BEDA / Aleatoriedades Temporais

O Facebook não sei quanto mais tempo durará. Quando surgiu o Orkut nem cheguei a usar todas as suas possibilidades e não participava de grupos. O Facebook passou por cima dele rapidamente como um trator e logo se tornou hegemônico. Poder que se estendeu para outras formas de apresentação, como o Instagram. Hoje, fazem parte de um conjunto de aplicativos que compõem a Meta — em referência ao Metaverso — uma espécie de universo virtual paralelo. Enquanto vivia a sua primeira fase, eu utilizei o Facebook como repositório de textos, imagens e assuntos tão aleatórios quanto crepúsculos ou observações sobre temas cotidianos. Eis alguns exemplos.

Metalinguagem (2021)

Em tempos de falsa concretude, das palavras cada vez mais estioladas, das imagens empobrecidas, dos pleonasmos cada vez mais reais, dos passos maldados, do ladrão de verbos e verbas, pede-se encarecidamente — não pisem na metalinguagem!

Asas… (2020)

A cada dia que perguntamos algo ao céu,
ele responde de forma diferente.
Mas o sentido é o mesmo — a vida
é movimento e transformação…

Moema (2020)

Ao ver o sol se pôr em Moema, atravessei o meu olhar através dos prédios, casas baixas, árvores, colinas, vales e rios para cada vez mais fundo no Tempo. Moema tem origem no Tupi “moeemo”, calcado no gerúndio, que quer dizer “adoçando”. Transformado para o feminino, significa “aquela que está adoçando”. O nome foi criado pelo Frei de Santa Rita Durão, para um personagem do seu famoso poema “Caramuru”, que conta a história do náufrago português Diogo Álvares Correia, no tempo em que viveu entre os índios Tupinambás. Por alguns instantes, voltei a eles. Inocente do destino do meu povo que morrerá-morre-morreu. Outra possível versão sobre o significado de Moema é “mentira”… 

Bethânia (2017)

Bethânia… É comum me sentir como ela… Sempre tentando me adaptar aos humanos…

Mooca (2011)

São Paulo convive com características de cidade pequena, em várias de seus caminhos, mesmo os mais movimentados. Na Rua dos Trilhos, que fica no Bairro da Mooca, podemos presenciá-las à esquerda, em casinhas que resistem com a mesma fachada desde que foram construídas, nas primeiras décadas do século passado. À direita, resquícios de uma das últimas linhas de troleibus da cidade.

Sarah (2015)

Este é o túmulo de Sarah. E quem foi Sarah, que faleceu aos três anos e meio de idade, em 1999? Não sei, mas ao passar mais uma vez junto ao Cemitério da Saudade, aqui em Caieiras, onde estou trabalhando, não deixei de me emocionar ao ver a sua foto, através do muro baixo, onde o seu corpo descansa. Em uma placa sobre a lápide, ao lado dela, pode-se ler: “Sarah, você é o sol que brilhará eternamente”. Estou de TPM — Temporada de Piedoso Melindre — momentos em que tenho vontade de chorar por qualquer coisa, desde o latido de um filhote de cachorro até a imagem de uma Maria-Sem-Vergonha se abrindo. Caminhei algumas quadras com a expressão pesarosa de quem perdera alguém muito próximo, em um dia em que o Sol se fez ausente, como a anunciar a chegada do Outono. Logo, tive que me refazer, não sem antes deixar cair uma ou duas lágrimas por aquela criança que mal ultrapassou a primeira infância como tantas no Brasil

Participam: Alê Helga / Mariana Gouveia / Lunna Guedes / Roseli Pedroso / Cláudia Leonardi Suzana Martins / Dose de Poesia / Lucas Armelim / Danielle SV

BEDA / Transmutação

A metamorfose se deu, de início
pelo olhar…
O movimento dela o paralisou.
Como se fotografasse cada gesto,
aprisionou dentro de si a evolução
do casulo à borboleta —
da flor ao céu —
asas da imaginação…

Quis recuar quando suas vozes
ocuparam o mesmo ambiente —
palco de suas atuações…
Percebeu que fluíam sonoras
conversas de palavras
entrecortadas,
caladas…
As lacunas preenchidas de desejos
perfeitos em suas incompletudes.

