BEDA / Scenarium / Segundona

Segundona

Sinto que o sol se solta
em seu caminho fixo
e iluminado,
e deixa se ver
por detrás da cortina nebulosa…
Estamos em plena segundona — dona
de nossos humores cíclicos.
Para tantos, tempo
de buscar sobrevida,
ganho de mais valia e causa
para a existência, sem pausa —
um momento
para parar, para sentir o ar,
além de respirar…
E eu posso…
O sol detox
se infiltra em meus poros,
sinto que ele se integra ao meu ser,
se conecta com as minhas ondas,
passeia por minhas frequências
e, por um instante,
me sinto brilhante…

 

 

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Lunna Guedes

BEDA / Scenarium / Eu Amo Você!

Muro 1

                      

Eu prefiro o toque…
Mas eis que o tato
é o mais vetado dos sentidos…
Eu prefiro a boca…
para falar, também…
Quando podemos ser mal
(ou bem) interpretados…
Eu prefiro que bailemos juntos –
uma dança proibida
por doutrinas
que preferem corpos em desunião…
Eu prefiro amar…
E escrever…
E escrever sobre o amor,
ainda que desdenhem da paixão
pela palavra…
Contudo,
depois que o mundo acabar,
e o amor se for conosco,
resistirá escrito no muro,
em algum lugar da cidade:
EU AMO VOCÊ!

                           

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Lunna Guedes

BEDA / Scenarium / O Navio*

Foto por Miguel u00c1. Padriu00f1u00e1n em Pexels.com

Minha família viveu no Largo do Arouche, centro de São Paulo, até os meus cinco anos de idade. Do apartamento no Edifício Coliseu, apenas me lembro do corredor onde pedalava meu carrinho de metal com uma estrela no capô e da entrada do apartamento. Um amplo sofá boia solto na minha memória real, além dos fantasmas com os quais convivia em minhas aventuras soldado do Exército. Parece que desde então vivia a sonhar que voava, o que quase aconteceu por pouco quando ascendi ao parapeito da janela do décimo segundo andar. Fui impedido por meu avô, que me agarrou a tempo.

Minhas lembranças da infância mais presentes estão vinculadas ao qual chamávamos de porão, abaixo da imensa casa do meu Tio José, que empregou meus pais na fábrica de autopeças. Eu dormia junto à janela que dava para a garagem da casa e sua forma arredondada era parecida com as dos navios dos filmes que assistia. Logo, aquele canto se tornou ao mesmo tempo minha cabine e tombadilho de onde conduzia minha cama-barco-de-armar mar adentro, enfrentando tempestades, raios e trovões para levá-lo a salvo até a ilha-cozinha, onde me sentia confortável em ver minha mãe preparar a comida. Adorava vê-la encher a mamadeira de café com leite, a qual tomei até os seis anos, pelo menos, pela manhã.

Era recorrente eu desenhar o navio que me conduzia meninice a frente. Em terra firme, na Vila Esperança aprendi a jogar bolinha de gude, empinar pipa, jogar futebol. Também aprendi as primeiras letras, desenhadas no caderno de brochura, sem obedecer às linhas laterais. O que começava em uma página, terminava na outra. Fiz por iniciativa própria e quando mostrei à professorinha da escola infantil, me lembro dela chorar como se eu tivesse cometido uma imensa travessura… Ganhei um beijo estalado no rosto. Talvez, tenha sido ali que tenha desistido de ser marinheiro ao perceber que um barquinho de papel me levaria bem mais longe…

*Texto produzido por ocasião do Curso Narrativas Na Primeira Pessoa, da Lunna Guedes.

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Lunna Guedes

BEDA / Scenarium / Furacão

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Foto por Ray Bilcliff em Pexels.com

Eu,
que sempre quis ser brisa tépida,
remanso em paisagem cálida,
surpreendo-me
por querer transpor obstáculos –
casas,
cercas,
muros
e árvores –
com a violência de um furacão…
Quero-me assenhorar das paragens,
invadir os campos cultivados,
arrancar as ramas pela raiz,
revolver a terra molhada
com a força
de meu arado alado,
a semear com o meu falo
o chão revolto
e plantar a minha descendência
de ventania

no coração da amada…

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Lunna Guedes

BEDA / Scenarium / O Outro

A apresentação pública que faço de mim é a de alguém que se identifica com a defesa do humanismo voltado para a transcendência, visando a proteção do ecossistema e o respeito aos outros seres que convivem conosco na biosfera. Fora dessa perspectiva, quem defende ideias diferentes me ofende profundamente. Cheguei a me imaginar como um antípoda ao que preconizei acima como exercício de compreensão daquele que se me opõe. Em tese, conseguiria fazê-lo. Eu os encontro em meu círculo familiar, entre colegas de trabalho e nas minhas redes sociais.

