O Vício

O Vício

Enxerguei a bituca sem filtro
grudada na soleira.
A peguei e a acendi.
À fumaça, o meu pulmão recebeu
como a uma querida amiga antiga,
nunca esquecida.

Morto de sede,
absorvi as últimas gotas do copo abandonado
na mesa do bar.
Me senti embalado pelo odor remanescente de álcool.
Todos os anos de abstinência que me impus
se desvaneceram sob o império do vício
nunca debelado.

Compartilhei da agulha do adicto solidário.
Inoculei para dentro das veias a dor
bela e mortal de se perder.
A invasão do mal me alegrou.
Finalmente, me senti o ser mais vivaz —
aquele que está à beira da morte.

O gosto de sangue,
vampiro retirado e arrependido,
arremeteu em minha boca —
voltei a sorver,
voltei a matar,
voltei a amar…
Bastou reencontrá-la…
Bastou beijá-la…

BEDA / O Desamado

DESAMADO
Amanhecer fogoso…
O sol assoma no horizonte,
impetuoso…
fulgurante…
No entanto, para o desamado,
os seus raios não apenas queimam,
mas penetram, feito adagas,
a golpearem o seu corpo cheio de chagas…

Aturdido, o desamado
não compreende como pode tanto amar
e se ressentir tanto
de quem ama…
Padece por estar longe…
Quando por perto, é repelido
e sofre por ver seu amor desperdiçado…

A quem ama,
também o amou…
Ou talvez ainda o ame…
Mas viveu outras histórias de paixão
que machucaram o seu corajoso coração,
tão bravo que insiste em se apaixonar de novo…
Precisa se sentir plena e ímpar,
não apenas distinta entre todas,
mas única e soberana,
feito uma leoa na estepe…
Qualquer olhar lateral a faz desconfiar,
a remete às presas fendidas,
às paixões perdidas…

Como defesa,
prefere boicotar o amor,
substituir a sofreguidão pelo corpo do amado
por outro vício –
cigarro, bebida, sexo sem sentido, qualquer droga…
Afastar o desejo por aquele que a fere sem querer –
o triste desamado, que naufraga
em sua santa ignorância
inepta e juvenil…

Dependente

 

DEPENDENTE - 1

Pelos profundos olhos azuis de Boy George,
vi passar minha juventude,
rasa,
sem viver de amores praticados
com garfo e faca…

Apenas imaginava cenas de sexo sem meio e nem fim,
somente início…
Me masturbar tornou-se um vício,
randômico e contínuo,
sem saciedade…

Quando conheci o sexo real – concretude,
cheiros, fluidos, sons – nada pareceu ser verídico.
Não que isso fosse ruim – sonhava acordado –
corpos vaporizados,
desfeitos pelo prazer…

A diferença sólida
é que as sensações perduram,
ganham direção e sentido – o bom vício
de ter alguém a quem amar –
me tornou dependente de viver…

BEDA / Se Não For Para Causar, Nem Caso

Fogo & Gelo

Maria, figura esfuziante e autossuficiente, trazia o sol atrás de si aonde quer que chegasse. Era desejada por homens e mulheres, mas não se prendia a ninguém. No trabalho, sorriso aberto, conseguia conduzir aos seus comandados com facilidade e seriedade. A chegada das sextas à noite, saia com o grupo de amigos, muitos, antigos colegas de escola. Todos a amavam. Quase todos a tiveram nos braços, mas sabiam que ela era uma espécie de patrimônio da humanidade. Como conseguia equilibrar tantas emoções que provocava, era um mistério que nunca conseguiram desvendar. Ou se aceitava Maria ou se afastava para tentar nunca mais vê-la. Porém, tamanha a sua força atrativa, poucos a deixavam. Era fogo que aquecia.

José, recolhido e triste, enviuvara há pouco tempo, sem filhos. A sua personalidade plasmada em gesso sem acabamento, ganhou feições de grandiosidade de um deserto aberto. No entanto, sempre prestativo, era querido por muitos. Gostavam de tê-lo por perto porque era aquele que parecia concordar com tudo o que fosse dito, calado que era. Poderia se dizer que fosse uma figura decorativa, porém indispensável. Eficiente em suas funções de contador, não sabia contar quantas dores já sentira na vida, sensibilidade à flor da epiderme mais basal. Era gelo que não derretia.

