BEDA / Scenarium / Projeto Fotográfico 6 On 6 / À…gosto

Agosto de 2020 — Pandemia de Covid-19 grassando no País com a média de mais de 1.000 mortes por dia — por volta de 100.000 mortos oficialmente registrados, amplamente subnotificados. A direção da companhia indicou que poderíamos postar seis imagens à gosto. Escolhi algumas imagens que remetem ao passado. O presente indicado acima está um tanto estéril e o futuro não parece ser muito diferente, com tendência para ser um tanto enigmático, feito um jogo de azar.

 

6 on 6 agosto 4

Esta imagem foi colhida outro dia. Um fusca 1969 estacionado quase em frente à minha casa. 1969, assim como esse ratão, também foi o ano da mudança definitiva para a casa recém levantada no terreno 22 do loteamento realizado na antiga fazenda de fumo, na região da Vila Nova Cachoeirinha. Durante muitos anos, os pés de fumo nasceram a esmo em cada canto livre do quintal. O que ajudou bastante no controle dos piolhinhos que infestavam as galinhas que começamos a criar para completar o orçamento familiar. Tirávamos água do poço, tomávamos banho de canequinha, expulsávamos os cavalos que comiam a cerca feita de bucha (a planta), festejávamos a colheita de bananas, goiabas, abóboras e abacates, nos irritávamos com as picadas dos marimbondos. Eu adorava jogar futebol — balizas improvisadas com tijolos — bola improvisada com pano, recheio de papel e cordinha na rua de terra. Em dias de chuva, andávamos de chinelo, calças arriadas, até o asfalto, distante quase 2 Km para só então colocarmos os sapatos levados em sacolas. Tempos difíceis. Eu era feliz.

 

6 on 6 agosto 6

Essa imagem remete ao sincretismo religioso de minha mãe. São resíduos físicos de um tempo em que eu não compreendia como uma pessoa abarcava todas crenças possíveis em seu cotidiano. Além de acender velas aos “espíritos”, não via contradição em apresentar imagens díspares na prateleira. Um Buda gordo, inadmissível num asceta que jejuava frequentemente, se referia a símbolo de prosperidade. Assim como o elefante de costas. O Cristo em pedra sabão, apontava para a sua criação cristã, de primeira comunhão — a qual também fiz — crisma, missas dominicais e adoração aos santos. No entanto, seu nome — Maria Magdalena — já apontava para a tendência em ultrapassar os cânones e se ater ao teor herético da religião. Ela adorava ter o nome da 13ª Apóstola e, para alguns, mulher de Jesus.

 

6 on 6 agosto 7

Essas conchas estão há muito tempo conosco na casa de praia, onde estou. Porém é bem provável que os moluscos que as ocuparam possam ter vividos mais de um século, antes dos 40 conosco. Há moluscos que, devido ao metabolismo muito lento, chegam a mais de 500 anos, a depender da espécie. São prodígios do passado. Mensagens de eternidade em tempos de rápida deterioração do mundo que nos rodeia, em todas as suas formulações. A arquitetura dessas habitações é esplêndida. Construída pouco a pouco, enquanto cresce, sua natureza é de deixar, após a sua partida, um monumento a beleza e a transcendência, para quem conseguir-quiser ver. São templos dignos de oração.

 

