Trintou

Da esquerda para a direita: eu, com Bethânia; Ingrid, com Bambino; Tânia, Lívia, com Lolla Maria e Romy

Como assim, trintou?
A minha neném gordinha
se tornou uma mulher
com trinta voltas da Terra
em torno do Sol nas costas?
A criança que sorria pelos olhos
pela boca, pelos cabelos
pelos passos, pelas mãos
que falava pelos cotovelos
encontrou a maldade humana
pelo caminho e chora
entre as sessões e audiências?

A trintona se permite ser tristonha
de vez em quando
e adormece
alisando o pelo de seu filho
o menino Bambino
mas celebra a alegria
A gata que advoga causas humanitárias
luta por justiça e igualdade
todos os dias
da noite até a manhã
gosta de gente e promove a irmandade
aprecia a beleza da vida
apesar da sorte desdita
da ação perniciosa e do descaso
dos pobres de espírito
contra os empobrecidos
sem casa ou paradeiro
se permite amar e ser amada?

A querida entre as queridas
que se veste de paninhos
e fica bem
que tira os sapatos
e põe os pés no chão da existência
que chega ao seu primeiro terço
usa colares de contas
conta derrotas e vitórias
colore o cinza do asfalto
com suas fantasias
ara o campo
rega com lágrimas
floresce a estrada
enfrenta maldades comezinhas
planta futuros
melhora o presente
Oh, Ingüity — pela voz da irmãzinha
em prosa e verso
você é o nosso presente
para o universo…
 

Fase Azul*

Ontem, a chuva faltou ao nosso encontro diário. Ela era nossa assídua companheira desde que começou 2013 e, para arrematar a tarde seca, o Sol nos deixou com a promessa de que voltaria no dia seguinte, com toda a pompa e circunstância.

Anúncio que, de fato, se cumpriu. Gosto de ver a luz solar refletir-se nas fimbrias do horizonte e a iluminar as construções e a produzir desconstruções de linhas e perfis no relevo. Já postei várias fotos desses momentos do entardecer em que vejo o Sol comemorar o seu poder transformador.

De início, a luz amarela ajudava a dourar as casas de alvenaria e tijolos aparentes, no morro adjacente à minha casa. Passado algum tempo, no entanto, me chamou a atenção, quando o astro já estava quase totalmente recolhido, o azul que substituía a paleta terrosa.

Conjecturei que o ângulo de inclinação de sua luz, ao refletir no céu, azulava tudo em seu entorno, feito Van Gogh em sua fase azul. Logo, o arrebatamento tomou conta dos meus olhos e, o anil, de toda a paisagem.

*Texto e imagens (sem o fulgor do momento) de 2013.

Inundação

Piscinão Guaraú

São Paulo cresceu entre córregos, riachos e rios. Alagamentos fazem parte de sua história antes da invasão dos portugueses a nomearem a esta região, feitos novos Adãos, com o nome do apóstolo mais controverso de Jesus.

Com o tempo, deixamos de ocupar os lugares mais altos e seguros e fomos nos assenhorando das áreas mais próximas das margens de rios e suas várzeas. De tempos em tempos, as águas, alheias ao fato de nos considerarmos seus donos, retoma seus antigos domínios.

Onde moro, já enfrentei muitas enchentes. Com o advento do Piscinão Guaraú, nos últimos 15 anos, o bairro deixou de sofrer com alagamentos. Mas como é uma região com topografia acidentada, com morros e vales, a preocupação se volta para os deslizamentos. Principalmente por causa de ocupações irregulares, em qualquer cantinho que se possa pendurar uma habitação.

Nesta imagem, mostro o Piscinão Guaraú, cheio como nunca vi. A água da chuva que entra pelas “bocas de lobo” (nome incrível) chega aos bueiros passam pelas tubulações até desembocar no piscinão. Até alcançar o limite, os milhões de litros d’água ficam retidos até desaguarem no Córrego Guaraú para, então, chegarem ao Rio Tietê, que despeja seu volume d’água no Rio Paraná até desembocarem no Rio da Prata, na lejana Argentina, os eflúvios pluviais e fluviais no Atlântico Sul.

Metalinguagem

Não pise na metalinguagem
Flutue nela
Não suba na árvore da prosódia
A abrace
Não se desvie das ideias
As vista
Não passeie pelos objetos diretos
Os concretize
Não circule pelas temáticas
As atravesse
Não se incline ao entendimento
O seduza
Não projete os seus parágrafos
Os viva
Não caminhe pela transversalidade
O verseje
Não se apoie na leitura
A compreenda
Não creia na ortografia
A ame
Não se circunscreva à parábola
A amplie
Não atinja a compreensão
A saiba
Não use pleonasmos
Os sinta
Não estabeleça a fluidez
A Navegue
Não aposte na realidade
A sonhe
Não espere a palavra
Se dê a ela
Não escreva
Se escreva
Não desafie a boca
Use a língua
Não esqueça do riso
Arme o circo
Não nade no nada
Toque o fundo
Não dialogue com o fim
O conclua.

Lua Aluada

Lua…
farol natural das minhas noites
insones
superficiais
perco-me de mim
apesar de seu rastro de luz emprestada
caio enquanto mergulho
em minha própria sombra
tênue e delicada
sinto quase morrer
antes de vê-la quase oculta
aluada
a se esconder
detrás do morro
de luzes artificiais…