BEDA / Scenarium / Tons De Cinza*

Tons de Cinza
Casal acinzentado, em 2014

São mais de vinte e cinco anos a compartilhar momentos bons e ruins. Pela maneira que tento encarar a vida, mesmo os momentos supostamente ruins, foram importantes para o nosso crescimento como pessoas. Nesta foto, em que estamos juntos, preferi os tons de cinza, como se fora um registro antigo, porque o que temos é velho como o amor na Terra. Nossas linhas do rosto se confundem, quase formando um só ser.

Como você sabe, Tânia, busco viver um dia de cada vez, um momento após o outro. Tento vivenciar cada momento que vivo como se fora o último, porque assim é. Desmontar mentalmente a perspectiva de viver de esperança ou de lembrança, sem degustar o instante que passa não é fácil, mas quando conseguimos, cada minuto é um minuto novo, de novas possibilidades e de renovação de forças. Por isso, nunca acho que nada não possa se tornar melhor, se assim buscarmos empreender, ainda que igualmente tudo possa desmoronar, aparentemente.

Viver consigo a aventura de uma união, em resumo, tem tido os seus percalços, como todos as alianças em que se colocam dois seres diferentes, de vivências diferentes, de qualidades diferentes, no mesmo tempo e lugar. Saber lidar com as nossas capacidades e, principalmente, nossas incapacidades, é a melhor prova de que o ser humano, quando quer, pode alcançar as plenas possibilidades de amar.

*Texto de 2014

 

B.E.D.A. — Blog Every Day August

Adriana Aneli — Claudia Leonardi — Darlene Regina — Mariana Gouveia —

Lunna Guedes

Robôs Sinceros

RS

Fui à boca do caixa. Das três disponíveis, havia uma única ocupada por um ser humano. Quando fui chamado, apesar da espera, me senti reconfortado por não estar falando com uma máquina, ainda que o atendimento da bancária tenha sido, de certa maneira, robótica. Não a recrimino, já que o trabalho que desenvolve é um tanto entediante. Está ali para cumprir tarefas que qualquer robô faria e fará, sem exceções, em futuro próximo. Aliás, o banco tem alardeado publicitariamente que o futuro já chegou e que grande parte das relações financeiras entre a instituição e seus clientes estão sendo eficazmente intermediadas pela Inteligência Artificial.

De forma derivada, brinco com a concepção da artificialidade intelectual apresentadas por algumas pessoas, observável quando não conseguem estabelecer uma comunicação razoável, ainda que se digam inteligentes. Em muitos casos, adotam comportamentos, expressam argumentos e realizam atividades obviamente dirigidas e emprestadas, tornando-se, ao invés de produtoras, meras replicadoras de ideias simplistas.

No entanto, aparentemente, as virtudes dos robôs são amplas, a ponto de sermos levados a entendê-los como seres humanos melhorados – capacitados, confiáveis e sinceros – a ponto de acreditarmos que se forem questionados se são robôs, responderão que são. Afinal, qual seria o objetivo de haver esse tipo de pergunta ao fazemos um cadastro online como quesito de segurança, se não houvesse a certeza que um robô, talvez um tanto envergonhado por querer se passar por uma pessoa, “sonho” de toda máquina inteligente, declinasse de sua pretensão de assumir, com dignidade: “Sim, sou um robô! Desculpe-me por querer passar por um ser vivo!”. Acresce-se que ao aparecer para mim o receptáculo em que devo assinalar o “X” em “Não Sou Um Robô”, fantasio com a possibilidade que me descubram, finalmente.

Isaac Asimov, em 1950, no livro “Eu, Robô”, acabou por desenvolver as três Leis da Robótica: 1) um robô não pode ferir um humano ou permitir que um humano sofra algum mal; 2) os robôs devem obedecer às ordens dos humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a primeira lei; e 3) um robô deve proteger sua própria existência, desde que não entre em conflito com as leis anteriores.

Se já fossem tão desenvolvidos, talvez não ocorresse tantos episódios de fake news que fazem tanto mal às relações humanas. Mais recentemente, diante da realidade que se impõe cada vez mais aceleradamente de convivermos com máquinas que simulam comportamentos humanos, o exponencial desenvolvimento da tecnologia se chocará, mais cedo ou mais tarde, com nosso atraso como exemplares de “unidades de carbono defeituosas”, como nos nominou V’Ger, em Jornada Das Estrelas, de 1979.

