De Lírios E Outros Devaneios

Eu estava limpando a casa e organizando o lugar para que não parecesse tão bagunçado, deslocando objetos daqui para ali. Não sei se pelo meu trabalho profissional, sinto que o meu senso espacial é bem apurado. Consigo colocar sem muito pensar as coisas nos seus devidos lugares. Se houvesse um nome que poderia escolher para o que eu faço é o de aprovisionador efêmero — soluções precárias para momentos oportunos ou que costumo chamar de provisórias permanentes. É bem verdade que quase tudo é passageiro. Algumas coisas além de passageiras, são lindas. Como os lírios que floresceram aqui em casa. Não fosse esta imagem roubada, ficaria apenas o registro da minha memória — talvez a coisa mais fugaz que eu tenho.

Bom dia para você, rolinha, que decidiu fazer seu ninho no cacho de bananas quase no ponto de ser colhido! Escolheu bem o lugar – terá o que comer ao alcance do bico — para você e para seus filhotes. E por ter escolhido uma casa onde as pessoas respeitam a vida — perderemos às doces bananas, mas ganharemos lindas companhias…

Voltava, madrugada alta, e ao olhar para a direita, uma porção de água refletia luzes de barcos estacionados ao longo do horizonte sem fundo da noite. Achei por bem registrar o que queria o que fosse a cena do confronto do branco com o preto, oscilantes. Quando fui buscar as imagens, vi fogo sobre a água e um bastão luminoso como se fosse o cetro da Rainha D’Água emergindo contra a negritude. Mais um devaneio entre tantos…

A insônia não me impede de sonhar. As últimas luzes de ontem, então, brotam em plena madrugada, como planta irrigada por devaneios aquosos. A tarde se faz, tarde da noite quente, seca e escura. Assim, amanheço…

Por onde eu estava, passou uma noiva com o noivo, acompanhados por damas de honra, todos devidamente paramentados. Enquanto uma senhora sorriu e expressou que amava ver noivas, outra falou baixinho: “Que ridículo!”… Eu, que só achei a cena bonita, senti que qualquer coisa pode ofender a alguém quando a pessoa está de mal com a vida.

Tempo seco.
Vida umedecida.
Horizonte dividido
em céus.
Todos meus.
Cores sedentas.
Tarde emudecida.
Coração agradecido…

A nossa boa e saudosa Penélope tinha o mesmo hábito — onde quer que estivéssemos, se postava estrategicamente no meio do caminho. Atualmente, é a Dominic que se põe na passagem. E o que muitos de nós, seus cuidadores, fazemos? Nada. Passamos meio de lado ou por cima, com todo o cuidado para não atrapalharmos o descanso da inconveniente presença. Certo ou errado, é o meu comportamento.

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Resquícios

O que restou? De tudo o que passamos há algo que poderia ser mencionado como importante a ponto de ainda repercutir em nossas vidas? Há situações elegíveis aqui e acolá que possam ser chamadas de bons resquícios, talvez indicadores de que o quadro irá melhorar.

Do ano que passou, no dia 30 de outubro, encontrei o Alexandre. O antes mudo velhinho meio-cego de quatro patas, passa as manhãs latindo para quem caminha em frente ao portão vermelho. Ocupa um cantinho especial do sofá novo, o mesmo que a Tânia disse que nenhum dos peludos subiria.

Voltei a fazer exercícios programados. Percorria os um pouco mais de 2,5 Km até a academia, observando o percurso e suas paisagens –– casas, praças, ruas, seres humanos e outros. Sempre poderia encontrar uma história à minha espera. Nesta imagem, uma casa de porto fechado –– carro antigo na garagem, entulhos e lixo pela passagem –– a demonstrar o abandono das pessoas que aí residiam. Talvez seja mais um caso de batalha judicial familiar, demonstração óbvia que não apenas de amor se preenche os alicerces de uma casa.

Em uma época que não estava muito bem, deu de eu encontrar monumentos à vida em meu caminho. Sobre a outra vida, homenageando de modo indireto a esta. Precisava dessas duas horas de relaxamento e visão de FuturoPresente do Passado.