Quebradas as barreiras —
distâncias de centímetros-quilômetros —
peles sem proteção,
mentes despertas,
liberta de atavismos
e consequências,
o imediato transformado em eterno,
se reconheceram outros,
os mesmos…

Ele,
transmutado
de Jackyll em Hyde,
de homem em lobo,
de mortal em vampiro,
de Clark em Superman
todos e ninguém,
vivia ausente de si…
Passou a respirar o vácuo
se não aspirasse o hálito da paixão…

Transformação
irremediável,
perigosa,
instável,
liberdade de viajante
encarcerado,
não trocaria o permanente desconforto
do atual caos de criação do mundo
pela antiga estabilidade de morte
em vida…

Foto por Brenda Timmermans em Pexels.com

Participam: Alê Helga / Mariana Gouveia / Lucas / Lunna Guedes / Roseli Pedroso / Cláudia Leonardi / Suzana Martins / Dose de Poesia

BEDA / Projeto Fotográfico 6 On 6 / Arquitetura Paulistana

Ontem, eu passei pelo Centrão e o meu olhar encontrava a chocante disparidade entre aquele conheci e o que presenciamos hoje — degradado — apesar de haver várias construções sendo restauradas, além de novos empreendimentos na Avenida Rio Branco. O velho cruzamento da Ipiranga com a São João, nem chega perto da outrora movimentação que inspirou Caetano a compor Sampa. Alguma coisa aconteceu no meu coração: a melancolia de ver essa icônica parte da cidade com grandes construções esvaziadas e pessoas jogadas pelas calçadas em condições precárias de subsistência. Ainda mais com a política de limpeza visual das barracas onde ficavam durante o dia, já que durante a noite o vazio toma conta do asfalto e corações.

Por trás desses tapumes, mato e restos de entulhos de parte do que foi o antigo prédio que foi habitação de despossuídos depois de ter sido Sede da Polícia Federal em São Paulo por 33 anos. O Edifício Wilton Paes de Almeida, localizado na Rua Antônio Godoy, foi desocupado em 2003. Gradativamente, através de movimentos de sem-tetos, sem condições adequadas, o prédio foi transformado em uma grande armadilha. Desabou, depois de um incêndio, em 1º de Maio de 2018. A Igreja Evangélica Luterana de São Paulo — de 1908 —, a edificação ao lado, atualmente reconstruído, também sofreu, bem como um edifício próximo, além de dois do outro lado da rua. Representou, de forma contundente, o quanto a política de ocupação da cidade é disparatada em relação à realidade. Nessa região, o potencial de moradia de qualidade é enorme, próxima de muitos serviços bem estruturados. Falta um programa que envolve vontade política para ser implementado.

Só em outra realidade bem interiorana que não São Paulo, a parte traseira de uma igreja é um local mais calmo. Principalmente se essa igreja for a Catedral da Sé, em frente da qual a cidade tem o seu Marco Zero. Bem próximo dali, os Jesuítas Manoel da Nóbrega e José de Anchieta construíram uma casa que deveria se tornar o colégio onde pretendiam catequizar os gentios dos Campos de Piratininga comandados pelo Cacique Tibiriçá. Ocorreu em 1554.

Em primeiro plano, esse tronco da centenária Figueira-Brava já há muito tempo dava sombra e descanso para os viajantes que transportavam cargas e mercadorias. Lá, podiam encontrar água para se refrescarem, assim como matar a sede dos animais — cavalos e burrros-de-carga. Mais adiante, podemos ver o Obelisco de Piques, de 1814, o mais antigo monumento de São Paulo, localizada no conjunto que chamamos de Ladeira da Memória, que desce em direção à Praça da Bandeira. É considerado um símbolo e referência do processo de urbanização da cidade.