Estabeleci como elemento de desordem o “outro”. Conquanto o meu ponto elementar de desequilíbrio seja eu mesmo, quis alcançar àquele que me desorganiza externamente. Dizer simplesmente que “o inferno são os outros” não seria suficiente. Eu me pus a identificar quais falas e atitudes do outro quebram a minha homeostase. Ainda que passeasse por zonas sombrias do meu ser, ao olhar para o abismo tenho certeza de que voltaria à minha posição inicial. Suposição incrível para alguém que refuta por entendê-las como indício de loucura.

Seria mais fácil criar uma personagem que se colocasse como porta-bandeira do obscurantismo, do desconhecimento, da misoginia, da homofobia e do racismo; que fosse elitista, antidemocrática e entendesse o poder econômico como hegemônico, colocando-o acima da necessidade de atendimento às demandas sociais. Mas na vida real essa personagem já existe. Na verdade, foi eleita como representante incondicional de pelo menos um terço da população que se amolda ao que seja conveniente no momento ou que simplesmente acompanha a manada — do país onde nasci e vivo. Percebi que defender o indefensável seria impossível. Ir contra as diretrizes que considero o melhor para a maioria das pessoas e para mim, me paralisou.

Tenho frescas em meus ouvidos as últimas notícias do atual desgoverno — o fogo a se alastrar por grande parte do território brasileiro; a mortandade pela Covid19 de centena de milhar das pessoas menos protegidas pelo Estado; o desmonte da estrutura que manteve os índices sociais razoavelmente estáveis nos últimos anos, a exemplo do SUS e dos projetos de inclusão; o ataque direto à cultura, como o feito à Cinemateca Brasileira onde todos os funcionários especializados na preservação do importante acervo audiovisual nacional foram demitidos. Como é que conseguiria me colocar no lugar de alguém que defende práticas tão perniciosas, de viés fascista; que promulga por decreto o genocídio do brasileiro comum e o etnocídio que solapa a identidade cultural indígena?

Quando surgiu o movimento de extrema direita que assumiu o comando administrativo do Brasil, eu me surpreendi com a quantidade de defensores dessa visão de mundo que se opunha brutalmente à minha. Artistas com os quais trabalhava (principalmente, músicos) não deveriam se colocar em sentido inverso ao que era propagado pelo candidato? Assumiriam a faceta que propunha retrocessos políticos e agitariam bandeiras retrógradas em termos sociais?

Ser esse outro não é apenas olhar para o abismo, mas mergulhar na lama primordial da qual foi gerada a vida eu me tornaria uma ameba. Não teria de onde retornar, a não ser depois de milhões de anos de evolução. Prefiro morrer para esta vida a reviver por inteiro o drama de nosso desenvolvimento: voltar a ser um primata que lutará pela vida na floresta; até vir a encontrar o monólito que me tornará o primeiro ser humano; inventar os instrumentos de sobrevivência da espécie; participar da luta pelos espaços; instaurar grupos homogêneos como plataforma de expressão coletiva; desenvolver civilizações; guerrear contra os inimigos; trucidar oposições; formar países; escravizar povos e estabelecer ideologias hegemônicas como forma de dominação do outro…

Será que não podemos aprender com o que já vivemos em nossa história e deixarmos de praticar ações perniciosas contra nós mesmos e contra os outros seres com os quais coabitamos? Ou estamos condenados a reviver todos os dias mesmos dolorosos ciclos até o final dos tempos — um déjà vu em moto contínuo?

Quase peço ao sol que antecipe em bilhões de anos a explosão que extinguirá os planetas ao seu redor, incluindo a nossa pequenina Terra. Porém, sei que é egoísmo da minha parte. Quem sabe as novas gerações modifiquem o nosso percurso atual e transformem Gaia em um planeta redentor?

Cena de 2001 – Uma Odisseia No Espaço – encontro do monólito pelos macacos.

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Adriana AneliClaudia LeonardiDarlene ReginaMariana Gouveia

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