possuo a doença dos espaços incomensuráveis. Plano entre planos, ultrapasso fronteiras, mergulho em dimensões várias, infinitas, ínfimas, atômicas. Invado buracos negros, comprovo a matéria escura, enquanto passeio entre galáxias que giram por multiuniversos. O meu espírito paira entre as tramas que sustentam os milhões de planetas e suas multidões de espécies interestelares, diversas e exemplares em diversidade.
Somos filhos do mesmo Princípio e Fim, amálgama de substâncias alienígenas, resultado de bilhões de Tempos. Sei de nossa incapacidade em sabermos de nós. Percorro caminhos paralelos e coincidentes em destinos e recomeços. Corro por ciclos circulares de energia em consumações e criações eternas. Imprimo movimentos em velocidades portentosas por campos gravitacionais exponenciais em proporções absurdas de tão simples e luminares.
A Luz se alterna em cores que cortam meu corpo em fatias de frequências titânicas. Habitante do Nada total, a avalanche de sóis não soluciona a minha solidão quando me sinto apartado de Tudo. Sem sentido e profundidade, voo a esmo, com sorte decidida.
Ainda assim, lhe pergunto: quando poderemos tomar um prosaico, ainda que importante café para discutirmos os nossos interesses no momento imediato a lamentarmos a impossibilidade de sermos felizes?…
Domingo de manhã, eu estava me sentido cansado, após quatro dias de trabalho intenso, com poucas horas dormidas. Mas isso não impediria que eu fosse ao meu futebolzinho, principalmente porque era dia de pagamento da quadra. Peguei o meu ônibus e, após passar a catraca, vislumbrei um assento vazio do lado de um rapaz com os dois braços fechados de tatuagem, cabelos espetados, “piercing” na boca e portando óculos estilosos.
Antes de sentar, percebi que aquele era um banco reservado aos idosos, mulheres grávidas ou com crianças de colo e pessoas com necessidades especiais. Normalmente, eu prefiro ficar em pé, mesmo quando não se encontram pessoas nessas condições, porque evito que precise levantar quando observo que tal ou tal pessoa necessite ocupar o espaço reservado. Causa-me certo constrangimento demonstrar alguma civilidade, o que seria estranho se alguns não considerassem “ofensiva” qualquer exibição “ostensiva” de cidadania, como se o indivíduo que a praticasse talvez se considere alguém superior. É uma visão dúbia, mas que incrivelmente, existe.
Naquele dia, o meu cansaço era maior do que o respeito por meus conceitos e ocupei o lugar. Do meu lado, pude perceber que o rapaz estava atento ao surgimento de qualquer pessoa que subisse ao ônibus e que passasse a catraca. Parecia estar incomodado por ocupar aquele assento e devia estar avaliando se quem estava se aproximando seria um candidato à sua vaga. Talvez, os meus cabelos esbranquiçados o permitissem crer que eu estivesse no lugar certo, não ele. Pelo meu autoconceito, os meus 53 anos não admitiam me ver como um idoso, se bem tivesse, pelo menos, o dobro da dele e eu mesmo, na idade dele, considerasse a minha idade atual bem adiantada quando me via no futuro.
Uma mulher com uma barriga mais saliente pareceu atrair um pouco mais a sua atenção e torci intimamente que ele não a chamasse para ocupar o seu lugar, porque pela minha avaliação, aquele era apenas um caso específico de adiposidade na região abdominal. Tinha certeza de que se a moça intuísse que o motivo por ele querer ceder o assento fosse aquele, seria tudo muito constrangedor. Em priscas eras, o usual era qualquer homem ceder o seu assento à qualquer mulher. Não havia dúvidas! Quando isso começou a mudar? Creio que o processo se reverteu quando as mulheres começaram a ocupar mais e mais o seu espaço no mercado de trabalho, muitas vezes em postos anteriormente ocupados por homens. Em determinado momento, ali não estava mais o ser do chamado “sexo frágil”, mas uma concorrente na luta pela vida. Por que ele deveria ceder o seu lugar a ela?
Em outros tempos, eu consideraria aquele rapaz alguém que não prestaria atenção aos códigos corretos de comportamento social, por sua aparência alternativa, mas tendo filhas que se tatuam, eventualmente colocam “piercings” e se vestem ocasionalmente com um estilo incomum, sendo pessoas conscientes de seus deveres, percebi que não levaria o meu convencionalismo à questão da aparência, principalmente tendo em vista o meu próprio passado simpático ao estilo “riponga”.
Vivemos, por uma questão de comodidade, pré-julgando as pessoas ao nosso redor. O nosso cérebro, para não se cansar demais, especifica padrões com os quais avaliamos tudo e todos. No entanto, em tempos do politicamente correto, cada vez mais tentamos não pré-determinarmos conceitos. O que seria muito bom, se em muitas ocasiões, os pré-conceitos não fossem eficientes para nos safarmos de situações potencialmente perigosas.
