BEDA / Scenarium / A Pizza E A Forma

Pizza

Em Quarentena, estando isolado na casa da praia, não tenho horários específicos para as refeições. Quase dez horas da noite, decido fazer pizza. Saio, compro os ingredientes necessários e, ao revirar o armário em busca da fôrma, encontro a máquina do tempo, ainda que incompleta, sem as presilhas. Nela, produzo uma boa pizza de atum e cebola com molho de tomate.

A minha mãe adorava novidades em apetrechos para o lar. Logo que foi lançada, Dona Madalena adquiriu uma fôrma que poderia assar pizzas utilizando as bocas do fogão. Economizava o uso do forno, em tempos de escassez, além ser mais prática e rápida. O segredo era saber dosar o volume do fogo para que não queimasse. E foi através daquele utensílio que voltei para mais de quarenta anos antes no tempo.

Vários instrumentos caseiros usados em décadas anteriores vieram para a casa da praia. Volta e meia, me deparo com pratos, xícaras, louças, copos e talheres antigos, além de vários outras coisas-mecanismos que me fazem voltar ao passado. Quase imediatamente, despontam visões da minha mãe a manipulá-los, como se fossem videoaulas de utilidades domésticas.

A pizza ficou boa. Sei fazê-las – as pizzas – assim como outras comidinhas, de maneira que minhas filhas voltam sempre a pedi-las. Nunca busquei aprender anotando ou medindo dosagens de ingredientes. Simplesmente comecei a reproduzi-las quase magicamente. Feijão, arroz, sopas, misturas variadas e outros componentes de refeições ou lanches se materializam concluídas e saborosas. O segredo – eu era ajudante de cozinha de minha mãe. Acho que, ainda que não estivesse atento, a repetição cotidiana foi apreendida de algum modo.

Talvez seja isso ou mamãe se apossa de minhas mãos e por elas revive o prazer de cozinhar para aqueles que ama. O ingrediente secreto, porém, é evidente – aquele que torna os alimentos mais simples em experiências tão saborosamente dolorosas, na verdade, uma junção rica de saudade e amor.

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BEDA / Scenarium / Eu Renasci De Óculos

Os Óculos

Corria meados dos Anos 80 e o Rock Nacional adquiria um fôlego inédito desde a época da Jovem Guarda, vinte anos antes. A banda Paralamas do Sucesso havia lançado em 1984, o Álbum Passo do Lui e entre os vários êxitos do disco estava “Óculos”. Para quem se tornou um “quatro olhos” aos doze anos de idade, aquela canção expressou muitas coisas que todos nós, meninos que portamos lentes em armações sentimos: a rejeição das meninas, o uso delas como anteparos da tristeza ou acentuação da alegria ou até a atratividade um tanto duvidosa do “ar de intelectual” que poderia ser confundido com estranheza ou bobeira.

Eu percebi que estava começando a perder a acuidade visual depois dos onze e lancei mão de óculos de meu pai guardados em uma gaveta, que pouco o vi usar. Como em muitas ocasiões antes, o Sr. Ortega estava fora de casa. Quanto aos óculos, as lentes deviam apresentar um grau maior do eu necessitava. Doía meus olhos ao usá-los, além de deformar as imagens diante de mim. Eu os punha e os tirava frequentemente. Até que, acidentalmente, caíram. A armação não impediu que as lentes grandes e pesadas fossem preservadas. Fizeram-se em cacos. Passei a usar o maior caco para poder acompanhar as lições escritas na lousa. Apesar do medo em relatar o ocorrido ao Sr. Ortega, em uma das estadas em casa, tive que abrir o jogo. Achei estranho como aceitou o fato sem me criticar, como quase sempre fazia por qualquer coisa que dissesse ou fizesse. Ele me levou para fazer exame de visão com um oculista para aviar uma receita. Comprou novos óculos e voltou a sumir.

