A Revelação*

Os misteriosos caminhos da Sabedoria são normalmente tortuosos. Não é por outro motivo que a maioria das pessoas prefira permanecer no caminho reto da ignorância. Além do que, não são poucas as ocasiões em que a ignorância demonstra ser uma benção…

Por que saber demais se, ao final de tudo, acabamos por descobrir que quase nada sabemos? Enquanto isso, na busca da Sabedoria, o homem “inventa” a roda e a pólvora, atravessa os mares e funda civilizações, desenvolve a comunicação e se isola com seus “telefones espertos”, cura doenças e descobre como matar eficientemente…

Vez ou outra, nos deparamos com a ilusória sensação da onisciência ou o real ônus da Ciência… e com revelações, como esta que vi na parte detrás de um banco de ônibus. Não sei se pela urgência em escrever ou pela trepidação comum à nossas ruas irregulares, ela me parece quase indecifrável na parte final. Gostaria que alguém me ajudasse a desvendar: “O mal do homem é sempre agir…”?…

*Neste texto de 2015, postado no Facebook, a resposta mais plausível tem a ver com uma frase mais longa. Foi dada pelo companheiro escritor-poeta Joaquim Antônio: “Se conselho fosse bom, não se dava, vendia. O mal do homem é viver na judaria”. Nesse caso, seria agir como Judas Iscariotes, apóstolo traidor de Jesus. O que é incrível é que esse discípulo apenas estava cumprindo as linhas traçadas antes. Alguns defendem que ele queria que O Nazareno usasse seu poder para expulsar os Romanos da Judéia, ou seja, seria uma ação política. De qualquer maneira, passados mais de dois mil anos, os impérios surgem, erguem-se e desaparecem e os vendilhões do Templo-Terra negociam tudo no balcão de negócios – conselhos, florestas, solos, mares e espaço – não apenas por trinta Talentos, mas por qualquer quantia.

Super Luas

O interessante na ocorrência das Super Luas em Sampa, é quase nunca a percebemos. Simplesmente porque calha de haver sempre muita nebulosidade a nos impedir de senti-la em todo em seu esplendor. Aqui, coloco dois textos referentes a duas ocasiões diferentes…

Em 2015…

Sem Super Lua

Apenas superação…

A eterna ação

da Terra em movimento…

Em uma viagem de velocidade controlada em torno do Sol.

Bilhões de pessoas já viram céus

e astros mudarem de lugar quando,

em verdade, foram elas que se moveram

vida adentro, do nascimento à morte…

Essa é a nossa eterna sorte…

Nossa fraqueza…

E a nossa redenção…

Em 2018…

Nota De Esclarecimento

Não fui eu, Obdulio Nuñes Ortega, que desencarnou na madrugada de ontem. Mas sim meu pai, quase um homônimo – Odulio Ortega. Morrer é um fenômeno natural, assim foi a ocorrência da Super Lua, de quarta para quinta. Um dia, morrerei. A vida só é enigmaticamente tão bela porque temos a morte a nos cortejar num romance eterno, vida após vida. Quanto ao meu pai, ele foi um homem que viveu plenamente e se foi calmamente aos quase 86 anos de idade. Envio um abraço forte a todos que se preocuparam com a minha condição de órfão tardio ou defunto precoce.

#Blogvember / Hominhos De Lata

“Entalhadas nas nervuras do corpo ser — semente — flor”, por Nirlei Maria Oliveira, em As Estações

Lembro de ter aprendido na escola que fazemos parte do Reino Animal. Que somos mamíferos, da Ordem dos Primatas, da família Hominadae. Para completar o nosso lugar no mundo, nos autodenominamos Homo sapiens sapiens. Não basta nos chamarmos de homens sábios. Somos além de sábios, sábios por termos desenvolvido autoconsciência, racionalidade e sapiência. Mas não somos tão sábios a ponto de não percebermos que isso nos afasta dos outros seres do nosso reino, assim como do Reino Vegetal e Mineral. A nossa espécie surgiu a cerca de trezentos mil anos e já fizemos um estrago considerável ao nosso planeta. Por nossa intervenção, extinguimos várias outras espécies vivas – animais e vegetais.

A grandeza da devastação provocada pelo Homem à Terra só é comparável a de um Câncer terminal a uma pessoa. Ou a um vírus invencível que infecta um corpo. Ou ao meteoro que extinguiu os dinossauros há 66 milhões de anos. Cedo em minha vida, percebi a nossa conexão com as forças da Natureza. Que o desequilíbrio de forças em marcha poderá finalmente nos extinguir como espécie, apesar de nos jactarmos de nossa invencibilidade. Sem se dar conta que nossa semente poderá um dia não se transformar em flor.

Somos fascinados pelas máquinas que inventamos e construímos. Modernamente, tem sido muito mais fácil nos identificarmos com as suas qualidades do que nos compararmos positivamente aos seres vivos. Sou admirador de árvores e plantas. Percebo que a sua aventada mudez é substituída por demonstrações óbvias de formas de expressão não percebidas. Em RUA 2, cheguei a colocar uma personagem a conversar com uma sábia árvore de uma ilha central da Avenida São Luiz.