Nesse filme de Jornada Das Estrelas, V’Ger originou-se da sonda espacial Voyager 6, que de fato originalmente nunca foi ao espaço pelo programa de sondas exploratórias espaciais norte-americanas lançadas a partir de 1977 para estudar os planetas do Sistema Solar e que posteriormente prosseguiriam para o espaço interestelar. Pelo enredo, a Voyager 6 acabaria por acumular tanto conhecimento que desenvolveu autoconsciência e voltou à Terra para encontrar seu “criador” – o próprio homem. Por encontrá-la infestada de seres subdesenvolvidos, a ponto de não entenderem o sinal lançado por ela, tornou-se seu objetivo limpar o planeta daquelas “unidades de carbono defeituosas”. A máquina consciente deseja, além disso, unir-se fisicamente ao criador. O filme soluciona a questão de maneira interessante, baseado no sacrifício humano, aliado ao amor, expressado inclusive de maneira carnal, o que nos salvará de sermos varridos do planeta ao qual fazemos tanto mal.

Há várias previsões alarmistas que nos levam a acreditar que o conflito entre o Homo sapiens e as máquinas capacitadas com inteligências artificiais hiperdesenvolvidas será uma questão de tempo. Não duvido, se compreendermos que a lógica do desenvolvimento de uma espécie como hegemônica passa pela violência e aniquilação de adversários. É o que fazemos com os outros seres com os quais convivemos no Planeta. Por enquanto, não tem sido preciso que as máquinas com Inteligência Artificial se revoltem contra seus criadores e nos exterminem progressivamente. Nós mesmos, com a ajuda da tecnologia que desenvolvemos, estamos fazendo esse trabalho sujo de maneira criativa e exemplar.

Foto: Robô iClub, que tem habilidades motoras avançadas que o permitem pegar e manipular objetos. Ele interage e aprende com o ambiente de forma semelhante a uma criança de dois anos de idade.

Nada Como Eu, Um Dia Depois Do Outro*

Nada Como Eu
Como se fosse um café…

Ana, sentada à mesa do restaurante, mexia distraidamente a colher em sua xícara de café. Fazia movimentos circulares de forma calma e complacente. Quando ergueu os olhos, avistou diante de si, Carlos, que se aproximara bem lentamente de sua mesa. Ao vê-lo, Ana sorriu de maneira enigmática, sem estabelecer se estava contente ou insatisfeita com a aparição inesperada do seu ex. Ainda com um sorriso indecifrável, pediu para Carlos se sentar. Agora, diante de si, estava aquele que a fizera chorar de raiva por algum tempo, desde que descobrira a sua lista de amantes, a começar por sua (agora também ex) melhor amiga.

Lembrou-se que parou de chorar quando notou que sentira um tipo de raiva diferente do que aquela que consideraria ser natural sentir por alguém que amasse verdadeiramente. Passou por um período de introspecção que a fizera perceber que o que sentia por Carlos era uma espécie de amor acomodado, uma amizade recheada de sexo eventual e nem sempre satisfatório. Dessa forma, mesmo sem o dizer explicitamente, o perdoara e também à sua amiga. Em verdade, passou a sentir que os dois haviam feito um favor a ela. Mas também esse dado não o revelara a ninguém. De fato, era a primeira vez que se encontravam depois do ocorrido. Todas as questões práticas da separação foram tratadas por advogados. Os dois não quiseram ter contato direto por algum tempo – ela, devido ao sentimento de ira, que não queria ver contaminar a relação dele com o casal de filhos adolescentes – e ele, pela vergonha de ter sido flagrado.

Sempre que chegava a ocasião da visita do pai aos filhos, Ana evitava encontrá-lo e Carlos, até então, havia respeitado a observação desse distanciamento. No entanto, como passara em frente daquele restaurante e tivesse percebido através da ampla janela a presença do rosto familiar junto a uma mesa de canto, estancara os seus passos por um instante e se flagrou surpreso de como a achou bonita com aquele semi-sorriso que pendia de sua boca. Parecia denunciar a expressão de uma pessoa que se sentia em paz, relaxada e até mesmo, ele pensou, satisfeita. Sentiu-se um pouco incomodado com a sua impressão e de impulso decidiu se aproximar para perguntar como ela estava. Logo que se sentou, foi o que fez.

