Projeto Fotográfico 6 On 6 / A Hora de Ouro

A hora do crepúsculo é a minha preferida do dia. Nem sempre estou a postos para ver o Sol declinar no horizonte. <as quando posso, fotográfico aquele momento fugidio que anuncia a chegada da noite logo mais. É um momento de reflexão sobre o dia que se esvai feito areia na ampulheta.

A hora dourada também pode ser performada por objetos que imitam a luz do entardecer. Como aqui na imagem do Teatro Municipal de São Paulo. Poderia ser uma cor diferente, mas não como deixar de enaltecer que a luz dourada valoriza o edifício que este ano completa 115 anos de fundação.

O dourado parece ter sido sempre uma tendência na arquitetura de São Paulo. Do lado do Elevado Presidente João Goulart, conhecido como Minhocão, encontramos várias construções em que essa cor predomina, ainda que estejam desgastadas. A hora de ouro, ainda que esteja nublado, ajuda a tornar os momentos mais suaves.

A paleta de cores do entardecer apresenta variações que transitam entre o verde, o vermelho, depois que o dourado se pronuncia como o padrão crepuscular. É algo que vivencia-se com a sensação de que o mundo tem muito mais a oferecer do que a escuridão d’alma humana.

Numa tarde de sábado, a Tânia, eu e o Bambino, meu neto, passeamos ao longo do Minhocão sem carros. A tarde nublada impedia que víssemos o declínio do Sol. Mas o nosso caramelo representou o toque amarelado necessário necessário para representar a hora de ouro.

Quando passo pela Marginal dos Rios Tietê ou Pinheiros na hora de ouro, o trânsito ganha a configuração de veículos que vão ao encontro de um mundo em que a vida parece caminhar para um estágio quase espiritual de ser. Não há como nos deixarmos se transportar mentalmente para um outro lugar que não haja tanto sofrimento.


Participação: Claudia Leonardi / Mariana Gouveia / Lunna GuedesSilvana Lopes

09 / 12 / 2012 / Ausência Presente

de vez quando eu lembro de seus olhos furta-cor
muitas vezes eu a recordo sentindo dor
do corpo da alma do passado do presente do incerto futuro do amor
ao mesmo tempo elogiava o meu membro duro
que lhe trazia o prazer da fuga da vida fugaz enquanto mergulhava
no sentido do desejo puro
até que me disse sem pestanejar como se fosse vaticínio de cigana
que um dia tudo iria acabar quando decidi que era o momento
tempos depois revelou — você sabe que ainda poderia estarmos juntos
que a vida em equilíbrio precário devia ter seguido seu curso
que deveríamos estar no amando pelos cantos em pelo e pele
da cidade entre prédios e becos caminhos inusitados lugares
de esgares urros e gemidos onde todas vocês em si
se encontravam com todos os meus em mim
essa multidão ficou órfão de paixão num átimo
caminham a esmo em busca de outras bocas
em delírios sonhos e pensamentos
até perceberem que tentam voltar a se perder em nossas próprias bocas
nossos corpos nossos seres
e mesmo que na penumbra da luz indireta da tarde que esvai
é o que dizem a luz dos nossos olhares…

Foto por Alexander Krivitskiy em Pexels.com

18 / 10 / 2025 / Três Estações

Hoje, não presenciarei este poente… El Niño nublou o dia (tudo é culpa do El Niño desde sempre!) e a nebulosidade impedirá a visão do Sol boiando feito uma bolinha dourada nas águas avermelhadas do sangue da tarde que está a morrer… A não ser, é claro, que tenhamos uma terceira estação climática desde que se inaugurou a manhã…

03 / 10 / 2025 / Primavera

Tarde de início de Primavera
em tons monocórdicos…
Essa estação é parecida comigo…
É o tempo do talvez…
Talvez chova, talvez não,
talvez o vento derrube árvores,
destelhe as coberturas,
talvez o ar pare de circular…
Frutas frutificarão,
pássaros e outros bichos procriarão,
uivos, coaxares, cânticos serão entoados,
quase dá para ouvir outros seres que rastejam,
em intervalos de quando e quando são devorados
enquanto trabalham para sobreviverem.
A Primavera não é uma estação casta.
Vibra a vida, afirma a morte, tempo de renovação,
momentos de contemplação ao incógnito, à voragem
e devoção ao crescimento,
à crise,
à dor,
à cor,
ao coração…

24 / 09 / 2025 / Estrela Do Mar Celeste

Tarde, quase noite,
saí para pescar no mar vermelho
do céu…
Por entre retas paredes de corais
e rochedos de formas estranhas,
balançava a vegetação
ao sabor do vento acidental…
Por fim,
quando já alcançava
o seu refúgio final,
consegui capturar,
através do olhar,
a estrela do mar continental…