Em Observação

Olhamos, somos olhados
Buscamos, somos achados
Encontramos, somos deixados
Chegamos, estamos atrasados
Permanecemos, estamos acabados
Estamos eternos, seremos passados…

Scenarium / Nem sempre a lápis | Rotina Clandestina

Criminoso

Houve um tempo que evitava declarar ser escritor. Não porque considerasse algo indigno ou vergonhoso, como se confessasse ser um ladrão. Apesar de sê-lo, também. Mas porque, sendo sonho de menino, não acreditava que o fosse, mesmo depois de certa idade e escrevendo muito. Intitular-me um artesão da palavra, se configurava um projeto para o futuro. Cometia o erro de acreditar que faltasse publicar um livro – objeto icônico – que carrega, por si só, o condão de incensar quem o assina, como “escritor”.

A publicação de meu primeiro projeto não me tornou escritor. Assumir a premência de ser um, sim. Consequência de uma necessidade basal – colocar para fora tudo o que me consumia, para não me envenenar com frases mal digeridas e morrer. Ainda que faça parte do contexto, morrer, matar, odiar, amar, construir, destruir, ser franco, saber mentir – viver-escrever.

Porém, para que produza meus textos, estabeleci uma rotina clandestina – roubo meu próprio tempo. Ajo como ladrão, muitas vezes, arrependido. Arrependimento que se dissolve assim que fico satisfeito com o resultado do furto. Já tentei me redimir. Mas quando percebo que minhas expressões vêm a calar fundo em quem as lê, meu receptador-receptor – um leitor, ao menos – produz-se um sentimento de compensação que me faz reincidir-honrar a persona que finalmente assumi.

Eu não apenas roubo tempo. Também rapto pessoas e seus afazeres, surrupio histórias que ouço ou presencio, acompanho passos de tantos, como se fosse um perseguidor. Esquartejo vivências de vários, para criar “Frankensteins” infames. Fuço vidas alheias para chegar a conclusões irreais. Assumo a identidade de outros, cometo falso testemunho. Por vontade confessa, sou um criminoso contumaz.

A tentar equilibrar os afazeres cotidianos, família e amigos, troco o relaxamento do descanso pelo artesanato da escrita. É um ofício vital, com mais erros do que acertos. Contudo, me garante acessar lugares recônditos de mim mesmo. Eu me surpreendo quase sempre em auto revelar quem sou-estou, ainda que tente esconder essa identidade por trás de artifícios verbais – conto do vigário. Entre ações delituosas que me fazem perder e tentativas arredias de me encontrar posso, finalmente, asseverar: sou escritor.

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Equinócio

Em 2020, entre o equinócio do Outono, que se deu em 20 de Março, e o equinócio da Primavera, que se dará em 22 de setembro, o Brasil viveu e vive a experiência da Pandemia da Covid-19, causada pelo novocoronavírus. A previsão macabra é que no próximo equinócio alcancemos a marca de 140 mil mortos pela gripezinha, como um dia nomeou o pandêmico J.M.B., atual presidente da República Federativa do Brasil. Enquanto isso, os dias passam como se fossem iguais, mas irregulares, como se fora um sonho perplexo-randômico-estático a cada dia que amanhece, entardece e anoitece.

Sol de verão nos últimos dias de Inverno. Alijei seus efeitos luminares na fímbria do mar-preto-do-morro. E eis que se vê a mostra um crepuscular Sol da meia-noite deslocado de seu tempo. Absoluta bola avermelhada de fogo cristalizada.

Júpiter e Saturno se apresentaram em conjunção visual com a Lua nos últimos dias de Agosto. Astros distantes entre si, brincaram unidos no firmamento. Ausente um equipamento que pudesse captar a majestade do momento, registrei o brilho lunar emprestado do Sol entre folhas de bananeira e goiabeira, como se fosse uma fruta de luz.

Dias secos. Minhas plantas clamam silenciosamente por água. Eu, que tenho ouvido vozes inaudíveis para muitos, as compreendo e as banho com o líquido vital. O rejubilar das folhas se me assemelham a aplausos. Com a espada d’água, as reverencio.

No equinócio do Outono, eu estava no litoral sul de São Paulo. Foi decretado o fechamento das faixas de areia, o comércio, o funcionamento de pousadas e hotéis e foi impedido o translado entre as cidades. Fiquei preso junto à imensidão do mar. Após retornar a Sampa, voltei outras vezes para a Baixada. Por algum motivo singular, a visão da Serra do Mar — a Muralha — vinha a ganhar um significado inaudito.

Despudoradamente, os sapatinhos-de-judia se abrem também à noite. Ao sair para o quintal, uma delas me encara como cara de quem não sabe o quanto é atraente. Ou apenas dissimula a sua inocência para oferecer beleza íntegra, a narcísica flor.

Forçado a deixar de trabalhar fora de casa, passei a ser uma “dona-de-casa” modelo. Ou pretendi. Sei que o termo usado entre aspas carrega o peso de uma função que no patriarcado significou o máximo que uma mulher poderia alcançar como status social. Tirante as “donas-de casa” que tinham empregadas domésticas. Neste período pandêmico, as tarefas caseiras que fazia para ajudar, tornou-se minha função primordial. O que sempre acreditei, se confirmou: a louça se reproduz incessantemente.

Ale Helga— Darlene Regina — Mariana Gouveia — Lunna Guedes

Aranha Aluada

A Lua,
quarto crescente,
de 102 bilhões de anos…
A Aranha,
de 102 dias…
Um dia, se extinguirão…
Só o amor sobreviverá.

Gilson, o rapaz que tem a sensibilidade de encontrar o pai no tom de voz de um desconhecido, deu o mote e logo me senti compelido a criar algo em torno desta foto. Ele, inclusive, sugeriu um título – A Aranha Que Roubou A Lua. Quem compõe ou escreve, sabe que muitas vezes uma canção ou um texto segue certo protocolo e para quem tem as ferramentas, é até fácil construir temas aceitáveis. Mas desde o início, em vez de uma crônica gracinha, chegou a mim os versos que coloco a seguir. A Lua, ainda que roubada, continua a ser poética.

Noite alta…
Ainda não era amanhã…
E, ainda que fosse,
vivo sempre o hoje.
Amanhã é um lugar distante
ao qual nunca chegarei…

Lua em quarto crescente,
o homem, descrente do amor,
a busca no olhar e a fotografa.
No registro revelado,
uma aranha
arranha
a imagem da penumbra
contra as luzes artificiais.

O ser, inicialmente invisível,
rouba a Lua de seu protagonismo.
Coloca cada elemento, com a sua função.
Nada ocorre à esmo.
A aranha aprisiona o seu alimento…
A Lua consola a minh’alma…