Mamãe*

Dona Maria Madalena, Ingrid (uma das minhas três filhas) e eu, em 1997

Em 12 de maio de 2019 mais um dia comemorativo dedicado às mães eu tentava lidar com as minhas precariedades e escrever me ajudava bastante a segurar a barra, ao identificá-las. Um ano antes de estarmos envoltos na Pandemia de Covid-19, estava a caminho de um evento em que haveria aglomeração de pessoas, festa e alegria coisa de outra vida e tento expressar o amor que pouco consegui revelar enquanto a minha mãe estava presente fisicamente.

“Estou sozinho, um pouco antes de estar rodeado de muita gente. Mas, a bem da verdade, sempre estou só. Por uma dessas coisas que não consigo evitar, não me distancio muito de mim, na maior parte do tempo. Quando consigo, fico aliviado e sofro… muito. Porque tudo e todos ganham gravidade e peso. Ou o excesso de peso é diretamente um efeito da gravidade de ser, multiplicada milhares de vezes.

Então, me sinto como se fosse ser esmagado. Tento superar, porém ao ser bombardeado pelos votos, disparados a torto e direito, de “Feliz Dia das Mães!” remeto meu olhar diretamente às mães que amam os filhos, apesar de tudo. Porque há mães que sequer gostam de seus filhos, como há filhos que não gostam de suas mães, quando as conhecem ou porque as conhecem. Ou que gostam muito, contudo não dão o braço a torcer declarando, simplesmente: ‘Mãe, eu amo tanto você!’

Tenham certeza não há presente mais caro e raro que valha tanto quanto se mostrar presente com todo o amor que seja possível declarar. Eu, de minha sorte, não perderei essa oportunidade: ‘Eu a amo, Maria Magdalena Nuñez Blanco Y Prieto Ortega… para sempre!’…”.

*Texto de 2019

Clubes De Leitura

Em outra vida, antes do advento da Pandemia de Covid-19, Lunna Guedes, editora da Scenarium, convidou algumas pessoas para montar um grupo que se dispusesse reunir uma vez por mês para debater sobre um livro proposto por ela um clube de leitura. Uma das obras indicada por ela foi “O Clube De Leitura De Jane Austen”, de Karen Joy Fowler, sucesso de vendagem em todo mundo e que acabou por gerar um filme do mesmo nome, também muito bem aceito.

A trama, que se passa na Califórnia, começa quando Jocelyn, uma criadora de cães da raça Leão da Rodésia, decide montar um clube de leitura para discutir as obras de Jane Austen. Ela escolhe a dedo os integrantes: Sylvia, sua melhor amiga desde quando as duas tinham 11 anos; Allegra, filha de Sylvia; Prudie, professora de francês na escola local; a falante Bernadette, conhecida por ter se casado várias vezes; e Grigg, o único homem autorizado a participar.

Ao longo de seis meses, o grupo se reúne para conversar sobre um livro de Jane Austen de cada vez. Eles começam na casa de Jocelyn, com “Emma”; passam para “Razão e sensibilidade”, escolha de Allegra; emendam em “Mansfield Park”, por sugestão de Prudie; se encontram na casa de Grigg para comentar “A abadia de Northanger”; debatem “Orgulho e preconceito” enquanto escutam Bernadette; e encerram com “Persuasão”, voltando à residência de Sylvia.

Enquanto mergulha no universo de Jane Austen, o sexteto vive suas próprias histórias. Os leitores acompanham dramas como o divórcio de Sylvia, a morte da mãe de Prudie e o rompimento do namoro de Allegra. Mas nem tudo é tristeza: as irmãs mais velhas de Grigg dão uma ajuda para que ele se aproxime de sua paixão secreta; Bernadette encontra um novo marido e Jocelyn tem a chance de redescobrir o amor.

A condução da trama se faz na terceira pessoa, a qual não consegui identificar, como se qualquer um dos participantes do clube pudesse ser o narrador. Ou como se cada um deles assumisse a narração a cada etapa das leituras das obras de Jane Austen, que permeia os acontecimentos em paralelismos com a vida das personagens. A escrita dos livros da mulher que viveu na passagem do Século XVIII para o XIX, tem sido cada vez mais incensada como atemporal, apesar das tramas se passarem duzentos anos antes. A fina ironia com a qual construiu suas narrativas a fez crescer aos olhos de críticos e estudiosos ao longo do tempo, além de atrair leitores aficionados.

