Tarde

Sob o céu que nos protege, momento de relembrar, antes à tarde do que nunca, que tudo é arte – a vida e a morte.

Semana estranha
pari das entranhas sonhos terríveis.
Febril
caminhei entre nuvens tardias
e céus amanhecidos.
Árvores passavam céleres por mim
enquanto eu permanecia preso aos grilhões
da minha musculatura esquelética
perfurada por milhões de micro agulhas
da espessura dos pelos dos braços
longos como os cabelos da amada.
Arrastando-me, cheguei até aqui…
Cumpre continuar a jornada
mesmo cansado, sobreviver
mas com um olhar terno
sobre o viver
enquanto a tarde cumpre seu estirão
até o final do dia…

Incompletude

fui até a água do mar 
dia frio praia deserta
penetrei nas tramas líquidas
do corpo que me absorve
a sensação quase completa
não se dá porque mesmo eu água
não estou dissolvido como o sal
estranho-me estando apartado
me engulo em lágrimas que parte de mim
também é mar
e me integro à desintegração de ser só
sem o total do céu e de si
o sentimento perdura e se digladia
meu corpo ainda vibra potência
ergo-me da cama sono de quatro horas
a espada erguida denuncia que quero brigar
a luta perdida contra o tempo
tudo é questão de tempo
o dia amanhece invernoso
nesta Primavera quase morta
vigésimo primeiro ano do vigésimo primeiro século
olho-me que não sou eu no espelho
na camiseta que visto there is no finish line
e nisso acredito
não deixo a neve grassar na cabeça
limpo o caminho dos meus pensamentos
mas já é tarde
não ser sendo gosto disso
me sinto confortável
na incongruência de ser-não-ser
estou incompleto
estou perdido
estou perfeito…

Noite Branca

foi assim…
ela disse fica bem
respondi fica com deus
eu, que nem nele acredito
despedida marcada
sem uma palavra de adeus
se houvesse mensagens
as ignoraria com sórdido prazer
era uma noite branca
lua cheia por trás da nebulosidade
primavera em outubro rosa
veias cortadas sem sangue
olhos que não se viam
vozes que não se falavam
bocas sem beijos
mãos que não se tocavam
separados pela distância
unidos na mágoa
o frio que se impunha
termômetro nos 25 graus
sete invernos e uma pandemia
talvez já tivesse acabado no solstício
feneceu no equinócio
mas você não mudou, disse ela
você não me ama mais, disse eu
os prédios pintados de tarde
o escuro protetor
das noites nunca alcançadas
ficou para trás nas avenidas centrais.



O Mais Pesado Que O Ar

Noite feita,
quase relego ao esquecimento
a imagem da tarde…
Crepúsculo recuperado,
o passado
se faz presente e arde…
Revejo a nave que não sei se chega ou se parte…
Pinceladas compostas de água e luz — a arte —
pontua o fundo da paisagem
ao oeste.
Eu, poeta do poente,
sei que apenas o amor é combustível poderoso o suficiente
para fazer voar
o mais pesado que o ar…