BEDA / Scenarium / Velho E Sorriso – Parte I

O velho homem, entre tantos no salão de baile, não era percebido. Não mais. Antigo promotor de eventos, ainda sorri quando é reconhecido por poucos saudosos de seus bailes. Na maior parte do tempo, observa aos dançarinos, a dançar com os olhos em lugar dos pés cansados. Quase sempre, é um dos últimos a deixar o espaço como se ele mesmo se esvaziasse.

Num desses dias, madrugada alta, a caminhar para casa, o Velho passou mais uma vez pela mocinha sorridente. Costumeiramente, naquela área, ela se oferecia como a alegria passageira de homens e mulheres que pagassem 20, 10 Reais, durante anos-noites seguidas. Por vezes, sumia por semanas outras. Apesar do sorriso fácil, quase um cacoete, como se fosse um cachorro que abanasse o rabo entre as pernas por medo de ser atacado, Sorriso se abria em lábios de forma sincera para o velho. Em troca, recebia sempre um sonoro “boa noite” ainda que a manhã ameaçasse surgir.

Naquela madrugada, ocorreu algo diferente. Velho parou diante da moça que, surpresa, estancou em sorriso-esgar.

– Como vai você?” – ele perguntou.

Desacostumada a falar, a não ser para oferecer serviços e valores, pareceu não entender. Percebeu que a pergunta não havia sido mera formalidade.  Respondeu sinceramente:

– Hoje, não estou bem, Velho… – Ao se ouvir, Sorriso parou de sorrir, denunciando seus olhos tristes.

– Faturou pouco?

– Nem tanto…noite de muitos solitários…

– Quer amainar a solidão de mais um? Mas não quero entrar nesse cubículo escuro. Moro a uma quadra daqui. Sozinho. Gostaria de me acompanhar?

Sorriso não estava habituada a ser bem tratada. Via a Velho, como era conhecido por todos, sair acompanhado cada vez com menos gente ao seu lado. Ultimamente, ninguém. Aceitou o convite. Os dois caminharam sem mais nenhuma palavra. No entanto, pareciam conversar a cada olhar evidenciado pela luz artificial. Velho morava em uma casa baixa, uma das mais antigas da região, quase toda tomada por novas torres de moradia.

Passado o portão, o jardim escuro escondia o roseiral que sobrevivia apesar de não ter mais os cuidados de D. Nina, falecida há três anos. Os dois filhos, desde então, pressionavam pai viúvo a sair de casa para um retiro, já que viviam em apartamentos que não suportariam a presença de mais um, ainda que ele não tivesse problemas de saúde aparentes; ainda que fosse um avô amoroso. Em contrapartida, era pouco visitado.

Restou como único companheiro o gato angorá, tão antigo quanto alguns dos móveis da casa. Portento de resistência e pelos, postado sobre a cômoda que ficava no corredor de entrada, Gato foi a primeira coisa que Sorriso viu ao avançar com seus passos tímidos casa adentro. O miado quase inaudível foi acompanhado do olhar sonolento. Confirmada a presença de seu velho cuidador, Gato fechou os olhos de brilho preguiçoso.

Sorriso tinha diante de si uma casa ampla e de opressora solidão. Tudo cheirava a cortinado e mobiliário antigo. Velho disse para que Sorriso ficasse à vontade. Indicou o banheiro caso quisesse usá-lo e a cozinha, se estivesse com fome. Sorriso já não sabia quando estava com fome. O estômago, porém, o sentia continuamente vazio. Disfarçava com uma pedrinha de vez em quando ou, com sorte, um pó. Não gostava de maconha, por causa da larica. Após lavar as mãos, foi ver o que poderia encontrar na cozinha. Com pão amanhecido e queijo branco um tanto amarelado, fez um sanduíche simples. Perguntou se Velho gostaria que preparasse alguma coisa. Respondeu que poderia ser o mesmo que o dela. Para incrementar, ela esquentou o pão na frigideira e ao queijo acrescentou um tomate perdido na geladeira. Disfarçou a velhice do queijo com orégano e o serviu com a última lata de cerveja.

Aquela ação enterneceu o coração de Velho. O preparo do lanche simples o fez viajar para anos antes, quando Nina ainda conseguia erguer os braços e caminhar. As dores reumáticas começaram a impedir que pudesse fazer o mínimo esforço sem muito sofrimento. Desgostosa em não poder mais servir ao seu companheiro de meio século, definhou até falecer. Quando aconteceu, os filhos não estavam presentes, em férias, o que deixou Velho bastante abatido. Desejou acompanhá-la na viagem sem volta e só não o fez pelo compromisso assumido: cuidar de Gato.

