos de como obter algum bem. Se pudéssemos adentrar na mente de algum garoto desassistido, certamente a facilidade da vida criminosa será muito mais atraente do que trabalhar pesado para conseguir realizar o sonho imediato de conseguir o tênis da moda ou o celular “da hora”.
Ontem, um rapaz de 20 anos foi morto por estar desatento aos perigos de viver nos dias de hoje. Usava fones de ouvido, escutava as músicas de sua preferência, se divertia após deixar a jornada de trabalho. Era noite, estava no ponto de ônibus. Iria para a casa. Não chegou. Dois rapazes, provavelmente da mesma faixa social, montados em uma moto, o mataram para obter o que conseguiu com seu esforço.
Menino, suba no cajueiro! Viva o perigo de viver livremente! Venda caju! Consiga com o seu trabalho e abnegação os recursos para crescer, namorar, casar, constituir família – viver! Que o presente do País não o impeça de sonhar…
Hoje, perdi um grande amor – os escritores são pródigos em perder histórias e amores – todos os dias. Ao passar a mão pela cabeça desnudada, com os poucos cabelos quase ao rés (máquina 2), dia de calor intenso, sinto o suor a umedecer a pele da palma e lembro dos redemoinhos da vasta cabeleira que portei durante décadas. Desde garoto, fui adepto dos fios longos, ainda que não os penteasse, por questão de princípio. Fui perdendo os cabelos ao longo do tempo, influência direta da ascendência calva de meu pai. Ultimamente, como foco de resistência, tenho adotado a barba um tanto mais pronunciada, quase sempre desgrenhada.
Meus redemoinhos ficavam (ficam) em três pontos, no cimo, e atrapalhavam o penteado mais comportado. Segui suas desorientações. Certa ocasião, ouvi alguém chamá-los de remoinhos. Procurei saber e descobri que também é uma forma de nomear essas zonas tempestuosas em nossas cabeças. Eu os imaginava como sorvedouros de ideias. Seria uma das possíveis explicações para eu viver a criar histórias vindas do nada ou inspiradas por palavras soltas ou circunstâncias as mais simples imagináveis – temas de amor, vida e morte.
O meu cérebro, logo ali, abaixo dos pelos, se transformava em moinho de ventos e pensamentos, gerando viveres e sonhos – esfarelados, amalgamados, reconstruídos – e jogados no papel. Certa ocasião, decidi parar de aceitar que meus rodamoinhos pessoais deixassem de tragar histórias. Quis criar vivências reais, com pessoas reais. O sofrimento igualmente tornou-se real – não fingido – doloroso e cru, ventos contrários. Em contrapartida, o amor ganhou solidez e riqueza – ventos favoráveis. A caneta de lado, quase não mais serviu ao propósito de transformar tudo em ficção. Cria que isso balizaria minha existência. No entanto, quase morri…
Porque somente a realidade ou pelo menos a realidade que nos impõem, é prerrogativa da existência. Como no Cosmos, a matéria escura – algo supostamente ausente – tem o condão de explicar a união da matéria mensurável. Precisamos – eu preciso – sonhar a vida. Escrever gera esse movimento. Apesar de meus redemoinhos estarem invisíveis, pelo efeito da calvície, ainda têm o poder de absorver e regurgitar energia. Metaforicamente, ainda balanço a cabeleira ao vento e absorvo, com cada vez maior paixão, a vitalidade de existir.
Quem acha que seja impossível
chupar cana e assobiar,
não conhece os amantes…
Amantes são capazes de caminhar
sobre o chão em brasa
com o sorriso despercebido
de quem esconde um grande segredo…
Desencarnam os pés,
porém disso não se apercebem,
pois confundem dor com prazer…
Amantes dão nó em pingo d’água.
Trocam o certo pelo duvidoso.
Não creem nas certezas perenes
e apostam quase tudo no imediato.
Amantes só têm como certo
o aqui e o agora…
E juram que o futuro conjura
contra as suas paixões…
Amantes
intuem que passarão…
Que passará a sensação de vertigem…
Que cairão em si –
vazios,
alheios,
desamados…
E como se sentem morrer de sede,
bebem do veneno
até a última dose,
a sonharem morrer
apaixonados…