Quando, pela noite adentro, eu a penetro Não sou eu, nem de longe, nem de perto Eu sou outros, eu sou diversos, eu sou forte É meu tempo, é cedo, é tarde, eu sou a morte!
No corpo dela, eu me recordo, eu me visito Estou em meu espaço, eu gozo, eu grito Também sou eu, sou dela, eu suo, eu me sujo É um mundo de pureza para qual eu fujo!
Assim, eu, ser penetrante pela noite escura Busco de peito aberto, a minha sorte futura Por mim, para mim, com ela, por ela, para ela Para, juntos, amarmos em realidade paralela…
Algo de muito perturbador existe em mim Que prefere um céu nublado a azulado As nuvens me trazem a ilusão de festim Enquanto limpo, parece de tempo fechado…
Lateralmente, escanteia-se a luz Canto o entardecer que me seduz Enquanto canto, o azul se desmancha Alcançando a mim a negra mancha…
Enquanto o sol outonal deita o seu brilho Sobre a ampla cama nebulosa da tarde O dia, calmo, percorre o mesmo trilho Daqueles que foram embora, sem alarde…
Certa vez, ainda garoto, escrevi: “Ao longe As estrelas brilham Por perto As pessoas queimam”… Hoje, eu beijo as estrelas… Eu as possuo, em colchões de nuvens!
Na boca da noite, o tardio óvulo solar Aquece e faz multiplicar a vida celular Reativa as nossas cíclicas energias vitais E fecunda o útero plúmbeo dos mortais…
Sonho em dia claro morrer Sob a luz do Sol esvanecer Uma noite depois de namorar A Lua, as Estrelas e o Mar…
Frida fala pelos olhos… Nasceu ressabiada de gestos bruscos, como se trouxesse abusos de vidas passadas… Passou a se aproximar aos poucos, a vencer a timidez, a se colocar embaixo de mesas, em cantos de sofás, junto aos nossos pés… Hoje, perdeu de vez as travas… Sentiu o frio chegar e arranhou a porta para entrar… Frida, outrora calada, vive agora a espalhar falas com o seu olhar…
*Homenagem à nossa Frida, amada, querida, que passou há quatro anos, em imagem de 2016
A Rolinha*
Um dia frio, chuva intermitente… A sala é um bom lugar para escrever um poema ou um livro, o meu pensamento lá em você, enquanto um pássaro canta…
As cachorras, adormecem no sofá… Uma rolinha, a tudo alheia, castiça, à escrita e à preguiça, pelo quintal passeia… O meu pensamento a acompanha no compasso do canto do sabiá…
*Escrito em 2015
Magia Na Selva De Pedra*
Noite recente, a fadinha e o duende chegam cansados e ocupam uma mesa vaga. Ela deposita os seus aros junto a uma cadeira. Se senta, a mão no queixo, solta um suspiro exaurido de quem voou a esmo. Ele deixa os malabares no chão, coça a barba e olha com certo ar de contrariedade para a sua companheira de floresta. Não pedem nada para comer. Naquele dia, não conseguiram o dinheiro necessário sequer para um cafezinho. Era a faceta mais dura de viver de magia em uma Selva de Pedra em crise. Nos semáforos e esquinas só receberam sinais amarelos de impaciência e vermelhos de raiva…
Último dia de abril e de Blog Every Day April. Maratona que se repetirá em agosto: uma postagem por dia, em que reciclei textos antigos, acrescentadas de novas crônicas que relatam práticas das pessoas a repisarem temas crônicos — a cíclica seara humana de velhas práticas como se novas fossem — nossa sina de maldição. Ou poemas que celebram um homem que ama a Natureza ou a natureza humana de amar por amar. Ou histórias em que invento a vida real.
Maio será inaugurado com um ataque de rutilantes e frias adagas a cortarem o ar seco de São Paulo com um pouco de umidade. Ainda assim será de pouca chuva e fartura de notícias de ofensas do bandidinho do Planalto Central ao sistema democrático, ainda que precário, mas ainda em vigor até a segunda ordem de velhos de pijamas, em dia com próteses penianas e doses de Viagra para colocarem as suas armas em riste, além das canetas.