Após o lanche, Sorriso perguntou o que ele queria que fizesse. Velho, franco e jovial, sorriu. Por um instante, ela chegou a vislumbrar o jovem que o velho um dia foi através da luz do tempo emanada de sua boca. Disse que queria que Sorriso tirasse a roupa e se deitasse ao seu lado. Acrescentou o convite para que dormisse ali, naquela noite.

– Atrapalha o seu trabalho?

– Não! Já estou no final do expediente. Há muito tempo, ninguém me espera!

– Ótimo! Não precisa acontecer nada. Estou cansado. Mas também vou tirar a roupa.

Ato contínuo, começou a despir-se do elegante terno preto de anos, mas bastante preservado. Deitou-se logo após. Sorriso pousou uma das pernas sobre o corpo de Velho e, se sentindo realmente segura e confortável, dormiu quase imediatamente.

Velho, comovido, fechou os olhos. Com a pele jovem a lhe tocar pernas e púbis, inesperadamente, teve uma ereção. Sentiu-se homem de novo. Adormeceu.

Beda Scenarium

 

BEDA / Scenarium / Selfie-Espelho

SELFIE

Quando me olho no espelho, vejo o meu contrário imagético. Me penteio, me invento-maquio, me expresso inversamente à figura que mostro aos outros. Mesmo assim, não deixo de ser verdadeiro. Afinal, sou mais real quando não sou exatamente quem penso que seja.

Como em um jogo de espelhos, o que de mim se mostra exteriormente, na realidade, acabo por ser. Se enxergar com muito cuidado, em mim tudo está dito, tudo mostrado, sem bem que nem sempre desvendado. Não falo especialmente da imagem que mostro, mas da mensagem que tento transmitir – sentimentos, visões, o que ouço, tateio, experimento o gosto – enquanto, interiormente, monto um discurso mentiroso sobre o que apreendo sobre mim para a satisfação do meu ego. E como um monstro que se projeta para além de meus limites mentais, procuro aviltar o espelho revelado-revelador.

Para não parecer tão ultrajante, prefiro me projetar nos crepúsculos, mais do que nas auroras – vida nascente. Pois ao terminar o dia, identifico neles, a morte redentora.

 

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BEDA / Scenarium / O Limoeiro

LIMOEIRO

Ele morreu, o nosso limoeiro-rosa…

É tão estranho vê-lo totalmente ressecado… tentamos salvá-lo logo que percebemos o início de sua partida – podamos os galhos secos, limpamos a área ao seu redor e colocamos adubo orgânico.

A hipótese mais provável de sua decadência gira em torno acidez do cocô dos cachorros. Devido à sua acidez, talvez tenha alterado a boa qualidade do solo. Justamente agora, estamos reformando essa parte do quintal para transformá-lo em um jardim fechado para evitar isso.

O Limoeiro, esse personagem de uns trinta anos, viveu os seus primeiros cinco em um vaso. Ficou preso a ele como um bonsai até que foi transplantado para a terra. Cresceu bastante, mas não tanto. Os seus frutos podiam ser colhidos facilmente, pois ficavam ao alcance da mão.

Não imaginava que essa testemunha de mais de metade da minha vida, partisse assim, simbolicamente, no outono. Bravo como poucos, antes de partir ainda produziu um limãozinho. É como se enviasse um recado agridoce de reafirmação da vida…

A minha homenagem a esse querido amigo natural!

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BEDA / Scenarium / Valéria, A Cantora*

VB

O mundo é o palco onde interpretamos os nossos papéis, os mais variados possíveis. Um personagem pode viver situações diversas ao longo de sua atuação e isso vai perfazendo a sua trajetória e moldando a sua caracterização. Por vezes, costumamos acreditar que algumas pessoas já nascem com o sua personalidade formada, o seu papel escrito, com o final traçado. Dessa maneira, fica mais fácil compreendermos uma história, simplificada em seus matizes e percepções. Em outras ocasiões, nos deparamos com personagens incompreensíveis, em argumentos inverossímeis, com desempenhos canastrões. Quando, no entanto, nos encontramos com protagonistas reais, com histórias verdadeiras, muitas vezes dramáticas e que mesmo assim superaram o lugar comum de coadjuvantes na peça, fazendo coro ou escada, isso é tremendamente emocionante. Demonstrando força e talento incomuns, transformam a sua passagem pelo Teatro da Vida em “tour de force” espetacular, emocionando a quem os assiste. É deste modo que eu vejo a Valéria Bezerra.

