Fase Azul*

Ontem, a chuva faltou ao nosso encontro diário. Ela era nossa assídua companheira desde que começou 2013 e, para arrematar a tarde seca, o Sol nos deixou com a promessa de que voltaria no dia seguinte, com toda a pompa e circunstância.

Anúncio que, de fato, se cumpriu. Gosto de ver a luz solar refletir-se nas fimbrias do horizonte e a iluminar as construções e a produzir desconstruções de linhas e perfis no relevo. Já postei várias fotos desses momentos do entardecer em que vejo o Sol comemorar o seu poder transformador.

De início, a luz amarela ajudava a dourar as casas de alvenaria e tijolos aparentes, no morro adjacente à minha casa. Passado algum tempo, no entanto, me chamou a atenção, quando o astro já estava quase totalmente recolhido, o azul que substituía a paleta terrosa.

Conjecturei que o ângulo de inclinação de sua luz, ao refletir no céu, azulava tudo em seu entorno, feito Van Gogh em sua fase azul. Logo, o arrebatamento tomou conta dos meus olhos e, o anil, de toda a paisagem.

*Texto e imagens (sem o fulgor do momento) de 2013.

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Mas (Não) É Carnaval

O Carnaval tem suas raízes na Antiguidade, entre o Egito e a Grécia. Eram festas dedicadas aos deuses que congregava a população em torno da comemoração do fim do Inverno e a chegada da Primavera, em que se verificava certa transgressão à ordem social. Com a chegava do Cristianismo ao Império Romano, não sendo possível impedir que acontecessem, foi imposto regramento a esses festejos profanos. Foi instituído pela Igreja um período de três dias de celebração, que termina na Quarta-Feira de Cinzas, às vésperas da Quaresma. Este período dura quarenta dias até a Semana Santa, e representa para os fiéis cristãos o preparo espiritual para a Páscoa, a Paixão de Jesus Cristo e a sua ressurreição três dias depois de ter sido crucificado e morto.

Apesar de ser traduzida como “festa da carne”, de fato o termo Carnaval vem do latim carnem levare, que significa “abster-se, afastar-se da carne”. Apesar de cidades como Veneza (Itália), Nice (França), Nova Orleans (EUA), Ilhas Canárias (Espanha), Oruro (Bolívia) e Barranquilla (Colômbia), apresentarem estilos de carnavais bastante atrativos, foi no Brasil que ganhou importância e substância de identidade nacional. Trazido pelos colonizadores portugueses, os historiadores afirmam que a festividade se estabeleceu no país entre os séculos XVI e XVII e teve como primeira prática o entrudo — brincadeira que se fixou primeiramente no Rio de Janeiro — porém, com o tempo, cada região do País estabeleceu configurações diferentes, entrelaçadas às características peculiares de cada lugar, propiciando uma riqueza cultural inigualável.

Em 2020, a Covid-19 surgia no horizonte, mas o Carnaval ocorreu e as consequências todos sabemos. Apesar de criticarem a sua realização, a oposição às medidas sanitárias só começou a arrefecer com o crescimento dos números, meses depois. Transformada em batalha ideológica, o cancelamento do Carnaval em 2021 foi considerado inevitável pela maior parte da população. Fato inusitado em 2022 e que contraria a história do próprio Carnaval, se a variedade Ômicron permitir, ele será realizado na sua versão oficial em desfiles em São Paulo e no Rio de Janeiro depois do fim da Quaresma. Ou seja, o pecado virá depois da penitência. Mas isso já estamos acostumados a fazer…

Imagem do colorido Carnaval de 2020. O público presente só queria se divertir. Tempos sombrios se aproximavam…

Uma primeira viagem ao Passado. Aqui, estou à frente da mesa iluminação que utilizávamos em 1995 pela Ortega Luz & Som. No caso, esse dispositivo foi montado com madeira, interruptores e tomadas comuns. Na época, não tínhamos recursos para comprar um equipamento mais profissional, mas esta nos serviu bem e por um bom tempo.

Banda Life Show, no Carnaval de 2019, que realizou as matinês do Carnaval do Círculo Militar de São Paulo, com a nossa participação na sonorização e iluminação.

