BEDA / REALidade — Todas As Idades

IDADES
O Velho

Quando envelhecemos… temos todas as idades. Somos aquele idoso que mal consegue caminhar sem sentir algum tipo de desconforto.

A criança que aprendeu a jogar bola no campinho de várzea, a empinar pipa correndo contra o vento.

O rapazinho que começou, de uma hora para outra, a admirar a vizinha de lindos olhos verdes. O adolescente que não consegue lidar com a sua insegurança. O jovem que tenta adivinhar o que será no futuro, de acordo com todas as possibilidades… o que inclui não saber se terá um futuro promissor — seja lá o que isso signifique.


O adulto que encontra a mulher, por quem se apaixona… se casa, gera filhos e constrói uma família. Trabalha e abre mão de seus desejos e quereres pessoais por aqueles que ama… e renasce a cada filho que carrega em seu colo, quando o leva de cavalinho pelos caminhos do parque e abraça aquele corpinho que tem o seu sangue, vendo-o escorrer pelo joelho que se feriu ao cair.

O velho é o Homem que, em meio à tempestade de seu ego, mal sabe quem é… mas tem em si a certeza de um nome, uma cédula de identidade, endereço, nacionalidade, cargo — um valor.

O velho é a criança que cresceu e envelheceu sem perder a juventude e a capacidade de se chocar, a todo momento em que o Jovem que é se percebe um velho no espelho do banheiro… e se vê renascido, mais uma vez, com a chegada dos filhos de seus filhos, e aprenderá com o novo a ser o novo — de novo.

O Homem velho é aquele que adubará a terra que um dia pisou e que se transformará em lembrança entre os seus entes queridos… e vê se aproximar o tempo que será perfeito ao completar o seu ciclo da vida.

 

“Todas As Idades” consta do livro de crônicas “REALidade”, lançado pela Scenarium Plural – Livros Artesanais.

 

BEDA / O Defeito De Amar

Defeito
Amor em Arrozal…
Há alguns anos, em umas das temporadas de alguns dias no interior do Rio de Janeiro, em visita à família de minha mulher decidi, sempre que possível, fazer caminhadas matutinas enquanto por lá estivesse para não ficar muito mais enferrujado do que já estava quando voltasse para a velha rotina no Ano Novo, que se iniciaria dali a dias. Vivenciei manhãs calmas, cidade vazia e algumas cenas colhidas por meu celular que, volta e meia, imaginei postar com alguns comentários.
Um dos encontros que tive foi com uma égua a pastar calmamente com o seu potro por uma das ruas ermas. O meu sobrinho Guilherme, sempre em dia com as novidades do lugar, quando citei que a havia encontrado, me informou que a referida égua havia perdido todas as gestações anteriores antes daquela e que, além disso, era defeituosa.
Ao analisar mais atentamente a imagem que registrei, realmente pude perceber que a pata dianteira direita era torta, o que seria um motivo razoável para sacrificá-la, sob a ótica mercantil, visto que o seu valor intrínseco se devia à eventual prestação de serviços usuais: puxar carroças e cavalgadas. Por uma sábia e clemente decisão de seu proprietário, isso não ocorreu. O defeito não a impediu de se tornar uma mãe exemplar para o seu filhote perfeito…

BEDA / Projeto Fotográfico 6 On 6 / Minhas Noites

Não preciso da escuridão exterior para mergulhar em minhas próprias noites – sol posto, meias-noites, altas madrugadas. Vivendo na metrópole, mal se percebe o negrume pleno das noites fechadas, sem Lua a nos guiar. Já as vivenciei longe das luzes artificiais em algumas ocasiões, quando criança. Na Periferia, sem energia elétrica vez ou outra, sabíamos que estávamos em terra porque se contrapunha o céu estrelado. Quando as estrelas se moviam, logo percebíamos que eram vaga-lumes. Inicialmente assustadoras, as noites me traziam o conforto do útero materno. Até que amanhecesse e o encanto se desvanecesse em luz…

MINHAS NOITES (3)

A noite, ainda que iluminada artificialmente, provoca visões de outras dimensões. Nesses momentos, os olhos enganados sugerem formas e cores que a luz total não permitiria supor. O mundo se transforma em sombras e os detalhes não interessam. Partimos para explicar o inexplicável segundo nossas convenções. Na escuridão da caverna, os primeiros grupamentos humanos brincavam com os seus medos. Projeções provocadas pelo fogo de suas linhas contra as paredes os encantavam. Chego a imaginá-los alegremente temerosos viajando para outras esferas.

MINHAS NOITES (4)

Construções humanas surgem inesperadamente sutis quando confrontadas contra o cenário negro da noite. Mesmo uma antiga beneficiadora de café, palco passado de trabalho pesado, torna-se uma personagem luminosa em contraponto ao negrume. No tempo que foi erguida, criou riqueza. Hoje, inspira beleza.