A primeira manhã de 2023 surgiu limpa, lavada da chuva noturna – águas de 2022 que se intrometeram no ano novo adentro. E assim é, sempre. A separação rigorosa que nós, seres humanos fazemos, não significa nada para as estações sobrepostas umas sobre as outras como o que ocorre neste Dia de Reis, por exemplo. Tanto naquela manhã, que encerrava o final do evento de Réveillon, estou trabalhando. Apesar do peso que a palavra trabalho carrega, eu encaro essa circunstância como a oportunidade de vivenciar experiências simples e satisfatórias para mim, como olhar as cores das nuvens pintadas de Sol.

Hoje, 6 de janeiro de 2023, não deixei de cumprir um ritual pessoal –– o de buscar estar presente –– principalmente num local como este, junto à Via Anchieta, ao lado da Mata Atlântica. Chovia, como chove neste exato momento. Mas mais parecia um carinho úmido, feito a mão macia de uma mulher. O frio deste Verão atípico, como eventualmente virão a ser embaralhadas todas as estações, apenas é mais um detalhe de deslocamento ao qual gosto tanto de vivenciar.

* “Neste dia Dia de Reis, recebi de presente, em papel de transparente visão, uma ‘sensação de estranhamento feliz’. À primeira vista, esta fruta que encontrei no jardim parecia ser um pequeno abacate. O abacateiro que tínhamos se foi há algum tempo. Após lavá-la, ao posicioná-la para a foto, quase a confundi com uma pera. Ao toque, dada a lisura de sua casca, ficou evidente tratar-se de um maracujá mesmo, já que além das mangas (no final da safra), jabuticabas e goiabas, só temos mesmo um maracujazeiro em plena produção. A sua forma inusitada, causou aquela sensação nomeada acima. Um pequeno bálsamo em relação à antípoda ‘sensação de infelicidade entranhada’, tão em voga em 2020. Ainda assim, feliz Dia de Reis!”.

*Este texto incidental, de dois anos antes, trazia um certo otimismo, mas que agora posso entender como uma desesperada tentativa de enganar a mim mesmo que, paulatinamente, via crescer o meu amargor diante da crescente “sensação de infelicidade entranhada”, como se fosse um câncer. Ao final do desse mesmo mês cheguei ao limite, com o prenúncio de uma crise de ansiedade que me fez buscar a ajuda das águas litorâneas. Um mês depois, nascia o projeto do livro lançado pela Scenarium, ainda em 2021: Curso de Rio, Caminho do Mar.

Participam: Roseli Pedroso / Mariana Gouveia / Lunna Guedes / Suzana Martins

A Árvore*

Avenida São Luís, em dia de chuva em março de 2013

Na tarde de ontem caiu uma tempestade típica de março, o mês que fecha o verão. Logo, o trânsito ficou complicado e, em alguns pontos da cidade, andávamos (sobre rodas) a passos de tartaruga doente. Na Avenida São Luís, enquanto esperávamos para nos mover por mais um metro, olhei para a árvore à minha direita e disse a ela, em meu pensamento:

— Estamos todos parados como você, mas acho que a sua situação é bem mais confortável que a nossa…

Passados alguns instantes, ouvi uma resposta:

— Eu estou certa disso! Eu sei quem eu sou, onde estou e para onde vou!

Olhei para os lados para ver se mais alguém percebera o nosso diálogo supostamente silente. Fiquei certo que a nossa conversação ocorria somente em minha mente. Retruquei:

— Eu acho estranho você dizer que sabe para onde vai. Não parece que você vá a algum lugar…

— É o que parece, não? Você provavelmente se prende ao fato de nós, árvores, não nos movermos fisicamente. Isto não quer dizer, necessariamente, que não tenhamos consciência de tudo o que nos rodeia. Apenas, não precisamos ir de um ponto ao outro para isso…

Percebi certa ironia daquela árvore sobre a minha condição de ser momentaneamente paralisado. Com certa indignação, retorqui:

— Eu acho que a sua condição talvez não seja tão confortável assim. Você tem consciência que foi plantada por homens e que homens podem vir aqui retirá-la do lugar?

