Esta é a Quitéria ou Indie Janjão. E esta será a última imagem presencial que terei dela por muito tempo. Quem sabe a reencontre em breve? Talvez, não a veja tão cedo… Talvez… Bem, depois de ter sido resgatada pela Lívia das ruas bem pequenina, praticamente recém-nascida, em péssimas condições, ela se desenvolveu lindamente. É esperta, educada, arteira e alegre! Vai para o lar de pessoas que já a amam. Irá para longe. Ganhará a liberdade das praias de São Sebastião. Antes de ir para o trabalho, a abracei, beijei a sua testa, ela me lambeu, em retribuição e eu disse em sua orelha pendente: “Adeus, meu amor! Seja feliz!”…
*Texto de Março de 2017.
O nome enfim adotado para ela foi Indie. E vive feliz com seus cuidadores e outros irmãos peludos.
Fico sempre encantado quando subimos para o planalto ou descemos para o litoral, ao passarmos pela Serra do Mar, onde podemos encontrar ainda parte da Mata Atlântica preservada. Ao mesmo tempo, cresce meu assombro ao saber que, para alcançar o interior do País, Homens do passado venceram tremendos obstáculos em nome de viver uma vida nova… Um caminho feito de sangue, suor e lágrimas, heroísmos e covardias, amor e ódio, crimes e massacres, que o Tempo escondeu sob o azul celeste e o verde da mata.
Outros tons de cores… Outros ângulos da luz solar… Entre as nuvens e a poluição, poemas visuais se fundem e se dissolvem diante de nosso olhar…
Algo de muito perturbador existe em mim Que prefere um céu nublado a azulado As nuvens me trazem a ilusão de festim Enquanto limpo, parece de tempo fechado…
Estar em aconchego varia de pessoa para pessoa. Para alguns, a casa é o lugar mais aconchegante. Outros, dirão que onde estiverem os amigos ou os familiares, ali a pessoa se sentirá mais aconchegada. Uma imagem, uma referência aleatória, uma cidade inteira podem ser, simbolicamente, um lugar de aconchego para alguém. Há vários, cada vez mais, que dizem sentir mais aconchego ao estarem sozinhos ou com seres não humanos. Enfim, o aconchego não é algo que se possa mensurar ou estabelecer critérios arbitrários. Aconchego, aconchegar, aconchegante — termos que podem mobilizar uma variedade imensa de sentimentos.
Esse é o pessoal do 6º Bimestre de Licenciatura em Educação Física, período diurno, da UNIP—Marquês ou, simplesmente, Turma da Caverna do Dragão— em junho de 2012 — com a qual me senti acolhido e aconchegado, apesar da diferença de idade, em torno de 25 anos entre mim e eles. Da mesma maneira, procurei aconchegar quem estivesse se sentindo inseguro no curso através da minha experiência acadêmica anterior. Na época, nós nos formamos em Licenciatura. Prossegui por mais dois semestres e acabei por me tornar Bacharel em Educação Física.
Em uma mensagem a eles, escrevi: “Pessoal, vamos dizer que o Sistema seja o Vingador e o Tempo, o Mestre dos Magos. Enquanto o Vingador tenta nos enredar e nos vencer com os desvios do caminho, buscando roubar as nossas Armas do Poder (ética, consciência, perspicácia, estudo, criatividade, vontade de conhecimento…), o Tempo, ao contrário do que as pessoas imaginam, não nos rouba a juventude. De fato, ele faz uma troca justa, devolvendo experiência, conhecimento e estabilidade emocional, entre outros benefícios, desde que saibamos caminhar com ele. Tiamat, o qual o próprio Vingador teme, está mais perto do que pensamos e podemos chamar de Desesperança, pois não contribui para que Sistema seja melhorado, ao mesmo passo que impede que vivamos o Tempo com sabedoria para superarmos os nossos limites. O nosso curso —Educação Física— está aí justamente para que ajudemos as pessoas a viverem mais e melhor. Dessa forma, nos tornaremos heróis. Nossa dedicação aos outros, um dia propiciará que voltemos para a casa sabendo que cumprimos a nossa missão”.
Os loucos pelas Letras… reunidos por aquela que dizia ter horror à aglomeração…
Saudade de certo tipo de aconchego também pode ser considerado algo aconchegante? Sim, desde que venha a se tornar um objetivo voltar a ser alcançado. A Scenarium promovia encontros em que a Literatura era valorizada através de saraus com lançamentos de títulos, discussões temáticas, mescladas a outras expressões artísticas, como música e teatro. Outra atividade que realizávamos era o Clube de Leitura, em que livros escolhidos por Lunna Guedes eram lidos e discutidos a cada mês. Atividades presenciais, aglomerávamos, nos abraçávamos, conversávamos cara-a-cara, pulsávamos na mesma vibração. Eu me sentia entre os meus. Aconchegado.
Pai, mãe, filhas e netos… peludos.