Há algum tempo não a via. Sabia que passara por um processo doloroso de superação de uma doença grave e que estava voltando, pouco a pouco, a cantar na antiga forma, quando sempre foi considerada uma das melhores cantoras das noites e dias de São Paulo. Tem uma longa história, em passagens por bandas de baile e eventos famosas, como Santa Maria, Réveillon, Primeira Mão, Sammy’s Band e algumas outras. Já atuou em várias casas noturnas e participou de programas de televisão. Acompanho a sua performance há quase trinta anos, inicialmente como fã, como quando a assisti em um show da Banda Santa Maria, do Toninho, pai do André​, atual condutor, no velho Olímpia, com a participação de outros grandes músicos e cantores, como Paula Zamp. E, depois, como locador e técnico de equipamentos na Ortega Luz & Som, quando participei de alguns momentos de sua carreira.

Lembro-me de uma ocasião em que estávamos em uma escola de periferia para apresentarmos um “show room” de formatura. Era um público juvenil e inquieto, talvez até antagônico. Ao lado dela, outro grande comunicador e cantor, Josias Correia, porventura não tivesse percebido a sorte de contar com a presença de espírito da Valéria, que dominou a situação com maestria e soube envolver o público com desenvoltura e perspicácia. Quando ambos terminaram a apresentação, tinham conseguido realizar o trabalho com sucesso.

Em outro ambiente, o Teatro Renault, nos reencontramos e vivenciamos, igualmente, a ocorrência de um fato correlato em seu teor de efervescência. Antes de falar do fato em si, faço questão de ressaltar que a Valéria está voltando a cantar tanto quanto antes. Durante todo o evento, em que se apresentava compondo o Coral & Banda Sant’Anna Show, realizou com perfeição a sua parte e fez mais, auxiliando o seu companheiro, Rafael Ismério, com “backing-vocals” nas ocasiões devidas, algo inusual para tantos cantores hoje em dia. Fez questão de fazer “sala”, que vem a ser uma apresentação para recepcionar o público antes da abertura oficial dos trabalhos, que seriam dirigidos pelo competente Sidney Botelho. É comum alguns artistas não quererem se apresentar além do que são pagos para fazer e não desmereço essa opção, mas ela estava realmente disposta a fazê-lo como quem quer beber um cantil d’água, após uma temporada no deserto. O grande palco e a numerosa plateia pareciam ser detalhes menores, que ela não se importava de enfrentar, ou antes, que estava ansiosa em fazê-lo. Entreteve com habilidade o público e, assim inspirado pela presença da grande cantora, o Rafael também desempenhou muito bem as suas canções. Naquele momento, percebi que o ciclo se completava diante dos meus olhos – a antiga “Diva” e o jovem “crooner” apresentavam o enredo eterno e sempre revivido do encontro das águas do Tempo, com suas experiências pessoais se entrechocando e se misturando. Ambos foram muito aplaudidos e a imponência do teatro emprestava um toque de primazia ao espetáculo.

Bem, vamos ao momento de dramaticidade a que aludi anteriormente. Deixei para o final, porém foi logo no começo da cerimônia. Na entrada dos formandos, soltei “Viva La Vida” e por um erro técnico da minha parte, o computador, em determinado instante, “deu pau”, parando a execução da música. Isso durou um ou dois minutos, ocasião em que alguns poucos do auditório trataram de cobrir o silêncio com murmúrios e vaias. A Valéria, percebendo que precisava intervir, pegou do microfone e começou a cantar para acompanhar o cortejo dos alunos. Resolvido o problema, voltei com a música e agradeci o esforço dela. Pude perceber o quanto os eventos dramáticos, os decisivamente vitais e os evidentemente modestos, são amplificados ou diminuídos pelos atores que os interpretam. Para mim, não existem histórias menores, mas talentos redutores. Não existem aventuras apoteóticas, mas representações magistrais. Não importa o tablado que se dá – na escola pública ou no mais majestoso teatro da cidade. O grande personagem desenvolve o seu papel da melhor forma possível. E a Valéria provou que atua dessa maneira em qualquer palco em que se apresenta – naquele reservado para poucos ou no Mundo – para todos nós…

*Texto de 2014.

 

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BEDA / Scenarium/ No Mundo De 2020

2020

“Soylent Green, que no Brasil foi chamado de No Mundo De 2020 e, em Portugal, de À Beira Do Fim, é um filme estadunidense de 1973, dirigido por Richard Fleischer e estrelado por Charlton Heston, Leigh Taylor-Young e Edward G. Robinson. Vagamente baseado no romance de ficção científica de 1966 Make Room! Make Room!, por Harry Harrison, que combina dois gêneros – policial-processual e ficção científica – trata-se da investigação sobre o assassinato de um homem de negócios rico. Em um planeta Terra com oceanos em extinção e alta umidade durante todo o ano, devido ao efeito estufa, resulta em poluição, pobreza, superpopulação, eutanásia e recursos naturais esgotados.

