BEDA / Scenarium / Redundância*

Redundância
Água – líquida e solida

“O meu momento mais íntegro neste ano que se encerra, em que me senti como parte da Natureza. Penedo.”: publiquei no Twitter. O momento a que me refiro me mostra tentando me equilibrar em meio à força ao turbilhão formado por uma das muitas corredeiras de Penedo. A palavra “meu” me pareceu de início redundante porque, logo depois, reitero que naquele instante “me” senti verdadeiramente integrado à Natureza, nossa Mãe. Realmente, a força da água fria, o som daquele jorro de claridade líquida, emoldurada pela vegetação exuberante, me deu a inteira acepção do poder natural. Era meu, aquele momento, e agora é nosso, compartilhado com quem me lê em marca d’água.

*Texto de 2011

B.E.D.A. — Blog Every Day August

Adriana AneliClaudia LeonardiDarlene ReginaMariana Gouveia

Lunna Guedes

BEDA / Scenarium / Conversa Entre Nós*

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Foto por Brett Sayles em Pexels.com

Conversa entre o eu atual e o do futuro, sobre o nosso passado.

“— Obdulio, se lembra como conhecemos a Tânia? Dois ou três anos antes de nos casarmos, sequer a conhecíamos. Fico imaginando se, depois de tanto tempo, ainda estejam juntos.

— Não responderei da maneira que quer. Digo, como você reconhece, que tudo passa e não passa.

— Essa forma de responder é bem típica de minha parte e percebo o quanto é irritante. Quanto à Tânia, ela veio com a nossa prima Vanir e uma amiga de Volta Redonda, onde viviam, para fazerem testes de admissão em hospitais de São Paulo.

— Ainda me lembro… a Vanir era filha da branca tia Ermelinda, com o nosso tio Manoel, preto. Eu sempre achei a história dos dois incrível  — aos 12 anos, idade que tinha ao chegar ao Porto de Santos, vinda da Espanha com a Vó Manuela e nossos outros tios… ela se assustou ao ver o primeiro homem preto de toda a sua vida.

— Sim! Talvez, um estivador. A Tia me disse que aquele ser lhe pareceu impressionante. Como era impressionante o grande Tio Manoel! Ele trabalhava na Companhia Siderúrgica Nacional e se distinguia pela inteligência. Eu gostava de ficar ao seu lado e ouvir suas  histórias quando visitava aos tios e primos, todos muitos bonitos e enormes. A prima Vanir me adorava e quando me apresentou à Tânia, se referindo à minha eventual beleza e personalidade, revelou mais tarde que chegou a rir por dentro.

— Hilário, não? Aquele sujeito que nós éramos, de cabelos desgrenhados, a usar camisas postas ao contrário e atitudes um tanto ríspidas… não era bonito e muito menos interessante..

— Ao vê-la, não me lembro e não sei se você se lembrará — já que a nossa memória é um tanto randômica — de emitir alguma palavra. Talvez tenhamos grunhido algo. Com certeza, aquela magrela com voz de taquara rachada não chamou a minha atenção…

— Para você ver… Como você dizia e ainda digo: “a vida tem sempre razão”.

*Texto derivado de um exercício do Curso Narrativa Em Primeira Pessoa, ministrado por Lunna Guedes.

B.E.D.A. — Blog Every Day August

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Lunna Guedes

BEDA / Scenarium / Leonina

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Foto por Public Domain Pictures em Pexels.com

O dia começa quando ela desperta.
O sol irradia luz para clarear o seu caminho.
Decide seus passos à revelia dos obstáculos.
As portas se abrem quando ela se aproxima.
Os espelhos disputam o seu reflexo quando ela passa.
A festa acontece quando ela aparece.
O DJ toca as suas músicas preferidas.
Na dança, ela comanda a coreografia.
Mares e brisas de mil anos contam segredos
quando pede que seu amor se entregue.
Quando nasceu, aceitou nascer todos os dias
em partos dolorosos,
pelo poder de viver mínimas alegrias,
poucos momentos de paz e prazer,
riso, paixão e nexo.
Por isso, vive…
Por que tudo é assim?
Esse é um enigma que não desvendei.
A resposta, não sei.
Não saberia, ainda que fosse o rei.
Ainda que percebesse o contexto.
Escritor, queria escrever outro texto
que pudesse mudar o destino,
arquitetar outro roteiro.
Queria que ela vivesse à larga,
bebesse o vinho tinto da melhor safra,
a caipirinha da mais apurada cachaça.
Ainda que não fosse alguém que ela amasse,
que eu não fosse feito de carne, mas de doce cassis.
Que meu corpo não tivesse ossos, mas giz.
Que eu estivesse em outro país
ou que não a tocasse por um triz,
que não apreciasse seu perfume pelo nariz
ou que ela viesse de outra raiz,
queria ver alterada a diretriz.
Que pudesse escolher entre ser o condenado ou o juiz,
cumprir a dura pena ou decidir que ela fosse, apenas, feliz…
Já que não tenho como a proteger
da necessária passagem do tempo e do sofrer,
me resta somente lhe perguntar:
de que maneira eu melhor posso lhe amar?