Outra viagem, esta para o Carnaval de 1996 do Clube Guapira. Naquela época, o contrato era para a realização de nove eventos — um pré-Carnaval, um sábado antes, quatro noites, três matinês e um pós, no Sábado de Aleluia. Ao lado do meu irmão e sócio na Ortega Luz & Som, Humberto, está o Carlão, cantor da Banda Nova Geração e veterano de vários carnavais que tinha técnica vocal para realizar a maratona sem perder a voz, algo comum depois de tanto esforço. É um amigo que morreu de amor. Com o passamento de sua esposa, três meses depois, ele também se foi…

Minhas meninas — Ingrid, Romy e Ingrid — no Carnaval de Rua de 2020, outra expressão importante que apresentou sua maior versão justamente antes do advento da Pandemia de Covid-19.
Quarta-Feira de Cinzas de 2020. A Quaresma forçada está completando dois anos…

Participam:

Mariana Gouveia / Lunna Guedes / Roseli Pedroso / Isabelle Brum / Darlene Regina

A Mariposa

Logo no primeiro dia em que estava na praia um simplório episódio me impulsionou a voar. Conversava com a minha sobrinha. O meu braço se estendia em direção às ondas do mar. A brisa chegava em invisíveis frequências sonoras quase surdas. Eu devia estar falando alguma insensatez. Eis que em voo tracejado pelo destino, estacionou em minha pele sob o sol, um tipo de mariposa — soube em pesquisa por imagem feita pela Verônica.

Rapidamente, recolheu as asas abertas internas sob a externa, de proteção. Talvez ela tenha sentido que tenha chegado a um porto seguro, tão longe da vegetação. O leptóteno pousado em meu braço pareceu não querer se mover. Depois de um minuto, delicadamente eu coloquei o indicador sob as suas patinhas e a transportei para o cabo do guarda-sol.

Eu a deixei e fui às águas como o menino que me torno, enfrentar as vagas em mergulhos curtos como um golfinho-criança ou um jacaré-mirim. Quanto ao ser que vive de mariposar, ao voltar já havia me esquecido. Naquele momento. Depois, por algum motivo, ela começou a adejar pelo meu pensamento. Busquei simbolismos que pudessem me indicar alguma mensagem. Encontrei que, a depender das cores, elas simbolizavam possíveis acontecimentos, bons ou ruins. Assim como tanto pode ser o nome dado a uma joia ou pode ser outra designação dada a quem pratica a prostituição.

Achei pertinente a sua associação com a vida carnal — nascer, se desenvolver e morrer — e os ciclos na vida desse inseto, que nos remeteria não apenas a superação às limitações físicas, mas também às espirituais. “A morte, no contexto da mariposa, simboliza o fim de um ciclo ou de alguma limitação que já não precisa fazer parte da nossa vida”. O que sei é que me senti distinguido. Sou assim. Tento transcender em vida, tento elevar o meu sentimento para além do comezinho cotidiano. Isso não significa que haja assim o tempo todo. Sei distinguir as realidades. Sou funcional. E sou espiritual.

Eu me permito sair de mim de vez quando. Faço por onde me colocar no lugar do outro. Sofro muito. Mas não conseguiria agir de outra maneira. Sei que também devo proteger as minhas asas internas assim como a minha capacidade de voar sem me alienar. Essa é uma batalha que luto desde garoto. Depois de ultrapassar as fronteiras do imediato, não há como retornar, ainda que possa acontecer de surgir dúvidas e tentações de ser menos do que podemos ser.

O pequeno ser me enviou um recado. Viajei? Sim, para além de mim, em dia quente, Sol a pino, sabendo que as nuvens toldariam a luz, as chuvas se precipitariam, as ondas se enfureceriam, as tempestades ocorreriam. São os ciclos que devemos superar. É a vida que continua a voar…

Notas Sobre A Vida Em Janeiros Passados

SOBRE OS JESUÍTAS (2019)

Este painel se encontra à esquerda do saguão de entrada da Casa de Portugal. Mostra o jesuíta português Manoel da Nóbrega entre os gentios da terra, em postura de força impositiva, apesar de apresentar, humildemente, os pés descalços. Se visitarmos um estabelecimento oficial espanhol em São Paulo, lá encontraremos a figura do espanhol José de Anchieta, a catequizar os nativos dos Campos de Piratininga. Oficialmente, os dois jesuítas foram os responsáveis pela fundação desta cidade que hoje completa 465 anos de nascimento, na inauguração da choupana que servia de escola e moradia. Por uma confluência de fatores, São Paulo — Sampa, para os íntimos — tornou-se o que é. Qualquer definição que se dê a ela, em pouco tempo deixa de ter sentido, pois a metamorfose permanente é seu único traço definitivo e definidor. Em São Paulo nasci, vivo e espero morrer, a saber que já fui muitos e serei outros tantos até o fim — quando dispersarei meus átomos por esta terra que me formou.