Minha personalidade passou a usar óculos. Quem começa a usá-los, começa a perceber que aquele dispositivo pode ser usado como apoio para quem não precisa de subterfúgios para se expressar. Para mim, foi assim. Acabei um tanto prejudicado no esporte, principalmente no futebol. Sonhador, como tantos garotos, em me tornar jogador profissional, percebi que tinha que reinventar meu estilo. Outros sentidos e possibilidades se sobressaíram. Soube que o Pelé também era míope, a ponto do técnico da Seleção de 70, anterior a Zagallo – João Saldanha – querer colocá-lo no banco. Obviamente, eu não era um Pelé. Mas sabia que não era ruim. Durante um certo período, tentei levar esse projeto adiante. Estava quase para desistir quando o meu irmão gastou uma parte de seu salário na compra de lentes de contato para mim. A minha performance melhorou muito.

Porém, outros projetos ganharam corpo. Eu estava cada vez mais ensimesmado e os óculos passaram a funcionar como escudos. Continuava a jogar futebol, agora como diversão. De tempos em tempos, com o crescimento da miopia, tive que comprar outros óculos. Lentes de contato, apenas para atividade física competitiva. Quando surgiu a operação corretiva, de início não tinha recursos para fazê-la. Depois, mais velho, percebi que os óculos passaram a fazer parte de mim. Atualmente, não cogito deixar de usá-los. Acrescentou-se a hipermetropia e o astigmatismo. Um dia, minha visão será obliterada pelo tempo. Os olhos são os órgãos que, entre todos, refletem mais cabalmente a passagem do tempo, pelo menos, por enquanto. Com o avanço da ciência, talvez encontremos caminhos para enxergarmos prescindindo deles, com conectores artificiais ligados diretamente ao receptor da visão – o cérebro – que verdadeiramente produz as imagens que vemos e interpretamos.

Além dos probleminhas com meus amigos, atualmente tento encontrar um modo de não embaça-los com o uso da máscara de proteção. Para os olhos, já os tenho. Sou tão apegado a eles que, os atuais, rachados por causa das várias quedas, os mantenho unidos em um só corpo atados com fitas isolantes pretas – para não “dar muito na vista”. Infelizmente, brevemente terei que trocá-los. Esses amigos de anos ficarão na reserva. Como o antigo, os guardarei com carinho. Sabedor de muitas histórias vividas comigo, sentirei saudade suas. A morrer e renascer em muitas ocasiões, desde os doze anos renasço com óculos. Ao final de tudo, certamente morrerei com eles.

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BEDA / Scenarium / Valéria, A Cantora*

VB

O mundo é o palco onde interpretamos os nossos papéis, os mais variados possíveis. Um personagem pode viver situações diversas ao longo de sua atuação e isso vai perfazendo a sua trajetória e moldando a sua caracterização. Por vezes, costumamos acreditar que algumas pessoas já nascem com o sua personalidade formada, o seu papel escrito, com o final traçado. Dessa maneira, fica mais fácil compreendermos uma história, simplificada em seus matizes e percepções. Em outras ocasiões, nos deparamos com personagens incompreensíveis, em argumentos inverossímeis, com desempenhos canastrões. Quando, no entanto, nos encontramos com protagonistas reais, com histórias verdadeiras, muitas vezes dramáticas e que mesmo assim superaram o lugar comum de coadjuvantes na peça, fazendo coro ou escada, isso é tremendamente emocionante. Demonstrando força e talento incomuns, transformam a sua passagem pelo Teatro da Vida em “tour de force” espetacular, emocionando a quem os assiste. É deste modo que eu vejo a Valéria Bezerra.