– Estou bem! E você?

– Bem, também… Tem feito alguma coisa diferente, além do trabalho?

– Nada! Como um dia depois do outro no tempo em que vivíamos juntos…

– Você me parece estar tranquila e até feliz… Tem alguém especial em sua vida, atualmente?

– Que nada! Como um cara diferente depois do outro, mas não todos os dias…

Carlos ficou espantado diante dessa afirmação, principalmente pelo fato de que ela tivesse sido feita de forma tão natural e franca. Por seu tom de voz, Ana não pareceu querer ofendê-lo. Apenas ampliou o sorriso.

– Então, tá! Que bom que está bem! Adeus…

– Tchau! – respondeu Ana, vendo Carlos sair sem olhar para trás, enquanto ela fazia cumprir mais uma volta da colher em sua xícara de café. Como a dialogar com ela, exclamou em voz alta:

– Nada como um dia depois do outro…

 

*Texto de 2012, já lançado em uma das Revistas Plural, da Scenarium Plural – Livros Artesanais

Normalidades

Normalidades 5
João Pedro, George e Miguel

Seria falta de empatia ̶ alienação ̶ pouco valor à vida?
Ou algo pior?
Seria esquizofrenia ̶ negação operacional ̶ realidade partida?
Ou algo pior ainda?
Aproveitar a pandemia ̶ virtual genocídio ̶ eugenia?
Eliminar os velhos pensionistas ̶ Seus Juquinhas, Donas Marias?
Mortandade como projeto de governo ̶ equalização de perdas econômicas?
Nosso País a viver o drama do fascismo redivivo ̶ teorias de raças hegemônicas ̶
tiros às dezenas a metralharem jovens pobres e pretos ̶ Joões Pedros ̶
invasão de casas em comunidades, como se fora guetos?
Antes, talvez fosse uma simples operação policial boçal,
mas não ̶ faz parte de um sistema antigo ̶ racismo estrutural.
O mesmo que fez por destino-desdém a branca mão ̶
empurrar o corpo do anjo Miguel do alto até o chão…
No Norte da América, Floyd chama pela mãe ̶ última palavra a dizer…
Sem poder respirar, o homem clama por ar ̶ último desejo antes de morrer…
Talvez se sentisse um rei branco aquele que pressiona, ajoelhado,
o pescoço do homem preto subjugado…
Branca mão no bolso, olhos frios, alheio aos pedidos do entorno, conta mentalmente
o tempo que resta da energia que se esvai do gigante.
Uma morte entre tantas mortes ̶ brutalidade exposta ̶ silenciosamente
a melhor parte de nossa humanidade é atacada na nossa frente.
Devemos erradicar as doenças ̶ aquelas que nos mata em conjunto.
Bem como aquelas que nos mata por dentro, dia-a-dia, miseravelmente.
Afastar de nossa convivência aquele que diz não ser coveiro,
mas negocia armas e meios para produzir defuntos.
Devemos nos precaver das enfermidades sistêmicas ̶ combater os males da alma.
Buscar o caminho correto, andar pela claridade do saber e do discernimento.
Sabemos que a morte ̶ fato da vida ̶ é causa perdida, inevitável…
Viver com medo e precariedade, por imobilismo governamental,
sem ter como nos defender do sofrimento por descaso ativo ̶ intencional ̶
é imperdoável.

Magas

pexels-photo-219561.jpeg

Por onde andam as feiticeiras da nossa cidade?
Magas e bruxas, por onde vocês se esconderam?
Estão com medo de serem acusadas de veleidade?

Caminham pelas ruas tentando esconder as suas idades?
Ocultam a sabedoria das vidas das que as antecederam?
Lutam para não parecerem mulheres de maior qualidade?

Filhas de Merlin, de Circe, de Morgana, de Dubledore e de anônimos
Percorrem campos, vilas, bairros, praças e centros do mundo.
Seres que cantam e labutam e amamentam, usam pseudônimos.
Todas trabalham para a construção de um novo tempo, fecundo.

Sonho de todos os homens, possuí-las em série e quantidade.
Querem dominá-las, dirigir-lhes o caminho, pô-las a parte.
Mas não vencem o espírito, não ultrapassam a sua capacidade
De viver, de amar, de entregar-se e fazer tudo com beleza e arte.

Foto por Pixabay em Pexels.com