Entrada obstruída da Faculdade de Medicina da USP, em 2014.
O que alguns poderiam interpretar como uma sobreposição de grades em uma entrada obstruída, como se fora um arqueólogo eu encontro vestígios de estilos de vida de priscas eras. O gradil de fora representaria um tempo que bastava um muro ou um portão baixo para delimitar uma área e restringir a entrada de alguém. Servia mais como um efeito mental de limitação de uma área e era regularmente respeitada. O gradil de dentro representa um tempo em que as barreiras físicas tem que parecer inexpugnáveis e, mesmo assim, não bastam…
Este texto é uma resposta à postagem sobre cigarro do meu querido interlocutor, Luiz Coutinho. Acabou por ficar tão longo, que não queria impô-lo aos convidados da postagem sobre o hábito-vício tabagista. Ele me deu oportunidade de falar sobre um assunto que queria abordar a algum tempo, vinculado ao assunto. Não sou fumante, mas posso falar de cátedra sobre o vício de fumar, pois a minha mãe fumou até morrer. Ela começou tarde, por volta dos 36 anos, quando se encontrava exilada conosco, eu e meus irmãos pequenos, na Argentina. Ela sentia falta do marido, que havia voltado para o Brasil (para continuar seu trabalho de oposição ao Regime Militar) do resto da família, muito apegada que era aos irmãos. Nunca mais parou.
Dessa forma, começou a minha saga como fumante passivo e “traficante”, já que era eu quem comprava os maços de Continental para ela. A revolução se deu quando, em um determinado dia, ousadamente para os meus doze anos, me recusei a ir comprar veneno para quem amava, resolução que mantive dali por diante. Isso não impediu que a Dona Madalena continuasse com o seu vício. Quando vieram as netas, pedi a ela que não fumasse diante delas e acho que cumpria a solicitação, não sem muito esforço, pois amava muito as minhas filhas.
Por ocasião do aniversário de 1 ano da minha caçula, ela saiu da festa direto para o hospital, com insuficiência respiratória. Depois desse susto, aparentemente, havia parado de fumar, pelo menos por algum tempo. Tinha melhorado a olhos vistos o seu aspecto físico e mental. No entanto, soubemos depois, voltara a fumar escondida de todos, com a conivência da auxiliar doméstica, que também fumava. Ao menos, teria diminuído o consumo, ao que tudo indicava, já que não sentíamos o odor típico no seu vasto cabelo. Ela escondia os cigarros com tanta maestria que quase nunca os encontrávamos. Era danada a minha velha mãe!
Até que um dia, as suas condições gerais não puderam ser revertidas, principalmente porque os pulmões não suportaram a demanda extra de oxigênio exigida. Nessa época, eu era bem mais condescendente com o seu vício, não por aceitá-lo, mas por compreendê-lo. Sabia que ao apego ao cigarro, prioritariamente na mulher, é muito mais difícil de ser revertido, por sua própria constituição bio-morfológica. E porque, três anos antes de seu passamento, eu mesmo quase morrera por causa do meu próprio vício – o do açúcar – que me levara a desenvolver Diabetes, a ponto de chegar a um índice de 715 de glicemia. Fiquei internado por uma semana e saí do hospital disposto a mudar radicalmente de conduta e entendendo melhor o quanto o vício não respeita o conhecimento de que aquilo lhe faz mal.
Ao contrário, fazemos o perigoso “jogo do auto”. Primeiro, a auto enganação, propagando, a quem quiser ouvir, que podemos parar quando quisermos. Depois, passamos a desculpar as nossas deficiências com a autoindulgência, encontrando sempre uma justificativa e jogando a responsabilidade nos outros ou nas circunstâncias. Logo, sentimos a chegada da autocomiseração por nossa lamentável condição de viciados e, finalmente, revoltados com os inimigos que nos apontam o vício, chegamos à autossuficiência social. Não nos importamos mais com a opinião dos que nos cercam e atacamos quem “nos ataca” ou ataca o nosso motivo de prazer.
É muito comum, por exemplo, um fumante se sentir extremamente ofendido quando se fala do malefício do cigarro. É como se estivessem falando mal de “alguém” que amamos… E, então, de uma hora para outra, somos colocados diante de nossa mortalidade. Alguns nem sentem tanto medo de morrer, mas percebem que há pessoas que os amam e, por elas, decidem – “eu vou parar!”.
Um pouco antes de eu chegar à fase mais aguda da doença que desenvolvera e motivou a minha internação, no final de outubro de 2007, morreu Paulo Autran, no dia 12. Eu ficara, então, impressionado com o relato de Karin Rodrigues, então esposa do grandíssimo ator, mencionando que o último pedido dele foi o de fumar um cigarro, o mesmo que ocasionou o desenvolvimento do câncer que o levou. Pensei comigo mesmo que como ele, eu deveria parar de tomar refrigerantes, comer doces, de acrescentar açúcar ao achocolatados que consumia, entre outros atentados ao meu pâncreas. Estava pesado, com 105 Kg. Talvez já estivesse sentindo o que poderia ocorrer, caso continuasse agindo da maneira que agia, quase como se eu quisesse me matar.
