13 / 10 / 2025 / As Chaves*

“Tenho tido pequenos lapsos de memória. Tenho me dispersado frequentemente ao realizar tarefas básicas. Eventualmente, tenho até esquecido de comer. No entanto, a não ser que tenha sido levada por seres alienígenas ou tenha entrado por uma porta interdimensional, uma coisa eu garanto: as minhas chaves de casa estão em algum lugar sobre a face da Terra!” — 2014.

Escrito a 11 anos, no parágrafo acima descrevo uma circunstância comum na vida muita gente, de tal forma que as respostas dadas a ele relatava vários casos como esquecer o óculos de leitura na própria cabeça, trocar os itens de compra no supermercado por outros que já tinha em casa, deixar o celular perdido em algum ponto. Quando eu ainda tinha telefone fixo, uma das suas únicas utilidades (além de receber propagandas) era o de ligar para o celular para saber onde o havia deixado. Outros brincavam dizendo que era a idade que provocaria esses lapsos.

Pode até ser que estivesse piorando, mas o que sei é que sempre fui disperso. Isso me propiciava diversas situações embaraçosas que faziam com que me isolasse cada vez mais. Preferi evitar conviver mais de perto com as pessoas para não criar pretextos para discussões. Era usual eu me perder em divagações em meio a conversas com parentes e amigos. Na escola, buscava me concentrar o máximo possível e, no meu trabalho, descobri que conseguia manter a atenção redobrada, levando tudo a bom termo. Na escrita também ficava tão envolvido que todas as experiências vividas ou intuídas fluíam em prol da sua elaboração. Os textos, após ser entregues, os esqueço. Aos relê-los depois um tempo, muitos ressurgem como se fossem inéditos para quem os escreveu.

Minha dispersão é estimulada algumas vezes pelo encantamento por palavras ditas ou lidas a esmo, além de cacos de lembranças ou visões que me levam para longe — um efeito reverberante, inexplicável e imprevisível. Até provar para o meu interlocutor que minha desatenção não é proposital, o estrago já está feito. Ao mesmo tempo que saiba que isso possa ser prejudicial às minhas relações, eu receio que ao tentar reverter esse sintoma (seja lá de que forma for) me ajuda na redação meus textos, tornando-se quase uma dependência.

O isolamento provocado pela Pandemia de início propiciou o tempo necessário para escrever. Porém, a falta de contato com a vida em movimento foi reduzindo paulatinamente os estímulos que colaboravam para um melhor desenvolvimento de meus temas. Receber referências indiretas — por livros, filmes, músicas, artes plásticas — são desejáveis igualmente, mas sempre preferi beber na fonte do cotidiano humano que apreendia através da minha percepção. Passei por uma crise criativa, muito parecida por ocasião da doença e morte de meu pai, três anos antes.

Encontrar as chaves que possam deixar abertas as portas da minha percepção como escritor enquanto consiga conviver sem parecer alguém com sintomas escapistas inconciliáveis requer um esforço grande, mas necessário. Ainda que me sinta desconfortável em compartilhar minhas embaraçosas idiossincrasias pessoais, praticar a escrita ao revelá-la torna-se um duplo exercício de criação e auto perdão que me trazem prazer e certa redenção.

BEDA | Robôs

Robô
*Eu não sou um robô…

Atendo ao telefone fixo. “Alô?” A voz de um rapaz pede que aguarde. Logo depois, uma voz feminina pergunta se lá vive Maria. Maria é o nome de minha mãe, já falecida. “Quem deseja?”… Do outro lado da linha, a voz retruca – “Diga ‘sim’ ou ‘não’!” – “Nossa! Que falta de educação!”. Desliguei…

No dia seguinte, uma voz masculina se anuncia: “Olá! Na sua residência tem um Tiago?”… Penso logo no ex-namorado de minha filha mais velha, que ficou um tempo albergado em casa. “Não tenho mais contato com ele…”. Diga “sim” ou “não…”. Só então percebi que falava com um robô… Soltei um impropério!

Na figura do robô, xinguei o sistema. Os humanos estão a perder espaço em todas as áreas. Pelo menos, no caso de pessoas do outro lado da linha (se bem que não haja mais linha), se pode argumentar. Ao passo que esses robôs não aceitam tergiversações. Apenas “sins” ou “nãos”! Enfim, a conversação entre seres racionais perde significação. A base sob a qual crescemos e nos desenvolvemos como seres gregários e inteligentes se esboroa.

Até nos filmes de ação, nos casos de lutas mais sangrentas, os contendores costumam expor os seus argumentos entre uma explosão ou outra, entre uma porrada na cara e um chute no saco, ouvimos as vozes cada vez mais raivosas e extenuadas dos oponentes a se comunicarem com mais palavras que simples “sins” e “nãos”. Não há porque levar à sério robôs que não discutem.

Atualmente, a corroborar o que está a se tornar uma tendência, uma grande instituição bancária está alardeando aos seus clientes que poderão entrar em contato com uma inteligência artificial que se expressa na forma feminina. “Ela” aprenderá com você a cada pergunta que fizer. Conhecerá suas preferências, desenvolverá estratégias para atendê-lo, por comando de voz ou digitação. A propaganda alardeia: “Experimente o futuro agora”.

Ou seja, no futuro, falaremos com robôs como falamos com pessoas. A supor que cada programa responderá a você, da maneira que você é ou se expressa, de certa forma, esse será um contato íntimo com um alter ego. Objetivamente, apesar de ficarmos contentes com “alguém” que tem tantos pontos em comum conosco, não devemos esquecer que a I.A. atenderá a um outro senhor – a instituição que a criou.

Não será difícil, como no filme “Ela”, um sujeito estabelecer uma relação acima de simpatia. Amorosamente, ficaremos a namorar como antes acontecia com amantes em cenas que víamos em todos os lugares. Haverá um dia que, finalmente, quando quisermos terminar uma conexão, diremos: “Desliga, você…”. E ouvirá: “Não! Desliga você…”. Pronto! A clientela não abrirá mão de estabelecer uma relação que considerará prazerosa e, além de tudo, rentável… para alguém.

*http://portaweboficial.blogspot.com/2014/06/robo-telemarketing-negam-ser-robos.html

Participam do BEDA:  Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari