Astronauta

Meu amor,
estou a me sentir como um astronauta
fora da nave,
a fazer um passeio no espaço…
Deixo a minha mente vagar
e sinto que não me importaria se as amarras
que me unem ao módulo
se desprendessem…

Sei que a sensação de plenitude,
provocada por nosso amor,
me acompanharia nesse voo sem volta pelo Infinito…
Eu seria mais uma infinitesimal partícula que o compõe,
a participar do concerto silencioso
da imensidão sem fim –
Universo em expansão…

Um dia, o meu corpo congelado
talvez entrasse em órbita de algum planeta frio…
Ao cair no solo seco e estéril,
a semente do nosso amor
viria a se reproduzir em
vida, seres
estações climáticas,
chuvas,
dias,
noites,
crepúsculos,
luares,
frutos, seres
em multiplicação –
borboletas,
abelhas
em flores
e namorados ardentes,
a se beijarem em bancos de praças
sob árvores frondosas…

Há milhões de milhas da Terra,
o nosso amor ressuscitaria
e pariria
um planeta…

Foto por Pixabay em Pexels.com

Duas Faces*

Trabalho em eventos. Sou locador e operador de equipamentos de som e luz para bandas e, eventualmente, sou tocador de música mecânica. Não confundir com DJ, que considero uma atividade que envolve o estudo de processos interativos entre as músicas, a transição bem feita entre os andamentos e os temas, além da produção de “tracks”, quando o profissional conhece melhor o trabalho pelo lado da sua construção. Semelhantemente àquele que trabalha na composição de quadros sonoros, trabalho sobre a canção invisível que ouvimos quando uma paisagem se apresenta diante de nossos olhos. Eu me expresso no coletivo, mas percebo que não sou acompanhado por tantos assim. Poucos são os que presenciam harmonia no caos ou fortes rumores de vida na calma visão de um panorama natural. Trabalhei neste final de semana em dois lugares diferentes por dois dias seguidos. O primeiro local, foi em uma sala no 16º andar de um prédio na região da Avenida Paulista, símbolo da expressão do que é esta cidade. Há menos fotos dessa primeira sessão em relação à segunda, porque creio que se tornaria uma “batida” repetitiva e sem nuances, já que estava cercado por todos os lados pelo mesmo diapasão. O segundo, foi na região da Represa Guarapiranga, na extrema Zona Sul, que não parece, mais ainda é São Paulo — seu perfil campestre. Uma de suas faces, de muitas. Pelo caminho e já no lugar, qualquer detalhe me chamava mais atenção do que o apelo urbano me causava. Em cima desses dois temas, espero que apreciem a música visual que estou a tocar.

Região da Avenida Paulista

Pela janela, cercado de cimento e vidro. Ouço conversas de janelas para janelas.

Abóboda no teto do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista
Região da Avenida Paulista

Vista da torre de uma igreja, em meio aos prédios. E, ao longe, à direita, o antigo Banespão, no Centro Velho ou Centrão.

Região do Parque Ecológico da Represa da Guarapiranga

Ainda manhã, na transição entre o escuro da noite e a claridade do dia que se anunciava, estava a caminho do lugar onde trabalharia mais tarde.

Região do Parque Ecológico da Represa da Guarapiranga

Estrada, árvores e cerquinha branca…

Região do Parque Ecológico da Represa da Guarapiranga

Já clareando o dia, a neblina deu a nota neste tema.

Região do Parque Ecológico da Represa da Guarapiranga

A luz do dia a “nascer” e o sol a parecer brincar de esconde-esconde com o observador…

Região do Parque Ecológico da Represa da Guarapiranga

Finalmente, o astro-rei se elevou esplendoroso dentre o arvoredo. No entanto, isso é tudo ilusão. Na verdade, o Sol é apenas uma pequena estrela na Via Láctea e é a Terra que se desloca pelo espaço, enquanto gira sobre si mesma. Porém, a canção que ouvimos é bela e queremos ser envolvidos por seu andamento.