Paulatinamente, os sintomas da hiperglicemia se fizeram presentes – diminuição da acuidade visual, boca extremamente seca, cansaço, micção constante e extrema irritabilidade – entre outros. A Tânia chegou a me relatar posteriormente que não estava mais aguentando ficar ao meu lado e já havia anunciado para a minha mãe que se separaria de mim, caso continuasse com aquele comportamento, o que parecia estar se revelando um traço de personalidade permanente. Na verdade, estava passando por um processo chamado de Cetoacidose Diabética, proporcionando tal desequilíbrio metabólico, em que a irritação é uma das suas consequências funestas. Aliás, a participação da minha mulher nesse momento foi decisiva, pois ela percebera que os sintomas se enquadravam no quadro de Diabetes, a tempo de me levar para o hospital e salvar a minha vida.
Anos depois, em um evento de “bodas de vinho” (75 anos de casamento), encontrei uma pessoa com o sobrenome Autran. Perguntei se era parente do belo ator e ela confirmou afirmativamente. Estávamos conversando sobre amenidades, mas tive coragem de perguntar sobre aquela circunstância incrível sobre a morte do ator, pois ela ainda reverberava em minha mente devido à sincronia dos fatos. Ela me revelou que o câncer estava muito avançado e que o diagnóstico estava fechado. Ele sabia que iria morrer a qualquer momento e o seu último desejo foi o de morrer abraçado ao seu companheiro mais próximo – o cigarro.
… “Você me fez sofrer, você me fez chorar…” – Teria eu levantado bem mais cedo, quando despertei às 7h da manhã, e poderia ter aberto as minhas janelas, ter sentido o gostoso ar frio matutino e ter ouvido os pássaros retardatários, que ainda não teriam saído para passear de seus galhos hospedeiros, enquanto ainda teria visto as árvores do meu quintal receberem a visita dos vizinhos alados da redondeza. No entanto, voltei a dormir, ainda cansado do trabalho do dia anterior, e acordei com a música urbana, produzida pelos humanos, três horas depois. Os meus vizinhos, em dois ou três pontos, reproduziam as canções de seus gostos. Que eles acreditem que todos ao seu redor também apreciem o que ouvem, é algo que não consigo entender…
“Você me fez sofrer, você me fez chorar…”. Mas, sou daqueles que tenta encontrar sempre um propósito em tudo, além de ter a horrível tendência em construir enredos para análises sociológicas em cada movimento dos seres da minha espécie biológica. Ainda garoto, pensava em me tornar um asceta, me refugiar em alguma montanha ou vale esquecido e fugir das pessoas, pois convictamente, me sentia um ET. Atualmente, vivo em um vale, cercado de morros, na Periferia de São Paulo, sei que sou um ser gregário, que estou no Mundo e que apenas na convivência entre nós, poderemos encontrar o meio termo onde reside a paz. É claro que isso em tese, porque há ocasiões que perco facilmente a estribeira. Enfim, estar equilibrado é um exercício permanente. Na guerra de sonoridades, o tema preferido girava em torno de amores mal realizados…
“Você me fez sofrer, você me fez chorar…”. Em uma época passada, o Brasil viveu uma fase de letras riquíssimas, mormente espraiadas em sambas-canções de melodias inesquecíveis (“Meu Mundo Caiu”, de Maysa, é uma delas, por exemplo) e até poderíamos dançar ao ouvi-la, acompanhando o seu compasso lento, de rostos e corpos colados, vivenciando a tristeza de uma maneira libertadora. Hoje, se isso acontece, será sempre através de músicas com andamento acelerado, em que as pessoas dançam alegremente com um sorriso no rosto, volteando em piruetas e saracoteios.
Igualmente, no samba, que inaugurou desde os seus primórdios da popularização da música brasileira essa tendência, muitas vezes ouvimos versos destilarem o sofrimento em passos em que os pés respondem com energia e alegria à revolta que sentimos pelo amor que nos feriu. Eu me lembro de que, quando menino, virgem de corpo e alma, adorava sofrer os amores que não havia ainda vivido e Lupicínio e Elis (meu gosto era anacrônico) me faziam companhia. Hoje em dia, as referências são outras, bem menos primorosas… “Você me fez sofrer, você me fez chorar…”.
FASES Quando jovem, escrevi: “Pelo buraco que sou eu Passam luzes, sons E pessoas calçadas… Ah! Quem teria a sinceridade De passar por mim descalço?” Agora, jovem há mais tempo, Me pergunto se aguentaria uma relação com tanta franqueza assim…
INTRUSO Um dia, em direção ao Mont Blanc de Campos de Jordão de dez anos atrás, fotografei uma das belas casas da área. Quando revelei a foto, um elemento humano, bem ao canto, desequilibrou a harmonia austera da paisagem concreta. O que fazia aquele menino, posicionado para a foto de alguém que passasse naquele horário deserto?
VISTORIA Amanhece e a Lua como uma pequena mancha pontua o tecido azulado Borrão luminoso a ser prontamente varrido pela poluição antes e pelo Sol, logo mais.