Estar em casa, com a minha família, é o maior sentimento de aconchego ao qual posso aspirar, mesmo porque tem sido cada vez mais difícil estarmos reunidos pelas atividades de cada um que nos afasta cotidianamente. Quando esse encontro acontece, passamos a valorizar imensamente. Aconchegar, mesmo em família, principalmente em tempos de Pandemia, tem sido oportunidades inestimáveis e quase impossíveis.
Família Nuñez Y Nuñez
Sair da Espanha, atravessar o Oceano Atlântico em um navio por semanas, chegar do outro lado no Porto de Santos, Brasil, com seus cinco filhos. Essa foi a jornada de Dona Manoela Nuñez Prieto, minha avó materna, e meus tios, ainda crianças. Por aqui, os esperavam meu avô, Antônio Nuñez Prieto, que viera uns dois anos antes. Corria a década de 20 do século passado. Portanto, cem anos nos separam do fato. Resta a imagem das crianças um tanto assustadas e de minha avó que talvez carregasse, além de roupas em suas malas, as dúvidas quanto ao que encontraria. A minha mãe, Madalena, e seu irmão, Benjamin, o caçula da família, viriam a nascer já no Brasil. Sei que minha avó se sentiu acolhida e aconchegada por aqui, apesar da vida difícil, ainda mais em época de Guerra, nos Anos 40, quando faleceu. A minha mãe disse que ela sabia o Hino Nacional “de cor” e o cantava com fervor.
Uma das lindas praias de Ubatuba
É possível se sentir bem e aconchegado apenas um tempo que seja através de uma expressão da Natureza? Sim! Assim sou eu com o mar. Dentro da água, movimentada em ondas, calma tanto quanto possa ser, eu me sinto no aconchego do meu lar. Sinto que a atração é mútua…
Nossa mãe, meus irmãos e eu, em um Natal eterno perdido no tempo…
Eu nunca me senti bem comigo mesmo durante quase toda a minha vida. Mas quando minha mãe era viva, eu tinha a quem me referenciar, um colo para me aconchegar, ainda que durante muitos anos não conseguisse sequer abraçá-la. Até que nasceram as minhas filhas. Consegui, pouco a pouco, destravar corpo e mente para que por momentos ficasse aconchegado. Dona Madalena era o meu aconchego fisicamente viva. E continua sendo, agora que está cada vez mais íntima. Sem ela, não estaria aqui, agora. Das duas maneiras — pelo parto e por me manter vivo.
Infelizmente, para a minha família, eu não dirijo. Quando eu era um jovem mancebo de 18 anos, dada a minha natureza contestatória, decidi não aprender a dirigir para não parecer com a maioria dos rapazes que alcançavam a maioridade e estabeleciam a direção de um carro como prioridade em sua vida. Aquela era a decisão de alguém que não ligava para a sociedade de consumo, que via a ideia de tornar-se um vagabundo com a seriedade de um projeto de vida.
Com o passar do tempo, e atendendo ao chamado do amor pela mulher, comecei uma família e as minhas convicções foram vencidas pela necessidade de fazer frente às demandas da sociedade, incluindo a de tirar carta de motorista. Tentei três ou quatro vezes, mas por falta de treinamento ou inaptidão para tal tarefa, não passei nas provas práticas. De certa maneira, fiquei aliviado, porque ser mais um condutor que jogaria o seu barco na correnteza turbulenta dos rios de águas cinzentas de asfalto não me agradava nem um pouco. Obter licença para dirigir (ou ser dirigido pelo carro) é uma programação sempre para amanhã que ainda realizarei, nem que seja por teimosia.
Sempre fui um entusiasta do transporte coletivo e não vejo solução mais adequada para quem vive nos grandes centros do que se deslocar por ônibus e trens, entre outras opções, para os locais aos quais precisamos chegar como a residência, o trabalho ou lugar de lazer. Essa alternativa parece não fazer parte da planificação de nossas autoridades públicas. Antes, quase acredito existir um empreendimento de intenso boicote a essa necessidade básica.
Devido à característica egoística de nossos cidadãos, em resposta a piora de nosso trânsito, adquirisse cada vez mais veículos, o que tornará as nossas vias, em conjunto, o principal cenário das maiores tragédias de nossos tempos.
Já fiz um exercício simples com relação ao incremento do número de carros nas ruas de nossas cidades, que é o seguinte — todos, um dia terão um automóvel. Como não haverá lugar para estacioná-los, eles se tornarão a nossa residência. Portanto, a solução seria a de que os veículos ficassem estacionados perto de onde as pessoas trabalham. Observando o crescimento da tendência das pessoas viverem em seus carros, já que dificilmente conseguiriam se deslocar para a sua casa original a tempo de voltar para trabalhar, incorporadoras imobiliárias criariam garagens-residências, ao estilo de campos de trailers. Melhor ainda, os trailers se tornariam a opção mais convidativa para esse mister. Viveríamos sobre rodas, mas devido ao à quantidade de carros, não teríamos para onde ir, encalacrados que estaríamos em um eterno congestionamento para o resto de nossas vidas…