MINHAS NOITES (5)

Ao passar por avenidas de feéricas luzes, passo por edifícios que parecem funcionar vinte quatro horas por dia. Se não, por que todas as luminárias acesas? Dentro de cada casulo de luz, a insana atividade humana para pagar o consumo daquilo que estimulará mais trabalho para consumir mais trabalho… Assim, estipulamos metas a alcançar, níveis a ultrapassar, desejos a serem criados. Qual o objetivo disso tudo?

MINHAS NOITES (2)
Elvinho Elvis Tribute Artist

Meu trabalho propicia que eu viaje para todas as épocas. A depender do tipo de evento que sonorize, as músicas passeiam dos Anos 50 a atualidade – momento em que os sons vibram em baixa frequência criativa. Casamentos, shows, bailes de salão, aniversários, inaugurações de pet shops, jantar de negócios, premiações – tudo que envolva motivos para celebração da vida humana, participo da produção através do som e da luz. No palco, não é incomum rever Elvis Presley entoando “Suspicious Minds”…

MINHAS NOITES (7)

A Lua, “criada para governar a noite”, nos revela seus segredos somente para nos propor outros. Havia o temor que a chegada do homem ao satélite da Terra pudesse tirar o seu encanto. “Poetas, seresteiros, namorados, correi / É chegada a hora de escrever e cantar / Talvez as derradeiras noites de luar…” – cantava Gil, em Lunik 9, há cinquenta anos. Porém, a Lua voltou a se impor como componente mágico de minhas/nossas noites. Sempre que posso, a fotografo, em todas as suas fases. Nunca deixo de me surpreender com o que me revela…

MINHAS NOITES (1)

Sou pedestre e passageiro. Percorro a cidade a pé e através de coletivos, trens e carros (como carona). O que dá ensejo de registrá-la por instantâneos. As imagens nem sempre causam interesse imediato. Mas muitas vezes acontecem descobertas ao segundo olhar. Este registro abaixo o tenho como emblemático por vários motivos. Eu surjo como um fantasma noturno a plasmar com o cenário da cidade, atravessando umas das pontes do Tietê – que une a Periferia ao Centro da cidade. Ação que é frequente, quase cotidiana. Poderia dizer que ela se torna praticamente uma declaração tácita do quanto Sampa faz parte de minha identidade.

Participaram também
Cilene Bonfim | Isabele Brum | Mariana Gouveia | Lunna Guedes

BEDA / Amor, Amar, Amores

AMOR

Tenho a tendência de esquematizar todas as experiências que vivo. Experiências como ensaios, experiências como experimentos, experiências como tentativas. Que normalmente induzem a erros. E erros cimentam o meu caminho. São erros repletos de boas intenções. Portanto, irei direto para o Inferno. Sendo ensaios, me pergunto para quê ensaio, afinal. Apresentarei, ao final de tudo, um grande espetáculo, sem erros? Para quê, se durante os ensaios, acabo por ferir tanta gente, que finalmente me levarão ao ostracismo? Terei ainda muito tempo para ensaiar? E esse espetáculo, quando estreará? Se estrear…

A questão do Tempo é primordial, mas especulo que a Eternidade seja um conceito fora do tempo. Teorizo, ainda, que seja um sentimento de plenitude absoluta, em que sendo alcançando dentro do Tempo, contudo se separa dele, permanecendo no repositório das coisas infinitas – ad eternum. O Amor, por exemplo, poderia ser depositado na caixinha do Infinito? Pareço abarcar o Infinito e o Eterno no mesmo ramalhete, como flores nascidas no mesmo campo. Mas o que é infinito pode não ser eterno ou o que é eterno pode não ser necessariamente, infinito. Porque quando amamos profundamente, esse é um sentimento que será lançado na torrente da Eternidade. Porém, quando direcionamos o amor a algo ou alguém que deixamos de querer, esse amor deixa de ter a qualidade da infinitude. E, ainda, um amor que vivemos intensamente, apesar de ter esfriado com a vivência, pode conter momentos depositados nesse repositório.

Ouço pessoas dizerem o quanto é extraordinário falar sobre aquele amor como se fosse uma história vivida por outros personagens que não fossem elas. Acho muito interessante presenciar pessoas que continuam juntas apenas pela simples lembrança de quando se amaram profundamente. Quando se tem frutos desse amor – filhos – os pais chegam a amá-los mais do que a si mesmos, ainda que sejam a personificação dos ex-companheiros, os quais muitas vezes não somente deixam de amar, como a odiar – o que vem a ser um sentimento-flor pútrido nascido no mesmo campo do perfumoso Amor, tendo como símbolo um anel de metal que ainda une o casal.

Filhos seriam, naturalmente, amáveis para os pais assim como deveria ser também os pais pelos filhos. Contudo, desde os primórdios dos relatos bíblicos, percebemos que essa é uma relação tempestuosa. Considero que também aprendemos a amar aos nossos filhos, bem como o contrário também ocorre. Conquanto, quando o sentimento amoroso se dá em profundidade, ele é Amor – une-se à Eternidade – quando esse sentimento se condiciona às condições externas de tempo e lugar, ele é apenas amor… E amores vêm e vão…

Podemos nos perder em reproduções baratas de algo grandioso que vivemos um dia ou que se ouviu falar alhures. A saudade que fica de um relacionamento intenso poderá ser vista, na distância, como presença na ausência, na falta de uma definição melhor. Quando conseguimos superar a falta que alguém nos faz, podemos alcançar, com o fluxo do tempo, um sentimento de constante comparência do ser ausente, tornando-o, estranhamente, presente.

