Censurado — Scenarium

Sempre que me deparo com um tema que diz respeito à convivência social, faço um exercício de viagem no tempo e tento regressar aos primeiros grupamentos humanos. Sei que é algo quase impossível. Mas eu tento fazer uso de minha sensibilidade e conhecimento para alcançá-los em nosso percurso de centenas de […]

Censurado — Scenarium

Corpo Presente / Posições

Corpo presente…

Tirante o pensamento, nada viaja mais rápido no Universo observável do que a luz. Para nós, na Terra, a luminosidade do Sol nos atinge quase tão imediatamente quanto é produzida. As estrelas mais distantes são imagens do passado que admiramos durante anos mesmo depois de muitas terem se extinguido ou absorvidas por algum buraco negro. Tanto quanto o que vivemos tem como referências imagens que não mais são o que são, mas o resultado de experiências passadas de corpo presente…

Posições…

Tudo o que nomeamos, discriminamos, classificamos, justificamos, estabelecemos como tal o que é, seja lá o que for. Passar por cima do que está estipulado como líquido e certo, atravessar o significado das estruturas fixadas pelas palavras não é fácil. O Sol, a Lua, o dia, a tarde, a Terra, a manhã, as horas, os minutos, o Tempo, os segundos, o sexo, o homem, a noite, a mulher… É o Sol que se põe? É a Terra que se move? Quem come quem?…

A Rainha Louca

A loucura não era pouca.
Ele,
tomado de amor,
vibrava em jatos.
Ela,
gemente de paixão,
terminava em prantos…

Dos lençóis revolvidos,
surgiam unidos
em corpo, suor e sangue.
As almas,
abandonando a ambos,
esvaíam-se pelos poros…

Os fluídos,
em escambos,
formavam um rio de odores
doces
e cruas dores…

Quando se despediam,
era como se fosse o último
encontro.
É como se acabasse
o mundo.
Como se fechassem os portais
do tempo.
Como se cessassem a contagem
das idades.
Como se inaugurasse o Templo
da Saudade…

Até o próximo
quarto de Lua.
Até se abrir a porta
do próximo quarto.
Até a entrega
do próximo beijo.
Até a consumação
do imenso desejo.
Até que ele se entregasse
em exaustão à rinha,
até que ela incorporasse
a Louca Rainha…

Sou Palavra Difícil

O meu amor gosta de Bukowski
e eu amo Augusto dos Anjos.
Se Augusto dos Anjos tivesse sido influenciado por Bukowski,
talvez não tivesse existido o poeta como o conheço.
O preto,
se se conformasse em se ater ao seu destino proclamado —
marginal, apesar de ser maioria,
palavra difícil de ser decifrada
em meio a vocábulos fáceis de serem compreendidos,
não chegaria a mim — menino da periferia —
que me encantava com a palavra complexa que feria.

Se abraçasse o enunciado do americano —
bêbado que vomitava durezas de descrente,
leoninamente egoico,
dogmaticamente estoico,
adepto da simplicidade de expressão —
não seria grande além do tempo, o paraibano.
Dos Anjos era palavra quase inacessível.
Fosse fiel às prisões do imediato e do lugar,
se filiaria a obviedade e ao possível.

O americano, necessário, porém perplexo,
o paraibano, imprescindível, contudo sem aparente nexo,
não se confrontam em meu coração, que eu sinta.
Um, eu leio e deixo minha rebeldia extemporânea satisfeita.
Outro, eu leio a mim e me encontro incompleto,
a tentar alcançar lonjuras.
O ébrio, ainda que espalhafatoso, morreu velho.
O professor que era poeta, morreu aos 30.
Não se encontraram a não ser diante dos meus olhos —
os versos de um embriagam e me deixam de porre,
os do outro suplantam meu corpo e dilaceram minh’alma.
Bukowski, brincava com o perigo de existir.
Dos Anjos, fazia de companhia a morte
que não o enlutava, mas celebrava.

Bukowski, foi ele.
Dos Anjos, sou Eu.
Enquanto que o egoísta não quis mostrar a ninguém
o pássaro azul no peito,
o centrado revelou a “frialdade inorgânica da terra”.
Enquanto um soltou crônicas de amor louco
em ereções, ejaculações e exibicionismos,
sendo incensado;
o outro, incompreendido em seu tempo,
renegou a religião como resposta e proclamou
que ninguém doma o coração de um poeta —
sendo amaldiçoado.

Sou palavra difícil.
É compreensível que não possa ser entendido.
Mas acho triste não ser lido ou ouvido
por quem diz me amar.
Começo a duvidar da minha expressão.
Não deveria me derramar?
Deveria ser prosaico ou antes, calado?
Ao me revelar, deverei ser contido?
Deverei reverberar a palavra fácil, complacente?
Erradicar a minha fala de estranha vertente?
Ser Bukowski e seguir a inóspita franqueza?
Ou ser Dos Anjos e violentar meu cotidiano
dos termos óbvios e tiranos?
A única simplicidade a qual me rendo
é dizer que a amo e disso não me arrependo…

BEDA / Scenarium / Leonina

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Foto por Public Domain Pictures em Pexels.com

O dia começa quando ela desperta.
O sol irradia luz para clarear o seu caminho.
Decide seus passos à revelia dos obstáculos.
As portas se abrem quando ela se aproxima.
Os espelhos disputam o seu reflexo quando ela passa.
A festa acontece quando ela aparece.
O DJ toca as suas músicas preferidas.
Na dança, ela comanda a coreografia.
Mares e brisas de mil anos contam segredos
quando pede que seu amor se entregue.
Quando nasceu, aceitou nascer todos os dias
em partos dolorosos,
pelo poder de viver mínimas alegrias,
poucos momentos de paz e prazer,
riso, paixão e nexo.
Por isso, vive…
Por que tudo é assim?
Esse é um enigma que não desvendei.
A resposta, não sei.
Não saberia, ainda que fosse o rei.
Ainda que percebesse o contexto.
Escritor, queria escrever outro texto
que pudesse mudar o destino,
arquitetar outro roteiro.
Queria que ela vivesse à larga,
bebesse o vinho tinto da melhor safra,
a caipirinha da mais apurada cachaça.
Ainda que não fosse alguém que ela amasse,
que eu não fosse feito de carne, mas de doce cassis.
Que meu corpo não tivesse ossos, mas giz.
Que eu estivesse em outro país
ou que não a tocasse por um triz,
que não apreciasse seu perfume pelo nariz
ou que ela viesse de outra raiz,
queria ver alterada a diretriz.
Que pudesse escolher entre ser o condenado ou o juiz,
cumprir a dura pena ou decidir que ela fosse, apenas, feliz…
Já que não tenho como a proteger
da necessária passagem do tempo e do sofrer,
me resta somente lhe perguntar:
de que maneira eu melhor posso lhe amar?

B.E.D.A. — Blog Every Day August

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Lunna Guedes