Não apenas por lembrá-la, mas também por me fazer lembrar de uma época em que podíamos circular, aprender, congregar, conversar, abraçar pessoas e conhecimento, escolhi “O Clube De Leitura De Jane Austen”. As épocas mudam, porém certas circunstâncias são similares, não importa se estamos nos séculos XVIII ou XXI. Atualmente, neste quadrante, estamos segregados a pequenos grupos, normalmente familiares. Assim como Jane Austen conviveu em um círculo restrito de pessoas, prioritariamente familiares. Poucos conseguiriam criar, como a escritora inglesa o fez, algo que se firmasse tão ostensivamente bom com tão poucos detalhes à disposição. Ela passeia pela alma humana, ao mesmo tempo que brinca com as estruturas comportamentais de sua época, ultrapassando gerações.

Estou com saudade de um clube de leitura que tenha pessoas ao meu redor e não apenas pela tela de um computador…

Texto participante das postagens de Interative-se, com a participação de

Alê Helga / Roseli Pedroso / Mariana Gouveia / Lunna Gouveia / Isabelle Brum

Transformação

A metamorfose se deu, de início,
pelo olhar…
O movimento dela o paralisou.
Como se fotografasse cada gesto,
aprisionou dentro de si a evolução
do casulo à borboleta –
da flor ao céu –
asas da imaginação…

Quis recuar quando suas vozes
ocuparam o mesmo ambiente –
palco de suas atuações…
Percebeu que fluíam sonoras
conversas de palavras
entrecortadas,
caladas…

As lacunas preenchidas de desejos
perfeitos em suas incompletudes.
Quebradas as barreiras –
distâncias de centímetros-quilômetros –
peles sem proteção,
mentes despertas,
liberta de atavismos
e consequências,
o imediato transformado em eterno,
se reconheceram outros,
os mesmos…

Ele,
transmutado
de Jekyll em Hyde,
de homem em lobo,
de mortal em vampiro,
de Clark em Superman
todos e ninguém,
vivia ausente de si…
Passou a respirar o vácuo
se não aspirasse o hálito da paixão…

Transformação
irremediável,
perigosa,
instável,
liberdade de viajante
encarcerado,
não trocaria o permanente desconforto
do atual caos da criação do mundo
pela antiga estabilidade da morte
em vida…

Comunidade Canina*

Aqui em casa criou-se uma pequena comunidade feminina de cães, graças à doações forçadas, resgastes e nascimentos inesperados.

Dorô, a caminho do banho.

A Dorô nasceu da Lua – uma velha amiga que sequer sabíamos estar grávida até gerar um único filhote. Até hoje, nem sabemos como engravidou, sendo que nunca a vimos fora do quintal. Muito provavelmente, uma escapada noturna ocasionou o evento. Discreta, não desenvolveu barriga e deu à luz a esse ser que nos acompanha desde então, há alguns anos. Hoje em dia, se ressentindo pelo fato de ter outras companheiras no quintal, mantém-se normalmente arredia em seu canto.

Penélope, sempre disposta a brincar, apesar das dores articulares.

A Penélope veio pelas mãos do irmão da Tânia, Edu Joshua, que se mudou para um apartamento, um espaço muito pequeno para comportar um ser tão grande. A sua doçura ultrapassa todos os limites de volume e ela preenche a nossa casa de alegria e força, mesmo tendo desenvolvido dores articulares em uma das patas.

Domitila, de patinho feio a cisne.

A Domitila foi resgatada pela Romy na rua, toda ferida de sarna e tingida de tinta jogada por diversão (?) por algum ser incapaz de sentir compaixão, mas “articulado” o suficiente para perpetrar esse ato covarde. Foi pacientemente cuidada pela Romy e pelas outras meninas. De um “etezinho” que parecia, transformou-se em uma bela fêmea da espécie dos mamíferos canídeos. De tão esperta que sempre foi, em determinado momento, conseguiu escapulir de nossa atenta guarda e engravidou antes que a castrássemos. Doamos todos os filhotes, menos um que, feinho que só, foi preterida por todos.