Não tenho por maio um apreço especial. O último dia dele marca o nascimento de meu pai, em 1932. Ou pelo menos, foi o dia que o meu avô inventou para o menino que ganhava a nacionalidade brasileira com já seis anos de idade. De qualquer forma, parece que as características de Gêmeos se sobressaíram em meu pai. Então, o homem idealista, estratégico e oportunista, sacrificou a família em seu projeto sendo instável, nervoso e egoísta.
A Tânia recordou-me que seu pai morreu num 8 de maio. Coube a mim a dar a fatídica notícia. Não sabia como fazê-lo. Decidi ser direto e reto. Vi a mulher forte se desmanchar em meus braços, em prantos. Eu a segurei firme, solidário a uma experiência que ainda viveria primeiro com a minha mãe e depois com meu pai.
Maio perdeu o status de mês das noivas para dezembro, já que as cerimônias de casamento recebem o aporte do décimo-terceiro salário para financiá-las. Era o mês das noivas pela influência da Igreja Católica, que o considera o mês de Maria. Pelo “viés feminino” que carrega foi associado às noivas, no intuito de trazer boa sorte para a mulher que se casa — se tornar mãe. Catolicismo e Patriarcado associados para consagrarem o casamento na única opção digna para a mulher: procriar. Quanto às flores, seria apenas no Hemisfério Norte que mereceria esse título. De fato, o nome maio vem de Maia, deusa romana da terra e das flores, celebrada nesta época.
Por fim, a maior batalha de maio diz respeito ao seu primeiro dia. É um dia disputado por capitalistas e socialistas por causa de apenas um “R”. Para uns, é o Dia do Trabalho, para outros, Dia do Trabalhador. O contexto para os capitalistas é de que o trabalho dignifica o homem, não importando o salário. Para os socialistas, que o trabalhador prescinde do trabalho para se tornar homem. Enfim, importamos aparências desde sempre, aparências que nos enganam. Simbolicamente, quanto melhor contada a mentira, mais aceitável se torna, preferivelmente se for bem mirabolante. No entanto, o dia da mentira é o primeiro dia deste mês que e encerra hoje.
“Ontem, precisava estar comigo mesmo e sentir vibrar o meu corpo de uma maneira que pudesse me sentir vivo, apesar da catástrofe que se abateu sobre o País nos últimos dois anos e meio por escolha da maioria de nós.
A Pandemia de Covid-19 realçou a fratura exposta na sociedade brasileira, como se fôssemos um paciente em coma após um acidente. Se vamos nos recuperar coletivamente? Eu, não sei… Mas pessoalmente, estou tentando sobreviver da maneira que posso.
Busquei estar comigo mesmo ao restaurar a minha conexão com o exterior natural. Para isso, fiz o percurso de cerca de 4 Km a pé até o Parque Estadual Alberto Löfgreen e por lá caminhei outros 5 ou 6 Km e voltei. O acesso é permitido apenas com uso de máscara e a prática do distanciamento social, o que é fácil já que o espaço é amplo.
O Sol inclinado da tarde outonal ajudava a tornar tudo mais belo e prazeroso. As indicações dos percursos são claras, mas isso não impediu que eu entrasse por um trecho fechado e “me perdesse”. Isolado, pude registrar uma foto sem máscara em meio a Mata Atlântica preservada do Horto Florestal.
O mais importante para mim foi conseguir me reconectar com a vida para além das notícias tenebrosas não apenas vindas do Brasil, mas do mundo afora. Nunca foi tão imprescindível buscar vida mundo adentro…”.
*Texto de Abril de 2021, em que estávamos em uma situação muito difícil. Atualmente, aparentemente estamos saindo da Pandemia, mas para o final do ano os prognósticos não são tranquilizadores com a continuação da Guerra da (na) Ucrânia e as eleições de outubro sob o fogo cruzado do Ignominioso Miliciano.