Este texto foi gerado pela visão de uma imagem que causou repulsa. Por que a foto parece tão controversa? Na falta dela, utilizei uma que mostra o segundo avião se aproximando da segunda torre atingida. Na foto controversa, víamos ao fundo o World Trade Center em chamas, logo após os ataques dos aviões, antes que fossem ao chão, a 11 de setembro de 2001. Enquanto isso, um grupo de pessoas parece estar relaxado, numa atitude que não deixava transparecer exaltação, preocupação ou tristeza, como se o que acontecia fosse um fato distante, no tempo e no espaço. Nada de mais…
Nada tão diferente do que presenciamos todos os dias, em ruas e esquinas das grandes cidades ou nos rincões mais isolados do nosso País. É claro que o que ocorre não é percebido de forma tão grandiloquente ou não parece ser tão bem fotografado. Contudo, de forma silente e contínua, mortes se sucedem talvez não aos milhares de uma vez, em grupos concentrados (a não ser em tragédias naturais potencializadas pelo descaso do poder público). Porém, na maior parte do tempo ocorre um a um e aos poucos. Muitas vezes, vemos acontecer do nosso lado, mas parecemos não nos importar, assim como o grupo descontraído tendo como cenário uma das maiores tragédias do século.
*Texto produzido por ocasião da publicação de fotos sobre a tragédia do World Trade Center nos seus dez anos.
O registro fotográfico acima data de exatamente nove anos. Usuário compulsivo de cabelos compridos – por influência do Movimento Hippie, que nunca me deixou -, eu os usei mesmo depois que começaram a escassear pouco a pouco. O que me conferia um ar de poeta rebelde Beatnik, o que não deixou de ser semente do Flowear Power. Os beatniks, surgiram na esteira do final da Segunda Guerra Mundial. Os hippies enfrentavam os horrores da Guerra do Vietnã como podiam, com protestos, estilo de vida alternativo e cantando que a força da flor venceria o canhão.
Nascido no início dias Anos 60, fui arrebatado desde pequeno, ainda que não tivesse exata consciência do que queriam expressar, assimilei o visual de cabelos revoltos como bandeira de minha postura de um sujeito que se sentia inadequado para viver a sequência de eventos a qual a Sociedade chamava de Vida. Eu achava totalmente estranho que não houvesse alternativas à “aquilo”. O meu cabelo despenteado sempre foi símbolo, para mim, de minha inconformação e inconformidade.
Porém, houve um período em que desbastei os cabelos e comecei a parecer um sujeito normal. Por volta dos 17, encetei pelas filosofias orientais e percebi que a paz que procurava tinha que vir de dentro para fora. Estava decidido em caminhar pelas sendas do autoconhecimento e evitar interagir com os “seres humanos comuns”. Ali, eu percebi o claro sinal da vaidade a qual considero a minha ruína. É difícil escapar às conformações mentais de quem está encarnado. Lutava arduamente para que ela não se expressasse de maneira tão forte.
Exteriormente, aparentava a humildade de um monge, em roupas e postura. Não queria chamar a atenção de nenhuma maneira. Na escola, passei a sentar com a “turma do fundão”, o que chamou muito mais atenção para mim, já que a minha voz sequer era ouvida. Não deixou de haver identificação com os sujeitos que eram bem mais interessantes do que a falange estudiosa. Também já havia notado o quanto a escola, principalmente aquela dos Anos 70, tentava enquadrar todos na mesma forma, para torná-los bons e obedientes cidadãos pagadores de impostos. Apesar de ler muito, deixei de estudar com afinco a maioria das matérias. O que fez com fosse reprovado em Química duas vezes.
Dando um salto no tempo, já casado e com três filhas, voltei ao estilo mais solto, de quem não tinha nada a provar. Mesmo porque, a minha alma inquieta eu sei que continuará a me colocar à prova nas demandas que me mobilizam profundamente. E com a certeza que posso pagar para ver. Hoje, acordado, ao olhar pelo espelho o meu rosto marcado pelo tempo, pelos brancos a tomarem conta da paisagem, percebo que estou preparado para sofrer a decadência que se aproxima – consequência direta de estar vivo – benção que nos reserva o Tempo.
Um interessante painel de arte e eu só conseguia olhar para as linhas de rachaduras sinalizadas com giz, marcando o tamanho que apresentavam. Dez anos antes, estava estacionada no túnel do Metrô Consolação. Ainda estará? A obra e as rachaduras? Enquanto esperava o trem que me conduziria ao Paraíso, ficava a conjecturar que mal me assolava (e ainda perdura), que me faz olhar para além do que deveria ser o principal alvo de minha atenção? O que me conduz, me condiz?
Pois, é! Esse sujeito de tez branca aí tem sangue dos povos originários de Pindorama (país das palmeiras, nome dado ao Brasil pelos ando-peruanos e pelos indígenas pampianos), mais precisamente Tupi-Guarani. Diz respeito à família linguística (tronco Tupi) com a maior distribuição geográfica no Brasil, estendendo-se por 13 estados e compreendendo cerca de 20 línguas vivas, com pequena diferenciação interna.
A LínguaTupi também é usada na Guiana Francesa, Venezuela, Colômbia, Peru, Bolívia, Paraguai e Argentina. O meu pai tinha pele menos clara e os olhos mais puxados. Em uma empresa que trabalhou, tinha o apelido de “japonês”. O que demonstra apenas que as generalizações englobam características e conceitos pré-concebidos que faz com que sejamos chamados pelos norte-americanos de “latinos” — algo que significaria “origem racial indefinida” — o que muito me orgulha.