B.E.D.A. — Blog Every Day August

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Lunna Guedes

BEDA / Scenarium / O “Um” Anel*

Anel
O Precioso
Ontem, sábado, estava no ponto de ônibus, quando a luz tímida do dia nublado incidiu sobre uma peça que brilhava junto aos meus pés. Abaixei-me e o peguei — era um anel. Pode ter sido perdido, escapado dos dedos ali mesmo ou trazido pela água da forte chuva da noite anterior, que o carregou junto a vários outros restos.
O “um anel”, foi apenas segurá-lo entre os meus dedos e comecei imaginar histórias por trás de sua existência. Qual seria o valor deste anel? Quase nenhum, considerando o financial. Deveria custar uns 15 ou 20 Reais, no máximo. Era uma bijuteria feita de um metal simples, imitando a prata e apresentava um desenho em “S”, que alinhava quatro “pedras” lateralmente a outras quatro. Na verdade, um desses oito “brilhantes”, feito de plástico duro, era diferente dos outros sete, que eram mais claros do que esse, amarelado.
Levantei duas hipóteses para essa configuração. A primeira, é a de que tenha sido adquirido assim mesmo. A segunda, é a de que o anel possa ter perdido uma pedra do conjunto, que foi substituída por uma parecida, mas nem tanto. Uma das hipóteses pode envolver a distração do comprador; a outra, a precariedade do conserto. Qualquer opção implicaria na simplicidade do material e de quem o detinha. Simplicidade econômica, mas talvez não de sentimentos.
Eu poderia escolher a suposição de que fosse apenas um anel comprado por alguém, provavelmente uma mulher (segundo a minha avaliação), para si mesma ou para uma amiga; ou ainda de que tenha um presente de uma mãe para a sua filha ou de uma filha para a sua mãe. Mas acabei por escolher a conjectura de que tenha sido um presente de amor romântico, porque hoje preciso que seja assim.
Na hipótese daquela amiga a presentear à sua amiga, seria porque ela fosse mais do que especial. Ou ainda a de um amigo para outro mais do que especial ou de um homem de poucos recursos que quisesse oferecer o melhor anel que pudesse comprar diante de seus poucos recursos para a sua namorada. Adivinhei que fosse um anel de compromisso, representando o pedido para uma coisa mais séria entre eles.
Já os via tendo a paciência de esperar na fila pelo ônibus no horário mais tardio, simplesmente para poderem voltar juntos no coletivo lotado, sentados em um banco que os levaria, em suas conversas, para um lugar muito mais longe do que a distante periferia na qual viviam. Quis sentir que esse fosse o valor do “um anel”, assim que o vi. Eu o guardarei, em respeitoso sinal de seu suposto poder.
*Texto de 2015

 

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Adriana AneliClaudia LeonardiDarlene ReginaMariana Gouveia

Lunna Guedes

BEDA / Scenarium / Trago Amado

Trago Amigo

O ônibus passa devagar pelo asfalto irregular da periferia, enquanto o rapaz magro observa os muros mal construídos que ladeiam o caminho. Chama a sua atenção apenas os postes repletos de anúncios oferecendo vários tipos de serviços: de desentupimento de esgoto à reversão de multas de trânsito, passando por cartomantes. Um desses cartazes anunciava: “Jogo tarô. Jogo búzios. Trago a pessoa amada. 100% de garantia!” — Abaixo, o número do telefone de contato.
O rapaz magro desdenhou de tanta certeza. Nem um pouco comparável a que ele tinha. Pensou: “Eu, sim! Trago o companheiro amado em 100% das vezes!”… Imediatamente desejou que o ônibus chegasse rápido ao destino para que pudesse fumar.

 

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Adriana AneliClaudia LeonardiDarlene ReginaMariana Gouveia

Lunna Guedes