Frida, querendo ficar no quentinho da sala…

Assim, a Frida ficou conosco. Na maior parte do tempo, mantém a cabeça baixa, o andar lento e o olhar arrevesado de quem sempre está sendo acusada de ter cometido algum crime. Quando algo a interessa, no entanto, como um petisco extra que oferecemos, é capaz de movimentos extraordinários e rápidos como ninguém. Tem o poder de se tele transportar, o que explicaria o fato de surgir em alguns lugares magicamente, do nada!

Como uma notícia que se espalhou pela comunidade canina, vez ou outra surgem novas candidatas a viver em nosso quintal. A penúltima, conseguiu um lar pelas mãos de nossa amiga Mariana Fortuna – a Huanna parece ter um alcançado um verdadeiro espaço de amor, se bem que retribua destruindo utensílios diversos – Mari, não aceitamos devolução!

Carmela Leleka, em pose de “sou adorável”!

Agora, nos chegou Carmela, resgatada pela Lívia e rebatizada pela Ingrid, de Leleka. Estamos a oferecendo à doação, mas alheia a nossa intenção de doá-la, ela já constrói alianças de amizade com as demais convivas da casa, alcançando sucesso, por enquanto, com duas delas – a Penélope – sempre ela! – e a Frida. Não duvido que, com mais tempo, ela conquiste a confraternização plena das outras duas, se bem que não gostaria que tivesse tanto tempo assim. Porém, caso continue conosco, será mais uma fêmea em minha vida, que aceitarei acessando todas as minhas reservas de amorosa paciência… Fazer o quê?

Carmela Leleka, construindo alianças com a mais poderosa da comunidade, Penélope.

*Texto de 2013

O Ledor

Ledo engano imaginar que ledor leia apenas a dor. Ledor lê o desengano, a alegria, a raiva, a tristeza, o amargor, a lida e o suor. Lê o amor e seu contrário o vazio. O ledor lê o crime, a bondade, o cenário, a incapacidade de estar, a vontade de ficar ou viajar. Lê a engenhosidade do escritor, sendo que a maior é não identificar, quando o lê, o engenho da criação. Quando sente cabalmente o seu efeito sobre si e se identifica com o que lê. Ao mesmo tempo, o escritor escreve também para si e fica contente quando percebe que se encanta com o seu próprio canto e o toma como se não fosse seu. Sente-se bem e angustiado. O escritor se pergunta conseguirei voltar a criar uma obra, um texto, um parágrafo, uma linha que me abandone e se torne autônoma de mim?

Apôs começar o ano como programei — lendo uns quinze títulos em dois meses — voltei à secura dos olhos. Não que não tenha lido muito. Seria insuportável para mim. Mas pegar um livro entre as mãos e seguir às páginas com gosto e periodicidade, deixou de ser uma prioridade, enquanto retomava a rotina inóspita do saariano tempo pandêmico. Escrever, escritor que me nomeio, igualmente se tornou penoso, porque criava mesmices e sensaborias. Aliás, criar já é algo pretencioso demais. Os escritores, os melhores de nós, creio alcançarem apenas jogar luz sobre os recônditos cantos de paredes da casa onde habitamos. O que já é um grande talento. Artistas fora de padrão conseguem transfigurar de forma aguda uma realidade que, de paralela, se impõe como existente.

Quando mais moço, lia frequentemente e não havia lugar que não fosse bom o suficiente para me entreter com os livros. Conseguia me apartar da conjuntura externa e me tornar invisível. Quando gostava do tema, mergulhava fundo nas palavras e me enxergava atuando com as personagens. Ainda que o livro não fosse tão interessante, a curiosidade era suficiente para me conduzir para longe de onde estava. O caminho que seguia pertencia a uma dimensão particular. Atualmente, tenho que buscar silêncio e condições mínimas de paz de espírito para que consiga ler. Gostaria imensamente de voltar a ser o mesmo de antes. E o relógio não para de tiquetaquear. O ledor está cada vez com menos tempo de vida terrena para degustar outras formas de vida pela leitura. Resta perguntar: na paz da morte teria como continuar a ler?  

Maratona literária Interative-se de maio
Isabelle Brum / Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Lunna Guedes