Subindo a Avenida da Consolação, em direção a uma parte mais alta do relevo no qual se assenta a Avenida Paulista, encontramos a necrópole conhecida como Cemitério da Consolação, fundado em 1858. O então Cemitério Municipal foi criado com o objetivo de garantir a salubridade e evitar epidemias. Era uma tentativa de alterar o hábito de sepultar os corpos dos mortos em torno das igrejas. A aristocracia formada pelos cafeicultores transformou o local em um templo de ostentação da burguesia paulista. A arte tumular que lá se encontra é exemplar em termos artísticos, pois vários escultores de renome foram contratados para executarem trabalhos rebuscados. Há outros mais simples em temáticas, assim como há vários nos que poderíamos passar o dia todo para dissecarmos suas referências.

Em vários pontos de São Paulo encontramos enormes e velhas chaminés que eu adorava desenhar quando garoto, expelindo a “feia fumaça que sobe, apagando as estrelas”. Representam a antiga vocação industrial da cidade que, atualmente, é predominantemente ocupada por empresas prestadoras de serviço e comércio. Muitas de suas espaçosas instalações são transformadas em centros de compras ou eventos, quando não vem abaixo para o ocupação de condomínios residenciais. A transformação constante de “campos e espaços” é a característica principal deste ser vivo devorador de memórias e referências pessoais. É como se nos avisasse desde cedo: “não se apegue!”.

E chegamos ao “X” da questão: para onde vamos como cidade? Mal nos acostumamos com um “centro econômico”, surge um outro em um rincão distante do município que se expande para cima e para os lados. Estabelece critérios tão aleatórios quanto injustificáveis, a não ser na mente de engenheiros do caos que creem e incentivam esse processo como parte intrínseca da voragem que devemos continuar a viver — sem freio e sem fim — para o bem do invisível e poderoso Sr. Mercado. Ao mesmo tempo, há movimentos humanistas que tentam transformar este recanto de dor e frieza em campo de criação de novas estruturas. A vocação cultural é algo inegável. Para quem quer e tem tempo, as possibilidades de desenvolvimento nesse campo, encontrará programações sem custo. Esse dinamismo pode ser a saída para o imbróglio que é vivermos numa cidade cortada por rios mortos e ar poluído, buscando conscientemente saídas simples e eficazes para nos tornarmos cidadãos de uma cidade melhor.

Participam: Alê Helga / Mariana Gouveia / Lucas Armelim / Lunna Guedes / Roseli Pedroso / Cláudia Leonardi / Suzana Martins / Dose de Poesia / Danielle SV

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Como Seria O Trânsito Se Todo Mundo Tivesse Um Carro?*

Infelizmente, para a minha família, eu não dirijo. Quando eu era um jovem mancebo de 18 anos, dada a minha natureza contestatória, decidi não aprender a dirigir para não parecer com a maioria dos rapazes que alcançava a maioridade e estabelecia a direção de um carro como prioridade em sua vida. Aquela era a decisão de alguém que não ligava para a sociedade de consumo, que via a ideia de tornar-se um vagabundo com a seriedade de um projeto de vida.

Com o passar do tempo, e atendendo ao chamado do amor pela mulher, comecei uma família e as minhas convicções foram vencidas pela necessidade de fazer frente às demandas da sociedade, incluindo a de tirar carta de motorista. Tentei três ou quatro vezes, mas por falta de treinamento ou inaptidão para tal tarefa, não passei nas provas práticas. De certa maneira, fiquei aliviado, porque ser mais um condutor que jogaria o seu barco na correnteza turbulenta dos rios de águas cinzentas de asfalto não me agradava nem um pouco. Obter licença para dirigir (ou ser dirigido pelo carro) é uma programação sempre para amanhã que ainda realizarei, nem que seja por teimosia.