No ano de 2022, a cidade de Nova Iorque conta 40 milhões de habitantes. Para alimentar as inúmeras pessoas pobres e desempregadas, existem tabletes verdes chamados de Soylent Green, produzidos inicialmente através da industrialização de algas. Somente os ricos tem acesso a comidas raras, como carnes, frutas e legumes.

Quando um rico empresário das indústrias Soylent Corporation é assassinado em seu luxuoso apartamento, o detetive policial Robert Thorn começa a investigar. Ele de imediato suspeita do guarda-costas do empresário, que alega ter saído na hora do crime. Após interrogá-lo, Thorn vai ao apartamento do empresário e encontra indícios suspeitos, como uma colher com restos do caríssimo morango. Enquanto Thorn persegue o guarda-costas, seu idoso parceiro, Sol, começa a investigar os registros e papéis do empresário morto. Acaba por descobrir uma verdade estarrecedora sobre o tal tablete verde…” (Adaptado do Wikipédia).

Garotos, eu e meu irmão assistíamos em nossa TV preto e branco a filmes de todos os tipos. Os de ficção científica eram os nossos favoritos. Pessoalmente, comecei a gostar também de assistir a filmes europeus, musicais e noirs americanos. No Mundo De 2020, eu e o Humberto vimos juntos. Foi ele que chamou a minha atenção sobre o tema similar, quando o Capitão desdenhou do Covid-19, além de realçar que 90% dos abatidos pela doença seriam cidadãos acima de 60 anos, quase como a dizer que constituíam uma população “descartável”.

O personagem de Edward G. Robinson, emblematicamente em seu último papel antes de morrer, deseja se despedir dignamente da vida e adere a um programa de incentivo a eutanásia de maneira confortável e indolor enquanto revive em imagens cenas do belo mundo natural que existia antes de se tornar quase inabitável por conta do estilo de vida humano autodestrutivo que o levou ao caos.

Fica difícil cotejar o assunto do filme com a questão de os velhos serem considerados, em conjunto, um peso morto, normalmente usuários de programas assistenciais ou aposentadorias “dispendiosas” sem dar spoiler . Não o farei. O que o Capitão vocalizou, de alguma maneira, faz parte do pensamento de muitos que o elegeram. Ainda que muitos sejam igualmente velhos, que segundo discriminou, são pessoas de 60 anos ou mais. Como o dito cujo tem 65, talvez fosse ocaso dele mesmo pensar em se despedir dignamente da função que exerce por falta de condições em conduzir a administração do País.

Na pesquisa que fiz para rememorar os dados do filme sem parecer distante da mensagem que passa, acabei por encontrar várias informações interessantes. A realidade que mostra, de certa maneira, é o padrão da vida real de boa parte da população mundial – poluição, saneamento básico precário (“acostumada a nadar no esgoto”), escassez alimentar, precariedade de moradia, violência e superpopulação. Enquanto uma outra pequena parcela usufrui de uma estrutura impensável para quem está acostumado a se equilibrar entre a vida e a morte cotidianamente.

A chegada do Covid-19 parece tema de filme distópico, atingindo a todos de forma espraiada-generalizada. Porém nos Estados Unidos ela mostra a sua faceta mais grave ao avançar sobre as populações mais pobres, mormente constituídas por hispânicos e afrodescendentes. Muitos não têm planos particulares e não podem ser atendidos como ocorre no sistema de saúde brasileiro – representado pelo SUS – apesar da precariedade por causa dos escassos recursos muitas vezes desviados ou mal utilizados.

O Mundo De 2020 chegou, em muitos dos aspectos mostrados na produção de 1973, no mundo de 2020. Quando garoto, me assustei com as possibilidades tenebrosas que demonstrariam a tendência autofágica do homem moderno. Desde cedo, percebi o quanto caminhamos, por causa do sistema hegemônico que adotamos no planeta, para um estado irreversível de pobreza material de grande parte da população e de pobreza espiritual da parte que abocanha a maior porção dos recursos da Terra. Porque uns não abririam mão do poder que detêm, enquanto despossuídos almejam alcançar o mesmo poder, “decrescer” é um objetivo inalcançável nesta geração. Tenho por mim que se não desacelerarmos conscientemente, certamente seremos forçados a parar…

 

Beda Scenarium

 

Informações e análises adicionais em:
https://medium.com/ver-mais-text%C3%A3o/no-mundo-de-2020-909f3befcee5