SOBRE IMAGEM (2019)

Subo ao coletivo, passo a catraca, me sento junto à janela, a qual deixo entreaberta para sentir o vento e me refrescar neste dia quente. Começo a suar mais do que devia e percebo que a janela do meu lado estava fechada. Imaginei que tivesse acontecido pelo movimento do ônibus. Voltei a abri-la. Mais alguns minutos, a vejo novamente fechada. Estranhei e olhei para o banco de trás, onde havia uma moça que sorriu amarelo e murmurou: “o vento estava bagunçando o meu cabelo…”. Realmente, ela estava com os fios retos postos lado a lado como se fossem desenhados. Sorri de volta, outro sorriso amarelo. Não tive coragem de dizer a ela que a sua maquiagem, devido ao calor, estava escorrendo um pouco…

IN PLANET OF THE APES (2020)

“A primeira foto data de 2014. Treinava regularmente. Faz três anos, justamente em janeiro, que não entro em uma academia. O ritmo de trabalho aumentou tanto que não tive mais tempo para sentir a dorzinha gostosa da atividade física regular. Quando estou em casa, me dedico a escrever ou a realizar tarefas caseiras. Quando subiu a primeira imagem, de seis anos antes, percebi que usava a mesma camiseta — uma das minhas favoritas. Registro feito, não imaginava que a camiseta fosse tão velha. Já o velho, tenta viver um dia de cada vez. In Planet Of The Apes…”. Dois meses à frente, o mundo pararia…

463 ANOS (2017)

Nesta imagem, homenageio a minha cidade. Eu a produzi às 6h da manhã do horário de verão, ao passar pela Ponte da Freguesia do Ó. Quis captar a Lua, em sua fase crescente. Quase não conseguimos percebê-la. As luzes das Marginais roubam a cena, separadas pela escuridão do leito do Rio Tietê. De forma indireta, é uma maneira de reunir símbolos importantes desta metrópole — um rio morto pela poluição, vias de locomoção que estão normalmente congestionadas, luzes que nos confundem em vez de revelar, a beleza dos astros, esmaecida pela fumaça. Contudo, não viveria em outro lugar.

CLIMÁTICA (2017)

E o dia entardece como ontem. Depois de um dia nublado e/ou chuvoso, a luz deu o ar de sua graça sobre a terra paulistana dos quatro elementos e diferentes climas cotidianos.

FILME NOIR (2015)

Ao lado do Hotel Manchete, a Lanchonete E Bilhar Ideal. Com esse aspecto de filme noir dos anos 40 ou 50, já imagino que o cidadão sentado à frente da entrada seja um exímio jogador à espera do próximo “pato” a ser depenado em uma aposta — “bola sete na caçapa do meio!”.

SOBRE O LIXO (2016)

Sem cabeça para ficar… Sem pés para onde ir…

NOTAS SOBRE JANEIRO DE 2022

É bem significativo e nada contraditório (no Brasil) que o Carnaval seja transferido para o dia em que se comemora o enforcamento e esquartejamento de um homem que lutou pela liberdade. Assim como seja tradicional que Judas seja malhado no Sábado da Aleluia por ter cumprido o percurso da Paixão daquele que pregou o perdão.

Prestes a ser comemorado o aniversário da cidade de São Paulo, podemos ver a reprodução atualizada dos grupos de homens e mulheres da terra, nômades se reunindo em coberturas em torno do Pátio do Colégio. A diferença é que há 468 antes, elas eram eficientes por ser o estilo de vida que as comunidades dos originais da terra conheciam. Atualmente, as tendas são moradias improvisadas, a única maneira que os desvalidos da terra encontraram para se abrigarem das intempéries.