Sempre fui um entusiasta do transporte coletivo e não vejo solução mais adequada para quem vive nos grandes centros do que se deslocar por ônibus e trens, entre outras opções, para os locais aos quais precisamos chegar — residência, trabalho ou lazer. Essas alternativas parece não fazerem parte da planificação de nossas autoridades públicas. Antes, quase acredito existir um empreendimento de intenso boicote a necessidade básica de transporte público. Devido à característica egoística de nossos cidadãos, em resposta a piora de nosso trânsito, são adquiridos cada vez mais veículos, o que torna as nossas vias, em conjunto, o principal cenário das maiores tragédias de nossos tempos.

Fazendo um exercício simples com relação ao incremento do número de carros nas ruas de nossas cidades, imaginei se todos tivessem um dia um automóvel. Como não haverá lugar para estacioná-los, eles se tornarão a nossa residência. Portanto, a solução seria a de que os veículos ficassem estacionados perto de onde as pessoas trabalham. Observando o crescimento da tendência das pessoas viverem em seus carros, já que dificilmente conseguiriam se deslocar para a casa original a tempo de voltar para trabalhar, incorporadoras imobiliárias criariam garagens-residências, ao estilo de campos de trailers. Melhor ainda, os trailers se tornariam a opção mais convidativa para esse mister. Viveríamos sobre rodas, mas devido à quantidade de carros, não teríamos para onde ir, encalacrados que estaríamos em um eterno congestionamento para o resto de nossas vidas…

*Texto de 2013

https://www.bbc.com/portuguese/videos_e_fotos/2013/03/130325_carros_mundo_congestionamento_mm

O Garoto Atormentado*

Corria o ano de 1986 e uma canção da banda inglesa The Smiths começou a tocar seguidamente no rádio. Depois, o videoclipe tornou-se hegemônico e, apesar de simples, o amei desde o início. O título assaltou-me feito um ladrão – The Boy With Torn In His Side. O arranjo com a guitarra de Johnny Mars me carregou, a melodia me envolveu e a voz de Morrissey se tornou a minha voz. Eu era um adolescente com a idade física de 24 anos, bastante imaturo em termos emocionais. A letra da canção, ainda que mal traduzida por meu inglês claudicante, revelava meus sentimentos mais profundos. Às lacunas incompreensíveis, preenchia com termos pessoais.

O rapaz imberbe e virgem sentia realmente como se um espinho o atravessasse de fora a fora, se bem que a tradução literal poderia ser substituída por “atormentado” ou “que carrega um fardo”. Porém, a imagem de algo a lhe causar dor a cada movimento se adaptava muito bem à minha condição. Eu estava decididamente sem rumo e pronto para empreender qualquer coisa que me salvasse de mim.

Eu tinha medo de amar. Tinha medo que o meu amor não me amasse. Como um mediano jogador de xadrez, antecipava as jogadas até certo ponto, sem conseguir mover as peças em direção à vitória. No meio do caminho, perdia a vontade de jogar ao saber que, para vencer, deveria matar o rei. E eu ainda não tinha desistido dele, como fiz anos mais tarde.

Dali a dois anos, minha vida mudaria para sempre. Encontraria o caminho para amar de uma maneira que seguiu um roteiro estranhamente conhecido, como se fosse um texto que tivesse lido na adolescência, quando era um adulto e imaginei seguir as linhas do enredo da maioria – namorar, casar, ter filhas (o argumento original previa que seriam três), casa: família.

Tal qual o garoto de Marr & Morrissey, que cria que seus olhos diriam tudo – que por trás do ódio havia um intenso desejo de amar e se entregar – que ao dissimular seus passos, deixava rastros, esperei encontrar alguém que fizesse com que me movesse em direção à grande aventura de amar. Encontrei mais gente pela trilha, como as minhas crias, que são mais e melhores do que eu. Recuperei a conexão familiar original, excetuando-se a com meu pai, que foi se deteriorando cada vez mais. Se o amor ganhou significado, sinto ser incompleto em sua abrangência. O que talvez seja inato para alguns, para mim é um andejar em direção a algo que ainda estou a aprender a viver… Ainda que tenha matado o rei, sei que não venci a partida…

*Texto de 2015