Tenho igualmente ascendência hispânica, por parte de mãe, portanto, de alguma maneira, sou também latino, não apenas por morar num país da América Latina. Na encruzilhada de referências, também sou originário dos povos europeus que aportaram nas Américas, as invadindo território adentro — espanhóis, portugueses, ingleses, holandeses e franceses — que promoveram um dos maiores genocídios da História humana. Nas ilhas caribenhas, por exemplo, dizimaram os habitantes autóctones e as ocuparam com populações inteiras de africanos escravizados.
Tudo já começou errado, pois o italiano Colombo cria que havia chegado às Índias, denominando aos originários da terra de Índios. A invasão das Américas ocasionou além da morte de pessoas, igualmente promoveu a extinção de culturas, de línguas, de protetores do meio ambiente que dependiam da biodiversidade para sobreviverem. Ainda hoje sofremos, como brasileiros, com a política desatinada que coloca o ganho de capital financeiro em detrimento do ganho de capital humano e das outras diversas formas de vida. Estamos perdendo a chance de nos tornarmos um país diferenciado em termos de desenvolvimento sustentável, fundamentado no que a ancestralidade, na mitologia e na cultura indígena tem a nos oferecer. Há quem sonhe viajar para outros planetas. Podem ser os mesmos que “descobriram” neste planeta chamado Terra — que prefiro chamar de Gaia —, maravilhosos lugares e os tem destruído paulatinamente.
Agimos como um vírus que contamina seu hospedeiro, o mata e contamina outros corpos após outros corpos. Se há uma lição que a mortandade dos Povos Indígenas possa nos deixar é que devemos nos curar do mal de nos colocarmos acima de tudo e de todos. Que sejamos humildes e aceitemos que devemos parar de passar como tratores por cima das áreas reservadas aos povos originários, tratando-as como recursos econômicos à disposição de invasores-destruidores-genocidas modernos hoje patrocinadas por um ignominioso que os representa no poder central do Brasil.
*Texto de 2021, por ocasião do antigo Dia do Índio, atualmente dos Povos Indígenas, macabra e contraditória efeméride, já que desrespeitamos os povos originários todo o santo dia.
maria do arouche lembro pouco cor de entardecer em dia fechado babá gostava manipular meu saco era muito novo ainda conectado com vida antes de chegar ao útero via fantasmas no corredor andava parapeitos namorava amiga morte chama cama de estrelas meu avô logo cortou nosso laço engatei com maria da penha cresci em liberdade peripécias fazia tudo que queria sem compromisso apenas gozo não me importava mas amava parece outra vida deixei porque fui para longe bárbara encontrei fiquei anos achei nunca terminaria paixão bater bolas contra a bunda na parede na cama no chão sonhava era santa eu gritava entusiasmo feito gol comi duas mesmo lugar épocas diferentes não se conheceram provaram minha torpeza primeira nunca disse amor segunda entreguei ao melhor amigo altíssima alternativa cabelo a la garçon conheci maria tenente olhos verdes amedrontavam nunca toquei sequer abraço somente olhares lenço sujo de sangue ideal ilusão perfeição eternidade somente entregou irrealização nunca esqueci sempre amarei era bonito atraía sem esforço fiquei com duas anas a santificada bem mais tempo servia a muitos depois que deixei ainda trepei muitos anos muitas vezes outra ana loura sonhadora disse gostava de mim sou de ninguém de alguém sequer pertenço a mim vivo apaixonado maria maria noiva meu amigo usei muito a língua toques debaixo da mesa deus ausente como navio negreiro biologia estudo profundo casou la bergman foi intenso durou verões veros versos não comunicados alcancei seu corpo debaixo avental desilusão me jogou fora entulho removeu tati e amiga quis as duas na mesma casa não lembro tanque velho nos fundos bebi demais vomitei desmaiei eternas amigas re fez história brilhou minha vida pintura de mulher ensinou nova posição bicicleta outra noiva nunca a beijei 30 anos passados vi passar não a chamei augusta andrógina cheia altos baixos travesti do centro aos jardins comi da boca a bunda noites infindas vitória era inocente puta jacaré cocou 7 vezes não pagou vamos fazer neném? paguei sempre às vezes só olhava efigênia irmã mais rodada velha não envelhecida elixir da juventude atual virtual presencial dá a todos os gostos versátil sempre que posso como sem proteção maria antônia antônimo passado conturbado duas caras que se antepunham hoje vive calmaria comi atrás em palco plateia teatro verediana angélica cecília amores livres simultâneas especiais brigava com uma encontrava com outra consolação agitadas corcoveavam suava para satisfazer queria ser notado elas não se importavam tinham quem quisessem quando queriam estranho estrangeira maria paulista ama sem identificar despreza sem qualificar retilínea beleza sem cor amo desamo volto a amar amante inconstante ferina amável indigna perfeita anomalia amante infiel amo fielmente a sem nome aprendi amar foder amar trepar amar lamber amar bater amar puxar amar chupar amar rápido amar lento amar alento amar beber amar comer amar orar amar chorar amar sorrir amar gritar amar brigar amar voltar sem voltar amar amantes de hotéis baratos abençoados por santos centrais laterais três corações zardoz córregos regos monte carlo sempre haverá são francisco finalmente total sentido sem chance nascer outra vez eterna paixão que se fez sagrada porque acabou.
*Poema de 2021
Imagem de 2016 — Guanabara (1941), em plena Pauliceia Desvairada, é uma escultura de João Batista Ferri, embelezando o Centro Histórico de São Paulo, outra amante postada frente à sede da Prefeitura — Edifício Conde Francisco Matarazzo.