Dependência*

Confesso que sou dependente… de mulher. E o sou, em muitos sentidos, incluindo, aquele associado à dependência química, mas principalmente psicológica. Sou viciado em mulher. Não me vejo sem poder ao menos vê-la em algum momento do meu dia. Obviamente, é um vício controlado, que tento restringir ao meu meio, para não despertar desarmonia.

Quando digo “ver” é na significação de observar detidamente a sua performance, o que ela mostra ou o que ela nos dá a mostrar. Essa ressalva a transforma em um ser dissimulado? Não creio. Eventualmente, “azinimigas” dirão que aquela que se exibe é uma “metida”. Mas quem de vocês, mulheres, não faz a sua apresentação diante do público sem um pingo sequer de preparação? Sempre haverá exceções à regra, mas isso também é motivador de atenção e, muitas vezes, mais profunda.

Convivo de perto com quatro mulheres que, no recesso do lar, se desarmam e exibem um lado menos precavido. No entanto, isso não as deixa menos fascinantes. A cada dia, passeio o meu aturdimento na (vã) tentativa de decifrá-las. Percebi que esse fascínio de algo a se revelar está indissociavelmente ligado ao charme (algo indistinguível) que carregam.

Sempre fui um sujeito encantado pelas mulheres, mas durante quase metade da minha vida detinha uma timidez mórbida, que me impedia de me colocar diante delas sem passar por certo descontrole. Na superfície, porém, não deixava transparecer esse medo. Relato eventualmente, em rodas de amigos, essa história. Adindo que cheguei a imaginar que fosse homossexual.

Foi uma época de prospecção interna muito elucidativa. Observava os homens e me perguntava se eu me sentia atraído por eles. Definitivamente, percebi que não. Essa busca por esclarecer minha identidade sexual apenas provou que sou um heterossexual com todas as suas deficiências. O que não impede que, de forma salutar, me permita achar alguns homens interessantes e/ou bonitos, mas nunca da maneira especial que as mulheres ou homens de personalidade feminina “percebem”. Tenho gostos que, em muitos aspectos, são parecidos com o dos Gays (palavra sensacional!). Mas a minha atração pelas mulheres é indubitavelmente feérica.

Um homem que achava bonito, com um porte que gostaria de imitar, era Rock Hudson, por exemplo. Não perdia um filme dele na Sessão da Tarde ou em outras “sessões” que passavam em outros horários. Fiquei surpreso, quando ele desenvolveu AIDS juntamente com o anúncio de que era homossexual. Nesse momento, me tornei um admirador maior ainda de sua figura. Fiquei a imaginar de onde ele teria buscado forças para continuar atuando, sem deixar revelar totalmente para o grande público a sua natureza. Em uma comédia romântica Pillow Talk, de 1959 com a sua eterna parceira nas telas, Doris “Calamity Jane” Day (a quem amava), e participação pequena e especialíssima de Nina Simone, há um jogo interessante de aparências que só alguém com muita desenvoltura mental conseguiria levar adiante sem parecer denunciador de sua identidade pessoal.

Falo dos Gays masculinos em relação às mulheres porque talvez não existam maiores admiradores de seus atributos do que eles, em que muitos imitam trejeitos ou mimetizam a aparência feminina, afora aqueles com identidades de gênero feminino levado ao extremo da transposição total. Isso, para mim, é uma vantagem desproporcional na compreensão desses seres amados.

Em resumo, pela mulher fui parido, por mulheres sou apaixonado e ficaria feliz de, um dia, morrer por elas…

*Texto de 2015

Foto por Kammeran Gonzalez-Keola em Pexels.com

B.E.D.A. / Projeto Fotográfico 6 On 6 / Vícios

A palavra Vício é derivada do latim vitium e significa falha ou defeito. Também poderia ser definido como dependência física ou psicológica que impele alguém a buscar o consumo excessivo de algo, geralmente uma substância. Normalmente está associado a um problema ou imperfeição, denotando fraqueza ou deformidade de caráter, eventualmente causando desarranjo pessoal, familiar e/ou social.

Festa Grega com a Banda Kostakis, em 14 de março de 2020

No meu caso, percebi que sou viciado em trabalhar — hábito que deixei de exercer quase de supetão com o advento da Pandemia de Covid-19. Da noite para o dia, foram cancelados os mais de cem eventos programados para o ano de 2020, a partir de meados de março, quando realizamos uma festa grega.