Há algum tempo não a via. Sabia que passara por um processo doloroso de superação de uma doença grave e que estava voltando, pouco a pouco, a cantar na antiga forma, quando sempre foi considerada uma das melhores cantoras das noites e dias de São Paulo. Tem uma longa história, em passagens por bandas de baile e eventos famosas, como Santa Maria, Réveillon, Primeira Mão, Sammy’s Band e algumas outras. Já atuou em várias casas noturnas e participou de programas de televisão. Acompanho a sua performance há quase trinta anos, inicialmente como fã, como quando a assisti em um show da Banda Santa Maria, do Toninho, pai do André​, atual condutor, no velho Olímpia, com a participação de outros grandes músicos e cantores, como Paula Zamp. E, depois, como locador e técnico de equipamentos na Ortega Luz & Som, quando participei de alguns momentos de sua carreira.

Lembro-me de uma ocasião em que estávamos em uma escola de periferia para apresentarmos um “show room” de formatura. Era um público juvenil e inquieto, talvez até antagônico. Ao lado dela, outro grande comunicador e cantor, Josias Correia, porventura não tivesse percebido a sorte de contar com a presença de espírito da Valéria, que dominou a situação com maestria e soube envolver o público com desenvoltura e perspicácia. Quando ambos terminaram a apresentação, tinham conseguido realizar o trabalho com sucesso.

Em outro ambiente, o Teatro Renault, nos reencontramos e vivenciamos, igualmente, a ocorrência de um fato correlato em seu teor de efervescência. Antes de falar do fato em si, faço questão de ressaltar que a Valéria está voltando a cantar tanto quanto antes. Durante todo o evento, em que se apresentava compondo o Coral & Banda Sant’Anna Show, realizou com perfeição a sua parte e fez mais, auxiliando o seu companheiro, Rafael Ismério, com “backing-vocals” nas ocasiões devidas, algo inusual para tantos cantores hoje em dia. Fez questão de fazer “sala”, que vem a ser uma apresentação para recepcionar o público antes da abertura oficial dos trabalhos, que seriam dirigidos pelo competente Sidney Botelho. É comum alguns artistas não quererem se apresentar além do que são pagos para fazer e não desmereço essa opção, mas ela estava realmente disposta a fazê-lo como quem quer beber um cantil d’água, após uma temporada no deserto. O grande palco e a numerosa plateia pareciam ser detalhes menores, que ela não se importava de enfrentar, ou antes, que estava ansiosa em fazê-lo. Entreteve com habilidade o público e, assim inspirado pela presença da grande cantora, o Rafael também desempenhou muito bem as suas canções. Naquele momento, percebi que o ciclo se completava diante dos meus olhos – a antiga “Diva” e o jovem “crooner” apresentavam o enredo eterno e sempre revivido do encontro das águas do Tempo, com suas experiências pessoais se entrechocando e se misturando. Ambos foram muito aplaudidos e a imponência do teatro emprestava um toque de primazia ao espetáculo.

Bem, vamos ao momento de dramaticidade a que aludi anteriormente. Deixei para o final, porém foi logo no começo da cerimônia. Na entrada dos formandos, soltei “Viva La Vida” e por um erro técnico da minha parte, o computador, em determinado instante, “deu pau”, parando a execução da música. Isso durou um ou dois minutos, ocasião em que alguns poucos do auditório trataram de cobrir o silêncio com murmúrios e vaias. A Valéria, percebendo que precisava intervir, pegou do microfone e começou a cantar para acompanhar o cortejo dos alunos. Resolvido o problema, voltei com a música e agradeci o esforço dela. Pude perceber o quanto os eventos dramáticos, os decisivamente vitais e os evidentemente modestos, são amplificados ou diminuídos pelos atores que os interpretam. Para mim, não existem histórias menores, mas talentos redutores. Não existem aventuras apoteóticas, mas representações magistrais. Não importa o tablado que se dá – na escola pública ou no mais majestoso teatro da cidade. O grande personagem desenvolve o seu papel da melhor forma possível. E a Valéria provou que atua dessa maneira em qualquer palco em que se apresenta – naquele reservado para poucos ou no Mundo – para todos nós…

*Texto de 2014.