*Texto de 2015

O Grande Irmão

Quando George Orwell criou, em 1949, a figura do Grande Irmão de “1984”, aquele que pairava como o absoluto observador que a tudo via – percursos, supostas intenções e ações dos que compunham a sociedade – a referência era o viés opressor e totalitário das ideologias políticas da primeira metade do século XX. O “Big Brother”, personagem praticamente onisciente, interferia diretamente na vida humana em todos os seus aspectos, formulava diretrizes e estabelecia regras específicas para o comportamento de cada pessoa da nação. Como que confinados ao Jardim do Éden, era Deus a ditar o certo e o errado para a convivência harmônica de seus cidadãos idealmente despersonalizados. A não-vida era invadida e quem quebrasse algum mandamento, sofria graves sanções.

Quando o programa Big Brother foi criado, nos estertores do século passado, a ideia era que os participantes da bolha competissem por um prêmio através de uma sequência semanal de eliminações — um a um — por meio de jogos. Aproveitando a cada vez maior participação do público, ocorria a escolha de quem deveria sobreviver até o fim, a base da extinção dos oponentes. Transformado em entretenimento, o confinamento de pessoas para serem observadas como os outros animais em zoológicos, parece emular certas condições que se amplificam em grande escala ao serem testemunhadas por milhões de espectadores, que despendem a vida em vigiar um pequeno grupo, a decidirem quem deve sobreviver ou não. Nesse sentido, estabelece-se uma inversão interessante em relação ao Grande Irmão original. Para a “alegria” de quem vê o programa, a direção formula tarefas ou situações que põem os componentes em conflitos constantes — experimentos de ratos no labirinto ou gladiadores na arena de gladiadores modernos.

As personalidades dos participantes parece estabelecer um critério razoável para que a simpatia ou a antipatia recaia sobre tal e tal personagem do programa. O clima psicológico pode ir às raias do estresse total até a exaustão. Quem melhor se adapta às circunstâncias cada vez mais inóspita, encontra maneiras de superar as adversidades. Começam a criar grupos, a fazer conchavos, a traçar estratégias gerais e a desenvolver táticas de guerrilhas para buscarem derrotar os seus inimigos que, se der tudo “certo”, poderá ser o seu aliado de hoje.

Uma vez dentro da casa-bolha, pouco a pouco os participantes esquecem que estão sendo vigiados e começam a agir sem travas, principalmente quando estão alcoolizados — outro expediente desequilibrador: produzir festas regadas a bebidas destiladas. Deus, nesse caso, lhe apraz que todos os pecados sejam cometidos. Que haja nudez, luxúria, ódio, vingança, vaidade e outros sentimentos exacerbados pelo isolamento. O amor (ou o sexo) costuma ser bem visto, de tal maneira que, por conveniência, namoros são iniciados por acordo para angariarem simpatizantes.

No Brasil, os produtores parecem ter transformado a “casa mais vigiada” num campo de projeção do comportamento da nação, feito um imenso espelho de nossas mazelas éticas. Em determinado momento, a participação dos vigilantes é avaliada por outros vigilantes. Grupos de defensores e detratores dos participantes se perfilam frente a frente numa insana batalha de mútuo “cancelamento”, para usar uma palavra da moda. O cancelamento é como se fosse a morte na vida virtual, tão definitiva quanto a real. Chego a ver os soldados invadirem as casas dos vencidos, derrubarem as suas paredes e a salgarem o solo do terreno profano para que nada mais nasça no futuro.  

Por vezes, sinto que o planeta Terra seja, igualmente, um local desse tipo de experiência, como se deuses brincalhões passassem a eternidade a formular jogos de guerra para verem os habitantes da casa a se matarem até que reste um único vencedor que, muito provavelmente. será esquecido… porque quem sempre vence é o jogo.

Ser Para Sempre

Eu coloco, especialmente em minhas postagens no Instagram, “hashtags” como #amanhãser #emtardeser e #anoiteser. Eu utilizo a mesma sonoridade de amanhecer, entardecer e anoitecer para reforçar o meu ideal de ser, sempre. No entanto, quando não somos? Respondo: nem sempre. Carrego como divisa e a citei em meu primeiro livro, REALidade*, de crônicas: “Eu quero ser, além de ser, Ser!” —  Através dela, eu tento demonstrar que diferencio simplesmente “ser” de “Ser“.