Como a conta sempre chega, os não vacinados ou com vacinação incompleta contra a Covid-19 ocupam mais de 80% dos leitos de UTI e Enfermagem, retirando espaço de outros tratamentos. O Negacionismo ocorre em todas as frentes — social, econômica e psicologicamente — o que não impede que a realidade sempre se imponha, não sem muitas dores.

Coleção “As Idades” / Aos 52 / Recomeços*

Da esquerda para a direita: Sr. Ortega, Dona Madalena, eu, Tânia, Sr. Manoel e Dona Floripes, em 1989.

Segunda-feira, a Tânia e eu fomos retirar no Cartório de Santana, uma cópia renovada de nossa certidão de casamento, a propósito de dar encaminhamento a um trâmite burocrático. Em maio, completaremos 33 anos de celebração da união oficial, mas como coloquei no texto de 2014*, que reproduzo abaixo, essas efemérides documentam linhas retas de uma história plana, sem os intermédios da vida — dores, sobressaltos, alegrias, tristezas, festas, doenças, altos e baixos, passamentos e nascimentos — fins e recomeços.

“Estará para completar, em 2014, 25 anos. Foi em 13 de maio de 1989 que celebramos a nossa união oficial, Tânia e eu. Já tínhamos um laço indissolúvel a nos unir, pois a Romy já estava sendo gestada há cinco meses em seu ventre. Para mim, assim era. Não fazia questão de cumprir as convenções formais de declarar um fato que já estava sacramentado. Mas as respectivas famílias faziam questão e como não ligava para formalidades, igualmente não objetava em cumpri-las. Dessa forma, satisfazia às pessoas ao meu redor. Foi a decisão mais acertada que tomei em minha vida. Nunca usei anéis, mas me emocionei em colocar um em minha companheira dali por diante e de ter recebido outro em meus dedos.

É bem verdade que não o usei por muito tempo, já que devido ao trabalho, acabei por torná-lo em um objeto octogonal. Tive que guardá-lo, mas uma aliança material não suplanta uma mental e espiritual. Tudo o que passamos desde então, entre altos e baixos, nos provou que estamos vivos e funcionais, qual um gráfico de eletrocardiograma nos indica. Nunca registramos um traço e, por isso, aprendemos encontrar momentos de plenitude e estabilidade em meio às variações de todas as ordens — físicas, mentais, espirituais e econômica-materiais.

Conforme propago sempre que posso e que alguém já deve ter exemplificado em algum ensaio por aí, no tempo e no espaço, prometer qualquer coisa diante do altar é sempre temerário. Quem promete naquele instante não é mesma pessoa tantos anos depois para afirmar que um relacionamento seja eterno. Apesar de o ser, para mim, ainda que o compromisso seja desfeito um dia. Afinal, o que vivemos nos influenciará pelo resto de nossas vidas. As pessoas se modificam no decorrer da existência. Um casal modifica um ao outro e a identidade do casal como tal também sofre mutações diante dos acontecimentos cotidianos. A boa surpresa é que, mesmo com todas as modificações e desequilíbrios pelos quais passamos, é possível nos apaixonarmos por aquela nova pessoa, como se uma nova pessoa fora, se bem que, naquela altura da vida, os corpos apenas se parecem com os antigos corpos que carregam o mesmo RG.

Além disso, chegam os filhos. Ora, os filhos! Com a chegada deles, aprendemos a dedicar o nosso tempo para outras pessoas que não nós mesmos. Eles são fontes de alegrias e preocupações e, quando crescem, saudavelmente fazem questão de contestar a nossa autoridade e refutar os nossos ensinamentos, Ainda que advertidos, cometem os mesmos erros que nós quando tínhamos as suas idades.

Para encerrar, me sinto compelido a dizer que o meu relacionamento com a Tânia já passa dos 25 anos oficiais que o ano de 2014 contemplará. Ele começou quando a vi pela primeira vez, magérrima e petulante, dois anos antes. Nós nos estranhamos desde o início. Recomeçou quando encetamos a conversar como gente civilizada, alguns meses depois. Recomeçou quando nos beijamos pela primeira vez, meses à frente. Recomeçou quando recebi a notícia da vinda da Romy. Recomeçou, mais uma vez, quando nos casamos. Recomeçou todas as vezes que veio à luz cada uma das nossas outras crias — a Ingrid e a Lívia. E a partir do momento que decidi viver um dia de cada vez, recomeça todos os dias”.