Predadores

Caladas,
mudas
de mangueiras emergem no jardim
expostas a céu aberto.
Entre folhas, restos de caroços
postos ali para fertilizarem o solo,
não se contentam
em apenas terem sido o coração
de belas e apetitosas frutas.
Avidamente consumidas
por seres “superiores”,
querem voltar em vida nova
e função.
Seres em desenvolvimento,
ressuscitados do desprezo,
consubstanciam a ordem natural —
vida-morte-vida —
porém terão interditados os seus trajetos,
serão arrancados daquele retângulo.
Inesperados, não são aspirados
seus crescimentos.
Nem elas teriam condições de sobreviver
e nem nós, que dominamos aquele lugar,
de termos o jardim que desejamos.
Nesses momentos,
em que escolhemos entre a vida e a morte
de todo um ecossistema —
troncos, caules, folhas, flores, frutos, insetos, pássaros —
sinto-me o pior dos predadores…

Tartarugas Escaladoras*

Jabuti-piranga, aos quais sempre chamamos de tartaruga

A imagem acima registrou o passeio pela casa de uma das tartarugas, que devagar e sempre, passou por cinco cômodos para vir a estacionar num cantinho da sala. Quando criança, tinha sonhos recorrentes, verdadeiramente, pesadelos, com tartarugas. Neles, eu via várias delas caminharem em minha direção, com os seus passos lentos, porém constantes. Cercavam-me devagar e, mesmo que subisse sobre os móveis, elas vinham em minha direção escalando paredes, cama, camiseira e guarda-roupa. Provavelmente, essa mesma tartaruga e sua companheira, devem ter me inspirado esses pesadelos, já que estão na família há mais de 70 anos. Deixei de ter esses pesadelos (que pareciam tão reais) quando vim a perceber, ainda dentro do sonho, que eram apenas sonhos. Descobri, apesar da minha imaginação que me fazia voar sobre as casas do meu bairro, que tartarugas não sobem ângulos retos… Elas não sobem, não é mesmo?…

*Texto de 2014

Sem Rodeios*

Estádio do Morumbi / Cícero Pompeu de Toledo

SEM RODEIOS

As minhas interlocutoras me pedem: “Pai, fale sem rodeios!”…

Respondi com outra pergunta: “Vocês acham que faço muitos rodeios para falar?”…

Não precisei ouvir a resposta, que, aliás, foram risadas de escárnio carinhoso, como só pessoas que são amadas incondicionalmente dão sem temerem represálias. Eu mesmo respondo: sou um homem que faz muitos rodeios. E isso não é algo novo em minha história.

Para nascer, a fórceps, fiz rodeio… Aliás, havia rodado pela barriga da minha mãe e me encontrava invertido. No começo da adolescência, fiz tantos rodeios para dizer que amava uma coleguinha de escola que depois a vi beijando outro rapaz… No entanto, foi por volta dos meus 14 anos que talvez tenha feito o meu maior rodeio…

Eu e mais dois amigos com os quais jogava futebol, decidimos fazer um teste no São Paulo Futebol Clube, meu clube do coração. Nunca fui um jogador notável. Não nasci com a habilidade natural para o jogo que muitos meninos demonstram desde cedo. Mas era aplicado e tinha visão estratégica do jogo. Na falta de outras capacidades, achava que isso deveria bastar para chamar atenção dos selecionadores.

Ao contrário dos dias atuais, o acesso à informação não era tão fácil e por não sabermos onde poderíamos fazer a “peneira”, decidimos nos dirigir ao Estádio Cícero Pompeu de Toledo, no longínquo bairro do Morumbi, principalmente para quem morava do outro lado da cidade, como nós.

Ao chegarmos à região do Clube, não soubemos com quem falar sobre o que pretendíamos. Na verdade, creio que ficamos intimidados diante do “gigante de concreto armado” e decidimos caminhar junto ao muro que o cercava e o rodeamos inteiramente. A circunavegação por nossos sonhos durou cerca de uma hora, mais ou menos… Talvez pudéssemos ver alguma movimentação em algumas das várias entradas, perceber algum garoto da nossa idade vestindo um uniforme de jogador… sei lá…

O que sei é que voltamos para a casa sem termos coragem de pedir alguma orientação a algum funcionário ou mesmo a algum transeunte. Eu, pessoalmente, já míope desde os 12 anos, escudado no conhecimento de que Pelé era igualmente falho de olhos, já havia ultrapassado a minha cota de ousadia apenas pelo fato de acompanhar os meus dois colegas naquela empreitada…

Poderia continuar a descrever várias ocasiões em que fiz rodeios intermináveis para chegar a algum lugar. Em uma dessas situações, não fosse pela mãe das meninas me imprensar contra a geladeira, eu provavelmente não estaria aqui para contar esta história para as minhas filhas…

Texto de 2016*

Última Primeira Vez

Por uma última vez,
peço mais uma primeira vez
voltar ao centro do mundo…
Ainda que o nosso mundo se restrinja
ao quarto de um quarto de um quarto
de uma casa sem paredes,
no canto de nossas mentes,
para onde fugimos
no último quarto de um eterno minuto…

Quero você,
ainda que neurastênica,
irritada e irritante,
misofônica e barulhenta,
inconstante e desesperada
por amor sem pudor,
que tento recusar por temor
de me perder de mim para sempre.