 

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Tempo

Tempo

Tempo, tempo, tempo…

Tentamos capturar o tempo nas mãos como se ele existisse…

Em nossa passagem pela Terra, sucessivas civilizações, nos quatro cantos do mundo, desenvolveram maneiras de programar eventos, prever plantios e colheitas ou até tentar adivinhar os seus destinos como pessoas ou nações. Alinhando as datações, estudiosos puderam sincronizar os movimentos naturais do planeta às ações humanas, criando a História.

Agora, após o Carnaval, quando começamos verdadeiramente o ano, como faziam os antigos romanos – uma tradição tão arraigada em nosso comportamento que o reproduzimos intuitivamente – tomamos consciência que a passagem do tempo é permeada por uma sensação aleatória e algo incomensurável de espanto. A sequência de fatos históricos datados nos dá a falsa impressão de marcha avante e, concomitantemente, de que voltamos à barbárie quando seres aparentemente civilizados cometem atrocidades.

Otimista, creio que o que acontece de ruim com as pessoas (produzido por outras pessoas) tem nos causado cada vez mais asco, porque estamos mais sensíveis. Talvez seja mais uma esperança do que uma constatação, mas prefiro acreditar nisso do que aceitar que o homem não tenha aprendido nada em sua permanência de milhões de estações na Terra.

Segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses, estações, anos, décadas, séculos, milênios, eras… podemos enumerá-los, mas o importante mesmo seria constatarmos não como estamos e sim o que somos. No entanto, ao nos aceitarmos como seres mutantes, uma avaliação acaba por se sobrepor a outra e talvez jamais obtenhamos uma resposta plausível.

Marcar a passagem do tempo se equipara a reverenciar ao Tempo como Deus. De certa maneira, é uma de suas representações…

https://www.youtube.com/watch?v=HQap2igIhxA

Ressurreição*

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Segunda-feira. Tempo marcado no relógio. Logo mais, terei que trabalhar. Estou a alimentar as calopsitas, Dulce e Horácio, as porquinhas da Índia – Baleia e Cotoco. Ouço palmas no portão.

Diviso um senhor – chapéu de aba larga, óculos de grossos aros sobre o nariz, bolsa com a alça cruzada no peito e guarda-chuva-sol na mão direita. Sem abrir o portão, pergunto: “Pois, não?”…

Começo a ouvir uma voz de criança, bem articulada e ritmada. Olho para baixo, mais à esquerda, e percebo um garoto de pele amorenada, rosto suave e um sorriso de dentes maiores que a boca. Não devia chegar aos dez anos de idade.

Ele fala sobre algum tema bíblico, que eu não sei identificar qual seja, apesar de suas palavras soarem claras. Eu fiquei mais atendo à cadência do que ao conteúdo do que dizia. Em certo momento, perguntou: “Sim? Não? Talvez?”…

Como que despertado de um sonho, respondi, sem saber ao que: “Sempre talvez!”…

Já disse para alguns, algumas vezes, que o “talvez” permeia a minha vida. Ao contrário do que possam pensar, esse “talvez” é um método especulativo-existencial muito pessoal. Tenho convicções bastante fortes sobre muitas coisas, mas o “talvez” me leva ver sempre o outro lado de uma situação.

Naquele caso, o mocinho respondeu de pronto que um “talvez” era melhor do que um “não”…

Nesse instante, olhei em direção ao senhor que o acompanhava e pude notar um leve sorriso de satisfação pela agilidade mental/verbal do seu pequeno acompanhante.

Logo, o garoto terminou o seu breve discurso e me passou rapidamente um papel pela fresta do portão. Nele, estava estampada a pergunta ao qual respondi sem pensar… Especulava sobre a vida após a vida, com respostas que a Bíblia carrega em suas páginas.

Fiquei a cismar que se a vida possa ser um jorro contínuo de “talvezes” ininterruptos, por que não talvez venha algo depois que ela cesse neste plano?… Sim! Sempre talvez… e o “talvez” será sempre melhor do que um “não” definitivo…

*Texto de 2015