6 on 6 agosto 3

Ao vir para cá, recebi essas toalhas embaladas em plástico. Segundo a Tânia, eu as recebi de presente em meu aniversário de meio século de vida. Nem ela, nem eu nos lembramos quem me presenteou. Eu não sou ligado a regalos. Talvez uma postura de defesa de alguém que dificilmente ganhava presentes quando garoto. Quando acontecia, geralmente eram roupas. Sei que essa impassibilidade é mal recebida, mas não consigo evitar. O meu aniversário de 50 anos foi um acontecimento inesperado para mim. Minha família disse que haveria uma festa a qual deveríamos ir. Era um domingo e eu queria ficar em casa, assistir a um futebolzinho ou um a filme. Fiquei de mal humor. Disseram que não demoraria. O Buffet ficava perto de casa e vi ali a oportunidade de me mandar a pé assim que fosse possível. Ao subir as escadas, pelo menos 50 pessoas me esperavam. Revistas, as fotos com a minha expressão de surpresa dizem tudo. Pessoas que não via há muito tempo, compareceram ao evento e me senti um tanto estranho ao perceber que fosse alguém que merecesse ser homenageado. Os presentes, alguns guardo como marcas, como a camisa do São Paulo F.C. com meu nome e número 50. Outros, pertencem ao passado. O da imagem, tem sido útil para enxugar o meu corpo a caminho dos 60 anos…

 

6 on 6 agosto 5

Da parte inferior do cacho da banana ainda imaturo, sai um pendão e, em seu extremo, destaca-se um cone de coloração e consistência diferenciadas (avermelhado-roxo), que é a flor da bananeira. É conhecida como buzina, umbigo, flor, coração ou mangará da banana. Costumo chamar preferencialmente de coração. Dois dos cachos produzidos, cortamos os corações. Deles, podem ser feitas excelentes saladas. Analogamente ao umbigo, quando cortamos o cordão, os filhotes-bananas se desenvolvem mais rapidamente. Deixados sobre a mureta, sem a seiva que os alimentava, murcharam pouco a pouco, até fenecerem. Umbigos ou corações — quedaram amargurados.

 

6 on 6 agosto 2A

A foto mais prosaica deixei para o final. Nela, apareço com a face taciturna, amplificada pela heterocromia dos meus olhos. Quase uma marca registrada da minha condição mental diante do que vivemos, a natureza cromática dos tempos atuais — verso, reverso, controverso — ganham melhor definição em foto em preto, branco e tons de cinza, amálgama-palheta da composição de cores da maldição em ser brasileiro.

B.E.D.A. — Blog Every Day August

Adriana Aneli — Claudia Leonardi — Darlene Regina — Mariana Gouveia —

Lunna Guedes

Scenarium / Leu… Está Lido / Fim

FIM

FIM é meu objeto de análise instilado pelo tema proposto pela Lunna para esta postagem: “Leu… está lido!”.

De início, FIM nasceu para morrer, aliás como creio tudo que perpassa por nossa existência, nasça. Sem fim, não há razão para existir. Essa ideia de infinitude serve para o Universo… ou não. A não ser que tenhamos total ciência de nossos aprendizados pelos seguidos renascimentos, individualmente somos limitados pela morte. Em existindo renascimentos. Em se considerar que renasçamos sempre seres humanos e não flores de jardim, de vez em quando. Pensando bem, deve ser maravilhoso ser flor.

A proposta diria respeito a um livro já lido que não pretendamos não ler novamente, nunca mais. Tanto quanto os personagens do belo livro de Fernanda Torres, estou chegando a um patamar  ̶  idade e constituição física  ̶  que a velhice está mais próxima de fazer mais uma vítima, do que perto da força juvenil. Ainda que me sinta bem o suficiente para lembrar o deus Ciro, tenho impulsos de Sílvio, a sobriedade do Neto, a perplexidade do Álvaro e a inveja do Ribeiro  ̶  personagens que contam a história de um Rio de Janeiro humano, superficial e profundo.

Fernanda Torres  ̶  filha da imensa Fernanda Montenegro e do grande Fernando Torres  ̶  começa pelo fim de cada um deles para narrar a versão em primeira pessoa, como vozes solos de um coral, do concerto que ocorreu em determinada época sob o sol macabro do Rio, de areias carregadas de histórias em forma de gente. A viagem passeia pelos anos 60, passa pelos estertores do Século XX e finda no início do XXI, quando o último membro da gangue, Álvaro, começa a narrar seus passos finais, relembrando amigos e peripécias daquele grupo que variava de status profissionais, dentro de uma mesma bolha comportamental, reverberando viva felicidade a permear o vazio existencial.