Ora, pois então, deu-se que um dia acabar por se encontrarem, em uma tarde de outono, Sexta-Feira Santa. Maria, reservava um dia por semana para estar só ao sol – amigos estelares que eram. José, ainda que companheiro silente preferido de muitos, se sentia melhor quando confirmado em sua solidão tranquila. Ela, a buscar a luz por entre o arvoredo do parque; ele, a se sentir acolhido pela sombra oferecido pelas folhas – encontrão, peito com peito, distraídos dos dois, absortos pela Natureza. Olhos nos olhos, antes da queda… ou quase, já que ele, em um movimento de insuspeita agilidade, a segurou nos braços. Fogo e gelo em pleno Horto Florestal. Desculpas recíprocas. O sorriso dela a queimar a pele dele. A profundidade do olhar dele a abarcar a energia dela.

Tão diferentes, que não se estranharam. Antes, curiosos por viajarem por terras tão distantes, se sentiram atraídos pela aventura de se conhecerem. Decerto, não era algo que faltasse a um e outro. Ambos se sentiam completos, ao seu modo – uma, pela opulência; outro, pela falta. Não precisaram trocar palavras ou gestos efusivos. Apenas o dançar suave de mãos e olhares, jogo de silêncios e risos sem motivos aparentes. Ela, em sua presença, brilhava ainda mais; ele, na dela, se aprofundava mais firmemente em sua segura e sólida guarida. Longe da multidão que os cercavam, no entanto, se reconheceram amantes mutualmente. Já, naquele dia, o finalizaram em batismo de fogo e gelo. Queimaram e umedeceram os lençóis noturnos e, mais tarde, matutinos. Final de semana prolongado da Paixão.

Celulares religados, mensagens e chamadas perdidas os fizeram perceber que o mundo os queria por perto – familiares e amigos, carentes do corpo caloroso de Maria e da presença refrescante de José. Logo, perceberam que não queriam se separar, talvez não conseguissem. Ambos estavam surpreendidos pela força que os uniam, ainda que não precisassem o que fosse ou como denominar aquilo que sentiam. Talvez fosse amor, uma doença grave ou uma dependência psíquica, vício imediato, feito crack. Decidiram revelar ao mundo de entorno de cada um, a partir daquele instante, estariam juntos… Quase em uníssono, se perguntaram, como se tivessem uma plateia a inquiri-los: “Até quando? ”… Quase que imediatamente, responderam: “Não sabemos! ”… Riram gostosamente.

Feita a excursão por seus respectivos planetas, souberam que a aliança entre as partes não seria facilitada por seus habitantes. Seguiram em frente, alheios ao antagonismo – puro egoísmo de quem se acostumara a companhia constante de seres tão especiais. Com o tempo, a percepção de que ambos os lados não perderam amigos, mas ganharam outros, trouxe paz ao sistema solar.

A contrariar todas as expectativas e suas próprias convicções pessoais, quiseram fixar um núcleo central. Um lugar de reconhecimento como sendo a casa do Sol e do Gelo. Um ponto de referência. Já que não precisavam casar, porque não casarem? Reuniram a turma toda e anunciaram o enlace. Com o seu jeito faceiro, Maria completou: “Se não for para causar, nem caso!”… “E quando será?”… “Está sendo”…

E foram declarados: Vida e Paixão…

Imagem: https://magawallpaper.wordpress.com

O Vício E Eu

 

Não sou fumante, mas posso falar de cátedra sobre o vício de fumar, pois a minha mãe fumou até morrer. Ela começou tarde, por volta dos 36 anos, quando se encontrava exilada conosco, meus irmãos pequenos e eu, na Argentina. Sentia falta do marido, que havia voltado para o Brasil e do resto da família, muito apegada que era aos irmãos. Nunca mais parou. E, dessa forma, começou a minha saga como fumante passivo e “traficante”, já que era eu quem, no começo, comprava os maços de “Continental” sem filtro para ela. Em determinado dia, a revolução se deu. Ousadamente, para os meus doze anos, me recusei a ir comprar veneno para quem amava, resolução que mantive dali adiante. Isso não impediu que Dona Madalena continuasse com o vício.

