BEDA / Cinza

O acinzentado, em 2014, com as queridas Frida (direita), Domitila (centro) e Penélope (comigo)

Estou recebendo muito bem as tonalidades do cinza em meu corpo. Corpo que, um dia, em cinzas se converterá. Que tenha força e saúde para acolher plenamente os dias brancos! Em meu TCC do curso de Educação Física, que iniciei já acinzentado e terminei no ano passado, depois de passar por uma fase de saúde acidentada, utilizo os dados do levantamento do IBGE, que estipula que a expectativa média de vida do brasileiro gira em torno dos 75 anos.

Intitulei o trabalho de “Atividade física na terceira idade”. Nele, coloco de forma arbitrária que, ao dividir o total de 75 por 3, teríamos cada uma das chamadas “idades” com 25 anos. A primeira iria até esse limite, a segunda até os 50 anos e, partir daí, chega-se à terceira idade. Eu estaria, portanto, com os meus atuais 52 anos, nessa última faixa.

Brinco sempre que coloco esse número no espelho e me vejo com 25. Alguns estudos, no entanto, elevam o limite do início da terceira idade para os 60 anos, visto que as referências quanto à saúde física e mental, incluindo os diversos aspectos envolvidos, tem evoluído para a constatação para o fato de que, antigamente, as condições que nos colocariam de pijama, sentados “no trono de um apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar”, mudaram bastante neste século, a ponto de confundir os limites estáticos para a determinação de quem é (está) jovem e quem é (está) velho.

Lembro-me que, quando garoto, tentava imaginar como eu estaria já um velho, na passagem do século XX para o XXI, com 38 anos de idade. Ao chegar aos 38 anos, tanto quanto hoje em dia, vivo em contínua perplexidade por me considerar imaturo para as coisas da vida. Sinto-me em estado de constante aprendizagem. Continuo curioso e procuro viver um dia de cada vida, sabendo que “tudo agora mesmo pode estar por um segundo”.

Senti na carne a sensação de morte se avizinhando diversas vezes, mas tomei para mim a resolução de me ocupar realmente com a vida, sem me “pré-ocupar” com a morte, que considero apenas uma inexorável passagem para o novo. Em meu trabalho de TCC, tomei a liberdade de colocar o subtítulo de “Renascer antes de morrer”, já que procuro defender que, ao tomar consciência do nosso corpo, pondo-o em movimento, podemos evoluir para uma velhice plena de nós mesmos. Esforço-me em utilizar em mim os pressupostos que defendo, mas não digo que seja tão fácil. Tanto quanto chegar à Utopia, o País perfeito, que em grego significa “o lugar que não existe”, posso somente prometer que vou morrer tentando alcançar o objetivo que preconizei.

*Texto de 2014 que participa do livro de crônicas REALidade, lançado pela Scenarium Plural – Livros Artesanais em 2016.

Lunna Guedes / Claudia Leonardi / Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Alê Helga / Adriana Aneli

Renascer

Em 2011…

Cinco anos antes, eu estava a elaborar o meu TCC para o bacharelado do Curso de Educação Física, na UNIP de São Paulo. Tinha como título “Atividade Física Na Terceira Idade“. À época, escrevi: “A atividade física, mesmo depois de muito tempo sem ser praticada, pode apresentar resultados incríveis na recuperação do tônus muscular e condições orgânicas do indivíduo. Esse tema, inclusive, será um dos pilares sobre quais desenvolverei o meu TCC. O subtítulo dele será “Renascer antes de morrer“, considerando que, para mim, a morte não é ponto final de nossa existência (mas como essa tese depende de crença, obviamente não entrará em discussão). No entanto, mesmo para quem acredita na dicotomia Vida-Morte, podemos experimentar o renascimento muitas vezes durante a passagem pela Terra. Outra lição que fica, com o vídeo aqui veiculado, é que é sempre muito difícil o exercício da crença em si mesma… porém, ao final de tudo, vale muito a pena”.

Eu iniciei o curso em meados de 2009, dois anos depois de ter passado por uma crise muita séria de Diabetes que quase fez com que eu não estivesse aqui para contar histórias. Com o incentivo dado por minha família, incluindo o meu irmão e sócio, Humberto, que segurou as pontas na nosso negócio, principalmente por ocasião do estágio, entrega de relatórios, feitura de trabalhos e provas, o concluí em 2013. Tinha a minha mãe como inspiração, mulher guerreira que se transportou para outra dimensão em 2010. Na apresentação do TCC, tirei a nota máxima. Não foi uma vitória sobre mim mesmo tão retumbante quanto a espetacular recuperação apresentada no vídeo, porém também enfrentei situações que testaram os meus limites. E que viesse outros desafios!

Depois de concluído o curso, cheguei a cogitar trabalhar na área, talvez como personal trainer, voltado para as pessoas inativas ou acima dos 50 anos. Porém, seria muito estranho que eu receitasse quase que exclusivamente a caminhada monitorada como exercício físico como base para a obtenção de um corpo com uma boa capacidade aeróbia, orgânica e fisiológica, com uma consequente qualidade de vida equilibrada, como percebi ser suficiente para manter a homeostase em alto nível de rendimento físico. Apenas para não parecer algo tão simples realço que complementaria o programa de atividades físicas com musculação.

Eu curto musculação, gosto de fazer movimentar os meus grupos musculares nessa luta de resistência contra a gravidade. Como em tudo ao meu redor — também percebo um viés filosófico nessa batalha do nosso corpo contra os pesos e a atração gravitacional exercida pela mãe Terra. Agora, o que me deixa ferrado — para ficar no campo dos ferros — é o oferecimento de substâncias milagrosas que anunciam a aquisição de músculos do tamanho de um Hércules, “sem se matar na academia ou fazer dieta”. Eu SEI que praticamente somos o que comemos e que a obtenção de um resultado sem esforço não é digno de ser chamado de conquista. Considerando o fato que apenas tento manter uma boa forma, eu me ofendo com essa tentativa de me seduzir com facilidades sem mérito.

Superação