Mas todos têm as suas chances de participar. De Álvaro a Ciro, Sílvio, Ribeiro, Neto conduzem o cortejo fúnebre de forma esplêndida, com a participação de personagens e contrapartes  ̶  as mulheres que fizeram parte de suas vidas. Mais cedo ou mais tarde, todas percebiam que não se envolviam apenas com um homem, mas com todo os cinco. Ciro, o mais icônico e amado do grupo é o primeiro (no tempo) e último a morrer (no livro). Qual homem, já moribundo, consegue ser o homem na vida de uma mulher? Luz de farol para os outros membros, influenciou as suas vidas quando vivo e, talvez, ainda mais, morto. Quando a sua luz se apagou, perdeu-se o lado belo da fealdade em se viver o idílio carioca. Ainda que autônomas, eram como se fossem cenas laterais e complementares  ̶  comentários da ação principal. Com efeito, o livro da Fernanda é vivaz o suficiente para ser dramatizado, talvez influência de seu universo de atuação primordial.

Quando fui chamado para a postagem da Scenarium, quis ler um livro inédito. Seria estranho ter que relembrar um que já tivesse lido e ter que objetivar porque não o leria nunca mais. Teria que folheá-lo, eventualmente relê-lo, voltar a fazer o que que disse que não faria. Preferi um que nem sei como apareceu em minhas mãos. Compro livros na esperança de enveredar por suas páginas e que, muitas vezes, ficam boiando nas prateleiras da biblioteca sem serem tocados. Enquanto outros são relidos como se fossem páginas da Bíblia em dias de culto. FIM, no entanto, é um desses livros que merecem releitura. Que venham outros. Com a unção do Padre Graça, pergunto: “O próximo?”. No mínimo, Fernanda Torres ser lida, além de assistida em peças de teatro, vista series de TV e admirada no cinema.

 

Penélope (2016)

Penélope !
Para um amor eterno…

“Papai, brinca comigo? Tenta pegar a bola de mim!”…
Penso: Ah, querida… E as suas dores?
Sei que você vai pular,
vai correr,
vai tentar impedir que eu pegue a bola de volta.
Será que não vai sofrer depois?”…
Alheio aos meus pensamentos, repete:
“Papai, brinca comigo? Tenta pegar a bola de mim!”…
Imagino que o Paraíso para ela,
para além de ter comida à vontade,
gulosa que é,
seja ter a quem ama a jogar a bola para que possa correr,
pegar no ar e voltar para jogar de novo,
ad eternum…
Tento transformar a vida da velha amiga
em vida nova,
o Paraíso na Terra e,
por aquele instante,
vivo a eternidade.