Casamento em São Bento de Sapucaí – MG, em Outubro de 2020, com a Banda Almanak

Em outubro do ano passado, realizamos — meu irmão e eu, da Ortega Luz & Som o primeiro do que seria uma série de festejos que denotaria a retomada da normalidade. Na época, se discutia a ascensão do “novo normal”. Tenho por mim que apenas uma chuva cósmica mutante de proporção planetária instauraria uma mudança no comportamento do homem. O valor desse evento — um casamento na fronteira entre São Paulo e Minas — foi realizado com todas as medidas protocolares de proteção: distanciamento social, número reduzido de pessoas, em lugar aberto, arejado, o uso de máscaras (para os trabalhadores) e disponibilidade de álcool em gel. O interessante é que como já havíamos recebido em março, pagamos para trabalhar. O valor antecipado havia se desvanecido nos meses anteriores da doença que paralisava o País.

Foto ilustrativa em evento realizado em Julho deste ano. O Natal de 2020 foi realizado pela mesma banda Felice Itália.

Em dezembro, fizemos dois eventos especiais Natal e Réveillon. Estávamos vivendo a possibilidade de passarmos ao novo fechamento total das atividades comerciais. Alheios às necessidades em relação aos procedimentos restritivos no combate à Pandemia, convivi com negacionistas enquanto degustava uma excelente comida. Ainda bem que não tive uma congestão.

Réveillon realizado no Satélite Clube, de Itanhaém, com a Banda Matrix.

O Réveillon ocorreu no Litoral paulista — em Itanhaém sob um calor infernal, como poucas vezes senti. Como se não houvesse amanhã, o público dançou aglomerado e desmascarado. Os fogos do Ano Novo refletido nas águas do mar duplicavam os meus presságios de que 2021 seria uma reedição do ano que estava acabando somente na folhinha.

Trio La Bella Itália, em show realizado no Teatro Safra, em Julho de 2021.

Uma das minhas maiores decepções foi encontrar muitos dos meus companheiros do setor de entretenimento artístico vociferando contra as medidas de restrição. Tanto quanto eles, sofri econômica e psicologicamente os seus efeitos. No entanto, eu sabia que a alternativa seria a morte, como ocorreu com muitos dos meus colegas e seus familiares.

Banda Ray Conniff Tribute, em evento realizado em São Paulo, em Julho de 2021.

Uma pequena retomada parece estar em processo com o avanço da vacinação. O fantasma no horizonte é a variante Delta da SARS-COV-2 — resultante da defasagem do processo retardado (de forma intencional) da imunização. A manifestação do Vício em seu pior vezo é o de ostentarmos com orgulho e estrepitosa empáfia maléfica, o nosso atraso institucional, o reeditando de tempos em tempos em variações cada vez mais virulentas, como ocorre atualmente.

Vejo nuvens negras no horizonte…

Participam do B.E.D.A.:

Lunna Guedes / Darlene Regina / Adriana Aneli / Mariana Gouveia / Cláudia Leonardi / Roseli Pedroso

Nicotina tabacum*

Nicotiana tabacum — esse é o nome da planta. Um espécime dela rompeu o solo de uma área ainda não acabada da nossa casa. Quando todo o terreno ainda estava livre de construções, costumava brotar vários exemplares dessas plantas de fumo entre as folhas de abóboras e caules de cana-de-açúcar.

A minha casa foi construída em um loteamento de uma antiga fazenda que, muito provavelmente, devia produzir fumo, visto até que hoje as plantas do gênero Nicotiana (nome científico em homenagem ao embaixador francês em Portugal Jean Nicot, introdutor da planta na França) afloram pelas áreas não cobertas, logo que podem.

De origem americana, esse inocente vegetal transformou-se no principal substrato da droga recreativa chamada cigarro de tabaco. Os indígenas a mascavam ou a fumavam. A palavra “tabaco” originou-se do termo antilhano tabaco, que designava o tubo em forma de “y” com que esses nativos fumavam a erva. Os espanhóis levaram esse costume para a Europa. Jean Nicot usava moído, como rapé. Percebeu que aliviava as suas enxaquecas. Desta forma, em 1561, enviou sementes e pó de tabaco para a França, para que a rainha Catarina de Médicis, o experimentasse no combate às suas enxaquecas. Com o sucesso deste tratamento, o uso do rapé se popularizou.

O corsário Sir Francis Drake foi o responsável pela introdução do tabaco em Inglaterra em 1585, mas o uso de cachimbo só se generalizou graças a outro navegador — Sir Walter Raleigh. O hábito de fumar o tabaco como mera demonstração de ostentação se originou na Espanha com a criação daquilo que seria o primeiro charuto. Tal prática foi levada a diversos continentes e somente por volta de 1840, começaram os relatos do uso de cigarro.