— E você, também não foi “plantado” por homens e homens não podem a qualquer momento vir a “desplantá-lo” do mundo? Não estamos, todos nós à mercê da vontade de terceiros e a situações inesperadas? Você para onde está indo?

— Estou indo (ou não indo) trabalhar. Tenho que buscar subsídios para a minha sobrevivência. Você sabe o que é trabalhar?

— Meu caro, sou uma trabalhadora nata! Sou o ser mais preparado que existe para subsistir. Eu sou a minha própria indústria de alimentos! No entanto, a questão que coloco é mais genérica — você sabe para onde vai?

Sem resposta, retribui a questão:

— E você, sabe?

— Sim, eu sei!…

Suspendi, por instantes, a respiração. Será que eu teria a resposta de umas das mais prementes indagações do Universo?

— Eu vou para onde estou… E estou onde deveria estar. Sem essa certeza, estaria desenraizada. Observo, dias e noites, vocês passarem de lá para cá, percorrendo trilhas marcadas, buscando algo que, em verdade, já está com vocês.

Aquela árvore deve ter sido um sábio chinês em outra encarnação. Percebi que a sua sabedoria não me alcançaria naquele instante. Estava mais preocupado em chegar ao evento programado na hora marcada. Antes que o carro ultrapassasse a quadra onde ela estava estacionada, perguntei:

— Porque você falou comigo, especialmente?

— Ora, porque você se colocou como um ser igual a mim. Normalmente, as pessoas não conferem essa dignidade a nós. Não somos sequer notadas…

— Eu sempre converso com as plantas, mas nunca me responderam antes. Eu acredito que fazemos parte do mesmo ambiente, vivemos o mesmo tempo, interligados… Olha, parece que já estou conseguindo me mover…

— Parece que você já está no bom caminho, amigo… Boa viagem!

Consegui me adiantar bem, deixando para trás aquela nova amiga e tendo a sensação de que estava mais certo do percurso que percorreria dali para diante, mesmo que parecesse estar ainda andando em círculos… 

* Texto original de março de 2013 que, editado por Lunna Guedes, veio a compor o livro de contos curtos Rua 2, pela Scenarium Plural — Livros Artesanais

Imagens Dispersas de 2012

Na mesma época, há dez anos, fui à cidade da Tânia. Como então, a família pôde passar a semana no interior do Rio de Janeiro, no distrito de Arrozal, Piraí, junto à Dona Floripes. Ela está com a saúde claudicante e quisemos ficar perto dela por alguns dias. Lembro-me da primeira vez que fui à cidade, acho que em 1988 ou 1989, antes de casarmos. Cheguei de ônibus na Praça São João Baptista e caminhei os cerca de 500 metros que me separava da casa da família Oliveira, na expectativa de que me recebessem de forma acolhedora. E foi o que aconteceu. O seu Neneco, o pai e seu Dindinho, o avô, eram vivos. Pude perceber ao longo dos anos que ainda que não estivessem fisicamente mais presentes, é como se nunca tivessem partido. A casa foi construída aos poucos pelos dois, tijolo por tijolo, com improvisações criativas que a precariedade estimula, marcando as suas passagens no Tempo materialmente. Aqui, coloco a reportagem, com imagens, dessa ocasião em que a minha família usufruiu da hospitalidade arrozalense.

“Imagem da família Ortega, junto com a Dona Floripes, mãe da Tânia, e avó das meninas — Romy, Ingrid, e Lívia — no dia 24 de dezembro de 2012

À época, escrevi:
“O ano de 2012 se esvai entre os dedos como a fina areia da ampulheta do Tempo que marca a nossa existência. É muito estranho que muitas ocasiões só consigamos materializar através de referências externas, como fotos, por exemplo. Essas imagens, no entanto, apenas indicam as possibilidades de emoções e sentimentos de quem vivencia a experiência. Estas últimas que estou postando já fazem parte do Passado e o que tento (sempre tentamos) é torná-la eternamente presente. Adeus 2012!”