Caminhando Pelo Passado Presente*

Caminhando II
Ontem, fui procurar um produto na tradicional Rua Florêncio de Abreu onde, há alguns anos, podíamos encontrar os mais diversos itens relativos a equipamentos e ferramentas das mais diversas ordens. Já sabia que não poderia mais contar com a Casa Thomaz, logo ali no número 20, que me encantava pela discrepância da fachada antiga, a conter os mais modernos aparelhos e utensílios para o campo e a cidade. A crise (no sentido do que “crise” significa originalmente – desenvolvimento para pior ou melhor), havia feito mais uma vítima. No entanto, ao caminhar em direção aos números mais altos da Florêncio, percebi que outras lojas do mesmo segmento haviam deixado a região, substituídas por galerias com produtos de uso imediato e descartáveis, tal qual as lojas da 25 de Março, próxima dali. Depois de fazer a minha pesquisa, sem encontrar o que pretendia, decidi retornar ao Largo de São Bento.
Caminhando III
Sendo uma rua antiga, já havia fotografado algumas das construções que resistiram ao tempo, dei preferências a alguns detalhes e logo o meu olhar foi atraído para uma delas, uma das mais antigas e mal preservadas. Na lateral, percebi que haviam aberto um estacionamento. Ao chegar mais perto, observei as janelas e a entrada da parte de baixo da casa. Suspeitei do que se tratava. Mesmo sem carro, entrei pelo portão. Um homem assomou à entrada e perguntou o que queria. Respondi que estava encantado com a construção e que gostaria, caso permitisse, fotografá-la externamente. Creio que o homem já estivesse acostumado com a visita de esquisitos a demostrarem emoção, talvez incompreensível para ele e me deixou a vontade. Para ele, era algo que não lhe estapeasse a cara de forma tão contundente.
Caminhando IV
Perguntei àquele senhor, de aparência rude, se sabia o ano de construção da propriedade. Ao contrário do que eu esperava, sabia e me informou ̶ 1864. Quase a gaguejar, apontei para o porão e perguntei: “Então, aqui era a…”. Sem me deixar completar a frase, disse: “Sim! A senzala!”… “Ela parece ter um pé direito mais alto do que as senzalas normais…”… “Era bem mais baixa! O nível do chão foi escavado.”… E completou: “Era de teto baixo para que o escravo andasse curvado. Servia para quebrar sua resistência.”… Emudeci, mesmo já conhecendo esse usual procedimento da escravatura. Tentei fazer que não percebesse a minha comoção. Perguntei se poderia entrar para fotografar o interior. Retorquiu: “Rapidinho, tá?”… Agradeci e adentrei…
Caminhando VI
Não fui um bom repórter fotográfico. Estava mais comovido do que esperava. Tem acontecido cada vez mais. No Facebook, para não colocar o rostinho de choro, tenho respondido com a do espanto às postagens dos amigos. Ou talvez o peso do teto de grossa madeira ou a submissão das pesadas colunas ou o ar desconsolado que pairava no ambiente (ou tudo isso) tivessem me afetado de tal maneira que fiquei quase paralisado. O meu peito se encheu de reverente respeito por todas as histórias vividas ali… Logo depois de sair, comecei a refletir sobre o sentido de tanto assombro. Chegado ao Largo do Mosteiro de São Bento, a menos de cem metros do casarão, vislumbrei a grandiosidade física de São Paulo e percebi a eterna contradição de nossas vidas, que vivemos sobre os escombros de antigas estruturas demolidas e vultos sem vida.
Caminhando VII
Da mesma maneira que muitos de seus participantes viveram a palavra de Cristo, a Igreja emaranhou-se na incoerência de crescer junto à opressão. Paralelamente à cidade, se desenvolveu com a ajuda do sangue derramado por seres escravizados, com a submissão de corpos de homens e mulheres, com o jugo humilhante das gentes. A bandeira paulista, no alto do edifício mais alto, tremula sobranceira, desde sempre indiferente a tanto horror. Enquanto, as estátuas passeiam impassíveis por nossas mentes, as pedras gritam tão eloquentemente quanto podem, mas passado nem tanto tempo assim, as suas vozes ficam cada vez mais inaudíveis para a maioria de nós…
Caminhando VIII
Texto de 2016*

Sobre Panelas E Tampas

TAMPAS

Dizem que jogar xadrez não o torna mais inteligente, mas apenas um melhor jogador de xadrez. Eu prefiro pensar de outro modo e acho que ele nos ensina sobre estratégia e como saber se antecipar às jogadas que a vida nos contrapõe. Similarmente, dizem que as tarefas caseiras são apenas cansativas e não trazem nenhuma contribuição pessoal. Mas, para mim, qualquer coisa me serve de base para filosofar: varrer, limpar, lavar utensílios de cozinha e guardá-los, por exemplo. Por acaso, descobri que nem sempre encontramos as tampas para as respectivas panelas e vice-versa… Um mistério na cozinha e na vida…