PERA A pera sobre a pedra preta. Esfericidade ferida à espera de ser absorvida. A ideia de fruta madura torna-se absoluto conceito alimentar.
A BOMBA Pelas ondas do rádio recebemos por uma última vez as notícias que todos nós temíamos ouvir: ondas de radiação mortal propagavam-se desde o epicentro da explosão ao norte, varrendo toda a vida pelo caminho…
AUSCULTA Conectividade, mas artificial. Vozes, sons, sinais. Comunicação, mas interceptada. A cada conquista tecnológica, a cada antena instalada, um fosso se cria entre antenados e marginalizados, todos nós, colonizados. Celular ao ar.
POSSIBILIDADES Os meus óculos formam o escudo que me protege os olhos enquanto capto a luz do seu olhar. Sem eles, só vejo bem de perto, mas aí, eu me perco. Pelo caminho? Não, em seus olhos…
NAVEMÃE Do prédio do hospital até o estádio têm-se quinhentos metros. Do quarto 674, avisto a nave mãe. Centro de peregrinação, preces e emoção. Item alienígena na fé do cristão. Camisas de cores diferentes separam os seus tripulantes entre aqueles perdedores que pensam ser os vencedores e entre aqueles perdedores que se sentem os perdedores. De novo. Enquanto isso, flores da antiga árvore descem sobre o carro ferido. O ser aparentemente imóvel, mas vivo, joga a sua vingança colorida sobre aquele objeto móvel, que um dia já matou.
ORCAS Orquídeas florescem displicentemente no outono paulistano. Logo dormirão. Enquanto isso, dominam a nossa atenção. Ou: por ser ideias de orcas fluorescentes, decididamente lhe outorgam ser um bom plano viver belamente. Logo, dominarão a nossa imaginação.
*Textos e poemas de antes de 2010, que seriam postados no meu blogue que apenas foi inaugurado em 2017.
Eu gosto de escrever, todos os meus acompanhantes mais próximos, o sabem. Sobre este domingo comemorativo, quis permanecer longe dessa voragem causada pela artificialidade de uma data instituída pelo mercado para alimentar o comércio. Manipular sentimentos é a melhor maneira que existe para estimular as compras de objetos que servirão para mostrar o quanto somos agradecidos a alguém de quem gostamos. No mínimo, muitas vezes, ajuda a amenizar a culpa que sentimos por alguma falta que cometemos a quem presenteamos.
No entanto (como eu gosto de utilizar conjunções adversativas!), existem datas que pegam fundo, como a do Dia das Mães ou a dos Pais. Essas datas acabam por expressar a ideia simples porém completa de início de tudo. Todos e qualquer ser de organização celular mais complexa e fecundação sexuada foi gerado por um pai e uma mãe. Espertamente, o próprio “Google” expressou isso de forma exemplar no seu “doodle” animado. Pegos assim de uma forma tão primária em nosso âmago, não há como deixarmos de expressar algum tipo de sentimento quanto a este dia. O meu (sentimento) é contraditório.
Tenho filhas maravilhosas que me realizam como pai, como ser gerador de vidas que fizeram, faz e, tenho certeza, ainda farão diferença na existência de quem tiver a sorte de encontrá-las. Eu as amo por isso e porque as amo independentemente de qualquer coisa. Quanto ao meu pai, a dubiedade se aplica de maneira exemplar. Ele é vivo, mas não o vejo há meses. Moramos perto, caminho por lugares que eventualmente ele passa, entretanto por mais que estejamos juntos, sempre haverá um distanciamento. Tenho pensado muito nele ultimamente, nos momentos que eu me lembro (não foram tantos assim) em que vivemos certa comunhão emocional, a maior parte de cunho aparentemente negativo.
Sinto que devido à idade avançada, ele não estará fisicamente muito mais tempo entre nós e tenho pensado em visitá-lo, ver como está. Talvez para protagonizarmos outra e possível última discussão. Frequentemente digo para alguns que o utilizo como um exemplo a não ser seguido, principalmente quanto a ser um pai presente. Se bem que a presença nem sempre seja indicativo de qualidade. Agradeço que ele, mesmo de maneira ambígua, tenha proporcionado subsídios para que eu e meus irmãos tenhamos casas onde morar. Contudo, filhos são exigentes e querem sempre mais.
Queria que ele não quisesse me ver como um mero apêndice de seus ideais e desejos, esquecendo-se que, apesar de filhos da carne, não somos compulsoriamente filhos do espírito. Que ele não visse que honrar pai e mãe seja pensar o mundo como ele pensa. Que a partir do momento que colocamos esses seres aos quais damos suporte – casa, comida, vestuário, escola, educação (algo diferente de escola) e amor (hipotético) – no mundo, ao mundo eles pertencem. Lugar comum, todavia verdadeiro. De qualquer forma, desejo ao meu pai que esteja bem consigo mesmo, já que foi essa a escolha que fez desde muito tempo. Para todos os pais que sabem qual é o valor da dádiva de ser pai, desejo que recebam todo o amor de seus filhos!
*Texto de 2015 – o Sr. Ortega faleceu em Fevereiro de 2018, sem resolvermos as nossas pendências. Ficou para as outras encarnações.