Estive de volta à cidade há alguns dias, agora, em 2022. Ano após ano, estas portas continuaram fechadas ao meu olhar curioso, enquanto o tempo ia deixando os seus sinais sobrepostos…
O 27 de dezembro de 2012 foi um dia de calor infernal. Tomamos caminhos estranhos, na busca de um local para refrescar nossos corpos suados”.
Uma alma piedosa, amiga de juventude da Tânia, permitiu que um grupo de paulistanos pudesse se refrescar em sua piscina. O que salvou a nossa vida…
“Esse cãozinho, alheio à idade da pedra em que pisa, chamou a minha atenção por sua esperteza. Quando o grupo voltava para a casa, ele tomava o caminho mais reto, enquanto os seus cuidadores ziguezagueavam, assolados por suas decisões inconstantes. Há de se ter muita paciência com esses humanos!”
Praça São Jão Baptista, onde pássaros e crianças (que jogavam bola do lado da igreja), assumiam a sonoplastia do dia…”
“Voltamos para casa com o Sol sempre no horizonte à oeste. Antes de se deitar completamente, o fotografei na altura de Itaquaquecetuba“.

Desvarios Vários E Variados

Lunna, cara mia,

sou daqueles que também envida esforços tremendos para manter a mente no Presente. Porém, tenho plena consciência de que o Passado nos atravessa hoje paralelamente ao agora, assim como o Futuro se mostra evidente neste momento que estamos vivendo. Como somos analfabetos na sua língua, mal conseguimos ler o que se apresenta evidente e que apenas logo mais ficará claro. Como observador da vida, é verdade que acerto muitas vezes o que ocorrerá, porque quando colocamos em movimentos certas forças, como num jogo de xadrez, quase inevitavelmente os resultados se apresentam após as peças ocuparem as suas posições. Mas isso não me traz satisfação. Ao contrário, já que temos jogadores de má índole em profusão. São manipuladores de todas as ordens que jogam sujo para obterem vitórias à custa de muito sofrimento.

Nós costumamos comemorar datas marcadas no Calendário nas quais as pessoas pautam as suas vidas. Seguem as festividades sinalizadas na folhinha sem saberem exatamente a razão dessas comemorações. Muitas carregam um simbolismo poderoso, ainda visíveis atualmente. Outras, tiveram seus significados desvirtuados e, mesmo assim, costumam-se soltar fogos em nome de abstrações. Conversamos na última ocasião que estivemos juntos que o dia de hoje me causava assombro quando garoto porque não entendia a intenção de ser saudado como o do nascimento do menino Jesus – sete dias antes do primeiro dia do ano – já que por ele o Calendário se iniciava. Até descobrir que a intenção era vinculá-lo aos antigos calendários pagãos ligados à agricultura e às estações.

O Natal – decretado no Solstício do Inverno no Hemisfério Norte – ganhou através dos tempos uma poderosa marca econômica. Eu, por exemplo, estou em atividade remunerada graças à essa ocasião de congraçamento permeada por recebimento de regalos. A minha mãe apreciava demais essa data e apenas após o seu passamento, comecei a trabalhar nas comemorações dos outros. Nunca mais montei presépios ou árvores de pinus artificiais. As minhas meninas preferem se reunir com os amigos e apenas no almoço do dia 25 nos permitimos estar juntos. Este ano, isso não ocorrerá. A minha sogra está doente e estaremos separados – elas, lá, eu, em Sampa. Quando for viajar para visitar Dona Floripes, elas estarão voltando por conta de compromissos profissionais. Por sorte, não carrego pejo por viver na contramão dessa sacralidade formal e sem sentido.

Agradeço imensamente por Hopper ter nos colocado em contato e ter me “desviado” de meu destino de escritor de si para si. Um sujeito que não estava entre os seus, emprestando momentos fugidios de conexão em salas escuras de cinema, teatros ou bibliotecas em que apenas compartilhava olhares atravessados entre prateleiras. A moça que se sentia no sótão, desvinculada de suas muitas identidades, colocou como propósito escrever e editar escritas. Assim procedendo, invadiu o caminho de incautos que se sentiram inseridos no contexto de um cenário em que livros são tratados como bens artesanais. Hoje, renascido, sei valorizar a natividade.

De seu escritor,

Obdulio.