O verbo Ser ou Estar é complexo em seu contexto, também do ponto de vista filosófico. É muito comum as pessoas confundirem ser com estar, principalmente na experiência de viver, em tendo a condição de estado como descrição prática de ser. O que muitos confundem, diante do estilo de vida predominante em nosso planeta que considera ter a faceta mais escancarada de ser. O que serve de consolo para quem não investe em Ser — que é, muitas vezes, um doloroso caminho a ser percorrido.

O meu objetivo primordial, desde que me dei conta de nosso estado físico transitório e a crer que o espírito nos precede como repositório de nosso aprendizado na Terra, é de Ser. Ainda que estejamos a viver no mundo material, Ser é o que pretendo alcançar ser. Estar rico de perguntas, em busca de mais desafiadoras respostas. Como já disse, buscar a plenitude de Ser não é uma senda fácil e não são poucas as vezes que desisto de prosseguir, mesmo que momentaneamente. Porém, não será permanentemente. Sei que tenho toda a eternidade para prosseguir nesse intento, voltando a ser e a ser e a ser até não ser mais, para Ser para sempre… o que é não ser Nada.

Renascer

Em 2011…

Cinco anos antes, eu estava a elaborar o meu TCC para o bacharelado do Curso de Educação Física, na UNIP de São Paulo. Tinha como título “Atividade Física Na Terceira Idade“. À época, escrevi: “A atividade física, mesmo depois de muito tempo sem ser praticada, pode apresentar resultados incríveis na recuperação do tônus muscular e condições orgânicas do indivíduo. Esse tema, inclusive, será um dos pilares sobre quais desenvolverei o meu TCC. O subtítulo dele será “Renascer antes de morrer“, considerando que, para mim, a morte não é ponto final de nossa existência (mas como essa tese depende de crença, obviamente não entrará em discussão). No entanto, mesmo para quem acredita na dicotomia Vida-Morte, podemos experimentar o renascimento muitas vezes durante a passagem pela Terra. Outra lição que fica, com o vídeo aqui veiculado, é que é sempre muito difícil o exercício da crença em si mesma… porém, ao final de tudo, vale muito a pena”.

Eu iniciei o curso em meados de 2009, dois anos depois de ter passado por uma crise muita séria de Diabetes que quase fez com que eu não estivesse aqui para contar histórias. Com o incentivo dado por minha família, incluindo o meu irmão e sócio, Humberto, que segurou as pontas na nosso negócio, principalmente por ocasião do estágio, entrega de relatórios, feitura de trabalhos e provas, o concluí em 2013. Tinha a minha mãe como inspiração, mulher guerreira que se transportou para outra dimensão em 2010. Na apresentação do TCC, tirei a nota máxima. Não foi uma vitória sobre mim mesmo tão retumbante quanto a espetacular recuperação apresentada no vídeo, porém também enfrentei situações que testaram os meus limites. E que viesse outros desafios!

Depois de concluído o curso, cheguei a cogitar trabalhar na área, talvez como personal trainer, voltado para as pessoas inativas ou acima dos 50 anos. Porém, seria muito estranho que eu receitasse quase que exclusivamente a caminhada monitorada como exercício físico como base para a obtenção de um corpo com uma boa capacidade aeróbia, orgânica e fisiológica, com uma consequente qualidade de vida equilibrada, como percebi ser suficiente para manter a homeostase em alto nível de rendimento físico. Apenas para não parecer algo tão simples realço que complementaria o programa de atividades físicas com musculação.

Eu curto musculação, gosto de fazer movimentar os meus grupos musculares nessa luta de resistência contra a gravidade. Como em tudo ao meu redor — também percebo um viés filosófico nessa batalha do nosso corpo contra os pesos e a atração gravitacional exercida pela mãe Terra. Agora, o que me deixa ferrado — para ficar no campo dos ferros — é o oferecimento de substâncias milagrosas que anunciam a aquisição de músculos do tamanho de um Hércules, “sem se matar na academia ou fazer dieta”. Eu SEI que praticamente somos o que comemos e que a obtenção de um resultado sem esforço não é digno de ser chamado de conquista. Considerando o fato que apenas tento manter uma boa forma, eu me ofendo com essa tentativa de me seduzir com facilidades sem mérito.

Superação