Em 2016, invadi o reino inanimado das construções humanas para brincar com a nossa tendência em humanizar carros, ferramentas e objetos de uso pessoal. Escrevi:

“Numa dessas ocasiões, eu estava a caminho da academia, sempre a passar por ele. Desde que o vi pela primeira vez, havia simpatizado com o Hominho de Lata. Porém, naquele dia, algo mais aconteceu – lhe puseram óculos. Pronto! De imediato, me senti identificado. Eu “nasci” de óculos… Ou melhor, não me reconheço sem os óculos, figurativamente… A saber que as coisas mais intensas que faço são na penumbra, sem rejeitar a luz que se instaura…

Ali estava a mim mesmo, consubstanciado – homem que nasceu para ser nuvem, mas que se tornou lata – enrijecido pelos tempos a fora, em pose de quem carrega o peso e a função de sorrir, ainda que o mundo lhe envergue as costas… Boa sorte a minha de tê-lo como companheiro de percurso, a lembrar de minha (nossa) pequenez, Hominho de Lata!”.

A continuarmos a nossa saga de fugirmos de nossas características que nos liguem à Natureza, é bem possível que tenhamos muito maior parentesco com futuristas homens de lata do que com os seres vivos. Enfim, desumanizados.

Participam: Suzana Martins / Roseli Pedroso / Mariana Gouveia / Lunna Guedes

#Blogvember / A Mulher No Espelho

Dona Madalena e eu, no início dos Anos 60

Estranhamente, (quase) sonhei com o meu pai. Foi como se fosse uma introdução a uma viagem mais longa e profunda, interrompida por algo que me acordou. Nunca sonhei, pelo que me lembre, com o meu pai. Se sim, obliterei. A relação com o meu progenitor foi muito difícil, já que nunca fui um modelo de homem que ele aceitasse. Ou seja, alguém como ele mesmo – uma reprodução sua – como alguns dos pais que chegam a nomear as crias com números sequenciais. Eu já disse-escrevi que só perdoarei o meu pai quando me perdoar, numa espécie de espelho que mostra o meu contrário, em uma imagem com milésimos de segundos de atraso. Porém, esse breve instante de “convivência” depois de sua passagem me permitiu uma certa aproximação. Espero voltar a senti-la.

Quanto à minha mãe, a sua decisão de se separar de meu pai aos 70 anos, me fez percebê-la para além da mulher que sonhava com a volta do marido. Amar é aceitar as pessoas como elas se apresentam (são), apesar das eventuais ressalvas. E com a Dona Madalena, eu tinha muitas. Tenho certeza que ela também quanto a mim. Nunca fui uma pessoa fácil de lhe dar, já que tudo buscava desvendar o significado. Como um extraterrestre que caiu na Terra, via tramas invisíveis a cada ação humana a se desenvolver onde os outros encaravam a normalidade. Mas uma coisa sempre percebi – seu amor por mim – acrescida da crença inabalável no homem que me tornaria.

Quando ela transcendeu, até poderia me perguntar: Como posso viver sem essa mulher que funciona como o meu espelho? Alguém que me mostrava melhor do que eu mesmo me imaginava? Um tempo antes dela deixar o corpo físico, eu já me preparava para o desenlace. Buscava atravessar o corredor que ligava a minha casa à dela e a visitava para ver como estava. Percebia a deterioração progressiva de sua saúde. Ao contrário de meus irmãos, sabia que não ficaria muito mais tempo entre nós. Passados alguns meses, ela me veio em sonho e disse que estava em paz. Acordei tão pleno de sua presença que nunca mais senti a sua falta. A todo momento que me olho no espelho, eu a vejo.

Participam: Lunna Guedes / Suzana Martins / Roseli Pedroso / Mariana Gouveia

Careca

Nasci no início dos Anos 60. Vivi, garoto, a efervescência do movimento da Contracultura. Entre as miríades de transformações, esse tempo foi marcado pela rebeldia contra o Sistema Capitalista e da busca de filosofias que pregavam o desapego material. Uma das consequências visíveis foi alteração do modo de comportar-se, vestir-se e apresentar-se à Sociedade, influenciado pela postura Hippie de ser. Filosofias, roupas e badulaques à parte, no aspecto visual, o que mais me marcou foi o cabelo. Desde cedo, deixei os meus crescerem. Durante 40 anos, deixar o cabelo comprido servia como marca registrada de alguém que eu queria preservar e homenagear – o rapaz que queria mudar o mundo.

Desde os meados anteriores aos cinquenta, passei a cortar os cabelos bem rente. Não deixei de querer deixar um mundo melhor para os que vierem depois de mim. Tendo já criado as minhas filhas, as preparando para enfrentar o Patriarcado de cabeças erguidas, quero que os meus eventuais netos (os netos de qualquer um) venham a viver um planeta Terra mais equilibrado – ambiental, social e economicamente. A minha luta continua, mas não mais com o meus antigos e longos fios. Agora, careca, com a quantidade de cabelos cada vez mais reduzida e com o que resta embranquecido, continuarei a ostentar a minha rebeldia contra o Sistema. Ainda que esteja careca de saber que não verei um País melhor antes de morrer…