Mas que adianta me preservar,
se sem você sou menos do que um logro
que se esconde sob a fama de louco?
Por que me recusar a amar profundamente
se o pouco que me resta é menos do que um pouco?

Temos outros em nossas vidas,
mas a história de cada um de nós dois
não importa se nela não tiver nós dois…
Quero uma última primeira vez…
Quero que me dê e se dê,
que se doe a quem se doará por inteiro
ainda que doa, porque doerá.
Sei que não sobreviverei,
mas antes morrer de amor,
que é melhor do que morrer —
é viver por um instante que seja
o que importa viver…

Terapia Hormonal

Benício e Renata se amavam, disso o sabiam, mas a mulher estava passando pela menopausa de uma forma que transformava qualquer diálogo ou decisão do casal em discussões imotivadas. Ou, por outra, tudo era motivo para que viessem as altercações o calor, o frio, o vento, o sol, o latido do Filhote, irmão das crianças que se casaram.

Benício sentia saudade da Renata sempre alegre e positiva, sensualidade exuberante mesmo depois dos 50 anos 30, de namoro inesperadamente encerrado há dois anos com o início dos calores e mudanças bruscas de humor. Situação que piorou após a sua aposentadoria. Quis descansar um pouco depois de trabalhar muito. Quando desejou retornar, o mercado de trabalho havia mudado. Para Renata, o marido-príncipe se transformara em sapo, gordo e sem atrativos, a coaxar lamentos por seu comportamento.

Quando os dois, em um momento de bonança depois da tempestade, conseguiram conversar por meia hora sem se ofenderem, Benício sugeriu e Renata aceitou consultar um endocrinologista para a possibilidade de terapia de reposição hormonal. Renata tinha histórico de câncer na família e ouvira dizer que isso dificultaria um tratamento através desse recurso, que tivera bons resultados para algumas de suas amigas.

Após a realização dos exames necessários, seguida da consulta com o médico, este assegurou que Renata poderia fazer o tratamento sem problemas, acompanhado de exames periódicos para a verificação dos índices hormonais, de quantidades tão discretas quanto fundamentais no funcionamento do organismo humano. Porém, só isso não bastaria para que o tratamento funcionasse. Renata deveria iniciar um programa de atividades físicas regulares, mudança alimentar, corte de carboidratos e lactose etc.

Renata não era inativa, mas não era fã de exercícios físicos. Dr. Coimbra, no entanto, fora tão enfático na recomendação (que talvez nem ele mesmo seguisse, devido a circunferência de sua cintura) quanto aos benefícios como a diminuição do apetite, a melhora do humor, a diminuição de gordura, o enrijecimento dos músculos, a melhora da imunidade e o retardo do envelhecimento, que decidiu se matricular na academia perto de casa.

Na Cuore-Fit, Renata encontrou outras mulheres na mesma condição em que ela, constatada nas conversas entre um exercício e outro orientado pelo instrutor devidamente sarado que as acompanhavam. Não era um rapaz de rosto bonito, mas as proporções absolutamente equilibradas de seu corpo másculo e sua expressiva autossuficiência era o bastante para deixar as suas companheiras alvoroçadas.

Eduardo ou Dado era um profissional sério e sabia que qualquer desvio de comportamento poderia causar estragos em sua carreira há pouco iniciada. Muitas daquelas senhoras tinham idade para serem a sua mãe. Ainda que Renata lhe tenha impressionado por seu sorriso aberto, olhar vivaz e certa candura de menina, nunca passaria por sua cabeça se envolver com ela ou qualquer uma delas. Sentia-se compromissado com Betinha.

Passados alguns meses, Renata, bastante dedicada, progredira enormemente no alcance dos objetivos antes apenas sonhados por quem inicia a atividade física regular. O melhor era ter voltado a se sentir viva como antes, o que Benício agradeceu aos céus e ao anjo Dr. Coimbra. As brigas cessaram, as risadas voltaram a fazer parte do café da manhã e o sexo eventual, procurado por ela, voltou a ser gostoso. Não importava a hora que dormisse, acordava bem cedo e saía para correr ao mesmo tempo que ele saía para trabalhar, logo após ao café da manhã equilibrado entre frutas e alimentos a base de proteína vegetal e suplementos.