Neste ponto, a finalidade terapêutica original do tabaco já havia perdido seu lugar nas sociedades civilizadas para se consubstanciar no hábito de fumar por prazer. Se fosse parcimonioso e autocontrolado, talvez não fizesse mal. No entanto, há interferência de contextos externos ao retirar o uso do fumo de seu contexto, propagando-o e incentivando-o como necessidade aliada a uma imagem de exaltação pessoal. Além disso, o cigarro passou a ser aditivado de várias outras substâncias com o propósito claro de viciar. O que era um ato cultural, passou a ser uma imposição social, com o tráfico legalizado de substância viciante e com claros efeitos danosos à saúde.

O resto da história, cheiramos até hoje…

*Texto de 2013

Jogos Por Ovos?

Comer ou jogar?

Há dois dias, enquanto limpava o meu quintal, na rua ouvi passar um veículo anunciando a venda de ovos. O alto-falante apregoava: – “Ovos, ovos fresquinhos, trinta ovos por R$ 10,00!”. O pregão completava: “Caso não tenha dinheiro, trocamos por Tele Senas!”… Apesar de lembrar que a minha mãe comprava muito, não estava a par do que se constituía a Tele Sena e pesquisei. Ela vem a ser vendida, na verdade, como um “titulo de capitalização”, com premiações eventuais em dinheiro para quem faz mais ou menos pontos, na “raspadinha”, no momento da compra ou até o prêmio de uma casa, em sorteios especiais. Ao final de um ano, mesmo que não ganhe nenhum prêmio, o portador recebe a metade do valor que “investiu”. Acrescentada à inflação, o retorno é, obviamente, um péssimo investimento.

Dadas essas características, o nome de título de capitalização se perde. Capitalizar, para mim, tem o condão de, pelo menos, preservar o poder de compra do dinheiro investido. A não ser que… A não ser que o portador seja um sortudo e que venha a ganhar um dos prêmios. O que, dado o universo de “investidores-jogadores”, tem uma chance muito pequena de acontecer. Fora o fato de ser um valor menor se tivesse, simplesmente o comprado diretamente, depois de economizar para isso. O componente do jogo faz com que aquele pedaço de papel adquira um poder mágico, proporcionado pela possibilidade de que seja sorteado para um dos prêmios.

Fiquei a imaginar no caso daquela pessoa que tem uma Tele Sena, ainda vigente e que não tem mais nenhum centavo em casa, além daquele papel e que esteja passando fome. Será que aquela pessoa viria a trocar os jogos por ovos? A possibilidade pela certeza? O “quem sabe?” pela omelete? O vazio no estômago pela satisfação? Para mim, a resposta é óbvia, se bem conheço o brasileiro. Eu não jogo, por isso, digo que ganho toda semana. Mas para quem tem o bichinho do vício no sangue, o embate íntimo ganharia proporções dramáticas e a troca da Tele Sena pelos ovos seria como uma tentação do Demo. Ao final, sei que aquele dia seria mais um dia de fome. O “quem sabe?” venceria…

Sobre Platão E Gengibre

Platão

Segundo a teoria platônica, as formas (ou ideias), que são abstratas, não materiais (mas substanciais), eternas e imutáveis, é que seriam dotadas do maior grau de realidade – e não o mundo material, mutável, conhecido por nós através das sensações.

Colhemos gengibre. Lavados, um dos pedaços, a depender da posição que o colocava, ora parecia ser um cachorro, brincando com algo entre suas patas; ora, um cavalinho trotando campo a fora. Pode ser a minha imaginação exacerbada, porém talvez seja um bom exemplo de como podemos distorcer algo que vemos, ouvimos ou sentimos. Afinal, o certo mesmo é que se trata, apenas, de gengibre. Nesse caso, alguns gostam muito, outros, não gostam nenhum um pouco. E gosto, não se discute, já que as sensações são eminentemente pessoais e intransferíveis.

Contudo, há aqueles que gostam de impor seu gosto como padrão, entre todos os demais gostos. Mas essa é outra história, com efeitos que vão desde relacionamentos a preferências político-ideológicas. Pessoalmente, eu não apreciava gengibre. Assim como não gostava de comida japonesa, por puro preconceito – não conhecia e não queria conhecer. Até que “abri o meu coração” ao sabor, textura, aparência e todos os demais detalhes que me levaram a me tornar um fã incondicional. Hoje, consumo o gengibre e me afeiçoei a sua ardência em chás, em pequenas postas e da forma que mais vier a aparecer. Diria que essa raiz termogênica e picante é quase como se apaixonar – queima e vicia.