Eu, pessoalmente, dou muito valor à intuição. Se por acaso intuo que, pelos padrões apresentados, algo é o que é e não a respeito, posso estar cometendo erros graves. Diante de tantas equações, apenas digo que sermos o que somos pode ser mal avaliado e a mentira exposta e auto imposta, pode findar por adotarmos normas de comportamento que causam mais confusão em nossos sentidos e sentimentos do que possam nos ajudar a vivermos saudavelmente.
Eu havia decidido a deixar a beira do abismo…
Olhei para baixo e avaliei a sua profundidade
Busquei o significado daquele paroxismo
Investiguei os tempos, desde a mais funda idade…
Percebi que era eu o próprio despenhadeiro
Enfim, olhei para dentro de mim mesmo
Percorri o caminho, como se fora um forasteiro
Que chegou a um lugar estranho e procura a esmo…
O que encontrei, bastou para me apavorar
Vi um homem que estava amando, afinal
Com a sensação de tudo a se desmesurar…
Presenciei o choque da vida com o que é fatal
Absorvi desmedido amor no processo dessa entropia
Desci da minha dolorosa cruz, ainda crivado de pregos
Esse amor guardado, o cuspi em uma imensa massa de energia
E, finalmente, mergulhei em nós – verdadeiros buracos negros…
Em torno da mesa de um bar exclusivo, alguns homens estão reunidos. Copos de whisky 12 anos nas mãos, falam de futebol, política e mulheres. Comentam sobre como estas últimas estão colocando as manguinhas de fora, cada vez afirmativas e atentas aos “supostos” direitos que dizem ter.
Um deles cita a filha, que prefere estudar, se formar e conseguir um trabalho. Casar e ter filhos, nada. Revelou que um excelente “partido” já o havia consultado sobre a possibilidade pedi-la em casamento. Seria um golpe de mestre, já que reuniria duas das famílias mais influentes do ramo imobiliário. Para seu desgosto, ela se recusou veementemente – “Fossem outros tempos”…
Outro, revelou que despediu a secretária pela tal achar que o caso que mantinham lhe dava certas vantagens. “Ela ameaçou contar tudo à Dirce, acredita? Falei na lata: Vá! Não será a primeira”… – Riram da insolência da coitada – “Essas tipinhas nunca aprendem!”…
Pegando bonde na situação, um terceiro enumera as mulheres que comeu. Todas interessadas na grana que conseguiu com muito custo, suor e negociatas. “Vocês acham que eu deixaria a minha mulher, depois de tudo que ela me ajudou, cuidando da minha casa e dos meus filhos?”. Completou – “Sou um cara leal!”… E riram…
Um quarto, relatou que estava em uma luta insana com uma das sócias para obter uma conta de publicidade. “Meu, a bicha é inteligente e bonita! Mas o dono da empresa disse que dará a conta a mim. Não gosta que mulher se sobressaia tanto no trabalho, mesmo sendo gata. Aliás, essas são as mais perigosas! Conseguem tudo o que querem com a xana”. Todos concordaram, entre risos nervosos.
Dentre todos, apenas um não mostrava os dentes implantados. Baixou o copo no descanso e proclamou, com um leve sorriso: Vocês são misóginos!” – Sob protestos dos outros, quase em uníssono, refutaram – “Como assim? Amamos as mulheres! Olha que coisas mais lindas!” – E apontaram para o outro lado do salão onde estavam, quase em fileira, moças com pernas à mostra, curtos vestidos. Após a alegre discussão de quem ficaria com quem, o último pede a palavra.
“Sei que vocês amam as mulheres, mas no que têm de mais superficial. Era menino e meu pai abandonou a nossa família. Temi que a minha mãe não aguentasse. Em várias ocasiões, chegou a dizer, chorando, que mataria a mim e a meus irmãos e que depois se mataria. Puta drama! Evidentemente, não cometeu tal insanidade. Na Periferia, onde vivi, muitas mulheres conseguiam e conseguem criar os filhos sem a ajuda dos homens, mantendo a família unida. Quantos empresários conseguem fazer a firma aberta com tão poucos recursos? Quando fui estudar no turno da manhã (minha mãe fazia questão), havia poucos meninos, apenas um terço. Assim, como no vespertino. A grande maioria estudava no noturno, porque trabalhava durante o dia. Logo, previ que as mulheres, ao se tornarem mais capacitadas, comandariam os postos mais importantes no futuro. Isso, faz 40 anos. Já era para elas terem chegado lá. Graças a homens como eu, mais lúcidos, que conhecem o poder que elas têm, incluindo o de gerar a vida, isso não prosperou! Nem de pau elas precisam para fecundá-las! Tenham consciência que se não nos cuidarmos, o nosso mundo deixará de existir. Seremos seus simples lambe-sapatos-salto 10!”…
Após uma pequena pausa, um dos presentes, conclama: “Bem, enquanto isso não acontece, vamos brindar ao poder dos machos!”. Sob o aplauso de todos, voltaram os olhares para as beldades que estavam ali somente para servi-los…