Benício não conhecia a importância do outro responsável por Renata ter chegado a essa condição Dado. Aliás, ela sempre evitou citar o seu nome. Tudo por causa de uma prosaica circunstância que demonstrou que o tratamento começava dar resultado, ainda que inesperado. A dedicação e incentivo do instrutor físico em sua melhora orgânica, que nunca deixou de elogiar o esforço e a busca da perfeição na execução dos exercícios, a enrubescia.

Para Dado, Renata representava o resultado material da teoria aprendida na faculdade. E quando o rapaz disse isso para ela, Renata sentiu sua calcinha umedecer imediatamente. Aturdida, Renata pediu licença e correu para o banheiro. Dentro do reservado, se tocou por dois minutos e alcançou um dos orgasmos mais intensos de sua vida. Chegada a noite, buscou o marido para realizar tudo o que pensava em fazer com o moço que a excitara daquela maneira. Foi bom, mas nada comparado ao que sentira pela manhã na Cuore-Fit.

Renata teve medo do que estava sentindo. Sabia que entre os dois não havia futuro, mas a paixão era um abismo tão atraente… A questão era saber se Dado abriria o coração, fecharia os olhos e saltaria com ela. As trocas de olhares entre os dois faiscavam a ponto de serem percebidas por uma ou outra aluna.

Naquela terça-feira, Renata madrugou e chegou antes do que quase todos. Dado foi um dos primeiros a chegar. Quando a viu, ele se alegrou como o menino que era. Gostava imensamente da companhia da mulher que remoçou diante dos seus olhos. Sozinha com ele, Renata conversou leviandades para chegar ao ponto que queria. Perguntou se mais tarde ele não gostaria de almoçar em sua casa, perto dali. Olhar e boca sorriram em aceitação.

Após a aula, Renata voltou para a casa se sentindo uma menina que se apaixona pela primeira vez. Com Benício no trabalho, aquilo que pretendia fazer não lhe parecia incorreto. Em seu pensamento, essa paixão era uma homenagem ao desejo do marido de querê-la bem. Preparou um almoço robusto o suficiente para repor as energias de um jovem em constante atividade. E ela pretendia ajudar muito no desgaste energético do moço parte dos pensamentos que a faziam rir sozinha.

À chegada de Dado, o almoço foi esquecido. Porta adentro, se abraçaram-beijaram como quem precisasse comer após prolongado jejum. Começaram no sofá e terminaram no tapete da sala, sob a observação de Filhote, que deitado em sua caminha, ouvia a sua humana a gemer-uivar, entre risos. Exaustos e excitados, iniciaram conversas lambuzadas, línguas adentrando os lábios. Conversação que durou quinze minutos.

Renata levou Dado para a sua cama. Ela queria que aquele local voltasse a ser o melhor lugar da casa. Totalmente entregue ao forte e atrevido amante concretizou todas as fantasias irrealizadas com Benício. Na sensação mais extraordinária que jamais experimentou, quis morrer naquele mesmo instante, feliz.

De alguma maneira, foi atendida. Depois desse encontro, cheio de promessas e perspectivas, tudo degringolou. Uma das outras mulheres, senhora enciumada do tratamento dispensado à Renata pelo instrutor, o denunciou por importunação sexual. Demitido, Dado decidiu voltar para Catanduva, onde nasceu. Há tempos recebera uma proposta de trabalho de uma academia daquela região que agora se tornara oportuna. Deixar Renata era como se lhe arrancassem o coração. Confirmaria o compromisso com Betinha, a namorada de meninice e tentaria esquecer o amor impossível. Era o mais certo a ser feito. No curso de Educação Física aprendera a suportar a dor do corpo, mas o que estava sentindo não estava nas estudos sobre o desenvolvimento da “mens sana in corpore sano”.  

Ao se despedirem, em silêncio, os dois amantes se recolheram a um canto reservado da academia e se renderam um ao outro, em pé mesmo, sôfrega e apaixonadamente, rostos úmidos, línguas com gosto de água salgada. Ao chegar em casa, Benício encontrou Renata como no auge da menopausa, imersa na tristeza e quietude que normalmente antecedia a tormenta. Ao perguntar sobre o que sentia, Renata correu para os braços reparadores do amor da sua vida e chorou como criança. De alguma maneira, Benício sabia o que estava acontecendo, mas a amava tanto que só queria vê-la feliz. Sem dizer palavra, a abraçou com força.  

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