 

Quando vieram as netas, pedi a ela que não fumasse diante das meninas e acho que cumpria a solicitação, não sem muito esforço, pois as amava muito. Por ocasião do aniversário de 1 ano da minha caçula, ela saiu da festa direto para o hospital, em decorrência de insuficiência respiratória. Depois desse susto, aparentemente, parou de fumar, pelo menos por algum tempo. O seu aspecto físico e mental melhorou a olhos vistos. No entanto, soubemos depois, voltou a fumar escondida de todos, com a conivência da auxiliar doméstica, sua cúmplice e parceira no fumo. Ao menos, parecia ter diminuído o consumo, já que não sentíamos tanto o típico odor de nicotina no seu vasto cabelo. Ela escondia os cigarros com tanta maestria que quase nunca os encontrávamos. Era danada a minha velha mãe…

 

Um dia suas condições gerais não puderam ser revertidas, principalmente porque os pulmões não suportaram suprir a demanda extra de oxigênio exigida. Nessa época, eu era bem mais condescendente com o seu vício, não por aceitá-lo, mas por compreendê-lo. Sabia que o apego ao cigarro, prioritariamente na mulher, é muito mais difícil de ser revertido, por sua própria constituição fisiológica. E também porque, três anos antes de seu passamento, eu mesmo quase morri por causa do meu próprio vício – por açúcar – o que me levou a desenvolver Diabetes, a ponto de chegar a um índice de 715 mg/dl de glicemia e consequente crise.

 

Fiquei internado por uma semana, e saí do hospital disposto a mudar radicalmente a conduta, entendendo melhor o quanto o vício desrespeita nosso conhecimento daquilo que nos faz mal. Ao contrário, fazemos o perigoso “jogo do auto”. Primeiro, a auto enganação, propagando que podemos parar quando quisermos. Depois, passamos a desculpar as nossas deficiências com a autoindulgência, encontrando sempre uma justificativa e jogando a responsabilidade nos outros ou nas circunstâncias. Logo, chega a fase da autocomiseração por nossa lamentável condição de viciados e, finalmente, revoltados com os inimigos que nos apontam o vício, chegamos à autossuficiência social. Não nos importamos mais com a opinião dos que nos cercam e atacamos quem “nos ataca” ou ataca o nosso motivo propulsor do  prazer. É muito comum um fumante se sentir extremamente ofendido quando se fala do malefício do cigarro. É como se estivessem falando mal da pessoa amada.

 

E, então, de uma hora para outra, somos colocados diante de nossa mortalidade. Alguns nem sentem tanto medo de morrer, mas percebem o amor que algumas pessoas lhe dedicam e, por elas, decidem: eu vou parar! Um pouco antes de eu chegar à fase mais aguda da doença que desenvolvi e motivou a minha internação, no final de outubro de 2007, morreu Paulo Autran, no dia 12. Eu ficara, então, impressionado com o relato de Karin Rodrigues, então esposa do grandíssimo ator, quando disse que o último pedido dele foi fumar um cigarro, o mesmo que ocasionou o desenvolvimento do câncer que o vitimou. Pensei comigo mesmo que, como ele, eu deveria parar de tomar refrigerantes, comer doces, de acrescentar açúcar ao achocolatados que consumia, entre outros atentados ao meu pâncreas. Talvez já estivesse sentindo o que poderia ocorrer, caso continuasse agindo da maneira que agia, quase como se quisesse me matar. Rapidamente, os sintomas da hiperglicemia se fizeram presentes – diminuição da acuidade visual, a boca extremamente seca, o cansaço, a micção constante e a extrema irritabilidade, entre outros sintomas.

 

Minha esposa chegou a me dizer, posteriormente, que não estava mais aguentando ficar ao meu lado. Pior, anunciou para minha mãe que se separaria de mim caso eu continuasse a agir da maneira que estava agindo, já que aquele comportamento parecia revelar um permanente traço de personalidade. Na verdade, estava passando por um processo chamado de Cetoacidose Diabética, que proporciona tal desequilíbrio metabólico, cuja a exacerbada irritabilidade é uma das funestas consequências. Aliás, a participação da Tânia nesse momento foi decisiva pois ela percebeu que os sintomas se enquadravam no quadro de Diabetes, a tempo de me levar para o hospital e salvar a minha vida.

 

Anos depois, ao trabalhar num festejo de “bodas de vinho” (70 anos de casamento), encontrei uma pessoa com o sobrenome Autran. Perguntei se era parente do grande ator, que ela confirmou. Durante a conversa tomei coragem de perguntar sobre a circunstância incrível relacionada à sua morte que ainda reverberava em mim devido à sincronicidade dos fatos. Ela abertamente relatou que o câncer em Paulo Autran estava tão avançado que o diagnóstico estava fechado. Não havia mais o que fazer. Ele sabia que iria morrer a qualquer momento e o seu último desejo foi o de morrer unido ao seu companheiro mais íntimo – o cigarro…