É dessa forma que sinto a presença, por exemplo, de minha mãe. Não só a sinto espraiar as suas ramificações genéticas sobre o meu corpo, como “converso” com ela o tempo todo. São diálogos mentais, com uma sensação consciente de existência espiritual. Ajudou-me bastante o fato de sonhar com a Dona Madalena, com os seus belos cabelos brancos e sorriso largo. Ao lhe perguntar como estava, me respondeu: “Estou em paz…”. Bastou-me para acordar a partir desse dia com um sentimento de perene saudade sorridente.

BEDA / O Dia Da Mentira

Mentira I
1º de Abril de 1964

A decisão final foi tomada um dia antes, mas apenas na madrugada do dia 1º de Abril de 1964 – iniciou-se a movimentação das tropas para fora dos quartéis. O País amanheceu sob novas diretivas. As corporações militares, sempiternas entidades presentes no ao longo de nossa “democracia republicana”, assumiram o comando do governo – Golpe de Estado. Depois de vinte anos, o Brasil voltou a vivenciar outro regime de exceção, ainda que houvesse a promessa que fosse um expediente de breve duração. O pretexto usado pelos generais e almirantes de mar e ar era o de recolocar nos trilhos o trem institucional e impedir o eminente caos social. Depois de quatro anos, em 1968, com o Ato Institucional Nº 5, a Ditadura definitivamente foi sacramentada.

A discussão, que se acirra de tempos em tempos, entre “vencedores” e “vencidos”, ao denominar de “Contrarrevolução” ou “Golpe” o acontecimento que se deu no “Dia da Mentira” não foi a principal consequência desse episódio. Não foi mentira que grupos armados empreenderam ações para atacar o Regime, como não foi mentira que o Estado sob o comando das Forças Armadas prendeu, torturou, matou e fez desaparecer opositores do Regime. Não foi mentira que pessoas que pensavam diferente do estabelecido como padrão pelo Governo Central foram presas e exiladas. Não foi mentira que a Censura ganhou ares de Grilo Falante onipresente.

Não foi mentira que a serviço do combate aos soldados do sonho de uma América Latina unida sob o Socialismo, foram empregados agentes oficializados, aqueles tipos que sob qualquer bandeira se aprazem em executar, com requintes de crueldade, as piores atrocidades que um ser humano pode fazer ao outro. Meu pai relatou que durante os meses em que ficou preso passou pelo “pau-de-arara” e por aplicações de choques elétricos sob as unhas e no pênis. Normalmente realizadas a noite, essas sessões rasgavam o manto do silêncio com os urros de dor dos torturados, que ecoavam pelos corredores e celas dos outros “detidos para averiguação”. A tortura física de uns era a psicológica de outros. Denunciado por um companheiro de “atividades clandestinas”, que também foi “convencido” a entregá-lo, o tempo que meu pai passou na prisão causou a ruptura nos últimos liames de união familiar.

Desde que voltou do cárcere, o medo de que fosse buscado na calada da noite, o impediu que se sentisse tranquilo em nossa casa. Ele preferiu estabelecer outros esconderijos. Quando finalmente se sentiu à vontade diante das mudanças que ocorreram nos anos seguintes – Lei da Anistia, volta dos exilados, formação de novos partidos, eleições para cargos majoritários (exceto Presidência) – escolheu um quartel definitivo. Minha mãe, que sempre o acompanhou nas peripécias e incursões contra a Ditadura, foi deixada de lado. Meu pai se estabeleceu em uma base de retaguarda melhor para ele. Segura o suficiente para lançar a contraofensiva que viria um dia e veio, democraticamente, tendo a mim como aliado.

Sonho de chegada ao poder materializado, no entanto quem havia lutado contra o “status quo”, ao tê-lo nas mãos, se estregou paulatinamente às suas redes de sustentação-prisão. Para mim, seu filho, era uma derrota anunciada. Coloquei os meus receios, lembrando as denúncias que ele mesmo fizera em certo momento à direção do partido. Estranhamente, em outro, elas foram atenuadas ou esquecidas.

Decisões que tomou no âmbito familiar ajudaram a matar intimamente o meu antigo herói. Divergências mescladas a essas questões pessoais nos distanciaram a ponto de não nos reconciliarmos até a sua passagem, há um ano. Talvez tenha sido melhor que tenha ido antes que visse se avolumar a sombra de prenúncios de tempos soturnos, ao som de coturnos e gritos noturnos. Apesar de tudo, um dia eu amei aquele homem que acreditava na Revolução popular. Homem inteligente, deve ter sentido o que estava para acontecer. Quis fugir para o refúgio definitivo…